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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Curso Anual de Comunicação do NPC 2011: Pascual Serrano e Dênis de Moraes


Curso Anual de Comunicação do NPC: Pascual Serrano e Dênis de Moraes


O NPC é constituído por um grupo de comunicadores, jornalistas, professores universitários, artistas gráficos, ilustradores e fotógrafos que trabalham com o objetivo de melhorar a comunicação, tanto de movimentos comunitários ou populares, quanto de sindicatos e outros coletivos. Temos realizado esta tarefa de forma ininterrupta há mais de quatorze anos, principalmente através de cursos, palestras e seminários e produção de materiais de formação e informação.

Acreditamos que os trabalhadores e os setores populares precisam aperfeiçoar-se constantemente em sua comunicação para alcançar seu objetivo de construção de uma nova sociedade. Apresentamos a esses grupos sociais nossos conhecimentos adquiridos por meio da nossa formação específica e da nossa prática social.


"Além de promover uma ampla discussão sobre os diversos temas propostos, o objetivo deste curso também é estimular e dar ferramentas para que os comunicadores possam se fortalecer na disputa diária por hegemonia e na luta por um mundo justo e solidário", explica o coordenador do NPC, Vito Giannotti. Professores, profissionais veteranos e jovens das áreas de cultura e comunicação e militantes ministrarão palestras e oficinas, proporcionando uma rica troca de conhecimento e experiências com os participantes.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Dênis de Moraes e “Vozes abertas da América Latina: Estado, políticas públicas e democratização da comunicação”


Livro atualiza questão regulatória das comunicações na América latina

Redação* . FNDC
23 set 2011

Em sua mais recente publicação, “Vozes abertas da América Latina: Estado, políticas públicas e democratização da comunicação”, (Editora Mauad/Faperj, Rio de Janeiro, 2011), Dênis de Moraes** analisa as ações governamentais em países latino-americanos para tentar reverter a concentração monopolista da mídia. Resultado de estudos desenvolvidos pelo autor nos últimos quatro anos, o livro mostra mudanças em legislações e marcos regulatórios que, durante décadas, favoreceram as dinastias familiares que controlam os meios de comunicação em grande parte do Continente.

A obra propõe um questionamento frente a atual situação dos meios de comunicação e caminhos para seguir em um ideal democrático, condizente com o contexto de reordenamentos políticos, econômicos e socioculturais na A.L.

Nesta entrevista ao e-Fórum, o autor resume o conteúdo tratado na publicação.

Que avanços são mostrados neste livro com relação as suas pesquisas anteriores?

Dênis de Moraes: Vozes abertas da América Latina é um livro dedicado à análise das transformações em curso nos sistemas de comunicação de países latino-americanos com governos progressistas, avaliando suas perspectivas e dificuldades. Não me limito a um diagnóstico sobre mudanças que começam a colocar em xeque o peso desproporcional da mídia comercial na vida cotidiana e na fixação de valores e mentalidades.


Além de evidenciar as providências governamentais para tentar barrar a concentração monopólica da mídia e descentralizar os meios de informação e difusão cultural, reflito sobre questões análogas, que me parecem decisivas para a longa luta pela democratização da comunicação na América Latina.

A primeira questão é a importância estratégica das políticas públicas de comunicação para redefinir o setor de mídia em bases mais equitativas, combatendo assimetrias que têm favorecido a iniciativa privada (hoje, predominantemente nas mãos de dinastias familiares, muitas delas associadas a corporações transnacionais). Está em questão proteger e valorizar as demandas coletivas frente à voracidade mercantil que prospera à sombra da convergência entre as áreas de informática, telecomunicações e mídia, tornada possível pela digitalização. Isso deve ser feito para em benefício do pluralismo, levando em conta as transformações da era digital e a necessidade de definir o que deve ser público e o que pode ser privado.

A segunda questão abordada é a necessidade de desmistificarmos as campanhas opositoras movidas por elites empresariais, midiáticas e políticas contra as medidas governamentais que visam diversificar a radiodifusão sob concessão pública, impedindo que conglomerados e dinastias familiares continuem acumulando uma quantidade alarmante de outorgas de canais de rádio e televisão, além de controlarem a televisão por assinatura e serviços de internet. Os ataques patrocinados pelas corporações midiáticas têm o objetivo, deliberado mas não assumido publicamente, de impedir um convencimento mais amplo da sociedade em torno das mudanças em curso em determinados países.

As campanhas denunciam “ameaças à liberdade de expressão” que estariam sendo praticadas por governos progressistas. Trata-se de um falseamento claro da questão. O direito de informar e ser informado absolutamente não está ameaçado por legislações democratizadoras, e sim pelos grupos que confundem e reduzem a liberdade de imprensa à liberdade de empresa. O jurista Fábio Konder Comparato, lucidamente, tem enfatizado que o conceito de liberdade de expressão está indissociavelmente vinculado aos direitos públicos e às aspirações coletivas, sem qualquer subordinação a interesses privados ou ambições particulares. Na verdade, qualquer modificação que possa afetar as suas receitas com as joias da coroa – as licenças de canais de rádio e televisão – é rechaçada pela violência discursiva dos grupos midiáticos. Como se as outorgas de radiodifusão fossem propriedades exclusivas, quando, apenas, são concessões do poder público, com prazo de validade fixado em lei, sendo renováveis ou não.

De que forma a comunicação se relaciona com as constantes mudanças no governo e as crises políticas na América Latina e como ela afeta a democracia?

Dênis de Moraes: Mais do que nunca, a comunicação desempenha um papel decisivo nas disputas de sentido que conformam ou modificam a opinião pública e valores sociais. Os processos comunicacionais estão entranhados na batalha das ideias pela hegemonia – aqui entendida no sentido proposto pelo filósofo marxista italiano Antonio Gramsci: a conquista do consenso e da liderança cultural e política por uma classe ou bloco de classes em torno de determinadas concepções de vida e valores. Daí a importância de evoluirmos para um sistema de mídia que permita múltiplas vozes de se expressarem livremente, sem sujeição aos impérios empresariais. Um sistema de míidia que, incorporando usos e benefícios tecnológicos, favoreça a diversidade informativa, a criatividade, o trabalho cooperativo, a participação social e os direitos da cidadania.


(...)

No livro são citados os quatro países onde estão ocorrendo mudanças nos marcos regulatórios da radiodifusão. Por que o Brasil ainda não avançou nesse sentido?

Dênis de Moraes: Esta é uma pergunta que se impõe, já que, depois dos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e dos primeiros nove meses do de Dilma Rousseff, continuamos com um dos sistemas de comunicação mais atrasados e anacrônicos da América do Sul. Espero que Dilma venha a propor ao Congresso ou apoiar um projeto de lei que, tomando em consideração as singularidades do caso brasileiro, se inspire nas disposições antimonopólicas da lei em vigor na Argentina, cuja metodologia de elaboração foi participativa e inclusiva.

A presidenta Cristina Kirchner reuniu-se, por diversas vezes, com os setores da sociedade civil envolvidos na matéria, inclusive o empresariado da mídia, a fim de ouvir suas reivindicações. Meu livro defende a tese de que avanços convincentes na luta pela democratização dependerão de vontade política, pressão social organizada e respaldo popular. Não adianta ter apenas boas intenções. É preciso um compromisso político permanente com a diversidade para fazer frente às campanhas midiáticas que desejam preservar privilégios acumulados durantes décadas. A verdade é que uma sociedade complexa, diversificada e desigual como a nossa não pode permanecer, por mais tempo, refém das visões de mundo, das idiossincrasias e dos interesses corporativos da mídia hegemônica.

*Com a colaboração de Miriã Isquierdo

**Dênis de Moraes é professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-doutor em Comunicação pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO-Argentina) e professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense.

Leia a entrevista ao e-Forum no FNDC clicando aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O capital da mídia na lógica da globalização


"As corporações de mídia e entretenimento exercem um duplo papel na contemporaneidade. O primeiro diz respeito à sua condição peculiar de agentes operacionais da globalização, do ponto de vista da enunciação discursiva. Elas não apenas vendem e legitimam o ideário global, como também o transformam no discurso social hegemônico, propagando visões de mundo e modos de vida que transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas. A retórica da globalização intenta incutir a convicção de que a fonte primeira de expressão cultural se mede pelo nível de consumo dos indivíduos e coletividades. Como se somente o mercado pudesse aglutinar o que se convencionou chamar de organização societária.

A grande mídia assim opera tanto por adesão ideológica à globalização, quanto por deter a capacidade única de interconectar o planeta, através de malhas de satélites, cabos de fibra óptica e redes infoeletrônicas. Não creio existir outra esfera da vida cotidiana habilitada a interligar, em tempo real e on line, povos, países, sociedades, culturas e economias. A característica integradora é algo peculiar e intrínseco aos complexos de difusão. Eles concatenam, simbolicamente, as partes das totalidades, procurando unificá-las em torno de determinadas significações.

Ao mesmo tempo em que reverberam o que Pierre Bourdieu define como "a doxa invasiva e insinuante do neoliberalismo" (1), os conglomerados de mídia atuam como agentes econômicos globais, contribuindo para revigorar o modo de produção capitalista. Segundo o banco de investimentos Veronis Suhler, as indústrias de informação e diversão foram o setor de crescimento mais rápido da economia norte-americana entre 1994 e 2000 - à frente dos mercados financeiro e de serviços. (2) Mesmo que o desempenho possa ser afetado pela retração das verbas publicitárias e pela desaceleração internacional, a consultoria UBS Warburg prevê que os investimentos em mídia continuarão a crescer a médio e a longo prazos. (3)

Os grupos de comunicação buscam alcançar os parâmetros de lucratividade e rentabilidade que orientam as ações dos demais gigantes transnacionais. Os interesses estratégicos, modelos organizacionais e alvos mercadológicos assemelham-se. Não vejo distinção essencial entre filosofias, metas e estruturas operativas. Segue-se o figurino multissetorial da corporação-rede, isto é, exploram-se, simultaneamente, ramos correlatos ou conexos, promovendo sinergias capazes de racionalizar custos, conjugar know how e economizar na escala.

AOL-Time Warner, News Corp., Bertelsmann: nada difere os seus contornos corporativos dos de mastodontes como a General Motors, a McDonald's e a IBM. As diferenças localizam-se nas áreas específicas de atuação - muito embora essa separação venha se reduzindo a olhos vistos, em função da convergência multimídia, dos investimentos plurissetoriais, da internacionalização de mercados, de alianças, fusões e participações cruzadas.

Em síntese, as corporações de mídia projetam-se, a um só tempo, como agentes discursivos, com uma proposta de coesão ideológica em torno da ordem global, e como agentes econômicos presentes nos hemisférios. Evidenciar esse duplo papel me parece fundamental para entendermos a sua forte incidência na atualidade".

Dênis de Moraes
28 dez 2001

Leia o texto completo clicando aqui.


Veja a postagem sobre o livro "Sociedade Midiatizada" de Dênis de Moraes clicando aqui.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sociedade Midiatizada: uma realidade, outra comunicação


"Em "Sociedade Midiatizada" (Editora Mauad), Dênis de Moraes reúne uma coletânea de textos de dez autores da atualidade, reconhecidos internacionalmente por seu compromisso ético com o pensamento crítico. Sua leitura nos conduz à reflexão sobre a mídia pelo prisma de seu engajamento político-ideológico e acerca das conseqüências da influência que exerce numa sociedade cada vez mais conturbada e atravessada por desigualdades sociais e econômicas catastróficas.

Tomamos como exemplo o texto de Eduardo Galeano "A Caminho de uma Sociedade da Incomunicação", em que ele nos apresenta e discute o aparente paradoxo da era da informação: embora a tecnologia das comunicações esteja tão aperfeiçoada, a comunicação está cada vez mais difícil; em suas palavras: "nosso mundo se parece cada vez mais com um reino de mudos". Isto porque a propriedade dos meios de comunicação é controlada por um pequeno número de pessoas que têm o poder de divulgar a sua mensagem para um enorme número de cidadãos em todo o mundo. Cria-se, assim, a "ditadura da palavra única e da imagem única", em seu entender mais devastadora que a do partido único, porque impõe a todos um mesmo modo de vida, ignorando a riqueza necessária da diversidade cultural.

Uma das conseqüências imediatas desse fato é a violência. Repetidas propagandas dos meios de comunicação sub-repticiamente inculcam nas mentes que "quem não tem nada, não é nada, é um lixo", levando pessoas a internalizar o desejo de ser igual e de pertencer ao grupo. Jovens se tornam delinqüentes, apropriando-se de coisas que o fazem sentir-se igual, ser alguém, existir, enfim: aprendem com o que Galeano denomina "escolas do crime".

Os meios de comunicação apresentam o mundo atual como um "espetáculo fugaz, estranho à realidade, vazio de memória". Ajudam a aprofundar as desigualdades, propagando a idéia de que a pobreza é fruto da fatalidade e não mais a conseqüência da injustiça, como há 20 anos. O código moral atual condena o fracasso, não a injustiça, como o único pecado sem redenção. E a mídia, no chamado terceiro mundo, costuma apresentar a violência não como resultado da injustiça, mas da má-conduta de pessoas violentas por natureza, que vivem num submundo violento que, como a pobreza, faz parte da ordem natural das coisas.

Assim a mídia vai cumprindo seu papel de retransmissora da ideologia dominante. Pela telinha, a propaganda do consumo vai impregnando o dia-a-dia do cidadão; de vez em quando, horrores da fome e da guerra, fatalidades de outro mundo, claro, que servem somente para realçar o paraíso que é a sociedade de consumo. Dificilmente são mostradas as responsabilidades que têm as grandes potências na exploração e aviltamento dos povos dos países mais pobres. A cultura da impunidade se impõe".

Leia a resenha do livro por Sheyla Murteira no FazendoMedia clicando aqui.