sábado, 2 de novembro de 2013

Precisamos de uma Educação transformadora


Precisamos de uma Educação transformadora

Leo Nogueira Paqonawta

Nos últimos 50 anos o mundo e a sociedade como um todo se modificaram profundamente e, as pessoas que viveram esse tempo se modificaram mais ou menos, de acordo com suas próprias decisões em relação com o que acontece ao seu redor. Nas escolas isso não foi diferente.

Pessoas que nasceram e viveram em um regime autoritário como na ditadura militar no Brasil, onde se devia obediência cega e irrestrita às normas e valores convencionados como os ideais para se viver em sociedade, ainda manifestam em suas ações e se comportam em seus pensamentos e sentimentos com resquícios daquele tempo em que os dirigentes censuravam tudo aquilo que fosse contrário às suas regras. Simplesmente se calava a voz do outro, se discriminava e se fazia de tudo para “sumir com as pessoas do mapa” no mundo de equilíbrio entre quem mandava e quem obedecia.

Hoje há uma maior conscientização dos jovens a respeito de sua existência nesse mundo em transformação, quando as decisões ou imposições que antes eram tomadas sem levar em consideração seus sonhos e aspirações, de maneira autoritária, não são mais aceitas de maneira passiva, nem cegamente obedecidas. As crianças, muito mais, que sempre questionaram com seus “porquês” aquilo que não entendem ou não faz sentido para elas, são atualmente um claro sinal de que realmente muita coisa se modificou ao longo desse tempo todo.

Com a luta e os esforços de muitos a sociedade vai se modificando das relações autoritárias para as relações democráticas e participativas. As decisões não podem mais partir de apenas uma pessoa, ou grupo, impondo seus pontos de vistas sem levar em consideração todos os sujeitos envolvidos em alguma questão de interesse geral. Nas escolas isso também acontece.

É a Comunidade Escolar com todos aqueles que a formam quem deve se responsabilizar e se comprometer pelo destino, rumos e finalidades da Escola.  Os alunos, familiares, pais e responsáveis, Professores, funcionários, coordenadores pedagógicos (diretores, administradores, orientadores e supervisores educacionais) é que são os sujeitos que fazem essa Escola. São os que devem se unir em torno de um “projeto” comum, amplamente discutido, debatido, refletido a partir de suas próprias realidades, vivências e experiências e construir os “porquês” de a Escola seguir em direção ao bom cumprimento de suas finalidades enquanto instituição de ensino. Essas discussões formam um documento que chamamos de “Projeto Político-Pedagógico” da Escola. É um documento que vai orientar os passos da Escola e de toda a sua comunidade, os passos de todos em comum na realização de todos os processos que se unem em favor de uma Escola democrática, participativa, com a colaboração de todos. Nem sempre nas escolas foi assim.

Podemos perceber que no mundo inteiro há pessoas, grupos organizados na luta pela defesa dos direitos humanos (a quem chamamos de sociedade civil) e outros bons representantes e setores da sociedade (poderes executivo, legislativo e judiciário) insatisfeitos com os desrespeitos às conquistas que garantiriam a todos uma melhor qualidade de vida e condições plenas de humanização para viver. Acontecem ao redor do planeta manifestações gigantescas que estão sendo observadas entre todos os povos, em todos os países, e crianças, jovens, adultos e idosos já não aceitam situações que lhes foram impostas arbitrariamente por algumas poucas pessoas, ou grupos interessados em controlar o mundo e tudo e todos que nele habitam.

Quando as mídias, os jornais, a televisão e a Internet não distorcem os fatos, constatamos essas manifestações como pura expressão de um descontentamento com o que está posto ou se impõem às pessoas.

Como é que é estar insatisfeito com os rumos e as decisões que acontecem nas escolas? Como é que os sujeitos que compõem a comunidade escolar se manifestam a favor ou contra do que acontece nas escolas? Essas insatisfações acontecem E, são ouvidas, acolhidas, e os sujeitos da comunidade escolar que manifestam suas reivindicações são respeitados em seus direitos de falar e participar dos rumos e destinos da escola?

As insatisfações das crianças e jovens acontecem? E as dos pais e responsáveis? E os professores e funcionários? Como, quando, onde, por quê? Quais são essas insatisfações?

O momento especial da discussão, debate e reflexão em torno da eleição para o cargo de diretor das escolas é uma oportunidade imperdível para tomarmos posições sobre o que temos e o que queremos para as escolas. É nesse momento que também expressamos nossa confiança - ou desconfiança - sobre o projeto de gestão que vai sendo construído para a discussão com a comunidade escolar.

Esses projetos são de continuísmo e conformação com o que está posto, ou é um projeto que tenha concepção na participação democrática e efetiva de todos os participantes da comunidade escolar? Esses projetos são de “direção” da escola ou de “gestão democrática” da escola?

O mundo, a sociedade, as pessoas, as crianças, os jovens, os adultos e idosos que querem o Bem Viver estão se transformando profundamente, porque as relações precisam ser mais democráticas e mais humanizadas nesse planeta em que vivemos. Nessa realidade global tudo está relacionado, todos estamos interligados uns aos outros.

Ou estamos conectados como “coisas”, como peças descartáveis dentro de um sistema desumanizador, ou estamos interligados como “sujeitos” de direitos e deveres, no compromisso de resgatar nossa humanidade que nos foi retirada sutil ou escancaradamente por uns poucos que dirigem nossas vidas.

É preciso modificar uma dinâmica que foi imposta às pessoas por anos e séculos, para que estas se formatassem como “peças descartáveis” do sistema que privilegia poucos e oprime a muitos. Essa “roda” do continuísmo irresponsável e impunemente arrastando, atropelando, moendo e triturando consciências, sonhos, aspirações, as pessoas, os grupos e o mundo já não funciona mais como funcionou antigamente. Um antigamente que ainda se faz forte, quase irresistível, presente em muitas pessoas, grupos, projetos e propostas de direção das escolas.

É preciso modificar nossas atitudes, modificarmos nossas consciências, é preciso reconhecer nossa dignidade de sujeitos com direitos iguais, é preciso que nos transformemos em seres humanos para recriarmos um mundo melhor para todos, onde todos sigamos juntos nessa caminhada e evolução, nos co-movendo por um projeto de vida emancipador, democrático, participativo, responsável.


É preciso que essa transformação se realize nas escolas.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Infelizes dias das bruxas nas escolas...


Assédio moral nas escolas - I

Apontamentos sobre tiranias que se veem, falam e se ouvem no reino da fantasia e no mundo real das malvadezas des-humanas

Por Leorry Reportter*

Assédio moral nas escolas é um assunto nada tratado nas fileiras de muitas corporações de professores do país, e sequer passa pela cabeça de algumas pessoas que, Vocês-Sabem-Quem, existem por aí nas unidades escolares, públicas e privadas, mesmo quando aquelas carapuças de carrasco bem serviriam a nomear quem é quem e de que “lado” está nas lutas pela Educação: o lado de baixo ou o lado de cima. Quando certas relações de opressão são praticamente naturalizadas desde os bancos dos colégios - entre os pares mal-formados nos bancos da academia, e seguem de-formados no ambiente de vaidades e mediocridades de escolas que frequentamos pela vida, como estudantes ou trabalhadores - é sinal de que se perdeu algo importante das finalidades, a bússola que dá o rumo do que é proposto por Educação em seus mais altos níveis de compreensão e expressão na reflexão e prática pedagógica.

Não há quem não tenha observado, visto falar ou ouvido em alguma escola pela vida afora, da presença dos Pedagófilos, pessoas que na sua irrefletida atitude são exímios assediadores. Elas são as que literalmente violentam os corações e as mentes de colegas, alunos, funcionários e familiares que passam à sua frente. Estão por todos os lugares distribuindo “elogios” que mal disfarçam as verdadeiras intenções de ludibriar, menosprezar, diminuir, ofender, de colocar “no seu devido lugar” os menos lustrados pelo vernizinho de diplomas que carregam com propalada ostentação. A soberba é uma anti-virtude que os caracteriza.

Essas pessoas têm uma aura ensombrecida, uma aparência de frieza calculada, distribuem olhares complacentes desde a altura de seus narizes e, medem o mundo pela curta distância desde seus umbigos ao corações enregelados. Quando não deslizam pelos caminhos de todos em seus gestos aparentando um balé de cisne negro, braços como asas abertas e às vezes em echarpes esvoaçantes, sentam-se feito paxás nos lugares privilegiados onde todos possam mirá-las. E ficam lá fingindo atenção à voz alheia, meneando a cabeça em negativas de tudo o que se diz, aguardando sua “deixa” para dar sua opinião que quer abalizada, e determinando a conclusão com força de lei para qualquer assunto entabulado.

Tidas como oráculos a quem se recorre para dar seus vereditos finais desde alguma questiúncula às mais altas predições sobre um futuro em que elas próprias se destaquem magnânimas, querem que para dar seus vaticínios e análises se acendam incensos e velas para perfumar e brilhar os altares que só a adulação consegue manter em pé, por algum motivo que a própria razão desconhece.

Além dos adoradores do público em redor de sua presença fazem-se grupelhos pelos cantinhos. Vez ou outra quase todos ficam estremecidos às suas gargalhadas homéricas, e sente-se no ar o medo de muitos quando pressentem aquele aroma fedorento que antecede sua entrada triunfal em algum recinto. Noutras vezes, confabulam-se com seu séquito por sussurros e risadinhas contidas, seguem-se olhares em todas as direções para evitar que lhes ouçam os segredos. Ao final de todas as veementes argumentações sempre têm palavras reticentes e ferinas para arrematar a punhalada de sua verborreia astuta, que flui ora como trovão dos deuses do Olimpo, ora como o sibilar de uma serpente que estrangula a vítima, ou lhe diz o que fazer com finalidades questionáveis.

Esses infelizes, que não perdem uma oportunidade sequer de criar a infelicidade para os outros, vão desde sempre des-tratando as pessoas da comunidade escolar em privado e em público, falando pelos cotovelos como eminentíssimos doutores de uma lei que eles próprios inventam, destilando os venenos que compõem dia-a-dia os artigos e regimentos do famoso “currículo ocultíssimo” com as marcas da violência que a tudo destrói e arrasa.

Num estilo de quem faz e des-faz arrogando-se poder sobre a vida e a morte, como os imperadores romanos no circo abaixando os polegares ao som da turba furiosa - histérica e excitada com o espetáculo de sangue na arena - os Pedagófilos não se apoquentam se o circo pega fogo ferindo vidas e destruindo sonhos depois que as des-graças e boatos que espalham tomam seu caminho entre corações e mentes em formação. Esse tipo de pessoas querendo mandar a torto e a direito também tem semelhança com os poderosos da Santa Inquisição dos tempos medievais, os donos da verdade absoluta, mandatários da vontade divina.

Feito príncipes e princesas da maldade invejosa, se passando por reis déspotas e rainhas da cocada preta, debocham de quem ousa destoar de suas regrinhas que propalam com seus trejeitinhos caricaturizados, ou passam à sua frente atrapalhando a visãozinha míope que têm de seu mundo de desejos e fantasias de poder. Pior ainda, quando em perdendo um “trono” ou os “anéis” em que lhes beijavam as mãozinhas desmunhecadas, eles não se sentem que perderam os dedos da manipulação de tudo e de todos. Esses infelizes seres se fazem como as eminências pardas por detrás de outros que aturam - mas estão no poder por direito - planejando incontáveis intrigas para perturbar, promover a discórdia e o engano para controlar e oprimir o povo.

Figuras que entram para a “história” como heróis, suas condutas trazem ao presente de nossas existências o pior que caracterizou a instituição escolar no decorrer de séculos de autoritarismo e arbitrariedade, de impunidade.

Os Pedagófilos são pessoas que, por princípio de sua necessidade de poder, atraem a si uma força que lhes dão esse poder quase desmedido, e controlam consciências com a facilidade de um maestro que rege uma orquestra para que todos dancem conforme a sua música que faz todos entrarem em transe delirante.

Sarcasmo é o tom percebido em todas as palavras mal-ditas que saem de suas bocas se referindo ao outro, ao completamente diferente de si, ao trabalho dos colegas. Falam sempre com desdém e com aquele jeitinho “blasé” de quem se sente entediado, ou mal suportando a presença alheia que empana o brilho de suas majestades afetadas. Como há sempre uma “corte” a seguir e “cortejar” tal realeza pomposa e cheia de circunstância, a maldição que espalham à sua volta vem também sempre com os salameleques que caracterizam todos aqueles acólitos e paus-mandados que se subalternizam ou veneram tais personalidades, digamos, “magnéticas”, que sabem os segredos do hipnotismo vulgar e pretendem que os demais se sintam mais inferiores que elas próprias na sua auto-significância.

Como de costume, e na sua tática e estratégia de oprimir e explorar o próximo para seus fins de dominação nefasta, falam pelos cotovelos e espalhafatosamente - e quase sempre pelas costas - dos infortunados que caem em seus bicos e garras de rapina que se alimenta da morte. Ou estão invariavelmente à espera e à espreita de uma oportunidade e situação para dar um bote qualquer. Agem sub-repticiamente, sorrateiramente, creem ter o dom de especialistas que opinam sobre tudo naqueles moldes de quem faz futrica e fofoca, querendo se passar por inteligentíssimos em seus proverbiozinhos com tintas sujas da pornolalia que expõem, sobretudo, a própria podridão e escolhas íntimas de quem é vil ou tem gosto e atitudes duvidosas.

Em geral, essas infelizes pessoas têm um discursinho fajuto e superficial que fala e pretende ter ares de responsabilidade, de ética e profissionalismo na prática pedagógica, e defendem com zelo de fariseus hipócritas os direitos inalienáveis dos seres humanos, de crianças, jovens, colegas de trabalho, arrogando-se o dever de em tudo dar palpite como sumo sacerdotes infalíveis em seus pronunciamentos. Mas não admitem, jamais, que seu questionem os seus próprios “direitos”.

Para qualquer assunto têm alguma tolice a dizer e, na mesma medida, algum tolo por perto a se maravilhar com os impropérios disparados feito metralhadora desembestada, aqui e ali, desde a cozinha de suas casas à salas de aula, às salas de professores e corredores, porque estão sempre a vigiar, para punir segundo seus julgamentos sumários em seus estrelismos de divas malvadas das novelas das “8”.

Esbanjam soberba, arrogância, esnobismo, e precisam do palco armado onde for para seus teatrinhos chinfrins sobre uma “aula bem dada” ou a determinação sobre alguma coisa que opinam com aquela categoria duvidosa que só os medíocres conseguem ter. São pessoas que mereceriam o “Oscar” de melhor drama por seus gestos e arroubos cheios de afetação, por suas caras e bocas nas atuações em que se esmeram pretendendo ser fiéis ao papel de atores ou atrizes principais de um filmezinho, obviamente de terror.

Bocas sujas e língua ferina, vão costurando alianças ao longo de sua existência na característica falta de dignidade de quem amarra o rabo em troca de privilégios tolos e mesquinhos aos que lhes adulam em coro, quando lhes deveríamos o apupo e a vaia. Na contraposição às suas atrocidades muitas vezes o silêncio de quem consente, por medo e intimidação. Noutras vezes, as pessoas simplesmente aturam esse comportamento porque também naturalizaram o que se tornou lugar-comum em nossas instituições de exaltação da violência e subserviência a esse tipo de pessoas que se julgam maiores, e melhores que todos.

A seriedade de gabinetes públicos nunca lhes reservaria uma cadeira de responsabilidade porque isso exige lisura e ética, o mínimo de sabedoria para o desempenho das responsabilidades em cargos de relevância. Talvez, por isso, suas atitudes são, via de regra, limitadas a um campo menor de ação, que decerto causam menos estragos do que em multidões que necessitam mesmo é de boa vontade na política. Talvez, também, seja por isso que essa deferência que lhes é obviamente negada se extravase no rancor e despeito de seus ataques ao desempenho dos outros que cita por seus desafetos políticos.

Um exame de seus pensamentos e ações jocosas, mixuruca que fosse, decerto daria pano pra manga num consultório de clínica psiquiátrica, ou uma biblioteca inteira sobre aquilo que dominam muito bem: o saber sem “substância”, sem respaldo na reflexão e no estudo sérios, que acabam por terem um teor igual ao das revistinhas sobre celebridades das mídias e do show business em salas de espera. São metidas a querer se passar por “sábios” conselheiros e suas crendices têm o requinte do cúmulo do mais baixo nível do senso-comum. As idiotices vomitadas a título de opinião formada sobre tudo enjoam aos que têm de ouvir suas declarações. São tidos como temidos por suas posições superficiais e dramáticas sobre qualquer ponto ou conto onde quer que se apresentem estrondosamente, e em sua presença melhor se calar para não encompridar conversas desnecessárias, ou no mesmo teor de vulgaridades e futilidades.

Mesmo quando se esforçam por querer passar uma imagem ou aparência de legitimidade de alguma coisa, quando muito são tidos por de-formadores de opinião. E, se acham o “máximo” porque eles mesmos des-conhecem que são motivos de chacota da opinião alheia quando fazem de tudo por se manterem em evidência, o centro das atenções e das luzes nos muitos palcos de suas encenações de quinta categoria. Assim como acreditam nas próprias banalidades como assuntos do mais alto teor em forma erudita, pensam que suas “críticas” não são de fato a titica de galinha do poleiro dos futriqueiros que cuidam da vida de todos da escola, mas se esquecem de suas próprias imperfeições.

No mundo da fantasia, nas páginas dos contos e fábulas infantis, há personagens incontáveis que retratam pessoas como esses Pedagófilos, desde o Lobo Mau assediando os Três Porquinhos e a tia encruada da Cinderela, à rainha tresloucada que mandava cortar as cabeças no País das Maravilhas. Temos as bruxas malvadas que perseguem reinados inteiros e cada cidadão vivente neles bem como as fadas e anõezinhos, e aquela que fez uma casa com doces para João e Maria se aprisionarem nela. Outras muito conhecidas são a que morre com uma casa caída em sua cabeça e uma outra, se derretendo com uma simples gota de água no final das aventuras em Oz.

Em outra história famosa, o infeliz - Smeagol - que começou a se despencar como ser humano, matando por possuir um anel de ouro que trazia um poder supremo com ele, usou de uma estratégia orientada pelo “Grande Olho do Mal”, e se apresenta como solícito guia de dois jovens que querem libertar sua pequena vila do jugo do opressor. Para possuir “O Precioso” e realizar seus sonhos de grandeza não hesitou em mentir, ludibriar, enganar e matar. Des-humanizou-se todo nesse caminho até se parecer como monstro feito aqueles criados para exército de horrores a serviço do algoz maior, enquanto os que se uniram em torno do “Retorno do Rei” se elevaram, evoluíram, transcenderam, recriaram as esperanças para tornar o mundo melhor. Foi uma jovem guerreira aquela que defende o pai contra o preposto do “olho gordo”, decepando a cabeça daquele bicho voador e espetando a espada para fazer sumir tal coisa ruim.

Mais ainda, outro menininho, desses que ninguém dá nada por ele, humilde e apagado, foi quem teve a verdadeira força interna que remove montanhas, e retirou a espada da pedra, tornando-se o Rei e líder daqueles Cavaleiros da Távola Redonda, a quem outra bruxa horrorosa fazia de tudo para impedir os sucessos.

São tantas histórias que já nos contaram desse tipo de pessoas, dos incrivelmente ruins, odientos e egoístas contra os simples e humildes que querem apenas uma vida melhor...

Talvez uma personagem que resuma e retrate exemplarmente esses atributos de gente que não é do primeiro escalão, mas se acha o supra sumo, manda e quer ser obedecida irrestritamente - no caso, uma escola - seja Dolores Umbridge. A famosa ex-diretora de Hogwarts com seu sorrisinho cínico em jeito de “boas maneiras”, com seu sapatinho e vestidinho cor de rosa choque e seus pratinhos de gatinho nas paredes, faz da sala de aula e da direção, do salão de professores e da escola o seu domínio, de onde exerce seu cargo com esgares de prazer quando tortura algum aluno, ou impõe sua ordem a serviço do Lorde das Trevas. Ela própria que é o capacho de Você-Sabe-Quem, vive a espezinhar os estudantes e professores tolhendo sua liberdade de expressão, expedindo regras e regras para atender à vontade de quem a também serve, controlando tudo com sua mãozinha de ferro cor de rosa, impondo o silêncio, controlando a escola.

Os livros e filmes das peripécias de Harry Potter descrevem muito bem aquela figurinha empertigada de mãozinhas postas e pezinhos bem juntos, desde dando um falso “bom dia” cantarolado aos alunos até ser escorraçada da escola pelos próprios estudantes revoltosos com sua presença de falsa dignidade. Xingando e exigindo soltura, depois foi levada pelos centauros e, finalmente, conduzida a Askaban, a prisão guardada pelos Dementadores que chupam a energia vital das pessoas.

Nessa mesma série, Você-Sabe-Quem, o morto-vivo, malvado por excelência da literatura de ficção infanto-juvenil nunca enfrentava diretamente os personagens “do bem” e, em sua covardia, sempre mandava alguém servil a ele a fazer isso ou aquilo em troca de posição de poder ou favores em seus planos diabólicos para dominar tudo. Em todas as reuniões e encontros com seus asseclas, é aquela figura execrável que cria a pauta, fala primeiro, no meio e por último, determinando sua vontade que quer soberana acima da vontade dos outros. Coage, insinua, ameaça, chantageia, enfim, seduz os incautos e em insana consciência para servi-lo e cumprir suas vontades.

Esse “inimigo número um” da Escola de Bruxos é daqueles covardes que nunca enfrentam os que se fizeram seus opositores, jamais se coloca face a face com eles, nunca dá a cara a bater, mesmo porque não tem condições de se defender em pé de igualdade com as pessoas do “bem”.


Bruxos e bruxas assalariados pelo ”lado negro da força”, no reino da fantasia e no mundo real como mal-amados, temidos e odiados, des-carados por detrás de suas máscaras, com suas duas caras - as deles e as dos outros de que se servem - famintos de bajulação, escondendo-se sob as sombras do próprio “chapéu seletor” feito radar à procura de outros sonsos  que lhes adulem.

São essas pessoas os assediadores morais que, em sua i-moralidade ou a-moralidade, em suma, em sua falta de ética, todos um dia já tivemos a malfadada oportunidade de encontrar em meio a nossas lidas no campo da Educação, ou ler em algum romance em que os antagonistas sempre perdem, e os protagonistas sempre vencem no final. O mal tem limites, e a indignação, individual e coletiva, um dia chega para colocar a harmonia em meio ao desequilíbrio que geram.

O que fazer com elas? O que fazer por elas? O que fazer apesar delas?

Mesmo rindo melancolicamente diante de tantos fatos entristecedores, não há como não ter piedade dessas pessoas que, por serem tão histriônicas, se tornam infelizmente cômicas, confirmado isso pelos sorrisos amarelos e estupefação de muitos ante suas bobagens e idiotices faladas, vistas e ouvidas. E, na tragicidade e em todos as cenas da farsa em que vivem como mortos assombrando a vida alheia, quem quer que seja que tenha o mínimo de sentido de decência deve a essas pessoas a mais pura com-paixão, esperando que um belo dia essas pessoas possam acordar do pesadelo em que se metem, e fazem os outros se apavorar com elas, ou por elas.

No entanto, por mais que num plano de vivência de valores humanos e espirituais devamos ser com-passivos com tais criaturas infelizes e infelicitadoras, é necessário e urgente denunciá-las à comunidade escolar, desmascará-las de sua condição de tiranos e autoritários mal-disfarçados de lobos em pele de cordeiros. É preciso levar ao conhecimento da população tais fatos, fazendo isso em alto e bom tom, porque já vivemos em uma sociedade de direitos, democrática, plural em que os direitos de uns não podem ir além dos limites dos direitos dos outros.

Leis existem para proteger aqueles que são submetidos a esse tipo de força opressora e abusiva e, à aparente fragilidade de muitos que sofrem tal abuso de autoridade, podemos e devemos nos reunir em nome da solidariedade pela defesa da justiça e do Bem Viver.

Tais comportamentos já não são aceitáveis nem toleráveis por essa atual geração de crianças e jovens, e dos adultos que real e verdadeiramente lutam, trabalham e vivem por construir um mundo livre de tais situações de dominação, por uma escola livre de tais imposições, por uma Educação que se pretenda de qualidade e promova a paz entre as pessoas.

Não é de se espantar que nas histórias que parecem ser contos de ninar, ou mero entretenimento para as horas de folguedos de meninos e meninas, são as personagens infantis que sabem, e fazem a mágica transformadora de toda situação de tristeza em alegria e libertação das opressões a que foram submetidas. São as crianças, e as pessoas simples do cotidiano dos contos de fadas dos antigos e contemporâneos que sempre salvam a situação da catástrofe iminente se não se freasse o desmedido poder dos prepotentes desalmados.

Histórias que encantaram milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo foram crianças e jovens, pais e professores dedicados de “almas claras” que só “clarividentes podem ver” que, por exemplo, se uniram co-movidos pela indignação junto a Harry Potter - menino órfão, simples, puro, de bom coração - e salvaram a todos da ganância do Lorde das Trevas em submeter uma humanidade à sua crueldade e truculência.  Belas, simples e singelas mensagens para inspirar nós outros à tomada de consciência contra as atrocidades praticadas cotidianamente sob o manto da falsa dedicação e os interesses disfarçando a auto-promoção.

As varinhas de condão de hoje são os lápis coloridos que fazem barulho ao sacolejo das mochilas carregadas alegremente para as salas de aula, e crianças e jovens nas escolas anseiam por se expressarem na plenitude de seus direitos humanos na rebeldia sumariamente sufocada pela enxurrada de afazeres sem sentido a que são compelidas a cumprir em nome de se adaptarem à sociedade adoentada que as rodeia.

Gritos estridentes de quem só sabe mandar para querer ser obedecido, e ríspidos “psius” à agitação daquilo que não pode ser jamais controlado - o sonho humano de liberdade e ventura - querem calar nas crianças e jovens o dom inato de não quererem se ajustar à uma maquinaria que tritura qualquer vontade que não siga na linha de produção escolar ou acadêmica que se consolidou como “mal necessário”.

Ainda estamos envolvidos pelos resquícios de uma época de controle da palavra, dos pensamentos e sentimentos, de uma educação moldada para criar exércitos de autômatos a silenciosa e obedientemente servirem de novos escravos de um mundo de consumismo para enriquecer uns poucos mandatários.

Pouco a pouco, aquém e além do arco-íris, outras forças poderosas se movem, novas palavras de ordem, amor e progresso humanizadores reluzem, e piscamos os olhos como que adquirindo redobrado ânimo para tudo suportar, porque a liberdade vem, ainda que tardia.

As crianças e jovens, ora melancólicos ante o infortúnio que as tenta cercear os devaneios, ora incômodas em seus barulhos e agitação nas salas de aula fechadas como prisões do pensamento, parecem nos relembrar a cada dia, hora e segundo, que é chegado o tempo de acordar dos pesadelos para a realização daquele sonho de liberdade. Se a carapuça preta serve a muitos entristecidos, também cabe a cada um que tenha coragem e boa vontade as asas de um anjo ou os chapéus dos magos e mágicos para as grandes realizações em nome do amor e da alegria.

É preciso repudiar todos os comportamentos e atitudes inadequadas, os ab-surdos, ab-mudos e ab-cegos que se veem, falam e se ouvem no mundo real das malvadezas des-humanas, em devido respeito que devemos à infância e juventude e, seus direitos inalienáveis garantidos em documentos forjados pela luta de muitos. Isso requer de todos nós uma responsabilidade extraordinária para que cada um saiba separar o que é justo e injusto quando devemos ser firmes nas atitudes de encorajamento para a realização de seus sonhos, sem jamais perder a ternura para com eles. Os contos de fadas desde sempre nos inspiram a isso...


As Escolas e a Educação precisam se libertar do assédio moral que se dissemina feito praga, precisam ser libertadas de seus carrascos, precisam se re-construir de seus escombros, precisam renascer de suas cinzas pelos mesmos feitos daqueles  indignados e de boa vontade reunidos em torno da "Ordem da Fênix"**. Que as Escolas e a Educação sejam re-en-cantadas pelo Poder da Alegria e do Amor, e da Sabedoria de todos.

O assédio moral nas escolas é tema incômodo, que abala estruturas carcomidas, mas fortes o bastante para se manterem e se quererem impunes.  Faz-se urgente o debate em todas as rodas e fóruns de discussão, em todos os diálogos nas ruas, nas casas, nas universidades, nos gabinetes das autoridades públicas, nas mídias, nas redes sociais, nos espaços da luta política, nas delegacias e boletins de ocorrência, nos camburões e locais de tratamento ou correção a tal tipo de abuso, assim como nas salas de aula, nas salas de professores, nos corredores e em todos os cantos de nossas instituições escolares.

31 out 2013

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* Leorry Reportter é (Tele)Jornalista Escolar, ex-aluno e estagiário de escolas místicas e lendárias nos quatro cantos do mundo, também esteve em Hogwarts colaborando com as mídias piratas que faziam a comunicação popular e libertária nos tempos da censura e ditadura do Vocês-Sabem-Quem. Escreve para o “Novo Profeta Diário”, e atua como correspondente de vários periódicos do mundo da realização dos Sonhos das Estrelas,  dos Anjos,  das Fadas, dos Loucos e dos Palhaços da Alegria, dos Magos do Bem e dos Mágicos por uma Escola da mais pura Imaginação.

Personagem in-vestido e apresentado por Leo Nogueira Paqonawta.

** "Harry Potter e a Ordem da Fênix", quinto livro da saga do bruxo de Hogwarts, de autoria de J.K. Rowling. O filme baseado nessa obra estreou em 2006/2007, produção de Heyday Films e distribuição de Warner Bros. Pictures.

Reprodução permitida para fins educacionais e não comerciais, pede-se citar a fonte.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

FNDC: fortalecendo a luta pela democratização da comunicação


FNDC: fortalecendo a luta pela democratização da comunicação

A XVII Plenária Nacional do Fórum terminou neste domingo com a aprovação de novo estatuto social e ato público de apoio ao Marco Civil da Internet

Com ampla representatividade, terminou hoje, 22, a XVII Plenária Nacional do FNDC, em Brasília. No encontro  foi  aprovado o novo estatuto social da entidade, que possibilitará o fortalecimento da luta nos estados e facilitará o ingresso de atores sociais importantes.

Para Rosane Bertotti, coordenadora geral do FNDC, as mudanças na estrutura, organização e participação, aprovadas no encontro, fortalecem a entidade e robustecem a luta pelo direito a comunicação.  "O debate do estatuto é resultado do processo da político de crescimento do FNDC. E fortalecer o FNDC é fortalecer a luta". Ela explica que o Fórum já vinha de um processo de ampliação nos últimos meses.

“A ampliação do FNDC com certeza já é resultado das ações de junho (manifestações nas ruas), que trouxe com muita clareza o tema da democratização da comunicação, mas também  também é resultado do crescimento e do amadurecimento do Fórum e das lutas que vem construindo ao longo da história”.

Nos últimos meses o Fórum recebeu centenas novas afiliações. A Plenária refletiu esse crescimento, com a representatividade de 18 estados,  a inscrição de 34 delegados dos comitês estaduais e 28 das entidades nacionais. Atualmente a entidade conta com 235 entidades afiliadas.

“O evento correspondeu às expectativas, cumpriu seu papel. Apenas quatro delegados não vieram. Acho que foi uma das maiores plenárias da entidade em termos de representatividade dos estados”, disse.

A Plenária votou pela intensificação da coletas de assinaturas do Projeto de Lei da Mídia Democrática, ação da campanha “Para Expressar a Liberdade”. “Vamos às ruas principalmente em outubro, mês da democratização da comunicação, para ampliar o debate com a sociedade, reverberando assim em novas assinaturas do Projeto de Lei”, explicou. Os participantes trouxeram à Brasília as listas de assinaturas coletadas nos estados. O FNDC, que coordena a campanha, divulgará, em breve, o resultado da 1ª coleta nacional.

Marco Civil da Internet

A XVII Plenária Nacional teve em seu encerramento um ato público de apoio ao Marco Civil da Internet, que contou com a participação de Laura Tresca (Artigo 19) e vídeo de apoio do Deputado Federal Alessandro Molon (PT/RJ), relator do projeto de lei no Congresso Nacional. Também foi aprovada pela Plenária uma moção de apoio à aprovação do projeto.

Moções

A XVII Plenária do FNDC aprovou moções de apoio ao Projeto de Lei (PL) n.º 5.921/01, que proíbe a publicidade e a propaganda para a venda de produtos infantis; de apoio à Empresa Pernambucana de Comunicação; de apoio aos trabalhadores da Fitratelp - Federação Interestadual dos Trabalhadores e Pesquisadores em Serviço de Telecomunicações e moção de apoio e solidariedade à Rádio Terra Livre.

Foram aprovadas também moções de repúdio à demissão de dirigentes sindicais na Abril Educação, de repúdio às operadoras de telefonia fixa, móvel e serviço de internet, além das moções de repúdio contra as arbitrariedades do Governo Estadual à Rede Minas, de repúdio ao PL n.º  478, de 2007 (Estatuto do Nascituro), e contra a violência praticada por policiais aos manifestantes e aos profissionais de comunicação.

Também foi aprovada moção em repúdio à criminalização das rádios comunitárias e de Jerry de Oliveira, dirigente da sessão paulista da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço), que pode ser condenado à pena de 5 anos e 2 meses de prisão por resistir à tentativa de apreensão de equipamentos pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Também foram aprovadas monções de apoio à regulamentação da radiodifusão, de repúdio  ao  PL 5.992/2013 e apoio à regionalização da produção de conteúdo e à diversidade, e de apoio à implementação de Conselhos Estaduais de Comunicação.

Dentre outras, a plenária aprovou também moção de repúdio à Lei da Terceirização (PL n.º 4330) assim como ao leilão do Pré-sal. 

A próxima plenária do FNDC deverá ser  realizada entre março e abril de 2014, com votação dos novos quadros de direção da entidade.

Por Raquel de Lima, para o FNDC

Reproduzido de FNDC

22 set 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Os números não mentem: maioria quer democracia na mídia - Lalo Leal


Os números não mentem: maioria quer democracia na mídia

Pesquisa revela que não é a qualidade que define a audiência das TVs, mas a falta de opção. E que, apesar da propaganda contrária da imprensa, a maioria quer a democratização da mídia

Lalo Leal
14/09/2013

O debate em torno da democratização da comunicação acaba de ganhar um reforço importante. Uma pesquisa sobre o tema promovida pela Fundação Perseu Abramo permite agora discutir o papel da mídia em cima de dados concretos. Sabia-se, por exemplo, que a TV aberta – apesar do avanço da internet – continuava sendo o meio mais utilizado pelos brasileiros para informação e entretenimento. Agora temos números: 94% fazem isso, 82% deles todos os dias.

À frente da internet e dos jornais, empatados em 43%, está o rádio, com 79% (69,2% ouvem diariamente). Presente nas regiões mais remotas do país e nas grandes cidades, sua voz é ouvida por ribeirinhos na Amazônia e pelos motoristas presos nos congestionamentos urbanos, com uma força político-eleitoral que ainda está para ser medida.

A pesquisa teve caráter nacional e ouviu 2.400 pessoas, com margem de erro que varia de dois a cinco pontos percentuais. Soube-se por ela que 57% dos brasileiros leem jornais, mas quase a metade (46,2%) só lê o do bairro ou da cidade em que mora. Muito atrás aparece o segundo jornal mais lido: o Extra, com 5,9%. Os jornalões – Folha de S.Paulo (4,5%), O Globo (3,1%) e  O Estado de S. Paulo (3%), com leitores concentrados no Sudeste – revelam não ter a projeção nacional por eles apregoada. Entre as revistas o dado é preocupante: 76% leem esse tipo de publicação, dos quais 50,2%, a Veja. Conhecendo a linha editorial da revista fica clara a necessidade de uma alternativa capaz de contrabalançar os efeitos negativos que ela causa à sociedade.

Na internet, o Facebook (38,4%) e o Twitter (25,5%) são os preferidos dos brasileiros. Os portais de notícias – Globo (16,7%), UOL (12,6%), Terra (7,3%) – vêm depois: seis em cada dez entrevistados dizem buscar informações e notícias nesses sites, reforçando a convicção de que a internet é responsável pelo declínio dos jornais impressos.

Quanto ao conteúdo, não há uma percepção de que os meios de comunicação, quando tratam de política e economia, defendam os interesses da população. Só 7,8% acreditam nisso. Os demais dizem que eles defendem os interesses dos próprios donos (34,9%), dos que têm mais dinheiro (31,5%) e dos políticos (20,6%).


Em relação à TV, a pesquisa concretiza o que os estudiosos já inferiam. A maioria dos brasileiros (71,2%) não sabe que as emissoras de rádio e TV são concessões públicas. E quando passam a ser perguntados sobre o que veem na tela mostram uma clareza maior: 43% dizem não se ver representados na TV e 25% se consideram retratados negativamente. Grande parte avalia às vezes ou quase sempre como desrespeitoso o tratamento dado à mulher (64%), aos nordestinos (63%) e aos negros (66%) nos programas das emissoras.

O remédio está na regulação dos meios. Os entrevistados concordaram com essa necessidade, mostrando que a campanha sistemática da mídia, comparando regulação à censura, surte pouco efeito. Deveria haver mais regras para o funcionamento das TVs para 71%. E na opinião de 77,2% deveriam ser estabelecidas e aplicadas por um órgão ou conselho representativo da sociedade, como ocorre em vários países democráticos.

A maioria (entre 50,9% e 65,8%) se manifestou contra a veiculação de palavrões, a exposição gratuita do corpo da mulher, de imagens de cadáveres, de crueldade com animais, de nudez e sexo, violência e morte e de uso de drogas. Também se mostrou contrária a cenas de violência e de humilhação de gays e lésbicas, assim como ao humor que ridiculariza as pessoas. E mais: 88,1% não querem propaganda de bebida alcoólica na TV.

São dados que não aparecem no Ibope e não têm nada a ver com audiência. A pesquisa revela como é enganosa a afirmação de que a TV mostra o que as pessoas querem ver. Veem, na verdade, por falta de opção ou para não deixar a casa silenciosa.

Reproduzido de Revista do Brasil

14 set 2013

Acesse a pesquisa da Fundação Perseu Abramo clicando aqui.

domingo, 22 de setembro de 2013

FNDC lança livro de Venício A. Lima sobre os Conselhos Estaduais de Comunicação


FNDC lança livro de Venício A. Lima sobre os Conselhos Estaduais de Comunicação

Para o jornalista e professor aposentado da UnB, os colegiados, garantidos pela Constituição, são ferramentas fundamentais na luta pela democratização da comunicação

O livro “Conselhos de Comunicação Social - A interdição de um instrumento da democracia participativa” é leitura obrigatória para os militantes pela democratização da comunicação para a ampliação e defesa dos colegiados nos estados. A contribuição de Venício A. Lima ao FNDC traz um mapeamento atualizado dos estados que têm, e os que ainda não têm Conselhos previstos em suas Constituições Estaduais. A obra será lançada neste sábado (21/9/13), em Brasília, no primeiro dia da XVII Plenária Nacional da entidade.

Mais do que mapear, o professor faz um histórico dos Conselhos de Comunicação e da resistência na criação desses colegiados nos estados e nacionalmente. Para ele, os Conselhos estão no rol das maiores bandeiras e instrumentos para a democratização da comunicação no país. “Os Conselhos Estaduais são uma bandeira visível e viável politicamente, não só de mobilização, mas como debate, em nível estadual, das questões relacionadas à comunicação”, disse, em entrevista ao FNDC.  Para o autor, eles têm papel essencial na abertura de espaços para a fiscalização e contribuição social, necessários para a democracia.

Atualmente, apenas dez unidades de federação incluíram a criação dos Conselhos estaduais de comunicação em suas respectivas constituições: Amazonas, Pará, Alagoas, Bahia, Paraíba, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul – e a Lei Orgânica do Distrito Federal. Os outros 17 estados desobedecem ao princípio constitucional que exige a simetria entre os institutos jurídicos da Constituição Federal e as Constituições dos Estados.  As UFs são obrigadas a criar os Conselhos, inspirados no artigo 224 da Constituição Federal, que criou o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional.

A publicação trata da interdição histórica das formas participativas democráticas da Constituição Federal nas políticas públicas de comunicação: desde a Carta Magna, passando pela I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), até os dias de hoje. “A Constituição, não só em nome da maior participação popular, mas também por questões administrativas, dá aos Conselhos de outros setores, como a educação e a saúde, a possibilidade de decisões relativas à formulação, acompanhamento, avaliação e acompanhamento de diversas politicas públicas”.

Para ele, existe uma clara diferença em relação à Comunicação: “A área de Comunicação acabou não sendo contemplada como ocorreu com outras áreas que lidam com direitos fundamentais. Não foi contemplada por que não conseguiu ser aprovada no processo constituinte com o mesmo processo. Acabou apenas como órgão consultivo do Congresso Nacional”.

No livro, o professor aborda a polêmica “inconstitucionalidade dos Conselhos de comunicação”, apontada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) após a aprovação de projeto que recomendava a criação de um conselho de comunicação no Ceará, em 2010. Para a OAB, as Assembleias Legislativas não possuíam competência para legislar sobre políticas públicas de comunicação, tarefa privativa do Congresso Nacional. “Faço um desafio no texto, quero que apontem qual proposta de Conselhos Estaduais de Comunicação propõem legislar na área. Elas estão espelhadas no Artigo 224, ou seja, são órgãos meramente auxiliares”.

Resistência

No livro, Venício diz que o mote geral para o ciclo de reações à Confecom e à criação do Conselho Estadual do Ceará, foi dado por editoriais, artigos e matérias publicadas nos principais jornais e reproduzidas em todo o país. Ele apresenta exemplos emblemáticos, como a matéria da Folha de S. Paulo (25/10/2010) “Mais 3 Estados têm projetos para monitorar a mídia – Depois do CE, BA, AL e PI se preparam para implantar órgãos de controle”.

“As diferentes propostas de se criar os Conselhos entre o início dos anos 90 e o final de 2010, passaram praticamente despercebidas aos olhos dos grupos de mídia comercial hegemônicos no país. No entanto, a realização da 1ª. Confecom, em dezembro de 2009, e a aprovação do Projeto de Indicação nº 72.10 pela Assembleia Legislativa do Ceará, entre o 1º e o 2º turnos da eleição presidencial de 2010 (19 de outubro), despertaram os adversários e deram início a um incrível ciclo de reações no qual se acusa as propostas de se originarem exclusivamente na Confecom; de pretender “controlar” os meios de comunicação; e de serem, in limine, inconstitucionais”, escreve na publicação.

Estes mesmos grupos de comunicação, que há anos são dominados por menos de dez famílias, usaram os mesmos argumentos que usam hoje em seus editoriais e artigos, para formar opiniões sobre a criação de um Marco Regulatório da Comunicação, ou mais especificamente, do Projeto de Lei de Iniciativa Popular que propõe a regulação do setor da radiodifusão, a Lei da Mídia Democrática.  À época, diziam que os Conselhos Estaduais constituíam ameaça à “à livre manifestação de expressão e à liberdade de imprensa”.

Venício destaca que esses grupos de comunicação consolidaram seus interesses privados no setor, tratando a coisa publica como se fosse privada.  Por isso a resistência histórica da implementação de instrumentos de participação popular no setor, para ele, decisivo para o fortalecimento da democracia. “Os Conselhos já são instrumentos consolidados em setores, mas ainda lutam para respirar quando o tema é a garantia do direito à liberdade de expressão, reiteradamente condicionada pelo poder econômico”, termina.

Para o FNDC, o livro é considerado estratégico. “Entender a história e ter a situação atualizada da implantação dos Conselhos é essencial para o movimento social. Nós realizamos essa parceria com o professor Venício por entender que é uma publicação importante para construir estratégias na luta pela democratização da comunicação”, explicou Rosane Bertotti, Coordenadora Geral da entidade.

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Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG


Redação FNDC


Reproduzido de FNDC

domingo, 1 de setembro de 2013

Crónica Viva: ¿Qué interculturalidad?


¿Qué interculturalidad?

Julio Torres Pallara

Este mes del año nuevo andino y de la festividad del Inti Raymi, en medio de la penumbra publicitaria mercantil turística que se propaga y que nos distrae, sustrayéndonos del verdadero significado de estas celebraciones, es oportuno hacernos algunas preguntas: ¿Quiénes somos y cuál es nuestro origen?, ¿Qué hacemos en este espacio y tiempo? ¿Hacia qué destino marchamos? Quizás así podamos comprender en nuestra condición de ser los otros, la nueva mirada occidental desde su versión intercultural.

Orientándonos en nuestro Uku Pacha, nos encontraremos inevitablemente con la invasión de los españoles a nuestra patria grande el Tawantinsuyo, con la invasión de los españoles, portugueses, ingleses y otras etnias occidentales a nuestro continente Abya Yala.

Entonces, debemos comprender que los pobladores de este continente somos parte de un territorio invadido, pueblos y culturas casi exterminadas, donde en lo que queda del Tawantinsuyo, en el Perú, Bolivia, Ecuador, Argentina, Chile y Colombia, en el macizo andino después de casi cinco siglos los descendientes de los Inkas seguimos resistiendo a la arremetida occidental que procura aún la extinción de toda cultura que no sea la de ellos.

Esta realidad, nos llama a enjuiciar la falsa historia que nos han enseñado en la escuela, historia escrita por los propios invasores, por sus escribas de ayer y de hoy.

Por tanto, desde la tecnología y ciencia que nos transmiten los monumentos arqueológicos, los tejidos, la cerámica, la orfebrería, la astronomía, la hidráulica, la genética de productos alimenticios y medicinales, el arte, las vivencias culturales, saberes que testimonian el Sumaq Kawsay como objetivo estratégico del hombre andino; y fundamentalmente desde la trascendencia del Taky Onqoy resistencia ideológica emprendida por nuestros antepasados al proceso civilizatorio de los invasores, hoy debemos acrecentar nuestra voluntad para el estudio y la investigación, no sólo de la historia, sino fundamentalmente del pensamiento, de la concepción que tuvieron nuestros antepasados del cosmos y de su propia existencia, es decir de su filosofía.

De ese modo podremos liberarnos de la filosofía occidental que los españoles impusieron a nuestros antepasados en nombre de su rey y Dios.

De hecho esta conducta y proceder de los occidentales, se explica desde el principio fundamental de su filosofía, que es la unidad, a partir de la cual emanan todas las cosas existentes en el universo y por tanto deben retornar a ella.

En la concepción occidental la unidad es la esencia univoca, síntesis divina de la existencia y reveladora de la verdad, por tanto está fuera de toda determinación cognoscible y considerada inefable, infinita y dogma irrefutable.

En la filosofía occidental el hombre es sustraído de su terrenalidad, de su cosmos; considerando a todo lo que existe en la naturaleza como recurso apropiable.

Por su parte en el hombre se separa el mundo de la razón y el mundo sensible, valorando al primero e identificándolo con la creación de la cultura, competencia que sólo ellos poseían (incluso sólo los varones occidentales), segregando al segundo e identificándolo con la sub humanidad característica asignada a los pueblos invadidos (incluso a las mujeres occidentales); de ahí su concepción machista, etno y culturocentrista, excluyente y depredador.

Por esta filosofía racionalista a pesar del discurso humanista, en esta era de la sociedad del conocimiento o post industrial, los poseedores del poder del mercado han implementado estrategias de enajenación y hasta de sub humanización, de aprovechamiento de la diversidad para acrecentar el individualismo y la libertad de pensar según el libreto mediático que difunden en los medios. Es más las personas son valoradas por su competencia para generar utilidades como recurso y su capacidad para consumir los productos ofertados en el mercado, exaltándose los paradigmas de la competitividad, la eligibilidad, el consumismo, que generan de manera extrema el oportunismo, el egoísmo, el odio, el derroche y la contaminación.

Todo este conjunto de males, han puesto en crisis a la humanidad, demostrando la insostenibilidad de dicho pensamiento, muy a pesar del reconocimiento forzado de la diversidad y pluriculturalidad en el mundo, que les ha motivado plantear la interculturalidad.

Interculturalidad que en su acepción más sana, se considera como el dialogo entre culturas.

Sin embargo, desde nuestro lado debe surgir la interrogante, ¿será posible establecer ese diálogo intercultural entre la cultura occidental del norte desarrollado y las culturas de los países del sur subdesarrollado entre ellos la cultura andina? y ¿qué pretenden los occidentales con la interculturalidad?

Dado las características y la crisis del pensamiento de los occidentales, las estrategias para resolver sus problemas, como siempre requieren del trabajo, de los recursos naturales y los mercados de los pueblos del sur; de tal manera que con este nuevo discurso lo único que pretenden es seguir manteniéndonos asimilados y desvinculados de nuestra terrenalidad, para que su nuevo dios el dinero siga reinando en el mercado paraíso del lucro, la corrupción y la injusticia.

Frente a este panorama en nuestra condición de pueblo invadido ¿cuál debe ser nuestra repuesta a esta propuesta de interculturalidad?; sólo caben dos salidas:
Uno, asimilarnos a occidente e imitar todas sus manifestaciones tal como lo venimos haciendo ya.

Dos, asumir nuestra terrenalidad, nuestra condición bio-cultural y sanarnos sacudiéndonos de todo lo adverso de la cultura occidental.

Por la segunda opción, que nos conducirá a la libertad con identidad e integrado a nuestra comunidad y madre tierra, se requiere previamente afirmarnos en nuestra cultura en el contexto del mundo globalizado y pluricultural.

En ese sentido al visionar nuestro Hanan Pacha, en la complejidad e incertidumbre cósmica, nos aguarda el nuevo Pacha Kuty de la humanidad, que se está emprendiendo desde este Kay Pacha, en un inmenso esfuerzo para volver a transitar por el gran Qhapaq Ñan, el camino de la sabiduría andina, la escuela de los nuevos Qhapaq Kuna.

Al respecto tomando en cuenta el legado cultural andino y lo que señala Javier Lajo en su libro Qhapaq Ñan la Ruta Inka de Sabiduría, se concluye que el pensamiento del hombre andino del Tawantinsuyo se sostuvo en una concepción de que, todo lo que existe en el cosmos ha sido parido, es decir, el origen cosmogónico primigenio es la paridad, y no la unidad como en occidente.

De la paridad de la materia y energía, hace aproximadamente 14 mil millones de años surgió el espacio y el tiempo, y todo lo que en ella está evolucionando como resultado de la complementariedad proporcional en el suceder del desorden y el orden, del caos y la armonía, en un permanente proceso de expansión del cosmos, regido por las Leyes:

Del Yanantin, de la Paridad Complementaria, generadora de nuestra existencia.

Del Tinkuy, de la Oposición Proporcional, generadora del cambio, del movimiento, de la dinámica, de la evolución.

Del Pachatussan, de la Vincularidad entre el tiempo pasado y el tiempo futuro, entre el espacio de adentro y el espacio de afuera.

Del Chekalluwa, del Equilibrio o Justo Medio, que corresponde a las condiciones más adecuadas de la tierra donde surge la vida, estrechamente relacionado con el ángulo de inclinación óptima del eje de la tierra.

De ahí que el hombre andino, piensa que todo lo que existe en el mundo tiene vida y da vida; y el objetivo estratégico de su propia existencia es el Sumaq Kawsay, para cuya consecución debe previamente lograr el Allin Yachay y el Allin Munay que genera su Allin Ruway.

Por dicha razón y en el propósito de reivindicar la sabiduría de nuestros antepasados, en este tiempo como integrantes de una comunidad y de la madre tierra, por la educación debemos lograr:

El buen saber, que nos permita visionar, crear, construir, innovar, criar.

El buen querer o buen sentimiento, que nos permita querer y amar, ser honestos y respetuosos, poniendo la tecnología y la ciencia al servicio de la humanidad sin atentar contra la naturaleza.

Provisto de esos saberes y sentimientos lograremos el buen hacer, que nos permita hacer bien nuestro trabajo, para luego alcanzar el buen vivir, el Sumaq Kawsay para vivir en armonía con los miembros de nuestra comunidad y con todos los seres de la madre tierra.

Esta es la filosofía que el hombre andino, los herederos de la Cultura Inka, debemos ofrecer como alteridad a la Filosofía Occidental, sólo de ese modo el diálogo intercultural será proporcional y complementario.

Reproduzido de Crónica Viva por Juan Misael

27 jul 2013

Comentário de Filosomídia:

Em tese, creio que os significados e razões da “interculturalidade”, “etnoeducação”, “educação multicultural”, “educação indígena”, “educação intercultural” etc. nascem, a princípio, como explicações de passos dados na compreensão, no reconhecimento e respeito às “conquistas” e lutas “rexistentes” das “minorias culturais” fazendo frente à quase eliminação total pela “cultura dominante”. Contidas nas cartas internacionais de direitos humanos escritas ao longo da história dessa sociedade ocidental hegemônica em que vivemos, os artigos mais ou menos des-respeitados valem um “freio” ao trator avassalador e acachapante de interesses de domínio do mundo por uma auto-intitulada elite que se move por seus interesses de controle e exploração de tudo e de todos.

No campo da “formação” das novas gerações a história legitimada, e aprendida nos livros didáticos, dão conta de explicar como se formaram os sistemas educacionais doutrinadores, desde a Ratio Studiorum jesuíta até os mais recentes planos nacionais de educação sob o manto de interesses maiores que separa o regional e local como “folclore”, como manifestação de cultura inferior a ser tolerada para que certa ordem mundial se estabeleça a garantir a “paz” mundial.

Tanto na relação de exploração/dominação econômica quanto na da libertação de toda forma de opressão pelas vias da “educação” a partir dos pressupostos da “razão” ocidental, houve “rexistências” (resistir para existir no Bem Viver) ao longo dos séculos, quando diversas culturas e povos outrora subjugados mantiveram suas tradições pelas vias da Sabedoria Ancestral a guiar seus próprios passos nos des-caminhos do mundo que foi se globalizando.

Nesse contexto dos interesses “ocidentais” e rexistência das culturas andinas, a questão central no campo da Educação na luta por um projeto civilizatório da humanidade, se dá para partir em direções diametralmente opostas em sentido e direção ao mundo que queremos para nós todos e para as gerações futuras. Assim, de dentro dos sistemas nacionais de Educação surgem as escolas de pensamento que podem ser/ter sentido de “integração”, de “aculturação”, de libertação, de livre-pensamento e auto-determinação dos povos criando atritos necessários a lapidar o conceito ocidental de “nações”, dando um passo à frente e dois atrás, ou dois à frente e talvez um atrás sobre qual é o papel da escola.

A escola ayllu ou a escola ocidental do be-a-bá; a escola da libertação e da sabedoria ou a escola da reprodução do saber legitimado pelas elites econômicas?

Como garantir a existência de escolas como a Warisata, ou das escolas batizadas de interculturais dentro do sistema vigente? Será pela luta por legitimá-las como de direito dos povos ancestrais pelas vias daquelas cartas dos direitos humanos e “indígenas”? As constituições nacionais latino-americanas atuais dão conta de satisfazer os interesses no mais das vezes contraditórios com as aspirações dos povos de Abya Yala, ou Outro Mundo há que nascer da derrocada de sistemas que já não conseguem mais abarcar ou impulsionar sonhos a se realizar pelo impulso de uma sabedoria quase esquecida?

O “mal necessário” da “interculturalidade” en-coberto e des-estabilizando a ordem mundial, tolerado como aquiescência da cultura hegemônica vigente ao outrora subjugado e sem voz, cederá passo a passo, conquista à re-conquista do direito à determinação dos povos e à cosmovisão e formas de existir e re-criar a vida para o Bem Viver a partir de conceitos sagrados e libertadores da consciência humana.

Pessoalmente, creio que o século XXI assistirá as mais profundas transformações, que já começaram a sacolejar as ideias, formas de expressão e os alicerces em que se construíram impérios nesse continente que aponta ao sul. O “inter”, ou aquele que “é” entre o micro e o macrocosmo - o ser humano - re-descobrirá sua cosmocidadania e re-vira-voltará tudo com todos, dando verdadeiros passos re-evolutivos a se manifestarem em todos os campos do saber/fazer desse Outro Tempo/Espaço, libertando cada um para mil e uma outras conexões com o outro a se estabelecerem, co-movendo a todos por todas as direções para todos os quatro cantos do mundo. Algo assim, como a Sabedoria Ancestral se tornando um presente que re-humaniza tudo e todos.

Somos ao mesmo Tempo/Espaço herdeiros e, responsáveis por ampliar essas vozes ancestrais e as fronteiras dessa sabedoria por todos os en-cantos do universo, e além, sempre des-cobrindo. Somos Novos Inkas navegando “pelo infinito de nossa mútua compreensão”*.

Leo Nogueira Paqonawta

Também publicado em Emíndio
* Estesia, Rabindranath Tagore.