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quinta-feira, 1 de março de 2012

Infância: "E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé"...


Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

In Alguma Poesia
Belo Horizonte: Pindorama,1930.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Beleza de Poesia "atualizando-me no mundo e na mídia sábia e desbravadora de novos horizontes"...


O SILÊNCIO

Célia Laborne Tavares

É hora de silêncio, os pássaros se recolhem, mas a cidade não dorme. Por isso, pensei em procurar uma plataforma política ou um gráfico importado com palavras estranhas, para inserir-me no contexto geral, atualizando-me no mundo e na mídia sábia e desbravadora de novos horizontes.

Poderia, quem sabe, reformar a Terra ou talvez os Céus onde eventualmente moro ou faço estágios. Lá em baixo desafiam-se o futebol, o rock, o desfile de modas, as novelas. Também as fraudes, os roubos, a impunidade, sobretudo o medo de todos e de tudo.

Quero dividir com alguém o grande medo que não para de crescer nas ruas e nos lares e a todos atinge, mesmo àqueles que fingem um sorriso ensolarado.

Queria conviver serenamente com esse século novo, mas preciso mudar urgentemente, surfando entre modernidades muito novas para meus olhos que vêem além destes horizontes. Mas, afogada em lirismo e luzes cruzando céus, temo não sobreviver por muito tempo.

A verdade é que preciso aterrizar de avião, para-quedas ou helicóptero; preparem-me uma pista, mesmo poluída. Depois verei, quando estiver na Terra, se ainda tenho a mesma face, ou se tornei-me um robô de último tipo e fácil aceitação na praça.

Por hora, um celular chama-me e o micro-ondas dá seu sinal. Vou apagar as velas e acender candelabros de luz fluorescente e econômica.

Nos prédios de formas aerodinâmicas, de onde expulsaram a luz do sol e as brisas da manhã, o ar refrigerado já está ligado e, em salões semi-obscurecidos as conferências se instalam.

A globalização rodeia a todos e cobra de todos, o seu preço que ninguém pode discutir, pois os políticos estão em recesso e as rosas emudeceram.

Conheça mais poesias de Célia Laborne Tavares em seu blog Vida em Plenitude clicando aqui, e no blog Poemeus e Seus. 

Foto: Por do Sol em Belo Horizonte,  ACG (Guh)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Alma nua...


Alma Nua


Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta