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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Velha mídia: Control C + Control Veja


Velha mídia: Control C + Control Veja

Cynara Menezes
Carta Capital

No centro do furacão desde que vieram à tona suas relações no mínimo pouco éticas com os bandidos da quadrilha de Carlinhos Cachoeira, a revista Veja parece ter perdido toda a noção de ridículo. Sua capa desta semana é uma farsa: o “documento” que a semanal da Abril alardeia ter sido produzido pelo PT como estratégia para a CPI de Cachoeira é, na verdade, um amontoado de recortes de reportagens de jornais, revistas e sites brasileiros.

Confira neste link (clique aqui) os fac-símiles do suposto “documento” que a revista apresenta com “exclusividade” e compare com os outros links no decorrer deste texto.

Segundo a revista, os trechos que exibe fariam parte de um “documento preparado por petistas para guiar as ações dos companheiros que integram a CPI do Cachoeira”. Mas são na realidade pedaços copiados e colados diretamente (o manjado recurso Ctrl C+ Ctrl V dos computadores) de reportagens de terceiros, sem mudar nem uma vírgula. O primeiro deles: “Uma ala poderosa da Polícia Federal, com diversos simpatizantes nos meios de comunicação, não engole há muito tempo o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal” saiu de uma reportagem de 6 de abril do site Brasil 247, um dos portais de notícia, aliás, que os colunistas online de Veja vivem atacando com o apelido de “171″ (número do estelionato no código penal). Mas quem é que está praticando estelionato com os leitores, no caso? (Confira clicando aqui).

Outro trecho do “documento exclusivo” de Veja é um “copiar e colar” da coluna painel da Folha de S.Paulo do dia 14 de abril: “Gurgel optou por engavetar temporariamente o caso. Membros do próprio Ministério Público contestam essa decisão em privado. Acham que, com as informações em mãos, o procurador-geral tinha de arquivar, denunciar citados sem foro privilegiado ou pedir abertura de inquérito no STF”. (Confira aqui)

Mais um trecho do trabalho de jornalismo “investigativo” com que a Veja brinda seus leitores esta semana: “Em uma conversa entre o senador Demóstenes Torres e o contraventor Carlinhos Cachoeira, gravada pela Polícia Federal (…)”, é o lead de uma reportagem do jornal O Estado de S.Paulo do dia 28 de abril (leia aqui).

Pelo visto, os espiões da central Cachoeira de arapongagem, que grampeavam pessoas clandestinamente para fornecer “furos” à Veja, estão fazendo falta à semanal da editora Abril…

Leia também:


Reproduzido de Carta Capital
04 jun 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A mídia, a direita e o jornalismo de esgoto


A mídia, a direita e o jornalismo de esgoto

José Dirceu
Correio do Brasil
05/05/2012

Ao ler a Carta Capital que está nas bancas neste sábado sinto-me com a alma lavada. Não só pela capa, brilhante, que coloca a foto de Robert Civita com o título “Nosso Murdoch (vocês vão ver logo o porquê), mas pela profundidade e pertinência, pela forma inteligente como coloca o debate sobre a questão da mídia e do jornalismo no Brasil.

Começo por uma citação de Lorde Puttnam, membro do Partido Trabalhista inglês e que foi presidente da comissão do Parlamento que analisou a Lei de Comunicação de 2003. Não vou transcrever todo o artigo, publicado originalmente no The Observer, sob o título Pelo bom jornalismo , que merece ser lido por todos os que têm interesse no fortalecimento da democracia brasileira.

Lorde Puttnam escreve exatamente sobre como os políticos transformaram-se em reféns de uma mídia que, praticando um tipo de jornalismo de esgoto, graças à fragilidade da regulação e à tibieza dos próprios políticos, acabaram facilitando o trabalho de Murdoch e fortalecendo a direita.

Dois trechos do artigo de Lord Puttnam

O primeiro, que situa o problema: “Nos últimos 30 anos o império Murdoch tentou minar e desestabilizar governos eleitos e reguladores independentes, em nome de uma agenda política que, enquanto se ocultava por trás da cortina de fumaça da ortodoxia do livre-mercado, não é nada menos que uma tentativa sofisticada de maximizar o poder e a influência da News Corporation e sua agenda populista de direita”.

O segundo, onde buscar a solução: “Eu afirmaria que a lei da concorrência, em um setor ágil como a mídia, deve ser capaz de levar em conta e fazer julgamentos com base em um domínio do mercado “altamente provável”, assim como “real”. Isso exige uma clara estrutura regulatória que incentive e na verdade permita o florescimento da pluralidade da mídia. Não podemos, por exemplo, legislar pelo bom jornalismo, mas podemos legislar pelas condições sob as quais o melhor jornalismo é nutrido e sustentado. Podemos criar estruturas em que cada nova tecnologia se torne um incentivo à diversidade, e não um instrumento de sua erosão”.

Os esgotos, lá e aqui

O texto de Lord Puttnam é o coroamento da edição que Carta Capital faz envolvendo os escândalos da mídia lá e aqui. Lá, o assunto está em andamento. Não adiantou Murdoch fechar seu jornal de fofocas, o News of the World. Ele foi obrigado a prestar um depoimento de 10 horas devido ao chamado inquérito Levenson (utilização ilegal de escutas telefônicas). No depoimento saíram comprometidas figuras como os ex-secretário de estado para a Cultura, Jeremy Hunt, o ex-primeiro ministro Tony Blair, assim como os atuais primeiros ministros da Inglaterra, David Cameron, e da Escócia, Alex Salmond. Não é pouca coisa!

Aqui, em reportagem de Cynara Menezes, com o título Os desinformantes, explica-se, afinal, por que a capa com Roberto Civita como o “nosso Murdoch”. A reportagem traz à luz as engrenagens de um sistema em que a revista de maior circulação do país se prestou a promover os interesses do bicheiro Carlos Cachoeira. Traz, de forma mais esmiuçada, o que já mostramos aqui: a troca de telefonemas entre o chefe da sucursal da revista em Brasília e a turma de Cachoeira; como se montaram reportagens de capa como aquela de 31 de agosto de 2011 em que se pretendeu juntar minha imagem à de um mafioso, com minha foto e o título O poderoso chefão; a entrevista nas páginas amarelas com o senador Demóstenes Torres, ação dentro da estratégia de transformá-lo, quem sabe, em ministro do STF (sic); e como Cachoeira era transformado pela revista em um verdadeiro pauteiro e editor: além de indicar os conteúdos de notas e reportagens, era consultado também sobre onde deveriam ser publicadas, se na coluna Radar, ou então na Veja.online ou, quem sabe e outro espaço mais ‘nobre’…

Um ‘olho’ revelador

Ao lado da reprodução da capa com minha foto e da abertura da entrevista de Demóstenes Torres, a edição de Carta Capital traz o seguinte ‘olho’: “Denúncias sem sustentação serviram para acuar os adversários do esquema criminoso”.

A frase em destaque explica minha alma lavada. Até agora nenhuma publicação jornalística havia feito a relação. Para mim, que tenho uma história de militância política de esquerda, que tenho uma vida pública e um patrimônio moral a defender – minha própria vida –, é importante que a verdade apareça no ambiente do jornalismo, que tem suas técnicas e sua ética própria, que só pode prestar o serviço à sociedade quando exercita a busca pela verdade.

Veja, um caso sério. Mas não único

Complementa o foco da edição de Carta Capital nos problemas da mídia e do jornalismo brasileiros os textos do editor especial da revista publicado sob o título Veja, um caso sério, e o editorial de Mino Carta, que pergunta: “Por que a mídia nativa fecha-se em copas diante das relações entre Carlinhos Cachoeira e a revista Veja?” (leia a íntegra)

O próprio Mino responde: porque o jornalismo brasileiro sempre serviu à casa-grande, mesmo porque seus donos moravam e moram nela. Quanto a isso, ninguém precisa se perder em explicações mais detalhadas.

Mas até quando continuará assim? Os parlamentares que integram a CPMI podem ajudar a jogar luz nos mecanismos de como a mídia e a direita (que, não por acaso, se confunde com os moradores da casa grande) se servem do mau jornalismo para esconder a verdade. E podem começar convocando a direção da Veja para explicar como foi armado o conluio com a turma de Carlos Cachoeira. Será um bom começo para se pensar sobre o que e como fazer para, a exemplo do que diz Lorde Puttnam na Grã Bretanha, criar por aqui também “uma clara estrutura regulatória que incentive e na verdade permita o florescimento da pluralidade da mídia”.

Reproduzido de Correio do Brasil
5 maio 2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

Ecos do Sino Grande: Aziz Ab'Saber


Aziz e eu

Cynara Menezes

Se há algo bom de verdade nesta profissão de jornalista é ter a oportunidade de conhecer gente sábia. Eu posso dizer que tive a honra de conhecer alguns sábios ao longo da minha carreira. Um deles morreu hoje, aos 87 anos, mansamente, em sua casa em Cotia (SP): o geógrafo Aziz Ab’Saber. O Brasil perde um grande intelectual e um ser humano maravilhoso.

Há oito anos recebi da editora Record a incumbência de fazer um livro com o professor Aziz, “O Que É Ser Geógrafo”, um depoimento em primeira pessoa voltado para universitários. Começou então a amizade entre a jornalista de 30 e poucos que nada sabia de geografia além do que aprendera no colégio, e o maior geógrafo brasileiro, de quase oitenta. Foram mais de 20 horas de entrevistas em sua sala no Instituto de Estudos Avançados da USP, na verdade uma prosa prazerosa onde ele ia contando, de forma absolutamente poética, a história de sua vida.

De olhos fechados, o professor ia lembrando e, não raro, se emocionando, com os relatos que vinham do passado, de muito antes de ele nascer, na aldeia do Líbano de onde partira seu pai, Nacib, em direção ao Brasil. Era tão vívida e colorida a narrativa de Aziz Ab’Saber que me transportava até suas memórias: o mercado no Líbano; a feira em São Luiz do Paraitinga, cidade em que o professor nasceu; as viagens de campo, já na USP, com os mestres franceses que formaram a primeira geração de uspianos e que ele tanto admirava: Pierre Monbeig, Roger Bastide, Jean Tricart, Roger Dion, André de Cailleux, Jean Dresch, Louis Papi.

Os papos se estendiam depois, na lanchonete da faculdade de Letras ou do DCE –o professor sempre me convidava para um café com leite e um pão com manteiga. Dava para perceber o quanto ele amava estar no ambiente universitário, sobretudo entre os estudantes, que volta e meia vinham cumprimentá-lo. Uma tarde, quando já havíamos terminado o ciclo de entrevistas, ele passou em minha casa e disse: “Hoje você vai receber uma aula de geomorfologia”. E me levou para um recorrido pelo interior de São Paulo, na região de Itu, onde conheci o interessantíssimo parque do Varvito, um tipo de rocha sedimentar única, formada pela sucessão repetitiva de lâminas ou camadas.

Em Salto, ele me mostrou a força das águas do Tietê, poluído mas vivo, pulsante, ao contrário da placidez triste que o rio tem na capital. Subimos o monumento à Nossa Senhora de Monte Serrat, onde Ab’Saber me explicou in loco sua teoria dos redutos e refúgios: pedaços de paisagens que pertencem a outro ecossistema. Em pleno interior paulista, me mostrou areia e mandacarus típicos do Nordeste Seco. Sinal de que um dia houve caatingas também ali. Eu, a discípula, arregalava os olhos e aguçava os ouvidos.

Aprendi muito com o professor. O principal, para mim, foi descobrir que havia poesia na geografia. Nunca vou esquecer a linda expressão que usava para definir a paisagem montanhosa de sua terra natal, São Luiz: “mar de morros”. Inesquecível também a viagem a cavalo que me contou ter feito, pequenino, dentro do jacá (cesto de vime), pela serra do Mar, descendo até o litoral, em Ubatuba. Toda vez que vou à praia em São Paulo e percebo como é úmida a mata atlântica, lembro do professor Aziz contando dos “pinguinhos” que caíam no cesto de suas lembranças de menino e que, ele, curioso, se esforçava para entender, por entre as tramas do jacá.

Aziz Ab’Saber era um homem de esquerda, no sentido mais utópico do termo – nada a ver com partidos políticos, como as pessoas teimam em confundir hoje em dia. Foi dele a ideia, que deu a Lula, de fazer pelo País as caravanas da cidadania. E lembro de como ficou chateado por nunca ter sido convidado para ir ao Palácio do Planalto, depois da posse… Mais triste ainda ficou quando seu amigo operário foi capaz de dizer, em 2006, em tom de pilhéria: “se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela tem problemas”. Ab’Saber foi de esquerda até o fim. Até o fim o centro de suas preocupações como intelectual foram os mais necessitados, os que viviam longe de tudo, os ribeirinhos, os catadores de papel, os moradores das favelas. Até o fim desejou a inserção social dos humanos desamparados e se indignou com a injustiça.

Sempre que eu ligava para sua casa, mal ouvia eu dizer “alô!” e o professor Aziz respondia: “Cynara! Minha amiga”. As amizades são assim, não importa quantos anos se tem, de onde se vem, onde se nasce. As almas se reconhecem. Vou sentir saudades, professor. Se existe Paraíso, espero que tenha vista para o mar de morros.


 Ecos do Sino Grande

Aziz Ab’Saber

Ainda oiço. Trago na memória.
Na noite de São Luiz
Escuto ainda
As badaladas arrastadas
Do sino grande
Da matriz.

Coisa rara: tivemos que sair
Minha mãe, minha madrinha e eu
Para arejar o pequeno Iussef
Que estava com tosse comprida.

Ruas desertas. Escuridão
Bairro e chuvinha
Cheiro do mato vindo da outra banda
Do rio.

No alto do morro
O cruzeiro iluminado que meu pai,
Poeta introvertido,
Mandou iluminar.
Primeiras elétricas luzes,
Que antecediam
O pontilhado imenso que
marcava as luzes do universo.

Saudades de menino
Entes queridos.
Lembranças sentidas.
E, para completar
As badaladas arrastadas do sino grande
Que saudades, Deus meu!

Reproduzido de Carta Capital
16 mar 2012




Aziz Ab' Saber, um cientista que sonhava com uma universidade interdisciplinar e que amava as crianças. 

domingo, 4 de dezembro de 2011

Fernando Pessoa e a vida em linhas tortas...


Em meio ao "esbanjamento de felicidade e perfeição" nas redes sociais a busca por alguém que se faça "gente no mundo" nunca foi tão necessária

A partir dos versos do Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa – “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo” – Cynara Menezes escreve um ótimo texto na Carta Capital em que faz uma espécie de elogio e resgate da figura do “loser”, situando-o dentro dos limites do mundo contemporâneo.

Ao considerar os diferentes significados que o termo foi ganhando ao longo do tempo, desde o inicial que significava perdedor, até uma noção um tanto insuficiente que dizia ser loser um infeliz digno de pena, sem sorte, sem valor, a autora lembra que “loser não é apenas o cara que não ganha, e sim o que não se importa em ganhar. Ao contrário do que muitos pensam, o loser pode chegar lá – mas o que o moveu não foi chegar”.

O fato é que os “loser” ocupariam, segundo Cynara, um lugar privilegiado no imaginário americano, onde o termo surgiu propriamente, inspirando inclusive alguns emblemáticos personagens de Woddy Allen, dos irmãos Coen, dentre outros. Isso porque existiria um certo charme em ser loser, ou simplesmente encarar a vida de outra forma, olhá-la sob um ângulo diferente.

Parar enquanto todos correm, fazer-se complexo em meio às dúvidas e incertezas e não superficial e seguro de absolutamente tudo que faz ou vai fazer. Admitir-se triste às vezes. Dar-se ao luxo de observar o tempo passar, olhando o horizonte, deixando-se viver mais. Em tempos onde a exibição da felicidade se dá de forma absurda pelas redes sociais, financiada pela propaganda e pelos apelos multiplicados por aí,  os versos de Álvaro de Campos nunca foram tão atuais.

Porque o loser na verdade é o que há de gente no mundo, ele sabe que não há possibilidade em ter certeza de tudo, sendo que sequer sabemos porque estamos aqui ou para onde vamos. E percebe que há muito mais vida em ser humano em linha reta,em admitir fraquezas, dúvidas e porque não misérias, do que em iludir-se em uma verticalidade que é pura vaidade vazia, chafurdando-se em um pedantismo rasteiro.

Aos “losers” que ainda restam em um mundo de pressa, competição e exigência de felicidade e certeza, nada como o desabafo do poeta português:



Reproduzido de Educação Política, por Glauco Cortez
04 dez 2011