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terça-feira, 10 de março de 2015

O estranho mundo dos midiotas


O estranho mundo dos midiotas

Por Luciano Martins Costa em 06/03/2015 na edição 840
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 6/3/2015

Se você lê jornais e assiste ao noticiário televisivo, e além disso leva em conta os comentários dos especialistas em generalidades que proliferam nas emissoras de rádio e acompanha sofregamente tudo que circula nas redes sociais digitais, pode estar certo de que você está incurso no arco de seres humanos que estão sendo estudados pelos especialistas em comunicação de algumas das melhores universidades do mundo. Esse espectro vai do indivíduo profundamente elaborado, que é capaz de filosofar sobre o mundo midiatizado, ao perfeito midiota.

O contexto teórico considerado por esses estudiosos tem como objeto o que em língua inglesa se chama “media literacy” e que, em português, é chamado, principalmente no núcleo de estudos específicos da Universidade de São Paulo, como Educomunicação. Trata, como se pode depreender, de uma educação especial que habilita o indivíduo a entender o conteúdo da mídia e formular sua própria opinião a respeito dos assuntos abordados. O pressuposto de tal disciplina é que a mídia tem uma função social que vai muito além da tecnologia e dos recursos financeiros usados para fazer com que aconteça a comunicação.

O professor Thomas Bauer, responsável pela cadeira de Cultura da Mídia e Educação pela Mídia na Universidade de Viena, observa que essa função dos meios deve extrapolar o conceito de troca de informações passando por um filtro (mediação), para o propósito de contribuir para a construção de uma ordem social baseada na diversidade. Além de balizar a organização da ordem social, juntamente com outras instituições e entidades formais ou informais, a mídia deve participar das negociações entre os indivíduos, isoladamente ou em grupos, e entre si, para que se obtenha uma sociedade sustentável.

Uma proposta de educação que considere o papel da mídia como tal deve, segundo Bauer, apontar para a conquista da competência de distinção do significado de diferentes situações, em termos de ética, estética e benefício potencial. Numa circunstância ideal, a sociedade sustentável conta com pessoas capazes e responsáveis pelo uso da mídia como meio de comunicação e conexão social, e não apenas como clientes a serem convencidos disto ou daquilo.

Uns e outros

Como no “vidiota” do romance de Jerzy Kosinski que inspirou o filme intitulado Muito além do jardim, a intensa exposição à mídia, sem o contraponto do senso crítico, pode ser uma prática perigosa. O indivíduo habilitado para interpretar a narrativa e o discurso propostos pela mídia nesse papel é também capaz de questionar o sentido que a mídia propõe para os acontecimentos do cotidiano.

Um grande contingente de cidadãos em condições de distinguir os vários significados das situações que a imprensa lhes apresenta será mais senhor de seu destino e se tornará menos vulnerável a discursos manipuladores e demagógicos.

O dilema está no fato de que esse benefício depende em grande parte de uma determinação da mídia hegemônica de usar seus recursos eticamente e com grande empenho estético. O problema se complica quando a própria imprensa faz escolhas contrárias à ética, esteticamente inadequadas e fora do propósito do bem, com o objetivo de usar a conectividade social que lhe é atribuída para arregimentar adeptos a um modo de vida simbólico que contraria o interesse coletivo.

Claro que tudo isso pressupõe a existência de interesses coletivos em meio a idiossincrasias individuais, mas o problema se resolve com a observação segundo a qual a sociedade se forma por meio da comunicação, produtora de sentido – portanto, criadora de cultura.

Uma maneira simples de avaliar se determinado meio contribui para este ou aquele tipo de sociedade é observar se suas mensagens estimulam, por exemplo, uma cultura de paz ou a violência; se propõe uma visão tolerante das diferenças ou se investe no confronto.

É da modernidade supor que o indivíduo se torna responsável por suas escolhas, ou, em outra acepção, no uso de suas vontades fortes ou fracas. Portanto, parte da responsabilidade pelo que se processa no ecossistema midiático compete à mídia, mas o arbítrio ainda é do cidadão.

Quando dizemos que “você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”, estamos apostando que, exercitando a observação crítica da imprensa, o indivíduo se educa para a mídia. Essa distinção de habilidades é o que faz, de uns, midialiteratos e, de outros, no ponto extremo do que acreditam em tudo que leem, midiotas.

06 mar 2015

Comentário de Filosomídia:

E,  pelas telinhas do mundo e no Brasil da globobocalização, postam-se os vidiotas...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Documentário: Quando Sinto Que já Sei


Quando Sinto Que já Sei

Despertar Filmes
74 minutos
Brasil
2014

Direção:
Antonio Sagrado Lovato
Raul Perez
Anderson Lima

A proposta do documentário Quando Sinto Que já Sei é levantar uma discussão sobre o atual momento da educação no Brasil. Carteiras enfileiradas, aulas de 50 minutos, provas, sinal de fábrica para indicar o intervalo, grades curriculares, conhecimento dividido em diferentes caixas. As escolas, como são hoje, oferecem os recursos necessários para que uma criança se desenvolva ou a transformam em um robô, com habilidades técnicas, mas sem senso crítico?

O projeto surgiu da nossa percepção de que valores importantes da formação humana estão sendo deixados fora da sala de aula. Decidimos explorar novas maneiras de aprender que estão surgindo e se consolidando pelo Brasil, baseadas na participação e na autonomia de cada pequeno ser humano.

Filmando de forma independente, visitamos projetos com propostas educacionais inovadoras. Ouvimos crianças, pais, professores, educadores, diretores e gente das mais diversas áreas, todas com o mesmo desejo: romper com o modelo convencional de escola.

Reproduzido de Quando sinto que já sei
30 jul 2014

Acompanhe e curta no Facebook, clicando aqui.


O Filme lançado em 29/07/14 está disponibilizado na íntegra, abaixo:

domingo, 18 de novembro de 2012

Mensalão e agenda setting: "Matrix" na prática


Mensalão e agenda setting: "Matrix" na prática

Wilson Roberto Ferreira Vieira
15/11/2012

Talvez ironicamente a essência do filme “Matrix” (a hipótese da virtualidade do real) já esteja presente no nosso dia-a-dia mais do que imaginamos. A pesquisa “Agenda Setting e a Cobertura dos Casos Mensalão e Cachoeira” feita por estudantes de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi/São Paulo como conclusão do curso “Estudos da Semiótica” apresenta a constatação de que a mídia corporativa não tem mais o poder de eleger presidentes ou forçar impeachments como no passado, mas ela é eficiente em estabelecer pautas e agendas como a do atual julgamento do chamado “Mensalão”.  Se a hipótese da agenda setting for correta, o que chamamos de “realidade” poderia ser uma construção a partir de percepções e cognições fornecidos por um ambiente midiático em que vivemos.

Virtuosismo tecnológico, capas pretas, bullet time e todo o visual ciberpunk marcaram as representações dos mundos virtuais em filmes como “Matrix”: humanos enredados nos véus da ilusão criada por computadores/demiurgos que nos escravizam. Mas descontando todo esse sensacionalismo hollywoodiano em torno da hipótese da virtualidade do real, podemos nos surpreender ao descobrir que a essência do tema de Matrix já está presente em nosso dia-a-dia, tão diluído nos temas das nossas conversas e na indústria de informação e entretenimento que nem nos damos conta: mais do que uma figura retórica, já há muito tempo experimentamos a Matrix na prática!

Isso é o que demonstra a pesquisa “Agenda Setting e a Cobertura dos Casos Mensalão e Cachoeira”, trabalho de conclusão da disciplina Estudos da Semiótica da Escola de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi – UAM/São Paulo (veja video anexo ao post). O grupo formado pelos estudantes da graduação em Jornalismo Ana Carolina Cassiano, Cainã Ito, Camila Albino, Gustavo Carratte e Renata Corona analisou as capas e primeiras páginas dos principais veículos de imprensa de alcance nacional e chegou a uma constatação empírica: até o início do segundo semestre o foco dos veículos como jornais “O Globo”, “Folha de São Paulo”, “O Estado de São Paulo” e de revistas como “Veja”, “Isto É” e “Época” “estava concentrado nas repercussões das denúncias envolvendo o contraventor Carlinhos Cachoeira. O julgamento do chamado Mensalão ainda era pouco comentado”.

Com a proximidade das eleições municipais, esse foco midiático foi invertido: “quase nada de Cachoeira e exaustiva cobertura sobre o escândalo envolvendo o Partido dos Trabalhadores (...) Cachoeira permanecia envolvido em acusações, mas já não tinha seu rosto exposto por tanto tempo na TV, jornais, revistas e sites, tampouco era comentado nas rádios”.

 “Tomando como exemplo a revista Veja seis de suas capas no segundo semestre de 2012, quando já estavam próximas as eleições municipais, foram sobre o caso envolvendo o PT. Além destas, mais três tiveram destaque na capa, com chamadas para ler mais denúncias páginas adentro”.

Para além dos evidentes exemplos de manipulação no enquadramento e seleção dos acontecimentos – desde a tendenciosa pergunta da pesquisa Datafolha no início de agosto (“os acusados do Mensalão deveriam ser enviados para a cadeia?”) e todo o exagero da cobertura que invertia os princípios básicos da Justiça (“que obriga os promotores a comprovarem a culpa do réu e não o contrário”) – a pesquisa associou a inversão da cobertura no segundo semestre ao fenômeno conhecido como “agenda setting” ou agendamento: a mídia não apenas manipula a realidade, mas, principalmente, altera a nossa percepção da realidade. Pode parecer uma diferença sutil a existente entre os termos “manipulação” e “percepção”, mas ela é decisiva por ser mais insidiosa e profunda.

A Hipótese do “agendamento”: já vivemos na Matrix

Embora o conceito de “agenda setting” tenha sido formulada somente na década de 1970 pelos pesquisadores norte-americanos Maxwell McCombs e Donald Shaw em estudos que analisavam a influência das mídias nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 1968, seus princípios básicos começaram a ser traçados em 1922 pelas teses levantada pelo jornalista Walter Lippmann.

Para Lippmann a opinião pública não reagia diretamente aos fatos do mundo real, mas vivia em uma espécie de “pseudoambiente” formado principalmente por “imagens em nossas cabeças” (LIPPMANN, W. Public Opinion). A mídia teria um papel central na estruturação desse pseudoambiente e fornecimento das imagens.


Em 1963 Bernard Cohen deu uma premissa moderna a essa ideia esboçada por Lippmann: “Na maior parte do tempo a imprensa pode não ter êxito em dizer aos leitores o que pensar, mas é espantosamente exitosa em dizer aos leitores sobre o que pensar” (COHEN, B. Press and Foreign Policy). Em outras palavras, a mídia seria péssima em impor conteúdos ou persuadir a opinião pública a tomar um posicionamento “A” ou “B”, mas ela seria ótima em criar uma hierarquia de temas supostamente com pertinência social para ser discutida.

Dessa maneira, Cohen destacou a onipresença da mídia como eficiente modificadora e formadora de opinião a respeito da realidade. Em consequência da pauta de temas criados pelas mídias o público sabe ou ignora, presta atenção ou ignora, realça ou negligencia certos elementos dos cenários públicos. As pessoas tendem a incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que as mídias incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público pode atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelas mídias aos acontecimentos, problemas e às pessoas. A pauta de fixação feita pelos meios de comunicação perdura no público. Os assuntos nela evidenciados serão comentados pelas pessoas que acabarão julgando os fatos de acordo com essa pauta e percebendo uma realidade social diferenciada.

O filme “Obrigado por Fumar” (Thank You For Smoking, 2005) apresenta didaticamente essa estratégia que está além da manipulação simples pela imposição de determinado posicionamento ideológico: se as pessoas querem ou não fumar cigarro, essa seria uma questão que a mídia teria muito pouca influência. Mas ela seria eficiente em fixar a pauta do tabagismo como tema pertinente para a opinião pública. O filme ironicamente apresenta como a indústria tabagista estaria por trás tanto de pesquisas que demonstrem os malefícios como as que refutam os danos maiores do cigarro. O que importa é que o tema tabagismo ganhe espaço e visibilidade midiática.

Guerra de percepção e sociedade do espetáculo

Pela hipótese da agenda setting não se trataria mais discutir se a mídia influencia ou não determinados conteúdos ideológicos, mas a forma como ela molda a percepção da própria realidade. A pesquisa do grupo de estudantes de jornalismo da UAM destaca: “a mídia já não tem força para decidir quem vai ser o próximo presidente, nem para eleger e forçar o impeachment como no caso de Collor. Mas isso não significa que a mídia corporativa não siga buscando seu intento, através da agenda setting, como agora ao conseguir colocar em pauta o mensalão do PT”.

O mais perturbador nessa hipótese é a de que se a questão da mídia não é de conteúdo (informação), mas de forma (pauta, agenda etc.) pouco importaria se durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal ocorresse uma reviravolta, as chicanes jurídicas fossem derrotadas e o mensalão fosse desconstruído diante das câmeras: o mal já teria sido feito após a percepção da opinião pública ter aceito a pertinência do tema “mensalão do PT” como hierarquicamente superior a outros temas.

A pesquisa da UAM define a guerra pelos agendamentos das pautas nas mídias como a própria natureza da sociedade do espetáculo: embora seus resultados sejam ideológicos, os meios de comunicação seriam pouco afeitos a ideologias, conteúdos ou informações (conscientização, formação, inculcação etc.). Essa eficiência de influência ideológica talvez tenha existido nas antigas sociedades de massa dos tempos da Segunda Guerra Mundial. Hoje, com sociedades mais segmentadas e complexas onde a influência pessoal de líderes de opinião (não confundir com “formadores de opinião” das mídias) como filtros das mídias ganha mais força, a batalha passa a ser por agendas impactantes que alterem a percepção do que seja a realidade para as pessoas.

É claro que após o sucesso do agendamento de um determinado tema, os tradicionais mecanismos de manipulação da informação entram em cena, como ficou evidente na cobertura do caso do Mensalão e nos 18 minutos de espaço dado pelo Jornal Nacional da TV Globo para fazer um “resumo” do julgamento do STF. Isso seria um aspecto técnico-ideológico da edição da informação (que muitas vezes o público nem percebe criticamente) e que é mais compreendido por aqueles predispostos à opinião inquisitorial sobre o PT.

O mais importante é que, em uma sociedade do espetáculo, a conquista de uma pauta ou agendamento já é, em si, uma vitória ao fazer o público discuti-la seja a favor ou contra.

Um argumento contra a eficiência ou existência dessa hipótese seria que apesar de todo o agendamento do caso Mensalão desde 2005 na mídia Lula foi reeleito e fez seu sucessor, Dilma Roussef. Mas, poderíamos dizer: “é a economia, estúpido!”. Duas pautas contraditórias parecem disputar percepção da opinião pública: a moralista da corrupção versus a do crescimento econômico paradoxalmente partilhada até pela TV Globo, por exemplo, com o tema da “nova classe média” em novelas como “Avenida Brasil”.  

Se a hipótese da agenda setting for correta, o que chamamos de “realidade” poderia ser um constructu a partir de percepções e cognições fornecidos por um ambiente midiático em que vivemos. Essa talvez seja a essência do filme “Matrix”. Um filme muito discutido, mas ainda pouco compreendido.

15 nov 2012


Leia também:

“Mídia corporativa e agenda-setting para gerar” no Blog do Mello (19/08/12), clicando aqui.


domingo, 19 de agosto de 2012

Filme estrelado por atores com síndrome de Down é aclamado em Gramado



Filme estrelado por atores com síndrome de Down é aclamado em Gramado

"Colegas" é uma aventura fantasiosa dirigida por Marcelo Galvão; longa deve estrear nos cinemas em novembro

Marco Tomazzoni 
Enviado a Gramado 
14/08/2012

Se o documentário "Futuro do Pretérito" havia sido bem recebido no domingo na 40ª edição do Festival de Gramado, a exibição de "Colegas", na noite de segunda-feira (14), se mostrou bem superior. O público bateu palmas em cena aberta e aplaudiu de pé ao final do filme, protagonizado por atores com síndrome de Down.

O "road movie" mostra uma garota e dois garotos, portadores da deficiência, que fogem do instituto onde vivem no Karmann Ghia vermelho do jardineiro (Lima Duarte), inspirados depois de ver "Thelma e Louise". Usando máscaras de palhaço, roubam lojas pelo caminho, cada um querendo realizar um sonho: ver o mar, se casar e voar.
Tudo num clima de aventura e humor leve e adorável, mas que não pareceu atrativo para os investidores. "A arrecadação de recursos foi a parte mais difícil. Os empresários achavam que iam atrelar sua marca à síndrome de Down, e que isso não seria bom", comentou o diretor Marcelo Galvão na terça-feira (14).

Responsável também por filmes como "Rinha" e "Bellini e o Demônio", ambos de 2008, Galvão fez testes com mais de 300 jovens em busca do elenco. Daí saiu Breno Viola e boa parte dos figurantes. Para escalar os outros dois protagonistas, foi mais fácil: casados na vida real, Ariel Goldenberg e Rita Pokk já haviam aparecido no documentário "Do Luto à Luta" (2005), de Evaldo Mocarzel.

O diretor admitiu ter crescido convivendo com um tio com síndrome de Down, ao contrário de boa parte da população, que vê os portadores com preconceito. "O principal problema é o desconhecimento. A partir do primeiro contato, a gente quer sempre estar ali, ao lado deles."

Definindo seu trabalho como uma comédia infanto-juvenil, Galvão aposta que "Colegas", com estreia prevista para novembro, terá recepção especial entre as crianças. "Acho que vai virar referência entre filmes de infância", afirmou. "A partir dele, as pessoas vão desenvolver um olhar diferente para a síndrome de Down."

Se depender do otimismo dos atores, a batalha já está ganha. Ariel disse esperar que o filme faça um "sucesso fenomenal", enquanto Rita, sem se importar com a modéstia, já ensaiava o discurso para subir no palco na entrega dos Kikitos, "esse Oscar".

"Foi tão bom fazer esse filme, uma energia tão boa, que isso ficou impresso na tela", finalizou o diretor.

Fantasia cinéfila

Um pouco antes da exibição no Palácio dos Festivais, Marcelo Galvão deu um conselho: "Esqueçam que os atores têm síndrome de Down e viajem na história". Nem precisava. Em pouco tempo, o público mergulha sem dificuldade nessa grande homenagem ao cinema que é "Colegas".

A trama é repleta de referências principalmente a filmes hollywoodianos, a começar pelo nome de um dos personagens principais, Stalone. É a ponta de um novelo que se vai desfiando ao longo de todo o filme. Dos diálogos ao cenário, há garantia de diversão para qualquer fissurado em cultura pop. "Homens de Preto", "Pulp Fiction", "Cães de Aluguel", "E o Vento Levou", "Jules e Jim - Uma Mulher para Dois", "Psicose", "A Vida é Bela"... A lista é longa, e se encaixa com perfeição no mundo de fantasia criado pelo diretor.

"Colegas" se passa num universo onírico, longe da realidade. Stalone, Aninha e Márcio, o trio protagonista, fogem do instituto em que viviam usando pijamas, e ficam assim boa parte da história, só alternando para usarem roupas de super-herói, de sultão e de princesa.

Enquanto disparam de carro por estradas poeirentas, ainda atravessam um campo de girassóis, passeiam pelas falésias do litoral norte gaúcho, andam de balão e vão parar em Buenos Aires, tudo embalado pela direção de fotografia cristalina de Rodrigo Tavares. Nessa intimidade que se cria com o espectador, tudo passa a ser possível.
Aliada às belas imagens, a trilha sonora original de Ed Côrtes conquista, ainda mais pelo punhado de canções de Raul Seixas (ele mesmo um personagem) que embalam a história. Mas "Colegas" ainda se apoia no carisma de seus personagens e em um humor fácil, debochado, às vezes negro e até corrosivo – o retrato dos jornalistas que fazem a cobertura dos "ladrões perigosos" é impagável.

Plural desse jeito, o filme tem potencial para agradar aos públicos mais diversos. A princípio, o politicamente correto tornava quase que obrigatório falar bem de um filme estrelado por atores com uma deficiência. "Colegas" não precisa desse sentimento: é excelente.

Reproduzido de Último Segundo/IG
14 ago 2012



Comentário de Filosomídia:

Que bacana! Quero assistir ao filme ao menos 10 vezes!

terça-feira, 20 de março de 2012

O sonho americano dos que mal dormem...


O sonho americano dos que mal dormem

"Lá por volta de 2007, na época em que saiu, assisti À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness) em Santa Catarina. Na ocasião, minha impressão sobre o filme não foi boa e, com efeito, na minha memória não restava nada de positivo sobre ele. Me incomodou muito a mensagem do roteiro, algo como “não importa quão ferrado você está; se esforçando e acreditando nos seus sonhos você só depende de você para subir na vida”.

Inspirado pela ideia de assistir filmes que se passam em San Francisco e particularmente por ter visto um cartaz de um músico de rua na Chinatown dizendo que ele apareceu no filme, resolvi encará-lo novamente na semana passada. Dessa vez, achei tão brilhante que me vejo obrigado a escrever esta nota, que quero compartilhar com meus amigos no Brasil, para recomendá-lo.

“À Procura da Felicidade”, para muito além dessa mensagem e das belas imagens, e embora se passe na década de 80, é um fantástico retrato de uma característica muito atual da San Francisco que estou conhecendo nas oportunidades que tenho de visitá-la: uma cidade de sem-tetos, cada um por si à procura da sua felicidade. Não se trata de um problema só de San Francisco (alguém poderia argumentar que as pessoas vivem na rua lá porque é a cidade dos hippies — if you’re going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair), mas de um problema que salta aos olhos nas grandes cidades dos Estados Unidos (em especial na Califórnia) e que, neste país onde a realidade dos 99% dificilmente tem dinheiro pra passar na TV, parece não ser muito divulgado e muito menos combatido da forma que deveria.

Em um estudo realizado com dados de 2005 e 2006, concluiu-se que todo ano uma a cada cinquenta crianças dos Estados Unidos encara não ter casa. Já seria absurdo, mas esse número hoje (pós-crise) é com certeza bem maior, já que várias pessoas têm perdido suas casas desde 2008. Camaradas que conheci da ISO do norte da Califórnia, que são ativistas em movimentos de moradia por aqui, estimam que 50 milhões (i.e., 1/6 de uma população de cerca de 300 milhões) já passaram pela experiência de ficarem sem teto.

Diferente de como funcionam as coisas no nosso país, aqui o governo não permite construções irregulares (tipo as nossas favelas). Como resultado, o que vemos é algumas pessoas vivendo em abrigos, algumas revezando casas de amigos, algumas nos seus carros, algumas acampadas (principalmente pós-2008), muitas nas prisões (0.7% da população dos Estados Unidos está presa neste momento e o número quadruplica se você considerar liberdades condicionais e pessoas em observação: é o recorde mundial) e muitas simplesmente nas ruas mesmo. Os abrigos são muito insuficientes para a quantidade de pessoas sem teto: em San Francisco, há uma vaga para cada quinze pessoas sem lugar para morar. Na maioria dos lugares, é preciso conquistar diariamente uma vaga.

Estou numa tentativa de falar com o máximo de pessoas que consigo para aprender sobre essa gente. Esses dias, pegando um trem, puxei conversa com um homem muito sujo, com sotaque muito engraçado (para mim) e com uma mochila, negro, velho, não me lembro o nome. Acho que ele gostou de mim: repetiu várias vezes que eu era louco, mas foi me contando várias coisas. Depois de trocarmos ideias descobri que era veterano do Vietnã. Falei pra ele que eu queria conhecer Oakland. Ele respondeu pra eu não ir, porque, nas suas palavras, “é uma cidade muito perigosa: muitos negros e sem-teto. Há muitos sem-teto aqui. Você não vê todos porque eles se escondem para não serem presos e você nem percebe que um é quando conversa com ele. Você com essa barba poderia ser um.”

Sem entrar na discussão sobre outros problemas latentes como o racismo e a segregação, a falta de saúde, a falta de qualidade e o alto preço da educação, e a inércia dos que ainda acreditam no sonho americano e buscam [com necessidade e razão, mas usualmente em vão] individualmente a felicidade diante disso tudo, para não escrever um texto muito grande quero registrar apenas que estou há quase um mês e meio aqui e ainda me impressiono: é incrível o nível de desigualdade e de desumanidade que noto a cada minuto no país-modelo do capitalismo e na região do tão rico e inovador Vale do Silício.

A minha ideia, antes de vir pra cá, era que aqui as pessoas tivessem mais condições, que houvesse mais acesso a qualquer coisa que não só fast-food e gadgets de segunda linha: afinal, me parecia que o ganancioso capitalismo estadounidense já explora suficientemente o terceiro mundo. De fato, há muitas coisas bonitas e muito dinheiro aqui. No entanto, o dinheiro é muito concentrado e neste momento não acho que a vida dos 99% aqui seja tão melhor do que a vida dos 99% na América Latina. Talvez pela crise, pelo poder da propaganda, pelo individualismo ao qual são levados pela fé num sistema que os explora sem parar, pela aparente dificuldade de luta organizada e pela ausência de organizações de esquerda com influência de massas na história recente, seja o contrário. De qualquer forma, cada vez tenho mais certeza de que aqui e aí temos, entre outras coisas, um grande desafio em comum. A construção de um outro futuro que reinvente as relações humanas, tenha igualdade e seja verdadeiramente democrático é uma necessidade urgente e mundial.

* Tiago Madeira é militante do Juntos! SP e está fazendo um estágio de um semestre em Palo Alto, Califórnia.

19 mar 2012


Conheça também o Blog (em construção) da Associação dos Moradores da Vila do Arvoredo, em Florianópolis/SC, clicando aqui.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Jean-François Brient: A servidão moderna...


A servidão moderna é um livro e um documentário de 52 minutos produzidos de maneira completamente independente; o livro (e o DVD contido) é distribuído gratuitamente em certos lugares alternativos na França e na América latina. O texto foi escrito na Jamaica em outubro de 2007 e o documentário foi finalizado na Colômbia em maio de 2009. Ele existe nas versões francesa, inglesa e espanhola. O filme foi elaborado a partir de imagens desviadas, essencialmente oriundas de filmes de ficção e de documentários.

Conheça mais sobre o documentário na página "De la servitude moderne" clicando aqui. Faça o download gratuito do livro também.



Via Pobres & Nojentas

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Documentario: "La independencia Inconclusa"


LA INDEPENDENCIA INCONCLUSA, aborda los grandes temas pendientes de una América Latina que aún no cumple el sueño emancipador de los Libertadores, pero que en su Bicentenario sigue luchando por una definitiva independencia...

Esta monumental obra documental, es la primera coproducción en la historia del cine y televisión latinoamericanos, con una auténtica mirada integradora a nuestro continente. Un documental que plantea una reflexión y exploración crítica a nuestra historia republicana de 200 años, en un emotivo viaje a la memoria y que proyecta una perspectiva de cambio desde una visión contemporánea.

Los más diversos personajes de nuestra región, desde jefes de estado hasta gente común, pasando por líderes e intelectuales, hombres y mujeres representativos de nuestra diversidad identitaria, realizan un coral y notable Diálogo de América. Un apasionante retrato audiovisual de estos 200 años, atraviesa las luces y sombras de los principales hechos sociales, políticos, y culturales, entreverados con los héroes, pero también los villanos... protagonistas de esta historia jamás contada...

El Documental del Bicentenario

Largometraje 188 minutos en dos Partes.
Serie de 6 capítulos de 50 minutos c/u
Rodada en Cine Alta HD. Color y blanco y negro
...Producida por LUIS R. VERA PRODUCCIONES E. I. R. L.
En Coproducción con: Villa del Cine, Universidad Autónoma Metropolitana,
Metatrón Films,
Otra Cosa Producciones, ICAIC.

Con auspicio de ALBA Cultural y la participación de TELESUR.

Equipo creativo y técnico principal

Luis R. Vera: Guionista, Director, Productor
Sergio Trabucco: Productor ejecutivo



Saiba mais clicando aqui.

Lançamento em Belo Hortizonte/MG: dia 09 nov 2011
AFFEMG . 18:30 H

domingo, 6 de novembro de 2011

Jesus ocupa Wall Street...


Filme “Jesus era comunista” faz sucesso em festivais, gera polêmica nos EUA e cita dom Helder Câmara

Embora o filme não tenha sido exibido comercialmente, o site do filme traz a seguinte mensagem: “Sua revolução implicava em uma mudança dramática na forma como as pessoas pensavam. O pensamento progressista e liberal de Jesus se espalhou por todo o Império dominante. Sem exército e sem armas, Ele levou as pessoas a uma nova direção e uma forma mais humana de pensar, com sua filosofia de amor e perdão. Estas são as ideias defendidas neste exato momento pelos protestos em Nova York e por milhares de norte-americano através dos Estados Unidos”.

Quando os tempos estão difíceis, parece que a religião volta a ficar popular. Enquanto o mundo está em turbulência, com os mercados econômicos parecendo entrar em colapso e o meio-ambiente degradado, Jesus volta a ser o centro da atenção.

O premiado ator Matthew Modine já participou de filmes de sucesso no cinema e de séries televisivas. No momento ele está envolvido nas gravações do novo filme sobre Batman. Entre uma filmagem e outra, ele produziu um curta-metragem de 15 minutos que mostra o Filho de Deus como um líder socialista, oferecendo um argumento convincente em favor dos pobres.

Modine escolheu um título polêmico: “Jesus era um comunista”. Seu filme  oferece uma discussão das mensagens do Novo Testamento no contexto da pobreza, da poluição e da agitação política.

Selecionado para participar de vários festivais de cinema em todo o mundo, a discussão que o veterano ator propõe já está chamando atenção. O movimento político direitista Tea Party tem usado a Bíblia como seu “cabo eleitoral e justificativa para mudanças na política”. Sites cristãos como o Truth Vanguard já fizeram pesadas críticas ao curta metragem.

O filme de Modine parece ter um endereço certo. Algumas semanas atrás, o movimento “Ocupar Wall Street” iniciou um debate sobre a relação entre os mais ricos e os mais pobres da sociedade. Rapidamente iniciativas similares se espalharam por vários lugares do mundo.

Vários meios de comunicação compraram a iniciativa com o início do Cristianismo, quando a igualdade entre todos os homens ajudou a desfazer a estrutura social do antigo Império Romano. Imediatamente líderes religiosos e teólogos começaram a debater o tema. Enquanto alguns apoiaram a ideia dizendo que Jesus estaria ao lado dos que ocuparam Wall Street, outros criticaram veementemente, afirmando que a revolução que Jesus queria nada tinha a ver com distribuição de renda.

Embora o filme não tenha sido exibido comercialmente, o site do filme traz a seguinte mensagem: “Sua revolução implicava em uma mudança dramática na forma como as pessoas pensavam. O pensamento progressista e liberal de Jesus se espalhou por todo o Império dominante. Sem exército e sem armas, Ele levou as pessoas a uma nova direção e uma forma mais humana de pensar, com sua filosofia de amor e perdão. Estas são as ideias defendidas neste exato momento pelos protestos em Nova York e por milhares de norte-americano através dos Estados Unidos”.

Falando sobre o curta, Modine explica: “Embora o título seja propositadamente provocativo, é importante às pessoas entenderem que o filme não é um ataque a Jesus ou à fé cristã e nem mesmo uma apologia ao comunismo. Trata-se de um filme com uma mensagem muito positiva, de responsabilidade e de esperança”.

Durante uma entrevista, no lançamento do filme semana passada, Modine foi mais longe: “O movimento Ocupar Wall Street não tem uma só voz, um líder. Essa é uma extraordinária demonstração de liberdade civil e de democracia. Mas acho que se houvesse um homem barbudo, de pés descalços falando sobre paz, liberdade, amor e virasse a mesa dos especuladores de Wall Street acabou ele seria crucificado pela mídia. O prefeito exigiria sua prisão. [Alguns meios de comunicação] iria incitar o ódio contra ele e declará-lo uma ameaça para o capitalismo”.

Vindo de uma família muito religiosa, o diretor explica porque os ensinamentos de Jesus o motivaram: “Estou preocupado com os eventos que ocorrem em todo o mundo. A população chegou aos 7 bilhões. Existe muita fome no mundo. Há escassez de água potável. A poluição ameaça o meio-ambiente. Vemos os dos resíduos nucleares. Mudanças climáticas em todo o mundo… Há tanta confusão, culpa e falta de responsabilidade no mundo de hoje. Muitas guerras e assassinatos usam como justificativa o nome de Deus. Não foi isso o que Jesus ensinou”.

Confira um trailer do filme que curiosamente inicia com a declaração do teólogo brasileiro Dom Elder Câmara “Se eu dou comida aos pobres, eles me chamam de santo. Se eu pergunto por que os pobres não têm comida, eles me chamam de comunista”.

Mais informações sobre o filme no site www.jesuswasacommiefilm.com (do Gospel Prime)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Mídia: manipulação, concentração, relações com o poder


Mídia: manipulação, concentração, relações com o poder

Muito antes da preparação da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, o papel dos meios de comunicação já havia entrado na pauta das redes sociais e também nos debates da sociedade civil. O tema também foi pauta do 1º Encontro de Blogueiros Progressistas ocorrido nos dias 21 e 22 de agosto, em São Paulo.

Não é de hoje que a sociedade se debruça sobre as denúncias de manipulação da informação, seja por profissionais, pelos detentores do poder e/ou pelos proprietários dos meios. Tudo isso tem sido tratado em filmes que mostram o dia-a-dia das redações e suas relações com o poder e com a sociedade.

Listamos alguns desses filmes para os leitores. Caso tenha sugestões, colabore. Os comentários estão abertos:

A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951), dirigido por Billy Wilder. Na história da cobertura de um acidente, uma reflexão sobre a ética jornalística e a manipulação da informação.

A Primeira página (The Front Page, EUA, 1974), de Billy Wilder. O jornalismo sensacionalista é o tema desta comédia, dirigida pelo mesmo diretor de A montanha dos Sete Abutres

Ausência de malícia (Absence of Malice, EUA, 1981), dirigido por Sidney Pollack. Narra a manipulação da imprensa pelas autoridades.

Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck, 2005, EUA), dirigido por George Clooney. Mostra o esforço de um jornalista para apresentar os dois lados em cobertura jornalística.

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, EUA), dirigido por Orson Welles. A história romanceada de um magnata de um império dos meios de comunicação

Desaparecido (Missing, 1982, EUA), dirigido por Costa Gavras. Sobre a participação dos Estados Unidos no golpe que depôs Salvador Allende.

Frost/Nixon (Frost/Nixon, 2008), dirigido por Ron Howard. Dramatiza as entrevistas dadas pelo então presidente dos Estados Unidos ao jornalista britânico David Frost.

Intrigas de Estado (State of Play, 2009), dirigido por Kevin Macdonald. Revela os bastidores das grandes corporações e de uma grande rede de TV. Debate a ética e a corrupção.

O informante (The insider, 1999), dirigido por Michael Mann. No roteiro, a discussão sobre a liberdade da imprensa e as pressões econômicas sobre os meios de comunicação.

O Preço de uma Verdade (Shattered Glass, 2004, EUA), dirigido por Billy Ray. A ética jornalística e as práticas da imprensa são assunto do filme, baseado num escândalo editorial real.

O Quarto Poder (Mad City, 1997, EUA), dirigido por Costa-Gravas. Mostra a manipulação dos fatos pela imprensa numa situação de risco.

Rede de intrigas (Network, EUA, 1975), dirigido por Sidney Lumet. A televisão como fábrica de notícias e manipulação de consciências é o tema do filme.

Salvador - O martírio de um povo (Salvador, EUA, 1986), dirigido por Oliver Stone. A guerra civil de El Salvador é o ponto de partida para a relação entre as coberturas jornalisticas e as arbitrariedades do poder.

Todos os Homens do Presidente (All the President's Men, 1976, EUA), dirigido por Alan J. Pakula. Narrativa sobre a atuação de dois jornalistas no caso Watergate, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon.

RevistaTeoria e Debate . Fundação Perseu Abramo
Publicado em 03/09/2010

Outra dica

Além do cidadão Kane (Beyond citizen Kane, 1993, BBC), documentário produzido pela BBC de Londres - proibido no Brasil desde a estréia, em 1993, por decisão judicial - que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro. - Os cortes e manipulações efetuados na edição do último debate entre Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor de Mello, que influenciaram a eleição de 1989. - Apoio a ditadura militar e censura a artistas, como Chico Buarque que por anos foi proibido de ter seu nome divulgado na emissora. - Criação de mitos culturalmente questionáveis, veiculação de notícias frívolas e alienação humana. - Depoimentos de Leonel Brizola, Chico Buarque, Washington Olivetto, entre outros jornalistas, historiadores e estudiosos da sociedade brasileira. "Todo brasileiro deveria ver Além do Cidadão Kane".

O que a televisão tem feito para nossa civilização?


Apresentador de TV é demitido devido sua baixa audiência. Quando seu programa ainda estava no ar, ele anuncia a demissão e avisa que irá se matar durante o programa da semana que vem. Isso faz com que o público fique extremamente curioso a passe a elevar sua audiência às alturas, devidamente aproveitada pelos responsáveis do programa. Isso faz nascer um louco profeta, em uma das mais ácidas críticas ao modo de se fazer televisão no mundo.

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Ator (Peter Finch), Melhor Atriz (Faye Dunaway), Melhor Atriz Coadjuvante (Beatrice Straight) e Melhor Roteiro Original.


Veja mais em "70 anos de cinema" clicando aqui.

Assista a dois trailers do filme clicando aqui e ali.

domingo, 9 de outubro de 2011

Para libertar o mundo: O melhor discurso de todos os tempos...




O melhor discurso de todos os tempos

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem ... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora ... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina!

Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Charles Chaplin
O último discurso (O Grande ditador – 1940)

sábado, 8 de outubro de 2011

Eu odiaria crescer como alguns que eu sei que gostam de empurrar as pequenas crianças de perto...


Little Kids


Bart Collins*


Now just because we're kids
Because we're sort a small
Because we're closer to the ground
And you're bigger pound by pound
You have no right
You have no right
To push and shove us little kids around.

Now just because your throat
has got a deeper voice
And lots of wind to blow it out
At little kids who don´t dare shout
You have no right
You have no right
To boss and beat us little kids about

Just because you have
whiskers on your face to shave
You treat us like a slave
So what? It's only hair

Just because you wear
A wallet near your heart
You think you're twice as smart
You know that isn't fair


But we'll grow up someday
And when we do, I pray
We won't just grow in size and sound
And just be bigger pound by pound
I'd hate to grow like some I know
Who push and shove us little kids around.



From The 5,000 Fingers of Dr. T.
Um filme musical de fantasia, dica de Xtrobo
Letra explicada no contexto: Philip Nel in "Dr. Seuss: American icon"


*Bart Collins é o personagem interpretada por Tommy Rettig, "um menino de 9 anos que, cansado e atormentado pela prática excessiva imposta por seu professor de piano, adormece sobre as teclas e sonha estar preso numa fortaleza onde é mantido em regime de escravidão. O professor se chama Dr. Terwilliker, ou simplesmente Dr. T, caricatura de ditador que mantém Bart e mais centenas de outros meninos encarcerados num mundo delirante e labiríntico, no qual um piano gigante, de dois andares, está à espera do dia em que os 500 meninos, com seus 5000 dedos, executarão o concerto “definitivo” composto pelo tirano." Contracampo . Revista de cinema


Leia mais sobre "The 5,000 Fingers of Dr. T." (1953) clicando aquiali e acolá.




Nota de Re-nascimento:


Hoje decerto que o Planeta Azul se fecundou em alguma coisa boa vinda da imensidão do espaço com esses meteoros que vão caindo por aqui. Nesses dias, depois do texto lindo sobre as Crianças de Elaine Tavares, e inundado de uma Arte na sua expressão mais imensa/super/mega mágica e estroboscopicamente emeninada, algo também se acriançou mais ainda em mim. Também porque é Primavera, e é chegada a estação  da alma que faz brotar da terra e do peito esperanças novas. Tempo de re-nascer... Conjunções se deram, sincronicidades, majik no ar, de crescer com alegria, de dar as mãos e cabeças, de trazer ao peito outras crianças...


O Barco do Destino passou por mil mares, mil janelas, mil céus, atravessou desertos, cruzou pela lama, fez o Nawta da Paz ir franciscar, sair e querer tocar as estrelas, tocar noutros portos, libertar-se de todas as tiranias. E porque "de tão calejada, minha âncora demora já um pouco mais a se soltar do fundo que antes, quando mais criança..." veio um Avatar me dar uma mãozinha, o Mestre do Ar me soprar e segredar, assim à primeira vista, mil coisas que só meninos sabem saber da "infância mágica"... It´s magic...


Eita, Menino de 5 mil dedos fazendo artes nos céus... skies...
Eu amaria crescer como,  e com um Menino que gostasse e trouxesse no peito tanto Amor assim... pequena criança...


Hoje, mais que nunca, eu deixei de ser homem, para ser Menino, para ser Super-Homem, diria Zarathustra... Re-nasci no borbulhante das ondas do mar desse céu... Fui literalmente tocado, assim, num lapso de tempo, num momento de eternuridade do estalar de cinco mil dedos...


Pra essa canção do menininho Bart Collins cheio de dedos na cabeça - e tudo o que ela significou pra mim nesse dia meteórico - só tenho a dizer isso, piscando pra Ele: brigadim, viu?

Que dia mais feliz eu vivi... que dias felizes eu viverei... muito mais do que cinco mil dedos podem contar... Happy fingers... Feliz Todo Dia das Crianças...