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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ignacio Ramonet: Devemos ser ativos em nossa própria informação


Devemos ser ativos em nossa própria informação

Informar-se não pode ser uma atitude passiva. Os meios de comunicação não são confiáveis: o cidadão tem que aprender a verificar, ele mesmo, que fonte usar


No blog L’Ombelico de Mondo, o fundador do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, analisou o papel da mídia no panorama internacional e as novas formas de informação da era digital.

Em uma sociedade “hipermidiatizada”, o papel ativo de quem consome a informação é preponderante. Esta é a conclusão que o escritor e jornalista Ignacio Ramonet traz sobre as práticas dos grandes meios de informação aos quais estamos diariamente exposto.

“Informar-se não pode ser uma atitude passiva”, explicou Ramonet, em uma nova entrevista da série que o L’Ombelico del Mondo leva adiante com os principais protagonistas do jornalismo internacional em espanhol.

- Como o senhor analisa o panorama midiático latino-americano diante da aparição desta grande quantidade de meios alternativos, populares e comunitários?

Por um lado, é normal que os governos democráticos e progressistas que estão dirigindo a maioria dos países do continente abram espaço para este tipo de mídia. Estamos vendo muitos países da latino-americanos indo em busca de uma configuração desejada por muitos teóricos, onde o espectro midiático se divide em três partes de igual importância: meios privados, financiados pela publicidade; meios públicos, financiados pelo Estado (não pelos governos); e em meios comunitários, cujo objetivo é colocar em cena os movimentos sociais de uma maneira muito mais precisa e mostrar as questões locais, para que a cidadania possa se expressar.

O novo momento tecnológico que estamos vivendo, onde se desenvolveram tecnologias de comunicação muito rápidas e muito baratas e de alcance planetário, está permitindo que, ao lado do setor privado quase hegemônico faz alguns anos e o setor público em desenvolvimento atualmente, haja uma infinidade de meios que estejam se desenvolvendo. Porque hoje, para se ter um meio planetário, basta abrir um blog: qualquer um pode lê-lo, tanto na Argentina, quanto no México ou na Ásia, em qualquer lugar onde haja alguém que fale espanhol. E há gente assim por toda parte do mundo. Isto deu a possibilidade, junto com as redes sociais, que cada pessoa tenha a capacidade de se expressar. Estas duas razões, a política democrática e a tecnologia de rede, permitiram que haja uma emergência da expressão da cidadania no sentido mais amplo da palavra.

- E como reage a mídia hegemônica em relação a isto?

As duas razões que demos na primeira resposta criam uma atmosfera de inquietude entre os meios de comunicação dominantes. Até pouco tempo, eles eram privados e hegemônicos, não tinham rivais. Eram os únicos que tinham a possibilidade de se dirigir a todo mundo sem que tivessemos a possibilidade de responder. Por conseguinte, tinham o monopólio da informação e o monopólio da ideologia da mensagem.

Nos últimos 10 ou 15 anos, sobretudo desde a chegada da internet e na América Latina desde a expansão dos novos governos progressistas e democráticos, isto mudou. Então esta inquietude faz com que os meios dominantes de antes enfrentem três grandes problemas neste momento: estes dois que acabo de nomear mais a crise econômica, que faz com que tenham menos publicidade, o que faz com que fiquem muito "ansiosos". Então quando eles acreditam que têm uma informação e que são os únicos que dispõem dela, se precipitam. Com esta precipitação, creem que vão ser mais rápidos que os meios digitais e cometem erros que não podem prever. Porque essa manipulação corresponde ao que eles querem dizer.

Por exemplo, no caso célebre da foto falsa do presidente Chávez na mesa de cirurgia, evidentemente, a informação ali contida não era a de que o presidente havia sido operado, disso todos sabem. Eles queriam mostrar um Chávez debilitado, que é o que eles sonharam durante muito tempo. Então, ao invés de dar tempo para verificar se a foto era real ou não, apesar da origem extremamente estranha e labiríntica da foto, imediatamente decidiram publicá-la. O que ocorreu nas redes sociais? Em 20 minutos, demonstraram que a foto era falsa, que nem sequer era uma foto, e sim parte de um vídeo.

Isso demonstrou várias coisas. Por um lado, que os grandes meios de comunicação hegemônicos já não são confiáveis. O que já sabíamos, mas esta foi uma grande mostra disso. Não são confiáveis. Não é porque são grandes, poderosos, tenham muito dinheiro ou sejam difundidos em muitos países que têm de ser confiáveis. E por outro lado, que um enxame de internautas pode em algum momento preciso ser uma fonte de fiscalização e verificação da realidade de uma informação muito mais importante que todas as salvaguardas que os grandes meios de comunicação podem fazer.

- Ainda assim, há muito debate a respeito da confiabilidade das redes sociais. Existem relações de poder, informações mal intencionadas...

As redes sociais não são confiáveis. Mas assim como podemos afirmar tranquilamente que os grandes meios como El País, o New York Times, El Universal tampouco o são. Hoje em dia, a questão da confiabilidade dos meios é muito importante porque efetivamente não está garantida em nenhum lugar. E o cidadão tem de aprender a verificar ele mesmo que fonte vai usar.

As que se pretendem objetivas não o são e se pode demonstrar isso facilmente. Em certa medida, eu acredito que se tratam de fontes subjetivas, porque sei o que está a me ser dito, que vá no sentido do que creio ou na direção contrária. Porque em relação a isso posso ajustar meu ponto de vista. É daí que se faz cada vez mais importante ter acesso aos fatos, aos dados, para com isso fazer minha própria interpretação.

Hoje as redes sociais procuram novas ferramentas, que não nos deixam a sós diante dos meios de comunicação hegemônicos. Antes eu estava a sós ao me deparar com eles. Quando me passavam uma informação, eu não sabia se era verdadeira ou falsa, devia confiar neles. Agora não. Posso ir a internet e ver o que fulano disse. E talvez eles também se equivoquem, mas eu posso construir minha ideia. Em suma, informar-se é uma atividade.


Isto quer dizer que ninguém pode se informar passivamente. A pessoa não pode se sentar em frente ao televisor e esperar que lhe digam a verdade. Hoje isso já não pode ser, porque temos ferramentas, dispositivos, que estão permitindo que nos armemos. Por conseguinte, se dizemos que somos manipulados, isso não pode ser uma desculpa. É normal que queiram nos manipular. Mas hoje em dia dispomos de ferramentas que nos permitem que nos defendamos contra essa manipulação. E nós devemos ter um papel ativos em nossa própria informação.

Tradução: Roberto Brilhante

Reproduzido de Carta Maior

07 jun 2014 de L’Ombelico del Mondo 15 mai 2014

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O insustentável peso da democracia para a mídia cartelizada está no editorial do jornal O Globo


O insustentável peso da democracia para a mídia cartelizada está no editorial do jornal O Globo

Glauco Cortez
Educação Política
09 maio 2012

O editorial do jornal O Globo de ontem (08/05/12) foi muito mais significativo do que uma aparente defesa corporativa de uma outra empresa de mídia. O editorial  revela representações importantes para a democracia brasileira e, por incrível que pareça, estamos avançando. Isso se não for uma defesa da própria pele, visto que muita coisa pode aparecer na CPI.

A primeira delas é a própria exposição do grupo de mídia diante de uma posição inegável.  Desde o início da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito),  do Carlinhos Cachoeira, as organizações Globo se postaram de uma forma bastante comum aos meios de comunicação e o que é um pouco natural, ou seja: dá como notícia o que interessa e oculta o que não interessa. Mas isso parece não ter bastado. A Globo, por meio do jornal, teve de se posicionar e o fez em defesa das práticas mais abomináveis do jornalismo, que é a associação ao crime organizado.

Uma segunda é o reconhecimento da blogosfera e de outras empresas de comunicação. O Globo faz o editorial para o leitor, mas reconhece, mesmo criticando, a existência da blogosfera e de outros concorrentes. Bons tempos aqueles em que era fácil ignorar totalmente o que não interessava. O que não saía nas organizações Globo não era notícia ou, simplesmente, não era um acontecimento, então não havia a necessidade nem de se posicionar.

Agora está um pouco diferente. Se a Globo não deu, algum motivo tem e aí a necessidade de um editorial, porque todo mundo tá sabendo e a Globo não deu uma linha. Na verdade, o editorial é uma forma de poder continuar omitindo as informações que não interessa ao grupo.

Nesse sentido, surge uma terceira representação, que é colocar a Globo e outras empresas que cartelizam a informação, denominadas de PIG (Partido da Imprensa Golpista) pela blogosfera, em uma defensiva muito semelhante às situações vividas por essa mídia durante o processo eleitoral nos últimos anos. Tem havido uma contra-informação muito forte nos períodos eleitorais sobre a manipulação ou a partidarização da informação promovida pelos grandes grupos de mídia, de modo que são até forçados a manifestar explicitamente uma preferência partidária, como fez o Estadão nas últimas eleições presidenciais.  A CPMI de Carlinhos Cachoeira parece eternizar esse período de contra-informação, tornando a mídia cartelizada em uma situação desconfortável fora do período eleitoral também. Essa talvez seja a mais interessante representação do editorial.

Uma última representação é o que tudo isso nos indica, ou seja, parece que já vivemos uma relativa democracia da comunicação, ainda que muito favorável à mídia cartelizada. No entanto, não é tão fácil como antigamente ignorar solenemente algumas informações ou outros meios de comunicação.

Há muito ainda que se fazer para se avançar na democracia da comunicação brasileira, mas o peso da democracia pluripartidária torna-se a cada dia mais insustentável para a mídia cartelizada.

Reproduzido de Educação Política
09 mai 2012

Comentário de Filosomídia:

Os Três Midiopatéticos

Roberto Civita não é Rupert Murdoch, claro que não. Ele é mais provinciano, tosco e arrogante ao pensar que sua imagem construída como impoluta, empresário de moral ilibada passaria incólume sem ser desmascarada à medida que se amplia a discussão da democratização dos meios de comunicação, o marco regulatório do setor. Vai na mesma linha   as empresas Globo. O Roberto Marinho não é ou era o Rupert Murdoch.

Roberto, Rupert, Roberto, são todos mesmos é farinha do mesmo saco dos donos das mídias em decadência. Três Midiopatéticos.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Veja e vocês, tudo a ver: "um calunia, outro repercute, o terceiro arrecada...


Miro Teixeira e a defesa da Veja

Por Carlos Lopes
Jornal Hora do Povo

Alguns jornais publicaram que o deputado Miro Teixeira irá propor, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que jornalistas – por exemplo, o parceiro de Carlos Cachoeira, Policarpo Jr., da “Veja” - não pudessem ser convocados à CPMI para depor. Segundo o deputado, o citado dispositivo legal proibiria “o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo”.

Se for verdade a notícia, trata-se de um engano do deputado. As razões para convocar Policarpo Jr. nada têm a ver com o ofício de jornalista. Pelo contrário, o problema é exatamente que ele usou o suposto ofício de jornalista para atividades estranhas à profissão, isto é, usou-a como fachada para estabelecer conluio com um criminoso. Portanto, não é por suas atividades jornalísticas, mas por suas atividades criminais, que Policarpo Jr. deve ser chamado a depor.

Seria uma original doutrina jurídica a que estabelecesse que jornalistas podem cometer crimes e não depor porque têm de manter sigilo. Muito pelo contrário, a lei não apenas veda a qualquer cidadão – inclusive a supostos jornalistas – a cumplicidade com o crime, como também veda aos jornalistas cometer eles mesmos o crime, inclusive nas suas funções: por exemplo, falsificar ou inventar fatos para difamar pessoas ou golpear instituições, não é jornalismo, mas crime. Pior ainda quando, para isso, se recorre aos préstimos de um bandido – e durante oito anos se acoberta esse bandido.

Segundo: o artigo 207 do Código de Processo Penal diz exatamente o seguinte: “São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho”.

Entre os ofícios que a lei reconhece que devem guardar segredo, não está, certamente, o de parceiro de um criminoso. Nesse caso, inclusive, a “parte interessada” está na cadeia. Não há segredo ou sigilo a preservar. As provas do inquérito da Polícia Federal são públicas. Policarpo Jr. não vai depor sobre nenhum segredo, mas, exatamente, sobre o que já deixou de ser segredo. Logo, o mencionado artigo do Código de Processo Penal não se aplica a ele.

Terceiro, Policarpo Jr. já depôs, em virtude de uma CPI, no Conselho de Ética da Câmara, quando o então deputado André Luiz foi acusado de extorsão ao sr. Carlos Cachoeira no caso da Loterj. No dia 22 de fevereiro de 2005, Policarpo Jr. depôs contra André Luiz, portanto, a favor de Carlos Cachoeira, e não arguiu nem pretextou sigilo, apesar das ligações ocultas que mantinha com o polvo do Centro-Oeste.

Portanto, a argumentação do deputado Miro Teixeira equivale a estabelecer que Policarpo Jr. só pode depor, como já fez, para defender Cachoeira ou atacar seus desafetos. Não seja por isso. Estamos ansiosos para ver Policarpo Jr. defender Cachoeira na CPMI ou atacar os inimigos do bicheiro. O que é mais uma razão para chamá-lo à CPMI. O deputado deveria perceber que dar um salto ornamental nessa fossa não vale algumas linhas na “Veja”, mais suja do que pau de galinheiro, ou seja lá onde for. Até porque essa malta é muito ingrata e não vai ser ela que lhe proporcionará os votos que precisa, e que já estão escassos. O deputado terá de contar com os eleitores – ainda por cima, os do Rio de Janeiro.

08 mai 2012


Leia também:


"A Record desnudou a Veja e no JN outra pelada", por Diego Pegnone (07/05/2012) clicando aqui.



quinta-feira, 1 de março de 2012

Crítica à crítica (e aos críticos) da mídia


Crítica à crítica (e aos críticos) da mídia

Raphael Tsavkko Garcia*
Observatório da Imprensa
28/02/2012

O professor Gilberto Maringoni, em artigo recente amplamente divulgado pela blogosfera que compõe a chamada “mídia alternativa”, lembrou aos maiores críticos da “grande mídia” que esta era em grande parte financiada pelo governo federal, por meio de cotas de patrocínio que, apenas para a Veja, rendiam perto de 1,5 milhão de reais por semana. Sua intenção era a de criticar os contumazes críticos da mídia que, mais ou menos alinhados com o governo federal e com o PT, gastavam horas de seus dias a enxovalhar a mídia, seja chamando-a de PIG (Partido da Imprensa Golpista) ou, agora, de PUM (Partido Único da Mídia – com direito a trocadilho proposital).

O primeiro termo, popularizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, soa ainda mais irônico se contarmos que este trabalha para um notório membro do... PIG: a Rede Record, do bispo Edir Macedo. O segundo termo vem sendo usado pelo insuspeito professor Laurindo Lalo Leal Filho e, ao menos de sua parte, há consistência no uso do termo.

Não se trata de debater a validade dos termos ou mesmo o caráter da grande mídia, mas talvez de se entender quais interesses estão por trás da crítica. Não posso colocar em dúvida a idoneidade e honestidade do professor Lalo, mas começo a suspeitar de jornalistas alinhados à grande mídia e mesmo que recebem – por um meio ou por outro – financiamento estatal (caso, por exemplo, do sempre presente e atuante Luis Nassif, funcionário da TV Brasil) e que gastam boa parte de seu tempo e de seu espaço em seus respectivos blogs/portais para criticar veículos “inimigos” e políticos não-alinhados com o atual governo.

É sintomático o desaparecimento de certas críticas a políticos que passam para o lado governista e é notável o tom brando empregado contra o governo quando de atuações semelhantes ou mesmo mais acintosas que as do governo anterior, ou mesmo totalmente diversas daquelas prometidas em campanha.

Timidez patológica

Há, por parte de um crescente contingente daqueles defensores da “mídia livre”, um alinhamento automático com o governo federal que mascara erros, que abranda problemas e realiza uma defesa intransigente e inconsciente de todas ou da maior parte das atitudes governamentais, sem matizes ou ponderações. Há, dentre muitos governistas que continuam a reclamar da necessidade de uma democratização das comunicações, profundo silêncio sobre o emprego de nossos impostos em revistas da Editora Abril, mas ao mesmo tempo esses mesmos indivíduos que silenciam neste assunto reclamam e bradam contra as compras e contratos feitos entre o governo de São Paulo (do PSDB) e a mesma editora.

Está claro que, em ambos os casos, há o que se investigar e reclamar, mesmo repudiar, mas apenas um dos casos, ou um dos lados, acaba veementemente criticado.

Fala-se muito que as redes de TV, concessões públicas, têm um lado. Alguns afirmam claramente que Globo, Band e outras apoiaram claramente o candidato derrotado tucano José Serra nas eleições passadas, mas quando são perguntados sobre por que o governo federal não se move para rever as regras para concessões públicas, calam-se – dão desculpas pouco críveis ou simplesmente apelam para o velho chavão da “governabilidade”. Termo este, aliás, usado para explicar toda derrapada ou desastre patrocinado pelo governo federal. Se faz algo, merece aplausos, se errou, faz-se silêncio ou tira-se da cartola a palavrinha mágica que tudo explica.

Há, dentre os vários críticos da mídia, uma falta patológica de autocrítica e um excesso de subserviência e mesmo de umbiguismo. Chego até a considerar um certo duplipensar. Para mudar a mídia, é preciso constante pressão, mas o que vemos é uma timidez patológica quando o assunto vira um problema para seu próprio lado. Podemos avançar apenas até o ponto em que os interesses de um ou outro grupo – e são cada vez mais grupos – passam a ser a “vítima”. Sempre, claro, que o grupo se coloca ao lado do governo.

Enquanto os críticos da mídia forem apenas isso – críticos daquilo que não gostam, do outro lado – e não críticos de todo um conjunto de instituições, indivíduos, partidos e indústria, não haverá qualquer mudança significativa no caminho da democratização das comunicações no país.

* É jornalista, blogueiro e mestrando em Comunicação

quarta-feira, 9 de março de 2011

Raphael Tsavkko: o papel fundamental da mídia hoje


Entrevista exclusiva com Raphael Tsavkko

Raphael Tsavkko Garcia é militante dos Direitos Humanos e da Rede Livre, membro do Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. Blogueiro, jornalista, formado em Relações Internacionais (PUCSP) e Mestrando em Comunicação (Cásper Líbero). Mantém o Blog do Tsavkko – The Angry Brazilian, escreve e traduz para o Global Voices Online e tem uma coluna semanal no Diário Liberdade chamada Defenderei a casa de meu pai.

Na entrevista a seguir, exclusiva ao Jornalismo B, Tsavkko fala de suas impressões sobre o momento da mídia alternativa, da blogosfera e da luta anticapitalista a partir da comunicação.

(...) Jornalismo B – Qual a avaliação do momento atual da mídia dominante?

Raphael Tsavkko – A mídia dominante, tradicional, é vergonhosa. Por aqui não conseguimos sequer chegar ao nível dos EUA e Europa, onde os jornais ao menos declaram sua posição política e/ou seu candidato nas eleições, a fim de evitar enganar e mentir para seu leitor/eleitor. Aqui no Brasil temos uma mídia de direita – em alguns casos de extrema-direita – absolutamente parcial, que defende única e exclusivamente os interesses dos grupos privados que a financia e, acima de tudo, jamais admitem o fato. Mais que esconder a verdade, a mídia tradicional fabrica sua verdade. As tentativas legítimas e democráticas de regulação da mídia – que existem em boa parte dos países ditos de primeiro mundo – são rechaçadas não por medo de censura, o que não existe ou é proposto, mas simplesmente pela forma tendenciosa e partidária que a mídia adota e que teria de ser revista, para desespero das famílias (poucas) que controlam os meios de comunicação e que tem agendas clara, porém distantes das do interesse popular.

Jornalismo B – De que forma o governo e a sociedade organizada podem atuar na defesa de uma comunicação mais democrática?

Raphael Tsavkko – Acima de tudo, defendendo uma política de regulação ampla da mídia. Obrigando através de pressão popular e institucional que a grande mídia respeite os direitos humanos e mantenha abertos espaços para múltiplas opiniões. O incentivo à blogosfera, seja através de editais para que seja possível o acesso à propaganda institucional, ou meramente através de campanhas de visibilidade, é um caminho a ser perseguido. Os veículos alternativos, como a Revista Fórum, o Jornal Brasil de Fato, a revista Caros Amigos e outros devem ter garantidos os meios necessários para sua sobrevivência.

Jornalismo B – Como uma mídia anticapitalista deve se estruturar para ampliar seus espaços?

Raphael Tsavkko – Levando em conta que estamos em meio ao capitalismo, deve-se ter em mente que a luta deve ser por dentro, e não alienada da realidade. Por mais que bloguemos e escrevamos por prazer, sem dinheiro temos limites claros, seja de visibilidade, tempo e afins. A formação de portais, a união de blogs e mesmo da blogosfera são caminhos a serem perseguidos.  Individualmente temos pouco poder de fogo contra a grande mídia e a direita, mas unidos podemos fazer barulho – e fazemos! É preciso apoiar a mídia alternativa, seja comprando aquela que sai nas bancas, fazendo doações, escrevendo e dando máxima publicidade.

Jornalismo B – Qual é o papel fundamental da mídia hoje?

Raphael Tsavkko – Da mídia alternativa é de ter uma posição de esquerda, ligada aos movimentos sociais. Eu não diria de “dizer a verdade”, mas de fazer contraponto à grande mídia, de defender interesses populares e dos movimentos sociais. Ma, além do contraponto, tem a obrigação de correr atrás de matéria,s fazer análises e buscar pautar a grande mídia. Já o papel da mídia tradicional, que deveria ser o de informar, acaba sendo o de fazer o papel da oposição inconsequente e, em muitos casos, mentirosa. Mas é inegável que, em geral, ainda tenha um papel junto à sociedade pelo seu alcance e capacidade de mobilização. Nem sempre suas intenções vão de encontro com os da sociedade,  na maioria das vezes o interesse dos donos do jornal é apenas o de seguir aquilo que ditam seus patrocinadores e mesmo o interesse das famílias que controlam esses meios, mas em outros casos ela ainda desempenha um relevante papel como unificador nacional.

Jornalismo B – Quais as perspectivas para o futuro do midia brasileira?

Raphael Tsavkko – Imagino que a mídia tradicional verá a diminuição de seu peso e relevância. O posicionamento golpista muitas vezes acaba (ou acabou) por afastar uma significativa parcela da população, que agora procura se informar nos blogs. A mídia alternativa tem muito espaço para crescer, mas deve ser inteligente e buscar se unir para conseguir não só visibilidade como credibilidade e acessos. É preciso buscar evitar os rachas que podem acontecer devido às desavenças sobre o governo Dilma e seus retrocessos, mas em geral o futuro da imprensa alternativa, ao menos em termos de qualidade e de penetração, tem tudo para ser brilhante. É um movimento sem volta.

Alexandre Haubrich . Jornalismo B

Leia a entrevista completa clicando aqui.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Por que a grande mídia mente e a mídia alternativa se confunde


"Os meios de comunicação de massa nunca estão com os povos, mas os olham, os observam..., às vezes com estranhamento, às vezes com paternalismo, outras com preocupação. Quando devem transmitir as mensagens que os povos gritam e que não podem ser caladas, é necessário que estas sejam pasteurizadas e esterilizadas para o consumo de um público ao qual eles buscam proteger da contaminação.


Os meios de massa têm suas rotinas e uma maquinaria perfeitamente engraxada para mover-se dentro da complexidade. Por isso basta pagar aos jornalistas para que façam seu trabalho e, na maior parte das vezes, eles sabem fazer seu trabalho e não causam muitos problemas. Tais meios têm, necessariamente, uma opinião, e desde que as novas tecnologias destruíram o tempo, cada vez têm menos tempo para formá-la, de maneira que deixam seus profissionais se guiarem por sua pouca intuição e seu grande desconhecimento. Quando ocorre um feito noticiável não é mais necessário sacar o gravador ou o celular e converter a qualquer cidadão em correspondente improvisado enquanto se compra a passagem de avião e se criam as condições para que se esteja presente no local dos fatos.  Haverá tempo para aperfeiçoar o projeto. Em tempos convulsivos as precauções são extremas e são postas a prova as competências dos oradores à distância, como orientar os discursos improvisados: “Diga-nos, por favor, o que está acontecendo agora... (obviamente algo acontece)”, “Há feridos? O que é que o povo reivindica?”.

Os jornalistas não são maquiavélicos, nem mesmo se posicionam, somente fazem seu trabalho. Mesclam as palavras: revoltas, revoluções, transições, ditadores, ordem, violência, insurgentes, revolucionários. Ritualizam a linguagem para torná-la imune à contradição: democracia (imposta), liberdade (concedida), ordem (coerciva); localizam os “fast thinking”: opinadores habituais e especialistas com pedigree que carimbam a marca de autoridade da qual carecem os meios. A ritualização incorpora esta parte da naturalização que nos impossibilita perceber os limites do nosso próprio pensamento, o que nos pertence de fato e o que absorvemos sem nos darmos conta. Os meios de comunicação em massa se especializam na cozinha conceitual, um pouco de tudo, exótica e fascinante, mas em verdade escassamente nutritivo. Disse Chomsky, recolhendo palavras do norte-americano W. Lippmann: “Deve-se pôr o público em seu lugar, de modo que possamos viver livres do pisoteio e do rugido de uma multidão desnorteada”. O lugar do público é o de espectador interessado, nunca de participante. Temos que orientar seus interesses.

(...) Os meios alternativos são diferentes. Às vezes se equivocam, é verdade, mas as boas intenções lhes salvam do inferno dos malvados. Cometem outros pecados: aspiram a ser meios de comunicação de massa. Aparentemente não pode haver mal nisto. Buscam espaço onde não há espaço e para encontrá-lo buscam a diferença. Em que consiste a diferença?"

Ángeles Diez . Rebelión

Leia o texto completo na página da Revista Fórum clicando aqui.

Leia o texto em espanhol na página de Rebelión clicando aqui.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Por qué los medios masivos mienten y los medios alternativos se confunden


"Los medios de comunicación masivos, es algo conocido, son parte de la estrategia de guerra. Desde que la política se transformó en guerra por otros medios –cambiemos el aforismo "clausewitzchiano"- dejaron de existir los medios de información. Los medios masivos son corporaciones – grupos de empresas interconectados y especializados - de modo que no es posible que sigamos tratándolos como “cuarto poder”, “expresión de la opinión pública”, “guardianes de la democracia” etc. son, el poder, en uno de sus múltiples rostros. Decir que los medios tienen dueños es una obviedad pero dejar de explicitarla es el riesgo de naturalizar su esencia hasta hacerla desaparecer.

Los medios masivos tienen sus rutinas y una maquinaria perfectamente engrasada para moverse dentro de la complejidad. Por eso basta con pagar a los periodistas para que hagan su trabajo y, la mayor parte de las veces, saben hacer su trabajo y no dan demasiados problemas. Los medios masivos tienen, necesariamente, una opinión, y desde que las nuevas tecnologías destruyeron el tiempo, cada vez tienen menos tiempo para conformarla así que dejan a sus profesionales que se guíen por su poca intuición y su gran desconocimiento. Cuando ocurre un hecho noticiable no hay más que sacar la grabadora o el teléfono móvil y convertir a cualquier ciudadano en corresponsal improvisado mientras se saca el billete de avión y se crean las condiciones para la presencia en el lugar de los hechos. Ya habrá tiempo para afinar el tiro. En tiempos convulsos se extreman las precauciones y se ponen a prueba las competencias de los locutores desde la distancia, orientar y señalizar los discursos improvisados: “díganos por favor qué ocurre ahora…. (por supuesto ocurre algo)”, “¿hay heridos? ¿qué pide la gente?”

Los periodistas no son maquiavélicos, ni se ponen de acuerdo, hacen su trabajo. Mezclan las palabras: revueltas, revoluciones, transiciones, dictadores, orden, violencia, insurgentes, revolucionarios. Ritualizan el lenguaje para hacerlo inmune a la contradicción: democracia (impuesta), libertad (otorgada), orden (coactivo); localizan a los “fast thinking”: opinadores habituales y especialistas con pedigrí que imprimen en sello de autoridad de la que los medios carecen. La ritualización incorpora esa parte de naturalización que nos imposibilita para percibir los límites de nuestro propio pensamiento, lo que nos pertenece a nosotros y lo que adquirimos sin darnos cuenta. Los medios masivos se especializan en la cocina de diseño, un poco de todo, exótico y fascinante, eso sí, escasamente nutritivo. Dice Chomsky recogiendo las palabras del publicista norteamericano W. Lippmann “hay que poner al público en su lugar de modo que podamos vivir libres de los pisotones y del rugido de una multitud desconcertada”. El lugar del público es el de espectador interesado, nunca el de participante. Hay que asegurarse de orientar su interés.

(...) Los medios alternativos son diferentes. A veces se equivocan, es verdad, pero las buenas intenciones les salvan del infierno de los malvados. Tienen otros pecados: aspiran a ser medios masivos. Aparentemente no puede haber mal en ello. Buscan espacio donde no hay espacio y para encontrarlo buscan la diferencia. ¿En qué consiste la diferencia?"

Ángeles Diez

Leia o texto completo na página de Rebelión clicando aqui.


Leia o texto em português na página da Revista Fórum clicando aqui.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A informação alternativa a serviço das mobilizações políticas e sociais


"Por iniciativa da Ritimo, uma organização francesa voltada para a comunicação, a serviço da solidariedade internacional e do desenvolvimento sustentável, da Ciranda e do Intervozes, organizações brasileiras, realizou-se seminário reunindo mídias alternativas de vários países, durante este primeiro dia de atividades autogestionadas no FSM Dacar. Na busca da construção “de um mundo menos desigual, que dê a palavra aos excluídos”, disse Myriam Merlant, da Ritimo, “estas organizações são essenciais para o contraponto com a grande mídia”. O objetivo do seminário, que constou de três momentos, foi a troca de experiências e a proposição de ações conjuntas, que levem à organização de um novo Fórum Mundial de Mídias Livres.

Um panorama das novas mídias nos continentes foi desenvolvido no primeiro momento, reunindo experiências diversas realizadas na África, América Latina, Ásia e Europa. Na França, onde há boas leis para a garantia da liberdade de expressão, “a realidade mostra que a liberdade de imprensa já não é tão grande assim, como diz David, do Repórter Cidadão. A classificação desse quesito, medido anualmente naquele país europeu, mostra uma queda do 31º lugar para o 44º, segundo o jornalista. “Metade dos franceses dizem hoje que as coisas não acontecem como a mídia diz, 66% acham que a grande imprensa está sob domínio dos políticos, e principalmente as classes populares acreditam cada vez menos na grande mídia”.

A concentração dos meios também é algo que vem acontecendo na França nos últimos anos, inclusive com novos decretos de Sarkozy, um dos quais determina a nomeação da direção da televisão pública pelo governo. “Nos últimos trinta anos, os pequenos veículos de mídia deixaram de existir”, conta David, e a informação vem se concentrando nos grandes meios, cujos donos são, por exemplo, dois grandes industriais que fabricam armas e aviões; outro investidor da mídia é um negociante de mineração na África. “Estamos cada vez mais dependentes dos grandes meios, mas este não é o único problema”, continua o repórter cidadão. “Antes, os movimentos sociais gostavam quando a mídia aparecia, hoje os movimentos querem a mídia longe, e as pessoas perguntam porque as coberturas são todas iguais”.

Sabemos bem como é essa história no Brasil, e as semelhanças não param por aí".


Terezinha Vicente . FSM Dacar 2011


Leia o texto completo na página da Ciranda Internacional da Informação Compartilhada clicando aqui.



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rede Popular Catarinense de Comunicação


A Rede Popular Catarinense de Comunicação (RPCC) reúne veículos de comunicação catarinenses que atuam com base nos princípios e nas práticas da Soberania Comunicacional. A Rede é o resultado de dois Seminários de Comunicação e Cultura Popular organizados pela Agência Contestado de Notícias Populares (Agecon), uma das integrantes da RPCC. A Rede compartilha textos jornalísticos de todos os gêneros (reportagens, notícias, artigos), áudios, imagens, fotografias, dentro da lógica da soberania comunicacional, que pressupõe o controle dos meios e o controle da produção de conteúdos, buscando a quebra do controle da comunicação exercido pelos grandes meios de comunicação do Estado.

Saiba mais sobre a RPCC clicando aqui.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A escrita hermética que nos consome


"A grande mídia é tão homogeneizada que, além do conteúdo produzido pelos veículos ser todo muito semelhante, tudo é exposto praticamente da mesma forma, como se houvesse um padrão de escrita jornalística a ser respeitado – e há, a começar pelo ensino, nas faculdades, do lead e da estruturação “correta” do texto.

A linguagem é o grande alicerce do jornalismo, temos a obrigação de ser compreendidos por todos os leitores, não é? O que preocupa não é perceber esse excesso de formalidade na grande mídia tradicional, que, sabemos, é porta-voz da elite letrada que nesse momento saboreia uma Lagosta À Belle Munier, enquanto questiona ao mordomo qual será a próxima refeição.

O problema é encontrar a mesma leitura burocrática em veículos que se propõem diferenciados. Quem agüenta ler seis páginas em letras miúdas sobre “o mal dos transgênicos”, com aquelas palavras complicadas, termos científicos, nomes de bactérias e cálculos logarítmicos da economia global? Foi essa a sensação que tive ao ter a última Le Monde Diplomatique em mãos – e espero realmente que tenha sido a última.

A “grande mídia alternativa” (Le Monde, Caros Amigos, Carta CaPTal, etc) em nada se difere da grande mídia tradicional, e tem um público muito seleto, composto pela elite da elite da esquerda, que neste momento degusta um caviar iraniano, enquanto procura em Marx a redenção dos pobres.

Essa linguagem hermética contrasta com a própria ambição histórica dos movimentos de esquerda de inserir o povo na base do processo de transformação da sociedade. Méritos ao Diário Gaúcho, entre outros, que soube aliar uma linguagem popular a um preço popular, ainda que com um conteúdo medíocre. O jornalismo alternativo sequer se constitui numa alternativa de fato. Ainda nem estamos na briga".

Luciano Viegas  é estudante de jornalismo da UFRGS
Colaboração especial para o Jornalismo B

Leia o texto completo clicando aqui.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A mídia golpista treme ante a democracia da informação


"Em paralelo ao trabalho safado da grande mídia, sempre existiram veículos que procuravam fazer jornalismo de forma 
limpa
 não convencional. A maioria deles se apropriou de linguagens irreverentes, humorísticas e até anarquistas para contar histórias, divulgar fatos e denunciar.

Hoje, o movimento de jornalismo alternativo está cada vez mais forte na Internet através dos blogs. Evidentemente, essa quebra do monopólio na difusão da informação está calvejando POUCA gente – os donos do monopólio midiático.

(...) No início usado como diário pessoal, o blog hoje é uma verdadeira fonte de informação sobre uma enorme diversidade de assuntos. Seu poder de interação o promove como uma extraordinária ferramenta de mídia alternativa.


(...) Com o aparato da Internet, muitas visões surgem. É evidente que a velha mídia continuará existindo, porém agora tem concorrência. Essa diversidade, as inúmeras opções que a opinião pública poderá contar para se informar é o extraordinário. No entanto isso não parece agradar os grandes, acostumados ao monopólio".


Leia o texto completo de Douglas Freitas na página do VM TV clicando aqui.