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domingo, 17 de junho de 2012

Oswaldo Giacóia Jr.: a diáspora de convicções, mídia e filosofia


Vivemos uma diáspora de convicções e somos direcionados pela mídia, diz filósofo Oswaldo Giacóia Jr.

“Nós vivemos numa sociedade leiga, essencialmente marcada por um pluralismo de cosmovisões. Então não existe mais aquele tipo de mentalidade monolítica, que tinha uma certa garantia de verdade, chancelada ou religiosamente ou metafisicamente. Pelo contrário, nós vivemos hoje numa espécie de diáspora de convicções. Cada uma delas sustentando seu próprio direito, e esse direito efetivamente só pode ser assegurado no caso de uma sociedade multicultural como a nossa e essencialmente pluralista do ponto de vista ético, a partir da argumentação.

Desde que você não queira impor alguma coisa, nem pela força nem pela astúcia, a única via possível de legitimação de pretensões é a via argumentativa. Esse é um elemento que complica bastante nossas relações hoje. Nós não temos mais o recurso mais ou menos rápido e cômodo de invocar a vontade de Deus. Não, “eu creio” é uma afirmação que tem de exibir seus títulos de crédito. Se você não for capaz de exibir esses títulos de crédito não está suficientemente qualificado para participar do debate público.

Uma sociedade multicultural, eticamente plural como a nossa, mas uma sociedade de massa, tem necessariamente que conviver com certos riscos de manipulação em termos de formação, de formatação de opinião, que são capazes de engendrar uma espécie de aparência de liberdade, uma aparência de formação livre de convencimento, onde de fato há uma espécie de direcionamento prévio. O exemplo mais claro que posso oferecer para vocês disso é a formatação do debate cultural pela agenda da sociedade, digamos, ligada aos interesses da grande imprensa hoje.

Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não são questões que nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. De tal maneira que nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos, porque aquilo já está dado antes. Já está pautado antes pela imprensa”.

Reproduzido de Educação Política por Glauco Cortez
17 jun 2012

(Texto integral na Revista E), reproduzido abaixo:

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Oswaldo Giacóia Jr. dedica-se à pesquisa em filosofia moderna e contemporânea, com ênfase em história da filosofia e ética, ocupando-se de temas como teoria da cultura, filosofia do direito, filosofia social e política. É autor de Pequeno Dicionário de Filosofia Contemporânea (Publifolha, 2006), Nietzsche & para além de Bem e Mal (Zahar, 2005) e Nietzsche – Para a Genealogia da Moral (Scipione, 2001).

Em encontro realizado pelo Conselho Editorial da Revista E, o convidado desta edição falou sobre a importância de se compreender a filosofia em relação a outras esferas da cultura, das ciências, das artes e, sobretudo, da política, além de comentar sobre a demanda de filósofos em setores da sociedade civil. “Isso pode parecer uma espécie de consultoria de luxo, mas não é. Embora pessoas eventualmente nos procurem com demandas nesse sentido, como se fosse possível você dar soluções padronizadas para serem consumidas com uma certa facilidade. A filosofia não tem absolutamente nada o que dizer nesse sentido. Pelo contrário, a função da filosofia é colocar em questão esse tipo de convicção apressada”, diz. A seguir, trechos da conversa.

Filosofia e outras áreas do saber

Acho que filosofia é, fundamentalmente, uma relação com a linguagem. Destacaria aqui a relação com a psicologia, psicanálise, antropologia, sociologia e também com certos setores do direito – em particular, com a filosofia do direito. E com a filosofia política. Porque penso que as questões filosóficas não podem efetivamente ser compreendidas se forem amputadas de suas relações com outras esferas da cultura.

Penso que fazer filosofia hoje é um desafio muito grande porque exige daquele que se dedica a ela não somente esse domínio bastante específico da competência filosófica, mas também essa abertura para um enfrentamento das questões que são de natureza filosófica e que são colocadas para a filosofia do espaço propriamente das outras esferas da cultura, das ciências, das artes e, sobretudo, da política.

Somos frequentemente confrontados por questões que surgem no âmbito da física, da mecânica, da matemática, da informática, das ciências médicas, em particular no entrecruzamento que se faz, por exemplo, entre a neurofisiologia e as ciências informáticas, que colocam questões filosóficas absolutamente incontornáveis.

Questões éticas, por exemplo, no caso das práticas clínicas, como itens da genética e da biologia molecular, que constituem para nós hoje um campo muito fértil. Além de questões que nos são colocadas e que sempre nos acompanharam ao longo desses milênios de história, por exemplo, no campo da religião – nessa confluência que há entre o desenvolvimento técnico-científico e os valores éticos, morais e religiosos de uma sociedade como a nossa.

Consultoria filosófica

Outro exemplo de onde surge um pulso bastante forte, bastante motivador em relação a filosofia e sociedade, é a demanda que cada vez se torna mais expressiva e mais intensa por parte de setores organizados da sociedade civil que nos buscam a fim de ajudá-los a pensar algumas questões postas em suas próprias práticas. Por exemplo, organizações como a OAB, a escola da magistratura da justiça federal, a escola da magistratura da justiça estadual, a escola do ministério público.

Acho que as questões mais importantes que surgem hoje para a filosofia política nascem do campo do direito, sobretudo o debate atual sobre direitos humanos. Questões relativas, por exemplo, a Estado, soberania, cidadania, teorias da justiça ou então ligadas à discussão de princípios, como o constitucionalismo, os impasses atuais do estado nacional.

Quando disse que somos procurados por setores organizados da sociedade civil, isso pode parecer uma espécie de consultoria de luxo, mas não é. Embora pessoas eventualmente nos procurem com demandas nesse sentido, como se fosse possível você dar soluções padronizadas para serem consumidas com uma certa facilidade. A filosofia não tem absolutamente nada o que dizer nesse sentido. Pelo contrário, a função da filosofia é colocar em questão esse tipo de convicção apressada.

Manipulação da opinião pública

Nós vivemos numa sociedade leiga, essencialmente marcada por um pluralismo de cosmovisões. Então não existe mais aquele tipo de mentalidade monolítica, que tinha uma certa garantia de verdade, chancelada ou religiosamente ou metafisicamente. Pelo contrário, nós vivemos hoje numa espécie de diáspora de convicções. Cada uma delas sustentando seu próprio direito, e esse direito efetivamente só pode ser assegurado no caso de uma sociedade multicultural como a nossa e essencialmente pluralista do ponto de vista ético, a partir da argumentação.

Desde que você não queira impor alguma coisa, nem pela força nem pela astúcia, a única via possível de legitimação de pretensões é a via argumentativa. Esse é um elemento que complica bastante nossas relações hoje. Nós não temos mais o recurso mais ou menos rápido e cômodo de invocar a vontade de Deus. Não, “eu creio” é uma afirmação que tem de exibir seus títulos de crédito. Se você não for capaz de exibir esses títulos de crédito não está suficientemente qualificado para participar do debate público.

Uma sociedade multicultural, eticamente plural como a nossa, mas uma sociedade de massa, tem necessariamente que conviver com certos riscos de manipulação em termos de formação, de formatação de opinião, que são capazes de engendrar uma espécie de aparência de liberdade, uma aparência de formação livre de convencimento, onde de fato há uma espécie de direcionamento prévio. O exemplo mais claro que posso oferecer para vocês disso é a formatação do debate cultural pela agenda da sociedade, digamos, ligada aos interesses da grande imprensa hoje.

Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não são questões que nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. De tal maneira que nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos, porque aquilo já está dado antes. Já está pautado antes pela imprensa.

Essa questão, por exemplo, do Big Brother. Há uma série de perguntas a serem feitas acerca da autenticidade, da revolta ou da suscetibilidade moral popular a respeito do estupro ou não, questões que antecedem a essa. Em que medida um tipo de programação como essa é imposta à sociedade brasileira sem que haja discussão sobre os critérios que determinam esse tipo de imposição, como os critérios mercadológicos?

Por que as cotas de mershandising desse programa são tão altas e tão caras? Por que esse programa ainda está no ar? Por que as pessoas que demonstram indignação em relação ao possível estupro que houve continuam validando o mesmo tipo de relação mercantil? Isso não é discutido. O que é discutido é se houve ou não estupro.

“Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não (...) nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. (...) Nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos porque aquilo já está dado antes (...) pela imprensa”

Reproduzido de Revista E 179 SESC SP
Via Educação Política por Glauco Cortez
17 jun 2012

Foto: O professor e doutor em Filosofia Oswaldo Giacóia Jr. esteve presente na Reunião do Conselho Editorial da Revista E em 16 de fevereiro de 2012. Foto de Adriana Vichi


quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Importa ser misericordioso"...


Não basta ser bom, importa ser misericordioso

Ele não se propôs fundar uma nova religião. Nem pretendeu que as pessoas fossem mais religiosas. Mas o que de fato quis, foi que todos, com a religião ou sem ela, fossem mais humanos, solidários, fraternos, justos, amorosos e misericordiosos

Leonardo Boff
04/04/2012

A Semana Santa nos convida a pensar sobre o sentido maior de nossas vidas à luz daquele que foi radicalmente humano e por isso também divino. Ele não se propôs fundar uma nova religião. Nem pretendeu que as pessoas fossem mais religiosas. Mas o que de fato quis, foi que todos, com a religião ou sem ela, fossem mais humanos, solidários, fraternos, justos, amorosos e misericordiosos.

Para Jesus não bastava ser bom. Tinha que ser misericordioso. Só assim seria plenamente humano. O Deus que anunciava era um Pai bom mas principalmente era um Pai misericordioso. Sentir a dor do outro, abaixar-se até o seu nível e compreender sua vulnerabilidade sem logo julgá-la, constituía a originalidade de sua mensagem.

Ela é atualíssima. Num mundo cruel e sem piedade, onde nações são arrasadas pela voracidade do capital que as mergulha em dívidas, como se faz urgente e necessária esta virtude escandalosa e tão radicalmente humana que é a misericórida.Precisamos trazer de volta a figura do Pai bom mas fundamentalmente misericordioso.

Se há um eclipse da figura do pai na sociedade moderna, há também uma saudade por sua volta, já testemunhada há séculos por Telêmaco, filho de Ulisses, na Odisséia de Homero: “Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria, seria a volta do pai”. Curiosamente esta volta é augurada pelo Cristianismo, numa página memorável de São Lucas ao falar da volta do pai ao filho pródigo.

Para compreender esta volta do pai, importa situar a parábola no contexto da prática e da proposta de Jesus. É um dado historicamente assegurado que Jesus circulava entre pessoas de má companhia e que comia com elas. Comer era considerado, para os critérios do tempo, um sinal de amizade. Naturalmente provocava escândalo entre as pessoas piedosas que passavam a criticá-lo.

Por que Jesus assumia um comportamento assim ambíguo? Responder a isso é identificar sua experiência espiritual e sua forma de entender Deus. Jesus experimentou um Deus que é Pai de infinita bondade e que, por isso, assumiu características de mãe: acolhe a todos, a bons e a maus e revela uma misericórdia ilimitada. A forma como Jesus expressa a misericórdia de Deus é ser ele mesmo misericordioso, coerente com o que aconselhava aos outros: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Em razão disso, se misturava às pessoas de má fama para que, em contacto com ele, pudessem sentir a misericórdia divina.

Para facilitar a compreensão dos piedosos que se escandalizavam, narra três parábolas: a da moeda perdida, a da ovelha desgarrada e a mais conhecida de todas, a do filho pródigo. Cada parábola termina com estas palavras consoladoras: “alegrai-vos comigo porque encontrei a ovelha desgarrada, a moeda perdida e porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”.

Precisamos ser duros de coração e faltos de espiritualidade para não apreciarmos essa experiência de Deus como Pai de misericórdia. Como o amor é incondicional, incondicional é também a misericórdia. Nisso a parábola do filho pródigo é explícita. A novidade não reside no fato de o filho voltar ao pai, depois de haver esbanjado tudo e se encher de remorsos e de saudades. A novidade reside no fato de o pai voltar ao filho: ao vê-lo na curva da estrada, o pai corre-lhe ao encontro, lança-se ao pescoço e cobre-o de beijos. Não lhe cobra nada. Ao contrário, prepara-lhe uma festa.

Com isso Jesus quis deixar claro: Deus é um Pai materno ou uma Mãe paterna que sempre volta para os filhos e filhas, por malévolos que sejam, porque nunca lhe saem do coração.

As Igrejas, diferentes de Jesus, raramente se voltam para as pessoas para que façam uma experiência de misericórdia. Antes, continuam a aterrorizar as consciências com as chamas do inferno. Escolhem o caminho do moralismo, reforçando o medo que mantém cativa a liberdade e torna triste a vida.

Jesus mesmo denuncia essa atitude, presente no filho bom que ficou em casa, à sombra do pai. Ele se nega a voltar para o irmão. Quer a observância da norma e a aplicação do castigo. Esse filho bom é o único a ser criticado por Jesus. Para Jesus não basta sermos bons. Importa sempre voltar para o outro e mostrar amor e misericórdia.

Pai e filho voltam um ao outro: fecha-se o círculo e irrompe então a irradiação da plena humanidade.

Reproduzido de Brasil de Fato
04 abr 2012
Via Faceook

quinta-feira, 29 de março de 2012


Sorria meu bem


Dos filósofos gregos aos cientistas de nosso tempo, todos dizem a mesma coisa: bom humor é fundamental

Eugenio Mussak


Sócrates preconizava o humor e era bem-humorado, ao contrário de Platão, que considerava o riso um sinal de fraqueza de caráter. Platão abriu uma escola. Sócrates ensinava na praça. Foi acusado de subversão dos costumes, preso e levado ao suicídio compulsório. Disse o juiz:

- Você está condenado à morte.

Com a calma dos sábios, Sócrates respondeu:

- Grande coisa. O senhor também.

Esses dois gênios mostram que não existem pessoas bem ou mal-humoradas: há as que se permitem ser e as que não. E isso depende mais da educação que recebemos, da atitude pessoal, que da genética ou da situação em que nos encontramos.

E, se temos o direito de escolher entre a graça e o tédio, há boas razões para preferir a primeira: a ciência e a sabedoria dos antigos, mas principalmente nossa própria experiência, ensinam que precisamos do humor para o equilíbrio físico, mental e espiritual. Mesmo se estivermos condenados à morte.

Rir para equilibrar

Os antigos usavam a palavra “humor” para designar os líquidos do corpo que estariam ligados à saúde da pessoa e, como conseqüência, a seu estado de espírito. Hipócrates os estudava. Segundo o pai da medicina, os quatro humores circulantes eram o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra. Do equilíbrio dos quatro dependia o equilíbrio do corpo, a saúde.

Como a saúde do corpo interfere na condição psicológica da pessoa, bem como recebe influência desta, foi natural que se estabelecesse rapidamente uma relação entre os humores e o comportamento. Uma pessoa alegre, de bem com a vida, estava de bem com seus humores. Era, portanto, uma pessoa bem-humorada. Pronto, de Hipócrates a Patch Adams em dois parágrafos.

Este último é o médico que criou a ONG Doutores da Alegria, composta por pessoas que usam o humor para acelerar a recuperação de pacientes em hospitais, especialmente crianças, com resultados comprovados. Patch Adams conta que adotou um temperamento alegre depois de ter sido internado como depressivo. Chegou à conclusão que tristeza ou alegria podem ser resultados de decisão pessoal, e que o poder de influencia dessas duas condições sobre o destino de cada um é enorme.

Até notórios mal-humorados, como Freud, estiveram preocupados com o tema. Em 1905, ele publicou um livro chamado Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, com estudos sobre o humor, a comédia e o gracejo, utilizando os princípios gerais da psicanálise.

Freud acreditava que nossos sonhos seriam a manifestação de idéias latentes, que se apresentam com imagens um tanto diferentes da realidade – e às vezes criam até uma caricatura dela. No Livro dos Chistes, o grande psicanalista afirma que o humor usa as mesmas ferramentas que utilizamos para construir o sonho. E que tanto o sonho quanto o humor são necessários para aliviar tensões internas e descarregar energias destrutivas.

De acordo com Freud, por meio do sonho elaboramos nossas frustrações e nos equilibramos, e através do humor também. A diferença consiste no fato de que, enquanto o humor é uma forma de comunicação interpessoal, o sonho é a mais natural das formas de comunicação intrapessoal. O sonho é solitário. E o humor “é a mais social das funções psicológicas destinadas à obtenção do prazer”.

(...)

Riso filosófico

O humor não mira um indivíduo ou uma instituição, mas a própria condição humana. É uma espécie de riso filosófico, em que o homem compara a finitude do mundo e da própria vida com o infinito da idéia.

Costumo dizer que o pensamento diferencia os seres humanos dos animais, enquanto a qualidade do pensamento diferencia as pessoas entre si. Temos também que somos o único animal que ri (a hiena só engana) e, da mesma forma, a qualidade do humor nos diferencia uns dos outros. Uns têm mais, outros menos, alguns têm demais (e ganham fortunas com isso), outros não têm nenhum (e quem os agüenta?). E há os que têm mas não sabem usar, ou o expressam de maneira torta, ou na hora errada.

Ser bem-humorado não significa adquirir talento para contar piadas – embora você possa fazer isso (há muita gente “séria” se descobrindo em cursos para palhaços, por exemplo).

Também não quer dizer que você tenha de fazer troça de tudo e de todos, ou jamais conter um trocadilho, por pior que seja – ainda que você tenha o direito de experimentar como e quando um comentário engraçado ou nonsense pode cair bem.

O estado do qual estamos falando é muito mais o do olhar bem-humorado, o da sensação plena de “bem-humorança”. Tem mais a ver com sentir-se de bem consigo mesmo, com os outros, com a vida. É a medida ideal.

Bem, de tudo que já li, de tudo que observo, e também agora, enquanto buscava insumos para este texto, não encontrei nada de valor que pudesse arranhar a nobreza desta idéia: sorria.

Você pode até “reprogramar” seu cérebro, ou abraçar uma seita – há mil maneiras de encontrar a felicidade. Mas esta, sem dúvida, é a receita de maior bom senso no mercado: sorria, e veja o mundo sorrindo ao seu redor.

Porque está provado que bom humor atrai bom humor. “O sorriso e o motivo para sorrir estão sempre juntos, não importa qual dos dois chegou primeiro” (esta eu copiei não sei de onde).

Revista Vida Simples nº10, 01/10/2003
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.

Todos os direitos reservados.


Reproduzido do Blog de Eugenio Mussak via Facebook Pedagogia UFSC
Acesso em 29 mar 2012.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O discurso de Slavoj Zizek no Occupy Wall Street


A tinta vermelha: o discurso de Slavoj Žižek no Occupy Wall Street

Slavoj Žižek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar ao acampamento de manifestantes do movimento Occupy Wall Street, que vem protestando contra a crise financeira e o poder econômico norte-americano desde o início de setembro deste ano.

O filósofo enviou a íntegra de seu discurso que foi originalmente publicado no blog da Boitempo. Segue abaixo em tradução de Rogério Bettoni.

“Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?

Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…

Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha."

Reproduzido do Opera Mundi . 11 out 2011

Assista aos vídeos e clique em CC (Closed Caption)





Conheça mais sobre Slavoj Žižek clicando aqui e numa entrevista com Jorge Pontual clicando ali.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Franco Berardi Bifo: ensinando insurreição e uma escola de revolta


“Franco Berardi, mais conhecido por Bifo (Bolonha/Itália, 1949) é um filósofo e agitador cultural italiano" (Wikipédia).

Conheci o trabalho de Bifo no hoje desativado site rizoma e em alguns textos do Peter Pál Pelbart. Fiquei bem interessado com a forma como ele relaciona comunicação e resistência. Guattari e Bifo tiveram ligaçoes com a emergência das rádios livres na europa nas décadas de setenta e oitenta. Infelizemente tem pouca coisa dele traduzida aqui no Brasil; de livros apenas a Fábrica da Infelicidade.

O texto mais recentes de Bifo que encontrei (de 2009) foi publicado no
generation-online, site que tem algumas traduções para o inglês de autores da crítica italianos, como o famoso Antonio Negri, e Paolo Virno que também trabalha com o conceito de multidão, entre outros.

Segue abaixo parte do texto que trata da crise atual do capitalismo e das potencialidades da crise. Tradução (livre) do inglês é minha do original que se encontra aqui.

Diego de Carvalho
Blog Pesquisa, Resistência e Outras Coisas

Leia mais sobre Franco Berardi no Blog Pesquisa, Resistência e Outras Coisas clicando aqui.



Franco Berardi Bifo all'Accademia di Brera, Milano


Teaching Insurrection - Franco Berardi Bifo | Through Europe from Through Europe on Vimeo.


A scuola di rivolta - Franco Berardi Bifo | Through Europe from Through Europe on Vimeo.

"I would like to talk about something that everybody knows, but that, so it seems, no one has the boldness to say. That is, that the time for indignation is over. Those who get indignant are already starting to bore us. Increasingly, they seem to us like the last guardians of a rotten system, a system without dignity, sustainability or credibility. We don't have to get indignant anymore, we have to revolt".

"Vorrei parlare di una cosa che tutti sappiamo ma che nessuno sembra avere la spudoratezza di dire: e cioè che il tempo dell'indignazione è passato e chi si indigna già comincia ad annoiarci, comincia a parerci ogni giorno di più l’ultimo difensore di un sistema marcio, di un sistema privo di dignità, privo di sostenibilità, privo di credibilità. Noi non ci dobbiamo più indignare, noi dobbiamo insorgere".

Leia a transcrição dos vídeos na página de Trough Europe clicando aquiaqui.
16 mar 2011


Vídeos de Sabrina Grasso
Via Pier Cesare Capucci . Facebook e Trough Europe

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dissertação: "Dissertatio é isto: conte uma história"


Contação de história – o que é isso?



"Infelizmente, não são poucos os estudantes de mestrado que não sabem contar uma história. Eles não são bons para contar uma piada, não são bons para contarem um “causo” e não conseguem colocar no papel algo que atraia um leitor de bons jornais. Sendo assim, especialmente no campo das Humanidades, um tal inepto candidato a professor universitário não deveria ser professor universitário.

A culpa de termos péssimos contadores de história como professores universitários não deriva de algo como “somos um povo sem memória” ou “somos um povo de escolarização sofrida, fraca”. Isso é verdade, mas não é isso que nos faz termos na cultura universitária pessoas que, pela lei da profissão deveriam ser bons contadores de história e, no entanto, não são. O problema está no modo como a cultura universitária se esqueceu do próprio entendimento do que é uma dissertação. Dissertatio – é isto: conte uma história. Comece por “Minhas férias” ou “O carro do papai” e passe pela “A mulher na Guerra do Paraguai” ou “Distúrbios da fala da criança na pré-escola” ou “A lógica de Santo Anselmo”. Todavia, esse fio condutor se perdeu. O estudante quer “fazer pesquisa”. E quer uma chave milagrosa para, da pesquisa, produzir seu texto. Ele imagina, estupidamente, que fazendo a disciplina (!) “Métodos e técnicas de pesquisa” ou a disciplina “Metodologia científica” ele conseguirá resolver seu problema, o de produzir sua dissertação. O que ele não sabe é que não é aí que mora o problema. O problema todo está lá na escola primária dele. Ele não foi educado fazendo o “ditado”, a “descrição”, a “interpretação” e, finalmente, a “dissertação” – a “redação”, diriam alguns. Ele não aprendeu a contar uma história".

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

02/03/2011

Leia o texto completo na página do autor clicando aqui.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Los medios de comunicación y cómo la imaginación está siendo secuestrada por los grandes “fantasiosos” del sistema


Santiago Alba Rico*

"El escritor y filósofo Santiago Alba ofrece en una entrevista para ATTAC TV una visión antropológica sobre cómo actúa y qué es una sociedad de consumo y sus consecuencias en relación con el sistema capitalista. Además, explica también qué es el gag visual y los peligros que encierra, y ofrece su punto de vista acerca de las posibles alternativas frente al capitalismo. Por último, también nos da su opinión sobre la manera en que operan hoy en día los medios de comunicación y cómo la imaginación está siendo secuestrada por los grandes “fantasiosos” del sistema como puedan ser las grandes multinacionales y los mercados".

Assista a entrevista clicando aqui.

Leia mais sobre o autor na página de Rebelión clicando aqui.


Santiago Alba Rico (Madrid, 1960) estudió filosofía en la Universidad Complutense de Madrid. Entre 1984 y 1991 fue guionista de tres programas de televisión española (el muy conocido La Bola de Cristal entre ellos). Ha publicado artículos en numerosos periódicos y revistas y, entre sus obras, se cuentan los ensayos "Dejar de pensar", "Volver a pensar", "Las reglas del caos" (libro finalista del premio Anagrama 1995), "La ciudad intangible", "El islam jacobino", “Vendrá la realidad y nos encontrará dormidos”, “Leer con niños”, “Capitalismo y nihilismo” y "El naufragio del hombre", así como dos antologías de sus guiones: “Viva el Mal, viva el Capital” y “Viva la CIA, viva la economía”.


Es también autor de un relato para niños de título "El mundo incompleto" y ha colaborado en numerosas obras colectivas de análisis político (sobre el 11-S, sobre el 11-M, sobre Cuba, sobre Venezuela, Iraq, etc.).

Leonardo Boff: Não há outra alternativa que o socialismo


"O teólogo ecologista brasileiro Leonardo Boff fala nesta entrevista das contradições dos governos progressistas na América Latina, e assinala que “é importante que os movimentos sociais populares, que têm uma alternativa, uma visão humanista, espiritual, de respeito pelas pessoas, se transformem em um grito de protesto, uma resistência e que não aceitem as soluções que lhes dêem”.

PROJETO CHAKANA

O Eco Teología da Libertação

Enquanto existam pobres, segue vigente a Teologia da Libertação. Mas acrescentamos algo mais, porque a Teologia da Libertação nasceu escutando o grito do oprimido, mas não só os pobres, as mulheres, os indígenas, os afro latino-americanos gritam, senão também grita a Terra, gritam os animais, gritam os bosques. Então, dentro da opção pelos pobres, tem-se que inserir ao grande pobre, que é a Terra. Daí nasceu e segue uma vigorosa Eco Teologia da Libertação, muito largamente difundida como uma das respostas à crise atual, que está por todas as partes do mundo.

O papel do conhecimento indígena

Tenho a idéia, a convicção, de que os povos originários são portadores de uma sabedoria ancestral, de uma maneira de relacionar com a Terra, mas não como um cofre de recursos, nem como algo morrido nem para ser explodido, senão a Terra como pachamama, como mãe, onde nasce a veneração, o respeito, o sentido comunitário da convivência, a produção. Não para o enriquecimento, senão a produção para o necessário, o suficiente para todos. Então aqui há valores que nós, a cultura dominante, perdemos e que os povos originários nos recordam. Por aí passa o futuro da humanidade, da importância de dar-lhes centralidade a eles, os escutar, porque isso nos ajuda a encontrar um caminho que tem futuro.

O legado de Paulo Freire

Para nós não há outro caminho que não seja esse que Paulo Freire nos ensinou com A pedagogia do oprimido. Isto é, no fundo ninguém é pobre. Tudo tem uma riqueza porque a cada pessoa pensa, produz valores, e o pobre não é um pobre, é um oprimido, um fato pobre, um empobrecido. E quando os empobrecidos se reúnem, criam uma força e se fazem sujeitos da sua libertação. Então os pobres unidos fazem um movimento de libertação. Não é o Estado, nem a Igreja, nem as pessoas de boa vontade as que vão libertar aos pobres. São os pobres mesmos, quando elaboram uma consciência, um projeto, se unem, e nós entramos como aliados pela porta de atrás, os apoiando, caminhando juntos. Então Paulo Freire ensinou-nos isso, que eles têm uma força histórica e que eles podem mudar a sociedade, e que nós junto a eles aceleramos esse processo".

Leonardo Boff

Leia a entrevista completa na página do Diário Liberdade clicando aqui.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Os pecados do curso de Pedagogia


"Caso eu tivesse de escolher um curso que gosto, mas que eu não faria, eu escolheria o curso de pedagogia. Ao menos não o faria se, para tal, eu tivesse de enfrentá-lo do modo como hoje este curso é desenvolvido na maioria das boas universidades. Do modo como ele tem caminhado, encontro cinco pontos problemáticos que parecem impossíveis de serem ultrapassados. Esses pontos giram em torno dessas cinco palavras: clássicos, estudo, infância, conteúdos e estágio. Olhando para essas palavras, fico com vontade de elencar cinco pecados do curso de pedagogia. Exponho-os de modo breve.

Pecado 1: carência de leitura dos clássicos da educação.
Pecado 2: Excesso de entrega de trabalhos e falta de horas de estudo.
Pecado 3: inexistência de estudos a respeito da infância.
Pecado 4: o curso de pedagogia é negligente quanto aos conteúdos do ensino fundamental.
Pecado 5. Excesso de estágio.

Podíamos ter um melhor ensino do mundo se conseguíssemos escapar desses cinco pecados no Brasil. Mas duvido que façamos isso, adoramos ser pecadores aqui do lado de baixo do Equador".

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
08 jul 2010

Leia o texto completo no Blog do Filósofo clicando aqui.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Homo Videns: Televisão e Pós-pensamento, de Giovanni Sartori


Liberais contra a TV?

Nos anos 1970/80, era da esquerda — em especial a marxista — que procediam as críticas mais ferozes aos media, particularmente à televisão. Na esteira da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer e Marcuse), alguns estudiosos e ideólogos denunciavam a "indústria cultural" como serviçal do capitalismo, não menos que a ciência e a técnica. Outros, seguindo Althusser, viam a televisão como mero "aparato ideológico do Estado", que, tal como a escola, tinha por objetivo "inculcar" a ideologia dominante. E havia também os que, apegados ao conceito de "indústria da consciência", elaborado por Hans Magnus Enzensberger, vislumbravam um caminho de mão dupla: os "meios de comunicação de massa" podiam, sim, ser utilizados em sentido "emancipatório", isto é, numa perspectiva socialista — a bem da verdade, algo que os seguidores de Gramsci, por sua vez aferrados ao conceito de "hegemonia", já tinham percebido bem antes do ensaísta e poeta alemão.

A partir dos anos 90, porém, ocorre um deslocamento ideológico da crítica. Curiosamente, agora são os liberais a tomar a televisão como alvo de tiro. Tudo começou com o filósofo Karl Popper, um dos maiores epistemólogos do século XX, abominado pelos marxistas por seu suposto "positivismo" e malvisto pelos conservadores por sua impaciência com as ideologias, as religiões e a metafísica. Defendendo a criação de "uma lei para a televisão" (cf. Televisão: Um Perigo para a Democracia, Gradiva, 1995), o teórico da "sociedade aberta" chegou a reivindicar uma maior presença dos organismos de Estado em relação à TV (logo ele, politicamente um liberal!).

Apesar de lhe terem atribuído a exigência de censura, o que Popper realmente queria era chamar a atenção para um ponto essencial: na democracia não há poder político sem algum controle. E a TV, dizia o filósofo, exerce um tremendo poder político, "potencialmente o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus". Para Popper, esse meio "adquiriu um poder demasiado vasto" — e nenhuma democracia pode sobreviver a tal "onipotência".

Não é insensato afirmar que todos os poderes políticos, numa democracia, devem ter alguma forma de controle público. O que se discute é quem exercerá esse controle para que se evitem excessos. No caso da TV, o Estado, embora sendo o poder concessor, certamente não é a melhor indicação, mesmo sob governos democráticos (nas ditaduras, pior ainda). A solução talvez seja a auto-regulamentação, isto é, atribuir essa responsabilidade às próprias empresas de comunicação e aos profissionais que nela trabalham, ou adotar a co-regulamentação, envolvendo, além dos empresários do setor, representantes de organizações não governamentais e outras entidades sociais etc. De qualquer modo, o importante é ter em conta que os excessos podem ser punidos a posteriori — medida, convenhamos, mais civilizada que censurar".

Orlando Tambosi

Publicado originalmente em Estudos de Jornalismo e Mídia, Florianópolis, Editora Insular, vol. I, Semestre I/2004.

Leia o texto acima completo clicando aqui.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Razão & Sensibilidade: o porão da universidade?


"Não é novidade que para refletirmos sociologicamente sobre a universidade pública hoje, devemos levar em conta as tendências de boa parte da sociedade civil e as diretrizes que o Estado tem levado a adotar desde sua criação. Que existem formulações e perspectivas que de uma forma ou de outra querem redefinir a correspondência desejável entre a civilização emergente e a “universidade necessária”. Pois enquanto a sociedade civil está predominantemente determinada pelo jogo das forças sociais internas, o Estado e os governos locais parecem estar crescentemente determinados pelo jogo das forças sociais e políticas que operam de fora para dentro do Brasil.

(...) Platão (427-347 a. C.), o pai da filosofia política ocidental, tentou de várias formas se opor à polis e ao que ela entendia por liberdade por meio de uma teoria política na qual os critérios políticos eram derivados não da política, mas da filosofia, de uma Constituição detalhada cujas leis correspondiam a ideias somente acessíveis ao filósofo e, finalmente, influenciando um governante para que transformasse essa legislação em realidade – intento que quase lhe custou a liberdade e a própria vida. A fundação da Academia foi outro de tais intentos, ao mesmo tempo em oposição à polis, por situá-la fora da arena política, e em consonância com o conteúdo desse espaço político especificamente greco-ateniense, que é o fato de falarem os homens uns com os outros. Com isso emergiu, ao lado da esfera da liberdade política, um novo espaço de liberdade que sobrevive até a nossa época na forma da liberdade das universidades e da liberdade acadêmica.

Embora criada, como é sabido, à imagem de uma liberdade originalmente experimentada como política e presumivelmente entendida por Platão como cerne ou gênese da definição da vida em comum da maioria no futuro, essa liberdade resultou efetivamente na introdução de um novo conceito de liberdade no mundo. O fato é que, em contraposição a uma liberdade puramente filosófica válida somente para o indivíduo, para o qual tudo que é político é tão remoto que somente o corpo do filósofo habita a polis, essa liberdade da minoria é política por natureza. Melhor dizendo, o espaço livre da Academia devia ser um substituto plenamente válido da praça do mercado, a ágora, o espaço central da liberdade na polis. Para se manter como tal, a minoria tinha de exigir que sua atividade, seu falar uns com os outros, fosse dispensada das atividades da polis da mesma forma como os cidadãos de Atenas eram dispensados das atividades destinadas a ganhar o pão de cada dia.

Para Hannah Arendt ela precisava ser libertada da política no sentido grego, isto é, para ser livre no espaço da liberdade acadêmica, da mesma forma como o cidadão tinha de se libertar das necessidades práticas da vida para estar livre para a política. Para entrar no “espaço acadêmico”, os poucos tinham de sair do espaço da política real, da mesma forma como os cidadãos tinham de deixar a privacidade de seus lares para ir à praça do mercado. Assim como a libertação do trabalho e das preocupações cotidianas era um pré-requisito para a liberdade do homem político, a libertação da política era um pré-requisito para a liberdade do acadêmico.

A fundação da Academia, porém, revelou-se extraordinariamente importante para aquilo que ainda hoje entendemos por liberdade. Platão talvez acreditasse que a Academia pudesse algum dia conquistar e governar a polis. Mas sua única consequência efetiva, para os sucessores de Platão e os filósofos subsequentes, foi que a Academia garantiu à minoria o espaço institucionalizado de uma liberdade entendida desde o começo como contraposta à liberdade da “praça do mercado”. Ou seja, ao mundo das falsas opiniões e dos discursos enganosos se deveria opor o seu correlato, o mundo da verdade e do discurso compatível com a verdade, a ciência da dialética em oposição à arte da retórica".

Ubiracy de Souza Braga . Espaço Acadêmico

Leia o texto completo clicando aqui.

Foto: A Escola de Atenas, pintura de Rafael Sanzio (1483-1520), pintura que se encontra no Colégio Apostólico, Vaticano. Platão, ao centro vestido de vermelho, segura um tratao ( o Timeu) e aponta para o alto.