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domingo, 13 de maio de 2012

Sobre a "Mensagem ao repórter da Globo"...


MENSAGEM AO REPÓRTER DA GLOBO

Olá, Heraldo!

Recebi sua mensagem informando que você estará no Rio, esta semana, a convite da Cojira-Rio, para o lançamento da segunda edição do Prêmio Abdias Nascimento. Grato pela informação. O que me surpreendeu foi sua convocação para um debate – “Peço que apareça para debater comigo”. Mas quem, em verdade, me convida para uma discussão: você, a Cojira, a Globo, a Fundação Ford? Isso não ficou explícito.

Existe aí um problema ideológico: a Comissão dos Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro tem o hábito de contemplar as Organizações Globo na hora de discutir a discriminação racial. Ano passado, por exemplo, no lançamento do Prêmio Abdias Nascimento, a palestrante foi a Míriam Leitão, com seu discurso neoliberalizante; agora, é você a bola da vez.

Anote aí o que vai acontecer: dar-lhe-ão uma hora pra falar e depois vão abrir no máximo três minutos para considerações individuais dos presentes, com limite de inscrições. Em seguida, haverá um coquetel. Não se iluda, Heraldo! Isso não é debate; é convescote.

Faz lembrar um seminário que teve na ABI, com a presença de Roberto Marinho. O auditório estava lotado, com todo mundo querendo debater com o Doutor Roberto. Ele falou – mais leu que falou – quase uma hora. Uma porrada de gente se inscreveu para o debate. Mas o mediador da mesa comunicou que o poderoso Dr Roberto tinha outro compromisso e teria de se retirar imediatamente. Não houve o contraditório. Já se passou a fase de bater palmas pra maluco dançar.

Não tenha dúvida: o Sistema Globo, comprovadamente, é um forte instrumento de discriminações, entre elas, a social, a econômica, a racial.

No dia do julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre as cotas raciais na UnB, o noticiário da Globo deu mais espaço para o estado de saúde do filho do cantor Leonardo do que para o significado da aprovação das cotas. O Globo, em seu editorial do dia 2 de maio, afirmou que a decisão do STF “deixou espetada na conta do branco pobre a fatura da suposta “dívida histórica” da sociedade brasileira com os negros, que a briga racialista invariavelmente antepõe como pressuposto da defesa de suas ideias”. No G1, a antropóloga Yvonne Maggie dizia que era um retrocesso. A CBN não ouviu sequer um militante da causa das cotas, mas entrevistou o antropólogo Roberto da Matta, que fez uma mea culpa, dizendo que antes era contra as cotas, mas que agora admitia sua necessidade. Outros grandes veículos da mídia foram na mesma linha. Joelmir Betting chegou a dizer que era “racismo às avessas”. Nesta terça, dia 8, foi a vez do caderno Razão Social, de O Globo, trazer nos quadrinhos Turma da Febeca – em que os personagens são na maioria deficientes – um protesto contra a política de cotas.

Vale lembrar aqui uma pesquisa realizada pelo Observatório Brasileiro de Mídia, a pedido do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade-CEERT, abordando como a mídia nacional trata questões do interesse da comunidade negra, tais como religiões de matriz africana, cotas nas universidades, quilombolas, ação afirmativa, estatuto da igualdade racial. Foram analisadas, num determinado período, 1.093 matérias, entre os principais jornais e revistas do país. De modo geral, a chamada Grande Imprensa se posicionou contra os principais pontos da agenda de interesse da população afrodescendente. Questões como estatuto da igualdade racial, cotas nas universidades e demarcação de terras quilombolas foram consideradas instrumentos que promovem o racismo.

Outra pesquisa, específica sobre O Globo, apontou que foram publicados 20 artigos sobre as cotas, sendo 7 do Ali Kamel e 6 do Demétrio Magnoli, declaradamente anticotistas. Fico aqui a me perguntar: por que você não pediu um espaço nas Organizações Globo para escrever sobre o sistema de cotas?

A gente sabe que a Globo é uma das principais empresas de comunicação no estímulo à pejotização. Obriga seus funcionários a abrirem empresas e, em vez de serem assalariados, viram prestadores de serviço. Juridicamente, deixam de ser trabalhadores e passam a ser PJs – pessoas jurídicas. No fundo dessa trama, é exigido do tal prestador de serviço que se exima de declarações públicas contrárias aos interesses da corporação. Ou seja, o tal PJ é ferido mortalmente na sua liberdade de expressão. Coisa pior não pode haver para o Jornalismo de verdade.

Certa vez, na cobertura de uma greve dos serventuários da Justiça do Rio, chegou uma repórter da Globo para fazer a matéria. Encontrou na porta do Fórum um cara chorando porque não conseguia o atestado de óbito para enterrar a mãe. Detalhe: era 9h da manhã e, mesmo sem greve, ele não obteria o atestado naquela hora, porque o fórum só abre às 11h. Mas a jornalista não titubeou: gravou com o cara mesmo assim e a matéria foi pro ar, sob o argumento de que o movimento dos serventuários estava prejudicando a população. Ou seja, sai o Jornalismo, entra em ação o teatrinho da Globo, tendo como protagonista a manipulação da informação. E o que dizer da edição global do debate Lula x Collor?

Principal fórum de debates sobre mídia ocorrido até hoje no Brasil, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação – realizada em dezembro de 2009, em Brasília, reunindo milhares de representantes dos empresários, do poder público e da sociedade civil — aprovou uma série de propostas de políticas públicas para a área de Comunicação Social do país. Vale destacar algumas sugestões do interesse da sociedade e em especial da comunidade negra: garantir concessões de canais de rádio e TV para comunidades tradicionais, contemplando as de matrizes africanas; paridade racial e de gênero na publicidade; estabelecer percentual nos sistemas de rádio e TV para programas que abordem a história da África e da população de origem africana no Brasil; vaga para o movimento negro no Conselho Nacional de Comunicação Social, entre outros pontos. Não vi nem você nem a Globo por lá.

Já a 2ª Conferência Nacional pela Igualdade Racial, realizada também em 2009, em Brasília, aprovou resolução que trata da responsabilidade judicial de emissoras de TV e rádio pela veiculação de matérias de cunho racista e discriminatório e aplicação de multas diárias em casos de intolerância religiosa. Os participantes da Conferência consideraram que a produção da mídia de forma democrática e plural é altamente estratégica para a liberdade religiosa, a valorização da diversidade cultural e contra a discriminação racial. Você estava lá?

Não por acaso, a minha monografia na pós-graduação em Relações Étnico-Raciais e Educação tratou especificamente da invisibilidade do negro na mídia. É como você me disse por telefone: “Aquela banqueta da Globo não foi feita para negros!”. De fato, apenas 5% dos jornalistas que trabalham em TV são afrodescendentes, de acordo com pesquisa disponibilizada pela Fundação Cultural Palmares. De qualquer maneira, o fato de você estar na Globo não representa que a discriminação racial que existe nos grandes veículos de comunicação tenha sido sustada.

Abordei em minha pesquisa como a mídia se comporta na cobertura de datas especiais. Por exemplo: no Dia dos País, nenhum pai negro foi entrevistado. No Dia das Crianças, nenhuma criança negra foi entrevistada. Nas comemorações de fim de ano, também o negro está ausente nas matérias. Na publicidade, então, a invisibilidade do negro é gritante. É só acompanhar os comerciais que aparecem nos intervalos do Jornal Nacional. Conte o percentual de negros que estão lá. Criou-se um esteriótipo de que o sucesso e a felicidade vendidos nos comerciais têm cor – e ela é branca.

Por que grande parte dos jornalistas não se envolve com a causa contra as discriminações? Agora mesmo, por exemplo, o movimento sindical dos bancários está fazendo uma campanha pela contratação de negros como caixas. Olhe por aí nas agências bancárias e observe quantos caixas são negros. No início do século XX, vale lembrar, uma das reivindicações do movimento negro era a luta pela contratação de negros como lojistas. Os donos das lojas diziam que a clientela não gostava de ser atendida por gente de cor!

Perdi a conta das vezes em que, em coberturas jornalísticas, fui confundido com segurança de eventos. Tenho 1,85m e malho todos os dias para evitar a barriga. Quando um negão do meu tipo físico chega a um evento trajando terno, qual é a primeira impressão das pessoas: “Ih, ele é segurança!” ou “Ah, ele é jornalista!”?

Não dá pra esquecer que, na indústria da mídia, existem alguns jornalistas que vivem na casa grande, mas a imensa maioria está nas senzalas. Espero que você efetivamente se engaje na luta contra as diversas formas de discriminação, que estão nas ruas, mas não entram na telinha da Globo. Quanto à discriminação racial, para fazer a transformação social que interessa ao combate às desigualdades, não basta ser negro; é necessário ter negritude.

Ah, sim! Aproveita para saber da direção do Sindicato do Rio que história é essa de subpiso salarial que eles estão querendo aprovar, bem ao gosto do patronato. Também é uma forma de discriminação.

Por último, Heraldo, sua mensagem é no mínimo descortês, ao colocar como título “Canalhas”. De um lado, demonstra desequilíbrio emocional; de outro, uma arrogância própria de certos globais.

Tente concatenar melhor suas ideias e depois me diga: afinal, você está me chamando para um debate ou pra porrada?

Fernando Paulino

Texto reproduzido de Fazendo Mídia
11 maio 2012


Comentário, grifos e charge de Filosomídia:

Ahhh agora entendi porque ninguém ligado à Globo, e suas filiadas, sequer responde negativamente uma solicitação para entrevista de pesquisa: é a tal pejotização que não permite, por contrato de prestação de serviço, que qualquer jornalista "dela" (isso mesmo, dela) faça "declarações públicas contrárias aos interesses da corporação".

Precisava explicar e, "eu só queria entender"...

terça-feira, 1 de maio de 2012

Alexandre Haubrich: O Trabalho como afirmação do ser


O Trabalho como afirmação do ser

Alexandre Haubrich
15 abril 2011

Desde o fim das sociedades primitivas, cujo trabalho era baseado na coleta e na troca, vimos a ascensão e a permanência de modos de produção que têm por base a exploração, a dominação, o autoritarismo. Os binômios explorador x explorado não deixam dúvidas: na sociedade escravista, amo x escravo; na sociedade feudal, proprietários de terra x vassalos; e hoje, capitalistas x trabalhadores assalariados. Na essência de todas essas composições está o empoderamento de alguns poucos indivíduos e o rebaixamento de muitos outros à condição de simples objeto.

No Brasil especificamente e no mundo ocidental de modo geral, o escravismo foi abolido a partir da conjunção de pressões sociais, esgotamento econômico e interesses políticos. Note que as pressões sociais, de caráter humanitário, formaram apenas uma pequena parte dos elementos desencadeadores da libertação dos escravos. A necessidade de abertura de novos mercados consumidores e de deslocamento do eixo econômico foram determinantes para que as elites econômicas e políticas cedessem e permitissem a troca gradual – ou nem tanto – do trabalho escravo pelo assalariado.

Alianças ou mesmo coincidências de fato entre elites econômicas e políticas, aliás, permeiam toda a atual lógica exploradora do trabalho. Com o domínio econômico, o grande empresariado controla também a política institucional, bancando campanhas milionárias, associando-se de formas nem sempre legais a determinados políticos e partidos ou sendo eles mesmos as pontes entre os dois setores. Dessa forma, o controle do Estado permite a utilização das instituições para a manutenção e reprodução da lógica opressora do Trabalho. O uso da Educação como forma de educar para a submissão, como já vimos em outro texto desta coluna, é um exemplo. As intervenções nos sindicatos e a utilização da polícia para conter greves são outros pilares estatais nos quais se apoiam as elites econômicas para manter o trabalhador sob seu jugo. Além disso, o controle ou a associação com a mídia hegemônica confere ao grande empresariado o monopólio da palavra e da publicidade.

O ser humano e as sociedades que constitui possuem sempre heranças variadas de momentos políticos e organizacionais anteriores. Nosso passado mantém-se presente em pequenas marcas, viciosas ou virtuosas, que nos acompanham indeléveis. Nossos maiores dramas podem ser convertidos, porém, em meras lembranças de algo detestável, desde que os fatos realmente sejam entendidos como detestáveis. Não parece ser o caso do escravismo. As marcas da escravidão, recentemente abolida, permanecem através das práticas de domínio do homem sobre o homem através do Trabalho. A aversão das elites ao trabalho manual, que cria na consciência coletiva a ideia do trabalho como humilhação, é uma dessas heranças sombrias, assim como o autoritarismo e a verticalidade da lógica de produção.

A lógica opressiva aplicada sobre o Trabalho é um dos grandes crimes cometidos ainda hoje contra a humanidade e contra os direitos básicos do ser humano. Em primeiro lugar, porque é no Trabalho que construímos a base sobre a qual irá se erguer nossa organização social. Não no sentido dos bens produzidos, mas no sentido da lógica que empregamos nessa prática. Os modos de produção são elementos fundantes da sociedade. E todo ser humano, como constitutivo e agente dessa sociedade, tem o direito básico de construí-la e optar pelos caminhos que levem a essa construção. O que quero dizer é que para mudar substancial e essencialmente a sociedade é impreterível a mudança intransigente do modo de produção. Com os meios de produção nas mãos dos empresários, o que resta ao trabalhador é submeter-se às condições impostas por aqueles – que, como vimos, atua em sintonia direta ou indireta com o Estado. Os trabalhadores, estejam nas fábricas, nas escolas ou no campo, se veem obrigados a seguir as regras do jogo, estabelecidas pelos patrões, caso queiram ter o que comer e onde morar.

Como já foi explicado, os grandes empresários e o Estado caminham juntos na opressão à esmagadora maioria da população. A intenção do trabalho é a falsa esperança de acumulação de capital pelo empregado, uma esperança introjetada por este a partir da publicidade capitalista, controlada exatamente pelos proprietários dos meios de produção. As conquistas que a classe trabalhadora tem alcançado nas últimas décadas nada mais são do que a reacomodação de valores monetários com vistas ao consumo – mesmo a questão da gradual redução das horas de atividade corresponde também ao uso do tempo de lazer como consumo compulsivo. São conquistas importantes, é claro, mas não são realmente modificadoras, já que não mexem na lógica do modo de produção capitalista, que faz do trabalhador pouco mais do que um instrumento nas mãos das elites econômicas nacionais e internacionais.

Explorado, oprimido, alienado, o trabalhador perde sua condição de sujeito social, pois apenas obedece regras e normas sem jamais ter qualquer poder de decisão. Transforma-se também em mercadoria, alugada pelo patrão para produzir novas mercadorias. Por sua vez, essas mercadorias serão vendidas, em muitos casos, para os próprios trabalhadores, ou seja, estes devolvem ao patrão parte do pagamento que receberam para produzir aquele mesmo bem. Nos outros casos, o salário do trabalhador não será suficiente para comprar a mercadoria que ele mesmo produz.

Se o modo de produção é fundante da sociedade, o Trabalho é fundante do ser. Marx já demonstrava o trabalho como diferenciação fundamental entre o ser social e o ser natural. Ou seja, o trabalho é o que nos torna humanos, seres dispostos a viverem em sociedade e atuarem sobre essa sociedade através de interações recíprocas e culturais. O trabalho, como produção racional, é o que nos desloca da pura ação instintiva, animalesca. Pois ali, na prática do trabalho, transformamos objetos ou conhecimento em outros objetos e outros conhecimentos. E fazemos isso racionalmente, intencionalmente, com um sentido cultural, social, não instintivo ou biológico. O trabalho é o que nos emancipa, é o que nos humaniza. Novamente Marx: “O trabalho liberta o homem”. Sim, mas não em uma sociedade escravocrata. E, como vimos, os resquícios da escravidão ainda perseguem os trabalhadores. Muda-se a superfície, mas a estrutura de exploração continua a mesma.

A estrutura que precisa nascer tem os trabalhadores no centro das decisões e de todas as etapas do Trabalho: organizacionais, manuais e de recompensa sobre o produzido. A desvinculação arbitrária entre trabalhadores e meios de produção é injusta e logicamente inconcebível. Sob que ponto de vista pode ser naturalizada uma prática na qual milhões de pessoas são obrigadas a disponibilizar sua força de trabalho para que algumas poucas lucrem? Sob que ponto de vista pode ser considerado “normal” o domínio de uns homens sobre os outros? É tolerável que, por ter mais pedaços de papel pintado, chamados arbitrariamente de “dinheiro”, uns poucos homens ganhem o direito de explorar uma grande quantidade de homens iguais a eles?

Se o Trabalho é o que deveria separar o ser humano dos demais animais, temos, em sua dinâmica maior, exatamente o oposto disso. Temos a lei do mais forte como única norma. A racionalização da igualdade e da coletividade é substituída pelo selvagem instinto do leão que ataca a presa, sempre de outra raça. No modo de produção capitalista, a exploração do trabalhador pelo patrão representa exatamente o rebaixamento deste a uma raça inferior. As elites não identificam no trabalhador um igual, e a publicidade dá a este a noção de que só se tornará respeitável se consumir mais. E mais: só poderá consumir mais se trabalhar mais. Na verdade, o que ocorre é que, por mais que trabalhe, nunca será respeitado como outro sujeito, pois é construído socialmente como objeto desde sua educação formal até sua rotina de trabalho.

É preciso, então, construir autonomia, emancipação. E nada disso se alcança através de conquistas superficiais. Os trabalhadores, para constituírem verdadeiros sujeitos sociais, não podem estar apartados dos meios de produção. O Trabalho não deve visar lucro pessoal, mas a construção da sociedade. Com os meios sob controle de quem neles trabalha e com a produção destinada à sociedade, cria-se, paulatinamente, uma cultura de solidariedade em todos os setores sociais. O trabalho deixa de constituir um sacrifício necessário ao consumo, e torna-se uma necessidade como afirmação do ser, que se vê participante da sociedade, se vê sujeito, livre e emancipado.

Nesse sentido, grita alto um trecho de artigo escrito em 1965 por Ernesto Guevara, para o semanário Marcha, de Montevidéu, no Uruguai, e dirigido a seu diretor Aníbal Quijano. Escreve Che:

“Para que se desenvolva no primeiro caso (como experiência libertadora), o trabalho deve adquirir uma condição nova; a mercadoria-homem deixa de existir e instala-se um sistema que estabelece uma cota pelo cumprimento do dever social. Os meios de produção pertencem à sociedade e a máquina é apenas a trincheira onde se cumpre o dever. O homem começa a libertar seu pensamento do fato repugnante que pressupunha a necessidade de satisfazer suas necessidades animais por meio do trabalho. Começa a ver-se retratado em sua obra e a compreender sua grandeza humana por meio do objeto criado, do trabalho realizado. Isso já não implica deixar uma parte de seu ser em forma de força de trabalho vendida, que não mais lhe pertence, antes significa uma emanação de si mesmo, um contributo à vida comum em que se reflete: o cumprimento de seu dever social.

“Fazemos todo o possível por dar ao trabalho essa nova categoria de dever social e uni-lo ao desenvolvimento da técnica, por um lado, o que trará condições para maior liberdade, e ao trabalho voluntário, por outro, baseados na apreciação marxista de que o homem alcança realmente sua plena condição humana quando produz sem a compulsão da necessidade física de vender-se como mercadoria”.

Ainda que a mídia corporativa omita, existem experiências bem sucedidas de organização autônoma dos trabalhadores, mesmo considerando-se a enorme barreira que é, para uma indústria estruturada comunitariamente, competir em uma sociedade capitalista. O funcionamento da autogestão das indústrias – e de outras estruturas sociais – seria obviamente muito facilitado se em toda a sociedade tivéssemos aplicada essa outra lógica sobre o Trabalho. É o caso transposto de países que, através de governos de orientação anticapitalista e anti-imperialista, ficam isolados internacionalmente e, assim, têm dificultadas suas tarefas de aprofundamento revolucionário. Porém, ainda com as dificuldades impostas pelo isolamento e pelas agressões externas, fábricas como a Flaskô, no Brasil, e outras espalhadas por Argentina, Uruguai, Paraguai, México e Venezuela, crescem sob a gestão direta dos trabalhadores, que tomam todas as decisões coletivamente. Estas fábricas foram ocupadas pelos operários e passaram a ser geridas por eles. No Brasil, da experiência da Flaskô e de outras que acabaram sucumbindo às pressões do capital, nasceu o Movimento Fábricas Ocupadas, que, segundo reportagem da revista brasileira Caros Amigos, chegou a atuar em 35 fábricas na primeira década dos anos 2000.

O papel dos movimentos sociais e dos sindicatos é determinante na caminhada revolucionária. Essas organizações devem atuar no sentido não de doutrinar os trabalhadores, mas de, através do diálogo e da troca, construir juntos uma consciência de classe como percepção dos interesses comuns que devem ser buscados coletivamente. Deve-se partir da formação da crítica e da ação através de situações desencadeadoras de discussões coletivas. Isolado, o indivíduo tende a tornar-se acomodado, conformado, desesperançoso, mas ao compartilhar experiências, frustrações e contestações, sua atitude torna-se rebelde, e essa rebeldia pode desencadear atitudes revolucionárias. É producente, nesse sentido, a organização em sindicatos e associações que estimulem aprimoramento profissional, mas também pessoal, politizante, cultural.

São inúmeras as dificuldades que se impõe a alterações estruturais na lógica do Trabalho, a começar por uma velha questão: por onde começar a mudança? Em outras palavras: muda-se o Estado para mudar a cultura e as instituições ou muda-se a cultura e as instituições para mudar o Estado? Na verdade, essas mudanças precisam caminhar juntas. O Estado ou constitui-se em aliado ou será barreira possível mas extremamente difícil de ser superada na busca por criar autonomia nos e com os trabalhadores. Ao mesmo tempo, o Estado não será verdadeiramente democrático sem que se modifique estruturalmente o modo de produção dominante. Estado e modo de produção são, portanto, partes inseparáveis de um mesmo problema e de uma mesma solução revolucionária. Caia quem caia primeiro, modo de produção ou Estado (em seus moldes atuais), sem a alteração profunda na lógica do Trabalho e na organização estatal, a revolução não será completa, pois o empoderamento popular estará pela metade.

Reproduzido de Diário Liberdade
15 abr 2011

Leia também “Problemas da construção do socialismo”, por Alberto Anaya Gutiérrez, Alfonso Ríos Vázquez, Arturo López Cándido, José Roa Rosas na página de Rsistir.info (2006) clicando aqui.

quinta-feira, 29 de março de 2012

..."Não façais algo a nosso povo que lhe cause desgraça e que o faça perecer... Vieram fazer as flores murchar"…


Texto relembrado por Denis de Moraes a propósito da partida de Cuba do Sr. Ratzinger em março de 2012, publicado em Koinonia, de autoria de Leonardo Boff. Via Facebook.

“Sobre a Declaração “Dominus Iesus”, documento sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e a doutrina da Igreja. Foi emitido pela Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 6 de agosto de 2000, assinado pelo então prefeito da Congregação, o Cardeal Joseph Ratzinger, que se o tornou Papa Bento XVI”. Wikipédia

Joseph Card. Ratzinger: exterminador do futuro?

Leonardo Boff

Quem pretende possuir sozinho a verdade absoluta está condenado à intolerância para com todos os demais que não estão nela. A estratégia é sempre a mesma, em qualquer um destes totalitarismos: converter os outros ou submetê-los, ou desmoraliza-los ou destruí-os. Esse método o conhecemos bem na América Latina. Foi minuciosamente aplicado pelos primeiros missionários ibéricos que vieram ao México, ao Caribe e ao Peru com a ideologia absolutista romana. Consideraram as divindades das religiões indígenas falsas e suas doutrinas pura invenção humana. E os destruiram com a cruz associada à espada.

Os lamentos dos sábios astecas ecoam até hoje:"Dissestes que não eram verdadeiros nossos deuses. Nova é essa palavra, a que falais. Por causa dela estamos perturbados, por causa dela estamos incomodados… Ouvi, senhores nossos, não façais algo a nosso povo que lhe cause desgraça e que o faça perecer… não podemos estar tranquilos" (Miguel León-Portilla, A conquista da América Latina vista pelos indios, Vozes, Petrópolis l987,21-22). Os maias em soluços choravam: "Ai! Entristeçamo-nos porque chegaram (os espanhóis cristãos)…Vieram fazer as flores murchar. Para que sua flor vivesse danificaram e engoliram nossa flor… Castrar o sol. Isso vieram eles fazer aqui… Esse Deus "verdadeiro" que vem do céu só de pecado falará, só de pecado será seu ensinamento. Eles nos ensinaram o medo"(León-Portilla, op.cit. 60-62).

O Cardeal Ratzinger poderá imaginar o que um piedoso presbiteriano, trabalhando no interior da selva amazônica com os indígenas ou um monge taoista, mergulhado em sua contemplação, sentirão quando, num encontro inter-religioso qualquer, se lhes disser que eles não têm fé ou que não são igreja, que em si nada possuem de divino e de positivo, e se o possuem é só por causa de Cristo e da Igreja? Assim humilhados e ofendidos têm motivos para chorar como os astecas e maias. E seu lamento chegará até o coração de Deus que sempre escuta o grito dos oprimidos, sem a mediação desnecessária da Igreja. Mas como são justos e sábios, seguramente, apenas sorirrão face à tanta arrogância, à tanta falta de respeito e à tanta ausência de espiritualidade para com os percursos de Deus na vida dos povos.

Leia o texto completo em português na página de Koinonia clicando aqui.

Joseph Card. Ratzinger: ¿exterminador del futuro? Sobre la Dominus Iesus

Leonardo Boff

Quien pretende tener él solo la verdad absoluta está condenado a la intolerancia para con todos los demás, que no están en ella. La estrategia es siempre la misma, en cualquiera de estos totalitarismos: convertir a los otros o someterlos, desmoralizarlos o destruirlos. Conocemos bien este método en América Latina. Fue minuciosamente aplicado por los primeros misioneros ibéricos que vinieron a México, al Caribe y a Perú con la ideología absolutista romana. Consideraron falsas las divinidades de las religiones indígenas, y sus doctrinas las tuvieron por pura invención humana. Y las destruyeron con la cruz asociada a la espada.

Los ecos de los lamentos de los sabios aztecas resuenan hasta hoy: "Dijisteis que no eran verdaderos nuestros dioses. Nueva palabra es ésa, la que habláis. Por causa de ella estamos perturbados, incomodados… Oigan, señores nuestros: no hagáis a nuestro pueblo algo que le cause desgracia o que lo haga perecer… No podemos quedar tranquilos" (Miguel León Portilla, A conquista da América Latina vista pelos indios, Vozes, Petrópolis l987, 21-22). Los mayas sollozaban: "¡Ay!, entristezcámonos, porque llegaron (los españoles cristianos)… Vinieron a hacer que las flores se marchiten. Para que su flor viviese, dañaron y devoraron nuestra flor… Castrar el sol: eso es lo que vinieron a hacer ellos aquí… Ese Dios "verdadero" que viene del cielo, sólo de pecado hablará, sólo sobre el pecado será su enseñanza. Ellos nos enseñaron el miedo" (León-Portilla, op.cit. 60-62).

¿Podrá imaginar el cardenal Ratzinger lo que un piadoso presbiteriano, trabajando en el interior de la salva amazónica con los indígenas, o un monje taoísta, sumergido en su contemplación, sentirán, cuando, en un encuentro inter-religioso cualquiera, se les diga que ellos no tienen fe, o que no son iglesia, que en sí nada tienen de divino y de positivo, y que si lo poseen es sólo por Cristo y por la Iglesia? Humillados y ofendidos, tienen motivos para llorar como los aztecas y los mayas. Y su lamento llegará hasta el corazón de Dios, que siempre escucha el grito de los oprimidos, sin la mediación innecesaria de la Iglesia. Pero como son justos y sabios, seguramente sólo sonreirán frente a tanta arrogancia, a tanta falta de respeto y a tanta ausencia de espiritualidad para con los caminos de Dios en la vida de los pueblos.

Leia o texto completo em espanhol na página de Koinonia clicando aqui.