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segunda-feira, 25 de março de 2013

“O poder capitalista na Comunicação é contrário à dignidade humana”, diz Comparato


“O poder capitalista na Comunicação é contrário à dignidade humana”, diz Comparato

Unidade entrevistou o jurista Fábio Konder Comparato, professor doutor titular aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor em Direito pela Universidade de Paris e doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra sobre os meios de comunicação brasileiro.  

Unidade - Qual a sua análise sobre o poder dos meios de comunicação no Brasil. O senhor acredita que a Justiça brasileira tem atuado em benefício dos grandes veículos de imprensa?

Fábio Konder Comparato – Evidentemente, em todos os países capitalistas, os grandes meios de comunicação de massa se tornaram um poder concorrente ao poder estatal. E, de acordo com o espírito do capitalismo, este poder é exercido de modo oculto e dissimulado. Os grandes jornais, rádios, televisões nunca dizem que tem algum poder sobre o mercado ou sobre a esfera política. Mas, na verdade, este poder é exercido e a apresentação dos veículos de comunicação de massa como órgãos que obedecem a lei e que não fazem censura é profundamente falsa. Mas quem foi que aprovou a lei? Não foram aqueles que obedecem ao poderio dos grandes meios de comunicação de massa? E estes meios de comunicação empresariais de massa são contrários à censura? Eles mesmos exercem uma censura brutal em seu âmbito de atuação.

Unidade – Como o sr. vê o fim da Lei de Imprensa. Que consequências esta decisão do STF tem para a sociedade brasileira?

FKC  - A meu ver, todos os poderes públicos estão hoje submetidos à influência dominante dos grandes meios de comunicação de massa. O Poder Judiciário, em especial, teme muito os grandes jornais, as grandes televisões. E eu mesmo fui vítima de um caso paradigmático. Em fevereiro de 2009, o jornal Folha de S. Paulo, publicou um editorial no qual, comparando o regime militar brasileiro com outros regimes militares da América Latina, sobretudo do Cone Sul, afirmava que no Brasil havíamos tido uma “ditabranda”. Como eu não leio editoriais, eu só tomei conhecimento dele no dia seguinte, por que um leitor do jornal, de Minas Gerais, mandou uma carta onde se dizia indignado com este neologismo. Eu, então, cedendo a meu impulso siciliano, enviei uma carta ao jornal na qual dizia claramente que o diretor de redação e o jornalista que redigiu o editorial deveriam ambos pedir desculpas ao povo brasileiro de joelhos em praça pública. É que eles ofenderam gravemente a consciência do povo brasileiro. Eles poderiam publicar ou não publicar a minha carta. Hoje esta possibilidade de não publicar se tornou muito forte. Por que, desde 2009, é que não existe mais Lei de Imprensa no Brasil.

Unidade – O sr. sofreu alguma represália por ter escrito esta carta à Folha de S. Paulo?

FKC - Sim. O jornal publicou a minha carta. Mas publicou embaixo da carta uma nota da redação dizendo que “o professor Fábio Konder Comparato é cínico e mentiroso, por que nunca criticou outros regimes ditatoriais como o cubano”. Para grande infelicidade do jornal, o então ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins e Silva, publicou uma nota em que dizia que aquela nota da redação continha um “equívoco”, por que o professor Comparato, em uma edição da mesma Folha, tinha publicado uma carta criticando o regime cubano. Evidentemente que o ombudsman foi convidado a se retirar. Confesso que fiquei muito abalado. Mas, uma publicação dessas, na época o jornal de maior circulação, dizer que eu era cínico e mentiroso me abalou muito. Então, eu movi uma ação por danos morais. Eu perdi em primeira instância e perdi no Tribunal por unanimidade. 

Unidade – O sr. acredita que tenha perdido por qual motivo. Pelo temor dos juízes de confrontar um veículo de comunicação?

FKC – Eu acho que sim, mas há também o fato do jornal ter se utilizado de um ex-desembargador para convencer os seus antigos pares de que deveriam votar contra mim. Eu entendo que esta posição do Tribunal foi de grande fraqueza. Eu não fiz a defesa pessoal no meu caso. Mas, se tivesse feito, subiria à tribuna e começaria dizendo: “Senhores desembargadores. Vossas Excelências são cínicos e mentirosos. E, diante do tumulto que isso ocasionaria, eu diria: foi exatamente esta reação que tive quando recebi estes epítetos.

Unidade - Como o sr. analisa o papel da imprensa no Brasil? Alguns colegas chegam a chamar a imprensa como Partido da Imprensa Golpista (PIG). O sr. acredita que a imprensa se preste a este papel?

FKC – Eu não tenho opinião sobre isso. Eu tenho uma convicção. Tanto que eu tomei a iniciativa da propositura de uma Ação de Inconstitucionalidade por omissão no Supremo Tribunal Federal. E a razão é simples: a nossa Constituição Federal foi promulgada no dia 5 de outubro de 1988 e até hoje, passados mais de 24 anos, o Congresso Nacional não regulamentou dispositivos fundamentais da Constituição como, por exemplo, a proibição do monopólio e do oligopólio. Para dar um exemplo, a Rede Globo é a quarta maior rede de televisão mundial. O Congresso Nacional deixou de regulamentar o artigo 221 da Constituição que determina que a programação das emissoras de TV e de rádio obedeça alguns princípios fundamentais como preferência às matérias de conteúdo cultural, educativo e artístico. Essa ação foi apresentada ao Supremo Tribunal Federal em nome do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)e também da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Comunicação e Publicidade. E eu quero assinalar o fato que a Presidência da República, por meio do advogado geral da União, deu parecer contrário a esta ação, ou seja, confirmou que os poderes da República são submetidos à influência dominante dos meios de comunicação de massa. Mas a Procuradoria Geral da República deu parecer favorável. E nós estamos aguardando a decisão.

Unidade – O sr. chegou a acompanhar o que acontece na Argentina e no Equador em relação às empresas de comunicação. Os países da América Latina estão mais evoluídos em relação à regulamentação da mídia?

FKC – Isso corresponde à diferença de caráter entre os brasileiros e os demais povos hispano-americanos. O brasileiro tem caráter dúplice. Ele é fundamentalmente ambíguo. Ele tem uma aparência de respeito à Democracia, aos poderes constituídos. E, na verdade, há uma dominação capitalista dos empresários sobre os poderes públicos. Já no caso dos povos hispano-americanos, eles são muito mais claros e definidos nas suas opções. Inegavelmente, os regimes militares argentino, uruguaio e chileno foram mais cruéis que o regime brasileiro, o que não significa que tivemos uma “ditadranda”. Durante o regime militar daqueles países do Cone Sul, o Poder Judiciário foi afastado. Ele entrou em hibernação. E nós mantivemos o Poder Judiciário funcionando sob o tacão e a espada do Poder Militar. Isso é realmente uma vergonha nacional. Pois bem, terminados os regimes militares no Brasil e no Cone Sul, nós promulgamos uma Lei de Anistia e até hoje os assassinos, torturadores e estupradores do regime militar não foram sequer indiciados, sem falar em condenação penal. Enquanto que nesses outros países, por exemplo, como na Argentina, mais de 100 militares já foram condenados. E antigos chefes de Estado estão na cadeia até hoje. 

Unidade – Quais as alternativas que o sr. aponta para que a sociedade brasileira possa fazer frente ao grande poderio que as empresas de comunicação possuem no nosso país?

FKC – Eu acho que a principal missão hoje de todos aqueles que querem resgatar a honra deste país e instituir um regime claramente republicano e democrático, consiste em lutar contra o oligopólio empresarial dos meios de comunicação de massa. E isso tem que ser feito de forma organizada. Por exemplo, existe um setor da Comunicação Social que não foi oligopolizado pelo capitalismo, que é a internet. E nós temos que trabalhar neste setor para mostrar a generalidade da opinião pública e, sobretudo, aos jornalistas e às novas gerações, que este poder capitalista sobre os meios de comunicação de massa é absolutamente contrário à dignidade da pessoa humana. No momento em que desmoralizamos os titulares do poder, eles começam a cair. Não se trata de fazer revoluções. Trata-se simplesmente de mostrar como eles são sujos, da cabeça aos pés. E eu acho que isso deve ser feito. E eu acho que vocês jornalistas têm muito mais capacidade do que nós, não jornalistas, para organizar isso.

No SJSP

Reproduzido de Contexto Livre

22 mar 2013

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Professor tem dificuldade no trabalho com diferentes mídias, aponta pesquisa



Professor tem dificuldade no trabalho com diferentes mídias, aponta pesquisa

Bruna Romão
Estadão/Agência USP de Notícias
15/08/2012

Elementos socioeconômicos dificultam uso de recursos audiovisuais no ensino

A interação entre diferentes linguagens e mídias é um importante fator para a formação crítica de alunos do ensino básico. Nas disciplinas de Literatura e Língua Portuguesa, por exemplo, adaptações cinematográficas de obras literárias podem ser instrumentos para levantar discussões e estimular o interesse pelos textos. Contudo, como indica estudo desenvolvido pela professora Eliana Nagamini, a combinação de uma série de elementos tanto estruturais, quanto socioeconômicos e individuais, tornam difícil para muitos docentes a utilização desses recursos audiovisuais no processo de ensino.

A pesquisa de Eliana englobou questionários e entrevistas com 91 professores de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio de sete escolas da rede estadual de ensino de São Paulo. O trabalho integrou a tese de doutorado Comunicação em diálogo com a literatura: mediações no contexto escolar, desenvolvida no Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

A análise das respostas dos docentes permitiu à pesquisadora identificar os diversos fatores, chamados mediações, que se combinam para modelar o ambiente educacional, interferindo na adoção das adaptações audiovisuais em sala de aula. São alguns fatores que dificultam o contato desse professor com as adaptações e a formação do professor preocupado com questões da mídia”, conta.

Mediações no ambiente educacional

Entre as primeiras circunstâncias identificadas, está a infraestrutura das escolas, deficiente em espaços para o trabalho com recursos audiovisuais, como salas de vídeo, dificultando a frequência na integração entre as mídias em classe. Outro fator determinante é o próprio funcionamento das escolas: a grade horária muitas vezes impede a apresentação de uma obra cinematográfica por inteira e a análise aprofundada das duas formas de discurso. Eliana Nagamini resume: “Há uma abertura nas diretrizes de ensino para o trabalho com adaptações e outros discursos, mas esbarra no cotidiano mais miúdo da sala de aula, que nem sempre permite que o professor faça o trabalho mais adequado”.

Há também mediações em função do próprio contexto socioeconômico dos professores. Elian cita a longa jornada de trabalho de muitos docentes, o que impede maior dedicação à preparação de aulas que proponham o diálogo entre literatura e cinema. Outra lacuna, de acordo com ela, estaria também na própria formação do professor no Brasil. “Poucos cursos de licenciatura sistematizam a discussão sobre a mídia”, relata. A continuidade da formação, por sua vez, também sofre interferência da ‘falta de tempo’ do profissional.

Todas essas mediações não apenas impedem a utilização de produtos cinematográficos em sala de aula, mas permeiam e limitam alguns trabalhos existentes. Predominantemente, explica Eliana Nagamini, o uso das adaptações se dá por forma de fragmentos ilustrativos, existindo grande preocupação com a fidelidade.

Diálogo com o mundo exterior

Com o devido espaço e desenvolvimento, ações educacionais envolvendo uma obra literária e sua adaptação poderiam ir além da simples ilustração e identificação de pontos coincidentes. Para Eliana, o grande potencial deste tipo de atividade para a educação estaria na exploração dos desvios. “A adaptação é interessante porque são linguagens e processos de produção e recepção diferentes. Quando a obra cinematográfica opera os desvios, ali é que está a sua riqueza”, diz.

Isto, ela relata, além de promover o interesse do estudante pela obra escrita, contribuiria ainda mais para sua formação crítica, ao discutir na escola elementos e textos com os quais os alunos tem contato no mundo exterior: “A escola precisa se abrir e dialogar com o mundo de fora”. Mas para que isso ocorra, ela ressalta, o mundo de fora também precisa repensar a escola, para que se superem as dificuldades no ensino e novas ações e projetos educacionais sejam possíveis.

14 ago 2012
Via clipping FNDC

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Parecer confirma possibilidade de restrição de publicidade de alimentos para defender direitos das crianças


Parecer confirma possibilidade de restrição de publicidade de alimentos para defender direitos das crianças

Por Redação
10 julho 2012

O Instituto Alana lançou no último dia 5 o parecer "A Constitucionalidade da Restrição da Publicidade de Alimentos e Bebidas Não Alcoólicas voltada ao Público Infantil", assinado por Virgílio Afonso da Silva, professor titular de Direito Constitucional da USP. Mais de 40 profissionais participaram do lançamento, que foi seguido por debate mediado pela diretora de Defesa do Instituto Alana, Isabella Henriques, na presença do professor Virgílio Afonso da Silva e do procurador e conselheiro do Alana João Lopes Guimarães Jr.

Durante o evento, o professor criticou o fato de a restrição à publicidade muitas vezes ser ligada a um ranço paternalista e explicou a aplicação da regra da proporcionalidade. No caso analisado, em que o tema era a restrição de publicidade de alimentos com alto teor de açúcar, sódio e gorduras e de bebidas de baixo valor nutricional, entendeu-se que o direito de anunciar para o público infantil, considerado vulnerável, pode ser restringido frente ao direito da criança ao desenvolvimento saudável. Hoje já se sabe que a publicidade desse tipo de produto alimentício impacta de forma negativa os índices de obesidade infantil, que já atinge 15% das crianças brasileiras segundo o Ministério da Saúde.

"Se os poderes públicos e a sociedade civil estiverem engajados em uma política pública consistente de proteção às crianças, e se essa política, ainda que restritiva a alguns direitos de fabricantes e anunciantes, restrinjam esses direitos de forma proporcional, as normas constitucionais brasileiras estarão resguardadas", afirma Afonso da Silva no documento, feito para o Alana como pro bono (não remunerado).

Confira o vídeo:




Reproduzido de Consumismo e Infância . Instituto Alana
10 jul 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Palestra com o tema “Consumo e politização: discursos publicitários e novos engajamentos juvenis”


Palestra com o tema “Consumo e politização: discursos publicitários e novos engajamentos juvenis”

O laboratório de Sociologia do Consumo, o CPDA/UFRRJ e o Grupo de Estudos do Consumo convidam para a palestra “Consumo e politização: discursos publicitários e novos engajamentos juvenis”, com a Profa. Dra. Mônica Machado (ECO/UFRJ).

Resumo da palestra:

O livro de Mônica Machado “Consumo e politização: discursos publicitários e novos engajamentos juvenis” discute um tema bastante atual e relevante: a ascensão de novas arenas de mobilização da energia política dos jovens, desencantados com os modos clássicos de participação. Amparada na moldura teórico-metodológica dos estudos culturais, a autora conjuga a análise textual e a pesquisa de recepção, com o intuito de avaliar os processos de codificação e decodificação de conteúdos políticos na publicidade institucional (propagandas do TSE que pretendem estimular a experiência democrática do voto) e comercial (campanhas da Coca-cola, da Dove e da Oi, que almejam estabelecer uma associação entre o mundo dos bens e a tomada de atitude e a liberdade de escolha).

O evento ocorrerá no dia 11/4/2012, das 14:30 às 17:30h, no CPDA/UFRRJ.

Textos para leitura prévia:


O CPDA/UFRRJ localiza-se na Avenida Presidente Vargas, 417 – 6º andar – Centro – Rio de Janeiro.


Reproduzido de Estudos do Consumo
02 abr 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Índios, vítimas da imprensa


Índios, vítimas da imprensa

Dalmo de Abreu Dallari*
Observatório da Imprensa
27/03/2012

Os índios brasileiros nunca aparecem na grande imprensa com imagem positiva. Quando se publica algo fazendo referência aos índios e às comunidades indígenas o que se tem, num misto de ignorância e má fé, são afirmações e insinuações sobre os inconvenientes e mesmo o risco de serem assegurados aos índios os direitos relacionados com a terra. Essa tem sido a tônica.

Muitas vezes se tem afirmado que a manutenção de grandes àreas em poder dos índios é inconveniente para a economia brasileira, pois eles não produzem para exportação. E com essa afirmação vem a proposta de redução da extensão da ocupação indígena, como aconteceu com a pretensão de reduzir substancialmente a área dos Yanomami, propondo-se que só fosse assegurada aos índios o direito sobre o pequeno espaço das aldeias. E como existem várias aldeias dentro do território Yanomami, o que se propunha era o estabelecimento de uma espécie de “ilhas Yanomami”, isolando cada aldeia e entregando a especuladores de terras, grileiros de luxo ou investidores do agronegócio a quase totalidade da reserva indígena.

Não é raro encontrar a opinião de alguém dizendo que “ é muita terra para pouco índio”, o que autoriza a réplica de que quando somente um casal ou um pequeno número de pessoas ocupa uma grande mansão ou uma residência nobre com jardins, piscina e até quadra de tênis, usando um grande espaço que vai muito além do necessário para a sobrevivência, um índio está autorizado a dizer que “é muita terra para pouco branco”.

Créditos de carbono

Outro argumento que aparece com grande frequência na imprensa é a afirmação de que as reservas indígenas próximas das fronteiras colocam em risco a soberania brasileira, pois os índios não fazem a vigilância necessária para impedir a invasão ou a passagem de estrangeiros.


Uma primeira resposta que se pode dar a essa acusação é que frequentemente, quando se registra uma ocorrência mais marcante relacionada com o tráfico de drogas, aparecem informações, às vezes minuciosas, sobre os caminhos da droga, seja por terra, pelos rios ou pelo ar. Várias vezes se mostrou que a rota dos traficantes passa perto de instalações militares basileiras de fronteira, vindo logo a ressalva de que o controle do tráfico é problema da polícia, não dos militares. E nunca se apontou uma reserva indígena como sendo o caminho da droga, jamais tendo sido divulgada qualquer informação no sentido de que a falta de vigilância pelos índios facilita o tráfico.

E quanto à ocupação de partes de uma reserva indígena por estrangeiros, qualquer pessoa que tenha algum conhecimento dos costumes indígenas sabe que os índios são vigilantes constantemente atentos e muito ciosos de seus territórios.

Noticiário recente é bem revelador do tratamento errado ou malicioso dado às questões relacionadas com terras indígenas. Em matéria de página inteira, ilustrada com foto de 1989 – o que já é sintomático, pois o jornal poderia facilmente obter foto de agora e não usar uma de 23 anos atrás – o jornal O Estado de S.Paulo coloca em caracteres de máxima evidência esta afirmação alarmante: “Por milhões de dólares, índios vendem direitos sobre terras na Amazônia”.

Como era mais do que previsível, isso desencadeou uma verdadeira enxurrada de cartas de leitores, indignados, ou teatralmente indignados, porque os índios estão entregando terras brasileiras da Amazônia a estrangeiros. Na realidade, como a leitura atenta e minuciosa da matéria evidencia, o que houve foi a compra de créditos de carbono por um grupo empresarial sediado na Irlanda e safadamente denominado “Celestial Green Ventures”, sendo, pura e simplesmente, um empreendimento econômico, nada tendo de celestial.

Mas a matéria aqui questionada não trata de venda de terras, como sugere o título.

Fora de dúvida

Por ignorância ou má fé a matéria jornalística usa o título berrante “índios vendem direitos sobre terras na Amazônia”, quando, com um mínimo de conhecimento e de boa fé, é fácil saber que, mesmo que quisessem, os índios não poderiam vender direitos sobre terras que ocupam na Amazônia ou em qualquer parte do Brasil.


Com efeito, diz expressa e claramente o artigo 231 da Constituição brasileira :

“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.

Nesse mesmo artigo, no parágrafo 2°, dispõe-se que “as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes”. E o parágrafo 4° estabelece uma restrição muito enfática, cuja simples leitura deixa bem evidentes o erro e a impropriedade da afirmação de que os índios venderam seus direitos sobre sua terras na Amazônia.

Diz muito claramente o parágrafo 4°: “As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis”. Acrescente-se a isso tudo, o que já seria suficiente para demonstrar a má fé do título escandaloso dado à matéria, que o artigo 20 da Constituição, que faz a enumeração dos bens da União, dispõe, também com absoluta clareza : “São bens da União : XI. As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.

Com base nessas disposições constitucionais, fica absolutamente fora de dúvida que os índios não têm a possibilidade jurídica de vender a quem quer que seja, brasileiro ou estrangeiro, seus direitos sobre as terras que tradicionalmente ocupam, na Amazônia, em Goiás, na Bahia, em São Paulo, no Rio Grande do Sul ou em qualquer outra parte do Brasil.

Errada e absurda

Se, por malícia, alguém, seja uma pessoa física, uma empresa ou qualquer instituição, obtiver de um grupo indígena uma promessa de venda de algum desses direitos estará praticando uma ilegalidade sem possibilidade de prosperar, pois, como está claramente disposto na Constituição, esses direitos são inalienáveis. E ainda de acordo com a Constituição é obrigação da União, que é a proprietária das terras indígenas, proteger e fazer respeitar todos os bens existentes nessas terras.

Em conclusão, o título escandaloso da matéria jornalística aqui referida está evidentemente errado pois afirma estar ocorrendo algo que é juridicamente impossível sgundo disposições expressas da Constituição brasileira.

Comportando-se com boa fé e respeitando os preceitos da ética jornalística, a imprensa deveria denunciar qualquer ato de que tivesse conhecimento e que implicasse o eventual envolvimento dos índios, por ingenuidade e ignorância, na tentativa da prática de alguma ilegalidade. Mas, evidentemente, é absurda, errada e de má fé a afirmação de que os índios vendam direitos sobre terras na Amazônia.

* É jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da USP

sábado, 19 de novembro de 2011

Tramóias e tutóias em torno de Wladimir Herzog...


Eles não compreendem que não aceitamos isso

Paulo Moreira Leite

Neste momento, você já deve saber que há um panfleto repulsivo em circulação pela internet, procurando estabelecer ligações entre o assassinato de Wladimir Herzog, ocorrido no DOI-CODI paulista, em 1975, e a guerra dos estudantes da USP. No panfleto, vê-se a imagem de Herzog morto. O tom é macabro e festivo. É vergonhoso.

Eu era aluno da USP, em 1975, quando paramos a universidade pela morte de 
Wladimir Herzog. Fizemos uma assembléia na FAU e ali compareceu um dos 
mestres de nosso tempo, o frances Michel Foucault, então em viagem acadêmica pelo Brasil, que foi chamado à mesa.


Na hora combinada, a universidade foi para a Praça da Sé, onde ocorreu um culto ecumênico que marcou a caminhada do Brasil para a construção da nossa democracia.

A catedral estava lotada por dentro e cercada de policiais armados por fora. 
Viaturas interrompiam o caminho, sirene ligada, tentando criar um ambiente de violencia e medo. Mas nós — homens e mulheres do povo, jovens, adultos, adolescentes — cumprimos nosso pequeno papel.


Aquele protesto marcou uma mudança, num país que aos poucos deixava de ser o mesmo. O regime militar não caiu. Levou quase uma década, ainda, para ser substituído por um governo civil. Foi preciso aguardar por 14 anos para se fazer a primeira eleição direta.

Sim, teríamos avanços e retrocessos. Mas depois daquele momento os dias da ditadura passaram a ser contados de trás para frente. 
Vencemos a vergonha do silencio, do temor, da nossa impotencia. Cada um de nós 
voltou para casa convencido de que assassinatos como aquele não iriam se 
repetir. Claro que estávamos enganados. Os bandidos sempre foram muito mais perversos do que podíamos imaginar.


Poucos meses depois, mataram o operário Manoel Fiel Filho, no mesmo lugar, nas 
mesmas circunstancias. Mas o fato é que aprendemos. Fomos capazes de superar cada um dos sentimentos pequenos. Cada pensamento mediocre. Cada gesto covarde. Sem perceber, amadurecemos e ficamos melhores.


Hoje, quando o país vive o mais prolongado e belo regime democrático desde sempre, Wladimir Herzog deve ser honrado como parte dessa mudança e dessa evolução.


Naquele dia de 1975 nós mudamos porque ganhamos a coragem da história. Não aceitamos a censura, nem a mentira, como a montagem feita no porão militar para simular um suicídio. Aprendemos a procurar os fatos inteiros, sem falsificações, sem versões adocidadas ou convenientes. Amando a verdade, deixamos que os responsaveis se perdessem em suas mentiras, tentando fugir de si mesmos e se enconder das novas gerações, as vezes de seus próprios filhos.


De nossa parte, nunca aceitamos nem aceitaremos um desrespeito tão profundo. 
Depois de matar um homem pacífico, desarmado, que se apresentou a uma 
repartição militar, ainda foram capazes de pendurá-lo pelo cinto, só para fingir que 
se enforcava. Foi um insulto, uma infamia.


Sempre que olho a foto de Herzog, reparo dos aspectos humanos: na canela magra aparecendo por baixo da calça, as meias, o sapato social, a cabeleira desgrenhada que até combinava com a época – mas não era aspecto hippie, mas apenas a violencia covarde.

Muitos anos depois, tenho dificuldade para aceitar que um diretor de uma empresa estatal – Herzog era diretor da TV Cultura – pudesse ser chamado a depor num centro de torturas e assassinatos e fosse obrigado a comparecer sòzinho, sem a proteção de superiores, sem protestos preventivos, sem uma multidão para defendê-lo como fariamos dias depois na Sé, quando já era tarde demais.

Até então, parecia que a entrada de um ser humano no açougue que funcionava na rua Tutóia podia ser vista como a coisa mais natural do mundo. De certo modo era. 
Este foi o significado real da morte de Wladimir Herzog. Nunca mais aceitaremos isso.


Não podemos. Felizmente, há coisas que são maiores do que nós e vão nos acompanhar para sempre.

Quem não entendeu nunca compreenderá. Não teve professor, não teve pais. Tentará mentir, falsificar, inventar. Não vai conseguir.

Reproduzido de Blog de Um Sem Mídia via Paulo Moreira Leite na Época
18 nov 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O que informa um telejornal?


“Talvez o maior problema com relação à compreensão do telejornal seja o pressuposto bastante generalizado de que a função básica desse gênero televisual é informar (bem ou mal) sobre o que está acontecendo.”

"Com essa frase, Arlindo Machado inicia o capítulo “O que informa um telejornal?” do livro “A televisão levada a sério”. De início já podemos perceber que para o autor tal generalização é prejudicial ao gênero jornalístico. Ele justifica sua posição afirmando que caso o meio comunicacional aja de acordo com esse senso comum, o mesmo se restringirá à simples verificação do grau de exatidão e confiabilidade do fato divulgado.

Se de início parece óbvio tal pensamento, já que quem se propõe a assistir um telejornal o faz para receber informação, esse argumento torna-se falido se refletirmos sobre o que seria realmente ficar informado. Será que consiste apenas em receber reproduções de ocorrências diárias?

Bom, mesmo que essa hipótese fosse correta, Arlindo defende que o telejornal não passa essa única e objetiva verdade a qual as pessoas pensam procurar e receber. Isso ocorre porque há uma desmontagem dos discursos na medida em que a circulação e o confronto de vozes e até a abrangência de um discurso por outro faz com que a notícia se torne plural. Assim, essa colagem de depoimentos em seqüência nunca atingirá um nível de discurso único, o qual poderá ser interpretado como totalmente verdadeiro ou falso.

Essa propriedade da televisão apresenta um problema para a divulgação de fatos, conflitos. O choque dos diversos enunciados faz com que ao mesmo tempo em que lhe dão publicidade, também os relativize ou os anule. Outro ponto que também demonstra a impossibilidade de tratar de uma verdade absoluta: não é com a verdade que o telejornal trabalha, e sim com a enunciação de cada porta voz sobre um determinado acontecimento.

Outra característica que demonstra essa constante produção da notícia nos telejornais é que o mesmo é “ao vivo”, o processo está sempre em andamento. Mesmo as notícias previamente gravadas podem sofrer alteração até o último minuto antes de iniciar o programa, ou até mesmo durante seu curso. A notícia chega ao telespectador ser sem inteiramente processada e, para Machado, esse processamento continua com o envolvimento do público.

Ainda segundo Machado, a visão de “terrível manipulador” dada aos telejornais é ingênua. Para ele, mesmo que não propositalmente, esse veículo turva as perspectivas do que ocorreu, embaralha visões, confunde fronteiras. Apesar de ser taxado de maniqueísta, as particularidades do telejornal acabam por demonstrar a complexidade de tomar partidos; acaba confundindo o que a princípio seriam notícias alinhadas. Tal dinâmica dificulta o sonho, numa situação hipotética extrema, de algum magnata a concentrar toda a mídia televisiva em si mesmo".

Reproduzido de Jorwiki . USP

Conheça mais sobre o livro “A televisão levada à sério”, de Arlindo Machado, clicando aqui e resenha de Rachel Librelon ali.

“O telejornal, não o es­queçamos, é um programa realizado ao vivo, ainda que utilize material pré-gravado ou de arquivo, e em geral é "fechado" poucos minutos antes de entrar no ar, ainda com as últimas notícias chegando à redação. Por mais que se queira ou se possa manipular as informações, elas chegam ao telespectador ainda não inteiramente processadas, portanto brutas, contraditó­rias, sem ordenação, sem acabamento final.”

Trecho do capítulo "O que informa um telejornal", do livro acima.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Meios de ocultação da informação


"Há vários séculos as sociedades medianamente avançadas tornaram-se dependentes dos meios de comunicação para o desenvolvimento de suas atividades, seja no âmbito público estatal, seja no setor das atividades econômicas, ou ainda no tocante às atividades políticas e sociais de maneira geral, aí compreendidas também as que envolvem pessoas, famílias e outros grupos sociais de qualquer natureza.

O que pode ou deve ser feito, como proceder, as condições objetivas para agir ou que recomendam ou determinam a abstenção de certo tipo de atividades, tudo isso é fortemente influenciado pelos meios de comunicação, estando aí a base da consagração da liberdade de imprensa, depois ampliada para liberdade de comunicação, como um dos fundamentos da sociedade democrática.

A liberdade dos meios de comunicação implica sua responsabilidade, não se admitindo que pela distorção da verdade, ou por ocultação maliciosa de informações de relevante interesse social, os meios de comunicação impeçam ou dificultem consideravelmente a normalidade das atividades sociais, afetando o uso regular de direitos e deixando de transmitir à população, por má fé, as informações de que disponha e que sejam de grande importância para a vida social.

Em certas circunstâncias, a omissão da comunicação pode ser tão danosa quanto à informação maliciosamente errada, podendo-se afirmar que ao lado do direito de comunicar com liberdade existe a obrigação jurídica de comunicar, quando isso for de relevante interesse social.

(...) A censura das comunicações deve ser proibida, como já está expresso na Constituição brasileira, mas é preciso deixar claro que o povo não pode ser vítima de censura imposta pelos donos e controladores dos meios de comunicação. O direito de comunicar deve ter como paralelo o dever de comunicar, dualidade indispensável para a concepção democrática do uso dos meios de comunicação".

Dalmo de Abreu Dallari
Jurista e professor da Faculdade de Direito da USP

Leia o texto completo em Adital clicando aqui.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quem tem medo do jornalismo econômico?


"A construção de verdade através do noticiário econômico

Sabe-se que a construção de verdade passa obrigatoriamente pela linguagem, pois ela fornece os termos que possibilitam uma visão de mundo. Sistema de valores, conceitos e mesmo noções aparentemente simples sobre as coisas e fatos do dia a dia se tornam a base do sistema sobre o qual vários discursos são construídos. E a constituição da palavra, bem como seu uso, estão associados ao poder: segundo Foucault, a linguagem é alvo do exercício de poderes que a controlam, os poderes não incidem apenas sobre os corpos, mas também sobre as palavras. Os rituais de verdade são, segundo Foucault, a forma mais superficial e mais visível dos sistemas complexos de restrição do discurso. A troca e a comunicação são figuras positivas que atuam no interior desse sistema. O ritual define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam (e que, no jogo de um diálogo, da interrogação, da recitação devem ocupar determinada posição e formular determinados tipos de enunciados). Define também os gestos, os comportamentos, as circunstâncias e todo conjunto de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a eficácia suposta ou imposta das palavras, seus feitos aos quais se dirigem, os limites de seu valor de coerção. Há no discurso, enfim, propriedades singulares e papéis preestabelecidos.

Realidades mediadas

Os meios de comunicação, como emissores essenciais de discursos sobre e para a sociedade, contribuem para a construção de verdades. Eles afetam as maneiras pelas quais os indivíduos experimentam as características de tempo e espaço da vida social: cria-se aí uma realidade mediada das formas simbólicas acerca de tudo aquilo que esteja além das experiências pessoais. Isso altera o sentido de pertencimento dos indivíduos, a compreensão dos grupos e das comunidades a que eles sentem pertencer. A mídia envolve-se, assim, ativamente na construção do mundo social ao transmitir imagens e informações para indivíduos situados nos mais distantes contextos: ela modela o curso dos acontecimentos, cria acontecimentos que não poderiam ter existido em sua ausência".

Marcos Ritel . USP

Leia o texto completo clicando aqui.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Consumo: Pesquisa na USP investiga a influência da TV nos hábitos alimentares de crianças


Investigar a percepção de crianças e mães sobre a propaganda de alimentos e bebidas veiculadas pela TV, foi o objetivo da Dissertação de Mestrado “Propaganda de alimentos e bebidas na TV: percepção de crianças em mães”, defendida pelo nutricionista Alexander Marcellus Carregosa da Silva Pitas, na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

O pesquisador verificou que todas as crianças pesquisadas afirmaram gostar de assistir TV. A preferência de consumo relatado por elas por meio das propagandas, foram: refrigerante, fast-food, produtos lácteos. As mães por sua vez sentiram dificuldade de controlar o tempo de TV assistido por suas crianças. Nos finais de semana 26% das mães referem que seus filhos assistem TV o dia inteiro, e 54% das crianças assistem 3 horas ou mais por dia de TV durante a semana.

A pesquisa concluiu que o fast-food foi o alimento mais veiculado nas emissoras gravadas. Sendo que do total de exibição de propagandas de uma das emissoras, os alimentos não saudáveis representaram 100% das propagandas de alimentos e bebidas. As mães foram influenciadas pelos filhos a comprar alimentos não saudáveis, talvez estimulados pela propaganda. Elas sentiram dificuldade de controlar o tempo de TV assistido por suas crianças.

Para mais informações clique aqui.

Conheça o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, trabalha pelo fim do consumismo na infância e luta contra os impactos da publicidade na formação das crianças, clicando aqui.

Participe também:

Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos”, no Facebook, clicando aqui.

Blog da Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos , clicando aqui.

Veja também:

“O impacto da publicidade de alimentos no consumo infantil”, apresentação em slidshare, clicando aqui.


"Obesidade e consumo de alimentos no Brasil", apresentação em slideshare, clicando aqui