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sábado, 22 de março de 2014

Revista Veja: "jornalismo de exceção"


Novo surto de vale-tudo

Por Alberto Dines
18/03/2014 na edição 790
Observatório da Imprensa

Na tarde de 12 de abril de 2011, em aula da primeira edição do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo, da ESPM-SP, Eurípedes Alcântara, diretor de Redação da Veja, na condição de professor-convidado, declarou, para espanto dos 35 alunos presentes: “Tratamos o governo Lula como um governo de exceção”. Na capa da última edição do semanário (nº 2365, de 19/3/2014), o jornalista ofereceu trepidante exemplo da sua doutrina.

Para comprovar a ilegalidade das regalias que gozaria o ex-ministro José Dirceu no Complexo da Papuda,Veja cometeu ilegalidade ainda maior. Detentos não podem ser fotografados ou constrangidos, o ato configura abuso de poder, invasão da privacidade e, principalmente, um torpe atentado ao pudor e à ética jornalística. Um bom advogado poderia até incriminar os responsáveis por formação de quadrilha ao confirmar-se que o autor da peça (o editor Rodrigo Rangel) não entrou na penitenciária e que alguém pagou uma boa grana aos funcionários pelas fotos e as, digamos, “informações”.

“Exclusivo – José Dirceu, a Vida na Cadeia” não é reportagem, é pura cascata: altas doses de rancor combinadas a igual quantidade de velhacaria em oito páginas artificialmente esticadas e marombadas. As duas únicas fotos de Dirceu (na capa e na abertura), feitas certamente com microcâmera, não comprovam regalia alguma.

Ao contrário: magro, rosto vincado, fortes olheiras, cabelo aparado, de branco como exige o regulamento carcerário, não parece um privilegiado. Se as picanhas, peixadas e hambúrgueres do McDonald’s supostamente servidos ao detento foram reais, Dirceu estaria reluzente, redondo, corado. Um preso em regime semiaberto pode frequentar a biblioteca do presídio, não há crime algum.

Agentes provocadores

A grande imprensa desta vez não deu cobertura ao semanário como era habitual. Constrangido, o Estado de S.Paulo foi na direção contrária e já no domingo (16/3) relatava, com chamada na primeira página, as providências das autoridades brasilienses para descobrir os cúmplices do vazamento (ver “Dirceu teria mais regalias na cadeia; DF nega“). Na segunda-feira, na Folha de S.Paulo, Ricardo Melo lavou a alma dos jornalistas que repudiam este jornalismo marrom-escuro (ver “O linchamento de José Dirceu”).

O objetivo da cascata não era linchar Dirceu, o que se pretendia era acirrar os ânimos, insuflar indignações contra uma suposta impunidade, alimentar a agenda dos black-blocks (ou green-blocks?).

Os agitadores e agentes provocadores estão excitadíssimos às vésperas dos 50 anos do golpe militar. O violento quebra-quebra na sexta-feira (14/3), na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) – o maior do gênero na América Latina – não foi provocado pelos caminhoneiros que passariam a pagar pelo estacionamento. Foi obra de profissionais do ramo da agitação política com a inestimável ajuda da PM, que demorou três horas para chegar ao campo de batalha.

As convocações para atos e passeatas destinadas a homenagear o golpe de 1964 não falam na derrubada de Jango, falam em derrotar o PT. Convém lembrar que a rede Ceagesp é, desde 1997, federalizada, ligada ao Ministério da Agricultura.

Num governo de exceção vale tudo. Também no jornalismo de exceção.

***

Depois de três edições e três turmas de valentes profissionais, o Curso de Pós-Graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial, parceria da Editora Abril com a ESPM, foi suspenso. Na véspera do primeiro aniversário da morte de Roberto Civita, está desativada uma de suas mais lindas façanhas no campo da formação profissional. Não merecia. 


18 mar 2014

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Gilmar Mendes & Veja: a pauta do desespero


Gilmar Mendes & Veja: a pauta do desespero

Saul Leblon
Carta Maior
27 mai 2012

A revista que arrendou uma quadrilha para produzir 'flagrantes' que dessem sustentação a matérias prontas contra o governo, o PT, os movimentos sociais e agendas progressistas teve a credibilidade ferida de morte com as revelações do caso Cachoeira. VEJA sangra em praça pública. Mas na edição desta semana tenta um golpe derradeiro naquela que é a sua especialidade editorial: um grande escândalo capaz de ofuscar a própria deriva. À falta dos auxiliares de Cachoeira, recorreu ao ex-presidente do STF, Gilmar Mendes, que assumiu a vaga dos integrantes encarcerados do bando para oferecer um 'flagrante' à corneta do conservadorismo brasileiro. Desta vez, o alvo foi o presidente Lula.

A semanal transcreve diálogos narrados por Mendes de uma inexistente conversa entre ele e o ex-presidente da República, na cozinha do escritório do ex-ministro Nelson Jobim. Gilmar Mendes --sempre segundo a revista-- acusa Lula de tê-lo chantageado com ofertas de 'proteção' na CPI do Cachoeira. Em troca, o amigo do peito de Demóstenes Torres, com quem já simulou uma escuta inexistente da PF (divulgada pelo indefectível Policarpo Jr, de VEJA, a farsa derrubou o diretor da ABI, Paulo Lacerda), deveria operar para postergar o julgamento do chamado 'mensalão'.

Neste sábado, Nelson Jobim, insuspeito de qualquer fidelidade à esquerda, desmentiu cabalmente a versão da revista e a do magistrado. Literalmente, em entrevista ao Estadão, Jobim disse: 'O quê? De forma nenhuma, não se falou nada disso. O Lula fez uma visita para mim, o Gilmar estava lá. Não houve conversa sobre o mensalão; tomamos um café na minha sala. O tempo todo foi dentro da minha sala (não na cozinha); o Lula saiu antes; durante todo o tempo nós ficamos juntos", reiterou.

A desfaçatez perpetrada desta vez só tem uma explicação: bateu o desespero; possivelmente, investigações da CPI tenham chegado perto demais de promover uma devassa em circuitos e métodos que remetem às entranhas da atuação de Mendes e VEJA nos últimos anos. Foram para o tudo ou nada. No esforço para mudar o foco da agenda política e criar um fato consumado capaz de precipitar o julgamento do chamado 'mensalão', jogaram alto na fabricação de uma crise política e institucional. O desmentido de Jobim nivela-os à condição dos meliantes já encarcerados do esquema Cachoeira. A Justiça pode tardar. A sentença da opinião pública não.

Reproduzido de Carta Maior
27 mai 2012

Leia também:


"O Supremo precisa chamar Gilmar às falas", na página de Luís Nassif Online (27/05/12) clicando aqui.


"Os antecedentes de Gilmar Mendes", em Brasilianas (27/05/12) clicando aqui.


"Cachoeira grampeou o Supremo?", na página de Luís Nassif Online (27/05/12) clicando aqui.


"Gilmar revive tabelinha com Veja", na página de Luís Nassif Online (26/05/12) clicando aqui.

"Advogado pede o impeachment de Gilmar Mendes ao Senado e à OAB", no Conversa Afiada (15/05/11) clicando aqui.

sábado, 19 de maio de 2012

Caso Veja: Ecos do passado


Caso Veja: Ecos do passado

Denise Assis* . Rio de Janeiro
18/5/2012

A História tem seus ciclos e estes tendem a se repetir. Porém, quando não tratada com seriedade e atenção, quando os fatos evidenciados em algum período não são devidamente esmiuçados e levados em conta pela sociedade, eles se repetem mais rapidamente. Com este nariz de cera assumido, pretendo desaguar nos fatos vindos à tona agora, com a CPMI do Carlinhos Cachoeira, com relação à revista Veja.

O que a revista Veja fez, nada mais é do que a repetição dos métodos de atuação do Instituto de Pesquisase Estudos Sociais (Ipês), no período compreendido de 1962 a 1964, quando amparado de forma escancarada pela mídia, atingiu o seu objetivo: o golpe.

Foi desta e de outras formas, tais como as gordas doações para reforçar os cofres do instituto, que a sociedade civil participou da derrubada do presidente João Goulart.

Tivesse ele um cenário intrincado para governar, ou limitações para conduzir o momento político delicado, foi a campanha desenfreada, custeada por empresários, multinacionais e simpatizantes (incluindo os donos de veículos de Comunicação), que minaram o seu poder e despertaram na sociedade a ânsia por mudanças. Fosse da forma que fosse.

E da maneira que foi, um golpe, os destinos do país caminharam para os rumos sombrios que agora conhecemos e começamos a autopsiar. Esse é o risco. No calor da hora ninguém vislumbra a tragédia que está a um palmo do nariz. Importa apenas impor seus interesses e surrupiar o poder. E poder, hoje, não se limita à cadeira de presidente. Já se sabe. Pelo muito ou pouco que se ouviu das gravações vazadas, sabe-se que o poder hoje é o casamento da política com a economia, e de forma espantosa.

Ao mapear pioneiramente o incrível sistema montado por Golbery do Couto e Silva no Ipês, que acabaria desembocando na vitória do golpe, o cientista político René Armand Dreifus, (1964: AConquista do Estado – Ação Política, Poder e Golpe de Classe – lançado em 1981) nos apontou a fórmula que hoje é usada por Veja. Outros autores trataram do tema, e em meu livro: Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe, lançado em 2001, o assunto voltou a ser enfocado, desta vez aproximando a lupa na direção desse resultado: a atuação da mídia e do cinema enquanto armas de convencimento. Para o bem ou para o mal.

Não foi, portanto, falta de aviso, de que o método era eficiente. Quero crer que houve, sim, um alheamento conveniente, já que “os tempos eram outros”. Eram, mas o vento sempre pode virar. Com outra roupagem, agora com o auxílio de tecnologias mais sofisticadas, mas a mesma intenção: o poder. O que o grupo de Cachoeira não avaliou, no entanto, foi que a tecnologia pode falhar (vide o Nextel que permitiu o grampo, quando não era o esperado), ou pode trabalhar, agora, a favor dos caluniados. Não apenas os “grampos”, que isto é do tempo dos arapongas, mas a Internet, que está aí para infernizar a vida dos que pensam poder articular à sorrelfa contra o poder constituído, instituições, pessoas. Não podem. Em tempos de Carolina Dieckmann e de internautas politizados, a verdade termina por vir à tona.

* Denise Assis é jornalista e colaboradora do Correio do Brasil.

Reproduzido de Correio do Brasil

terça-feira, 8 de maio de 2012

Veja e vocês, tudo a ver: "um calunia, outro repercute, o terceiro arrecada...


Miro Teixeira e a defesa da Veja

Por Carlos Lopes
Jornal Hora do Povo

Alguns jornais publicaram que o deputado Miro Teixeira irá propor, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que jornalistas – por exemplo, o parceiro de Carlos Cachoeira, Policarpo Jr., da “Veja” - não pudessem ser convocados à CPMI para depor. Segundo o deputado, o citado dispositivo legal proibiria “o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo”.

Se for verdade a notícia, trata-se de um engano do deputado. As razões para convocar Policarpo Jr. nada têm a ver com o ofício de jornalista. Pelo contrário, o problema é exatamente que ele usou o suposto ofício de jornalista para atividades estranhas à profissão, isto é, usou-a como fachada para estabelecer conluio com um criminoso. Portanto, não é por suas atividades jornalísticas, mas por suas atividades criminais, que Policarpo Jr. deve ser chamado a depor.

Seria uma original doutrina jurídica a que estabelecesse que jornalistas podem cometer crimes e não depor porque têm de manter sigilo. Muito pelo contrário, a lei não apenas veda a qualquer cidadão – inclusive a supostos jornalistas – a cumplicidade com o crime, como também veda aos jornalistas cometer eles mesmos o crime, inclusive nas suas funções: por exemplo, falsificar ou inventar fatos para difamar pessoas ou golpear instituições, não é jornalismo, mas crime. Pior ainda quando, para isso, se recorre aos préstimos de um bandido – e durante oito anos se acoberta esse bandido.

Segundo: o artigo 207 do Código de Processo Penal diz exatamente o seguinte: “São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho”.

Entre os ofícios que a lei reconhece que devem guardar segredo, não está, certamente, o de parceiro de um criminoso. Nesse caso, inclusive, a “parte interessada” está na cadeia. Não há segredo ou sigilo a preservar. As provas do inquérito da Polícia Federal são públicas. Policarpo Jr. não vai depor sobre nenhum segredo, mas, exatamente, sobre o que já deixou de ser segredo. Logo, o mencionado artigo do Código de Processo Penal não se aplica a ele.

Terceiro, Policarpo Jr. já depôs, em virtude de uma CPI, no Conselho de Ética da Câmara, quando o então deputado André Luiz foi acusado de extorsão ao sr. Carlos Cachoeira no caso da Loterj. No dia 22 de fevereiro de 2005, Policarpo Jr. depôs contra André Luiz, portanto, a favor de Carlos Cachoeira, e não arguiu nem pretextou sigilo, apesar das ligações ocultas que mantinha com o polvo do Centro-Oeste.

Portanto, a argumentação do deputado Miro Teixeira equivale a estabelecer que Policarpo Jr. só pode depor, como já fez, para defender Cachoeira ou atacar seus desafetos. Não seja por isso. Estamos ansiosos para ver Policarpo Jr. defender Cachoeira na CPMI ou atacar os inimigos do bicheiro. O que é mais uma razão para chamá-lo à CPMI. O deputado deveria perceber que dar um salto ornamental nessa fossa não vale algumas linhas na “Veja”, mais suja do que pau de galinheiro, ou seja lá onde for. Até porque essa malta é muito ingrata e não vai ser ela que lhe proporcionará os votos que precisa, e que já estão escassos. O deputado terá de contar com os eleitores – ainda por cima, os do Rio de Janeiro.

08 mai 2012


Leia também:


"A Record desnudou a Veja e no JN outra pelada", por Diego Pegnone (07/05/2012) clicando aqui.