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sábado, 25 de outubro de 2014

Revista Veja - Uma farsa óbvia e mal ensaiada


Uma farsa óbvia e mal ensaiada

Paulo Moreira Leite
24 de outubro de 2014

Golpe midiático do doleiro Yousseff, que admite que não pode provar o que diz, dará mais argumentos à regulamentação da mídia

Numa tradição que confirma a hipocrisia das conversas de palanque sobre alternância de poder, os escândalos eleitorais costumam ocorrer no país sempre que uma candidatura identificada com os interesses da maioria dos brasileiros ameaça ganhar uma eleição.

Não tivemos “balas de prata” — nome que procura dar ares românticos a manobras que são apenas sujas e vergonhosas — para impedir as duas eleições de Fernando Henrique Cardoso nem a vitória de Fernando Collor. Mas tivemos tentativas de golpes midiáticos na denúncia de uma ex-namorada de Lula em 1989; no terror financeiro contra Lula em 2002; na divulgação ilegal de imagens de reais e dólares clandestinos dos aloprados; e numa denúncia na véspera da votação, em 2010, para tentar comprometer Dilma Rousseff com dossiês sobre adversários do governo.

Em outubro de 2014, quando a candidatura de Dilma Rousseff avança em direção às urnas com uma vantagem acima da margem de erro nas pesquisas de intenção de voto, VEJA chega às bancas com uma acusação de última hora contra a presidente e contra Lula. Comentando o teor da reportagem, Lula declarou ao 247:

— A VEJA é a maior fábrica de mentiras do mundo. Assim como a Disney produz diversão para as crianças, a VEJA produz mentiras. Os brinquedos da Disney querem produzir sonhos. As mentiras da VEJA querem produzir ódio, disse ao 247.

O mais novo vazamento de trechos dos múltiplos depoimentos do doleiro Alberto Yousseff  expressa uma  tradição vergonhosa pela finalidade política, antidemocrática pela substância.  Não, meus amigos. Não se quer informar a população a partir de dados confiáveis. Também não se quer contribuir com um único grama para se avançar no esclarecimento de qualquer fato comprometedor na Petrobrás. Sequer o advogado de Yousseff reconhece os termos do depoimento. Tampouco atesta sua veracidade sobre a afirmação de que Lula e Dilma sabiam das “tenebrosas transações” que ocorriam na empresa, o que está dito na capa da revista.

Para você ter uma ideia do nível da barbaridade, basta saber que, logo no início,  admite-se que só muito mais tarde, através de uma investigação completa, que ninguém sabe quando irá ocorrer, se irá ocorrer, nem quando irá terminar,  “se poderá ter certeza jurídica de que as pessoas acusadas são culpadas.”

Não é só. Também se admite que Yousseff “não apresentou provas do que disse.”

Precisa mais? Tem mais.

Não se ouviu o outro lado com a atenção devida, nem se considerou os argumentos contrários com o cuidado indispensável numa investigação isenta.

O que se quer é corromper a eleição, através de um escândalo sob encomenda, uma farsa óbvia e mal ensaiada. Insinua o que não pode dizer, fala o que não pode demonstrar, afirma o que não conferiu nem pode comprovar.

Só o mais descarado interesse pelos serviços políticos-eleitorais que poderia prestar na campanha presidencial permitiu a recuperação de um personagem como Alberto Yousseff. Recapitulando: há uma década ele traiu um acordo de delação premiada numa investigação sobre crimes financeiros, e jamais poderia ter sido levado a sério em qualquer repartição policial, muito menos numa redação de jornalistas, antes que cada uma de suas frases, cada parágrafo, cada palavra, fosse submetida a um trabalho demorado de investigação. Até lá, deveria ser colocada sob suspeita. Mas não. Um depoimento feito há 48 horas, contestado pelo advogado, por um cidadão que não é conhecido por falar a verdade, virou capa de revista. Que piada.

Isso ocorre porque vivemos num país onde, 30 anos depois do fim da ditadura militar, os inimigos do povo conquistaram direito a impunidade. Esse é o dado real.

Sabemos, por exemplo, que se houvesse interesse real para investigar e punir os casos de corrupção seria possível começar pelo mensalão do PSDB-MG, pelo propinoduto do metrô paulista, pela compra de votos da reeleição.

As vítimas daquilo que se pode chamar de erros da imprensa, mesmo quando se trata de fabricações, não merecem sequer direito de resposta — no caso mais recente, o ministro Gilmar Mendes segurou uma sentença contra a mesma VEJA com base numa decisão liminar. Olha só.

Num país onde as instituições são respeitadas e os funcionários públicos cumprem deveres e obrigações, a Polícia Federal não poderia deixar-se usar politicamente dessa maneira, num comportamento que compromete os direitos de cada cidadão e ordem republicana.

Diante da incapacidade absoluta de enfrentar um debate político real, com propostas e projetos para o país, o que se pretende é usar uma investigação policial para ganhar pelo tapetão aquilo que não se consegue alcançar pelas urnas — o único caminho honesto para a defesa de interesses num regime democrático. Num país onde a alternância no poder nunca passou do revezamento entre legendas cosméticas, em 2014 os conservadores brasileiros são obrigados a encarar o horizonte de sua quarta derrota eleitoral consecutiva, a mais dolorosa entre todas. Depois de falar de alternância no poder, talvez fosse o caso de falar em alternância de métodos, não é mesmo?

Imaginando que estavam diante de uma campanha próxima de um passeio, com uma adversária enfraquecida e sem maiores talentos oratórias, salvaram-se, por um triz, do vexame de ficar de fora do segundo turno.

A verdade é que não há salvação, numa democracia, fora do voto. Toda vez que se procura interferir na vontade do eleitor através de atalhos, o que se produz são situações de anormalidade democrática, onde o prejudicado é o cidadão.

Essas distorções oportunistas cobram um preço alto para a soberania popular. Não há almoço grátis — também na política.

O exercício de superpoderes políticos tem levado a Polícia Federal a se mobilizar para se transformar numa força autônoma, que escolhe seu diretor-geral que não presta contas a ninguém a não a ser a seus próprios quadros.

O melhor exemplo de uma organização capaz de funcionar dessa maneira foi o FBI norte-americano, nos tempos de John Edgar Hoover. Instalado durante longos 49 anos no comando da organização, Hoover colecionava dossiês, fazia chantagens e perseguições a políticos à direita e à esquerda. Agia por conta própria e também atendia pedidos que tinha interesse em atender — mas recusava aqueles que não lhe convinham. Era o chefe de uma pequena ditadura policial. Lembra de quem usava essa palavra?

Da mesma forma, os golpes midiáticos só podem ocorrer em países onde os meios de comunicação têm direito a atirar primeiro para perguntar depois, atingindo cidadãos e autoridades que não tem sequer o clássico direito de resposta para recompor as migalhas de uma reputação destruída pela invencionice e falta de escrúpulos. Não custa lembrar. Graças a um pedido de vistas providencial do ministro do STF Gilmar Mendes, VEJA deixou de cumprir um direito de resposta em função da publicação de “fato sabidamente inverídico.”

A imprensa erra e fabrica erros sem risco algum, o que só estimula uma postura arrogância e desprezo pelos direitos do eleitor. Imagine você que hoje, quando a própria revista admite que publicou uma denúncia que não pode provar, é possível encontrar colunistas que já falam em impeachment de Dilma.  Está na cara que eles já perderam a esperança de eleger Aécio.

Mas cabe respeitar o funcionamento da Justiça, o prazo de investigações e tudo mais. Ou vamos assumir desde já que o golpe midiático é golpe mesmo?

Com esse comportamento, a mídia brasileira prepara o caminho de sua destruição na forma que existe hoje.  Como se não bastassem os números vergonhosos do Manchetômetro, que demonstram uma postura parcial e tendenciosa, o golpe da semana só fará aumentar o número de cidadãos e de instituições convencidos de que a sobrevivência da democracia brasileira depende, entre outras coisas, que se cumpra a legislação que regula o funcionamento da mídia. Está claro que este será um debate urgente a partir de 2015.

Reproduzido de Paulo Moreira Leite
24 out 2014



Comentário de Filosomídia:

Com certeza que Dilma deveria criar um programa super especializado dentro do Mais Médicos: Mais Psiquiatras! Essa turma - da #VejaBandida, Rede Globo, PSDB e companhia - merece atendimento prioritário! Taca-le camisa de força neles!


Fonte: Estadão

sábado, 19 de novembro de 2011

Tramóias e tutóias em torno de Wladimir Herzog...


Eles não compreendem que não aceitamos isso

Paulo Moreira Leite

Neste momento, você já deve saber que há um panfleto repulsivo em circulação pela internet, procurando estabelecer ligações entre o assassinato de Wladimir Herzog, ocorrido no DOI-CODI paulista, em 1975, e a guerra dos estudantes da USP. No panfleto, vê-se a imagem de Herzog morto. O tom é macabro e festivo. É vergonhoso.

Eu era aluno da USP, em 1975, quando paramos a universidade pela morte de 
Wladimir Herzog. Fizemos uma assembléia na FAU e ali compareceu um dos 
mestres de nosso tempo, o frances Michel Foucault, então em viagem acadêmica pelo Brasil, que foi chamado à mesa.


Na hora combinada, a universidade foi para a Praça da Sé, onde ocorreu um culto ecumênico que marcou a caminhada do Brasil para a construção da nossa democracia.

A catedral estava lotada por dentro e cercada de policiais armados por fora. 
Viaturas interrompiam o caminho, sirene ligada, tentando criar um ambiente de violencia e medo. Mas nós — homens e mulheres do povo, jovens, adultos, adolescentes — cumprimos nosso pequeno papel.


Aquele protesto marcou uma mudança, num país que aos poucos deixava de ser o mesmo. O regime militar não caiu. Levou quase uma década, ainda, para ser substituído por um governo civil. Foi preciso aguardar por 14 anos para se fazer a primeira eleição direta.

Sim, teríamos avanços e retrocessos. Mas depois daquele momento os dias da ditadura passaram a ser contados de trás para frente. 
Vencemos a vergonha do silencio, do temor, da nossa impotencia. Cada um de nós 
voltou para casa convencido de que assassinatos como aquele não iriam se 
repetir. Claro que estávamos enganados. Os bandidos sempre foram muito mais perversos do que podíamos imaginar.


Poucos meses depois, mataram o operário Manoel Fiel Filho, no mesmo lugar, nas 
mesmas circunstancias. Mas o fato é que aprendemos. Fomos capazes de superar cada um dos sentimentos pequenos. Cada pensamento mediocre. Cada gesto covarde. Sem perceber, amadurecemos e ficamos melhores.


Hoje, quando o país vive o mais prolongado e belo regime democrático desde sempre, Wladimir Herzog deve ser honrado como parte dessa mudança e dessa evolução.


Naquele dia de 1975 nós mudamos porque ganhamos a coragem da história. Não aceitamos a censura, nem a mentira, como a montagem feita no porão militar para simular um suicídio. Aprendemos a procurar os fatos inteiros, sem falsificações, sem versões adocidadas ou convenientes. Amando a verdade, deixamos que os responsaveis se perdessem em suas mentiras, tentando fugir de si mesmos e se enconder das novas gerações, as vezes de seus próprios filhos.


De nossa parte, nunca aceitamos nem aceitaremos um desrespeito tão profundo. 
Depois de matar um homem pacífico, desarmado, que se apresentou a uma 
repartição militar, ainda foram capazes de pendurá-lo pelo cinto, só para fingir que 
se enforcava. Foi um insulto, uma infamia.


Sempre que olho a foto de Herzog, reparo dos aspectos humanos: na canela magra aparecendo por baixo da calça, as meias, o sapato social, a cabeleira desgrenhada que até combinava com a época – mas não era aspecto hippie, mas apenas a violencia covarde.

Muitos anos depois, tenho dificuldade para aceitar que um diretor de uma empresa estatal – Herzog era diretor da TV Cultura – pudesse ser chamado a depor num centro de torturas e assassinatos e fosse obrigado a comparecer sòzinho, sem a proteção de superiores, sem protestos preventivos, sem uma multidão para defendê-lo como fariamos dias depois na Sé, quando já era tarde demais.

Até então, parecia que a entrada de um ser humano no açougue que funcionava na rua Tutóia podia ser vista como a coisa mais natural do mundo. De certo modo era. 
Este foi o significado real da morte de Wladimir Herzog. Nunca mais aceitaremos isso.


Não podemos. Felizmente, há coisas que são maiores do que nós e vão nos acompanhar para sempre.

Quem não entendeu nunca compreenderá. Não teve professor, não teve pais. Tentará mentir, falsificar, inventar. Não vai conseguir.

Reproduzido de Blog de Um Sem Mídia via Paulo Moreira Leite na Época
18 nov 2011