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segunda-feira, 25 de março de 2013

“O poder capitalista na Comunicação é contrário à dignidade humana”, diz Comparato


“O poder capitalista na Comunicação é contrário à dignidade humana”, diz Comparato

Unidade entrevistou o jurista Fábio Konder Comparato, professor doutor titular aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor em Direito pela Universidade de Paris e doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra sobre os meios de comunicação brasileiro.  

Unidade - Qual a sua análise sobre o poder dos meios de comunicação no Brasil. O senhor acredita que a Justiça brasileira tem atuado em benefício dos grandes veículos de imprensa?

Fábio Konder Comparato – Evidentemente, em todos os países capitalistas, os grandes meios de comunicação de massa se tornaram um poder concorrente ao poder estatal. E, de acordo com o espírito do capitalismo, este poder é exercido de modo oculto e dissimulado. Os grandes jornais, rádios, televisões nunca dizem que tem algum poder sobre o mercado ou sobre a esfera política. Mas, na verdade, este poder é exercido e a apresentação dos veículos de comunicação de massa como órgãos que obedecem a lei e que não fazem censura é profundamente falsa. Mas quem foi que aprovou a lei? Não foram aqueles que obedecem ao poderio dos grandes meios de comunicação de massa? E estes meios de comunicação empresariais de massa são contrários à censura? Eles mesmos exercem uma censura brutal em seu âmbito de atuação.

Unidade – Como o sr. vê o fim da Lei de Imprensa. Que consequências esta decisão do STF tem para a sociedade brasileira?

FKC  - A meu ver, todos os poderes públicos estão hoje submetidos à influência dominante dos grandes meios de comunicação de massa. O Poder Judiciário, em especial, teme muito os grandes jornais, as grandes televisões. E eu mesmo fui vítima de um caso paradigmático. Em fevereiro de 2009, o jornal Folha de S. Paulo, publicou um editorial no qual, comparando o regime militar brasileiro com outros regimes militares da América Latina, sobretudo do Cone Sul, afirmava que no Brasil havíamos tido uma “ditabranda”. Como eu não leio editoriais, eu só tomei conhecimento dele no dia seguinte, por que um leitor do jornal, de Minas Gerais, mandou uma carta onde se dizia indignado com este neologismo. Eu, então, cedendo a meu impulso siciliano, enviei uma carta ao jornal na qual dizia claramente que o diretor de redação e o jornalista que redigiu o editorial deveriam ambos pedir desculpas ao povo brasileiro de joelhos em praça pública. É que eles ofenderam gravemente a consciência do povo brasileiro. Eles poderiam publicar ou não publicar a minha carta. Hoje esta possibilidade de não publicar se tornou muito forte. Por que, desde 2009, é que não existe mais Lei de Imprensa no Brasil.

Unidade – O sr. sofreu alguma represália por ter escrito esta carta à Folha de S. Paulo?

FKC - Sim. O jornal publicou a minha carta. Mas publicou embaixo da carta uma nota da redação dizendo que “o professor Fábio Konder Comparato é cínico e mentiroso, por que nunca criticou outros regimes ditatoriais como o cubano”. Para grande infelicidade do jornal, o então ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins e Silva, publicou uma nota em que dizia que aquela nota da redação continha um “equívoco”, por que o professor Comparato, em uma edição da mesma Folha, tinha publicado uma carta criticando o regime cubano. Evidentemente que o ombudsman foi convidado a se retirar. Confesso que fiquei muito abalado. Mas, uma publicação dessas, na época o jornal de maior circulação, dizer que eu era cínico e mentiroso me abalou muito. Então, eu movi uma ação por danos morais. Eu perdi em primeira instância e perdi no Tribunal por unanimidade. 

Unidade – O sr. acredita que tenha perdido por qual motivo. Pelo temor dos juízes de confrontar um veículo de comunicação?

FKC – Eu acho que sim, mas há também o fato do jornal ter se utilizado de um ex-desembargador para convencer os seus antigos pares de que deveriam votar contra mim. Eu entendo que esta posição do Tribunal foi de grande fraqueza. Eu não fiz a defesa pessoal no meu caso. Mas, se tivesse feito, subiria à tribuna e começaria dizendo: “Senhores desembargadores. Vossas Excelências são cínicos e mentirosos. E, diante do tumulto que isso ocasionaria, eu diria: foi exatamente esta reação que tive quando recebi estes epítetos.

Unidade - Como o sr. analisa o papel da imprensa no Brasil? Alguns colegas chegam a chamar a imprensa como Partido da Imprensa Golpista (PIG). O sr. acredita que a imprensa se preste a este papel?

FKC – Eu não tenho opinião sobre isso. Eu tenho uma convicção. Tanto que eu tomei a iniciativa da propositura de uma Ação de Inconstitucionalidade por omissão no Supremo Tribunal Federal. E a razão é simples: a nossa Constituição Federal foi promulgada no dia 5 de outubro de 1988 e até hoje, passados mais de 24 anos, o Congresso Nacional não regulamentou dispositivos fundamentais da Constituição como, por exemplo, a proibição do monopólio e do oligopólio. Para dar um exemplo, a Rede Globo é a quarta maior rede de televisão mundial. O Congresso Nacional deixou de regulamentar o artigo 221 da Constituição que determina que a programação das emissoras de TV e de rádio obedeça alguns princípios fundamentais como preferência às matérias de conteúdo cultural, educativo e artístico. Essa ação foi apresentada ao Supremo Tribunal Federal em nome do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)e também da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Comunicação e Publicidade. E eu quero assinalar o fato que a Presidência da República, por meio do advogado geral da União, deu parecer contrário a esta ação, ou seja, confirmou que os poderes da República são submetidos à influência dominante dos meios de comunicação de massa. Mas a Procuradoria Geral da República deu parecer favorável. E nós estamos aguardando a decisão.

Unidade – O sr. chegou a acompanhar o que acontece na Argentina e no Equador em relação às empresas de comunicação. Os países da América Latina estão mais evoluídos em relação à regulamentação da mídia?

FKC – Isso corresponde à diferença de caráter entre os brasileiros e os demais povos hispano-americanos. O brasileiro tem caráter dúplice. Ele é fundamentalmente ambíguo. Ele tem uma aparência de respeito à Democracia, aos poderes constituídos. E, na verdade, há uma dominação capitalista dos empresários sobre os poderes públicos. Já no caso dos povos hispano-americanos, eles são muito mais claros e definidos nas suas opções. Inegavelmente, os regimes militares argentino, uruguaio e chileno foram mais cruéis que o regime brasileiro, o que não significa que tivemos uma “ditadranda”. Durante o regime militar daqueles países do Cone Sul, o Poder Judiciário foi afastado. Ele entrou em hibernação. E nós mantivemos o Poder Judiciário funcionando sob o tacão e a espada do Poder Militar. Isso é realmente uma vergonha nacional. Pois bem, terminados os regimes militares no Brasil e no Cone Sul, nós promulgamos uma Lei de Anistia e até hoje os assassinos, torturadores e estupradores do regime militar não foram sequer indiciados, sem falar em condenação penal. Enquanto que nesses outros países, por exemplo, como na Argentina, mais de 100 militares já foram condenados. E antigos chefes de Estado estão na cadeia até hoje. 

Unidade – Quais as alternativas que o sr. aponta para que a sociedade brasileira possa fazer frente ao grande poderio que as empresas de comunicação possuem no nosso país?

FKC – Eu acho que a principal missão hoje de todos aqueles que querem resgatar a honra deste país e instituir um regime claramente republicano e democrático, consiste em lutar contra o oligopólio empresarial dos meios de comunicação de massa. E isso tem que ser feito de forma organizada. Por exemplo, existe um setor da Comunicação Social que não foi oligopolizado pelo capitalismo, que é a internet. E nós temos que trabalhar neste setor para mostrar a generalidade da opinião pública e, sobretudo, aos jornalistas e às novas gerações, que este poder capitalista sobre os meios de comunicação de massa é absolutamente contrário à dignidade da pessoa humana. No momento em que desmoralizamos os titulares do poder, eles começam a cair. Não se trata de fazer revoluções. Trata-se simplesmente de mostrar como eles são sujos, da cabeça aos pés. E eu acho que isso deve ser feito. E eu acho que vocês jornalistas têm muito mais capacidade do que nós, não jornalistas, para organizar isso.

No SJSP

Reproduzido de Contexto Livre

22 mar 2013

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pierre Rosanvallon: “O modelo da boa sociedade não é a meritocracia”



“O modelo da boa sociedade não é a meritocracia”

Eduardo Febbro, de Paris
Carta Maior
27/11/2012

No livro “A sociedade dos iguais”, Pierre Rosanvallon traça a história das políticas em favor da igualdade que marcaram o século XIX e o século XX. Em entrevista à Carta Maior, Rosanvallon analisa a crise contemporânea marcada por uma perigosa dualidade: o avanço da democracia política, dos direitos, e a paulatina desaparição do laço social que cria e alimenta as sociedades democráticas. E critica as teorias da justiça promovidas por autores como John Rawls e suas ideias de igualdade de possibilidades e de meritocracia.

Paris - De todas as reflexões e livros que apareceram nos últimos anos sobre a democracia e a crise, o ensaio do professor Pierre Rosanvallon é o mais vasto e profundo. Com seu livro “La société des égaux” (Seuil), ("A Sociedade dos Iguais"), Rosanvallon traça a história fascinante das políticas em favor da igualdade que marcaram o século XIX e o século XX, ao mesmo em que moderniza o termo com reflexões substanciais.

Pierre Rosanvallon ocupa desde 2001 a cátedra de História de Política Moderna e Contemporânea no Collége de France e é também diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Próximo do Partido Socialista francês, Rosanvallon tem como horizonte intelectual a reflexão sobre a democracia, sua história, o papel do Estado e da justiça social nas sociedades contemporâneas.

Seus livros traçam um corpo de reflexões que vão muito mais além do já trilhado diagnóstico do mal. “A contrademocracia, a política na era da desconfiança”, “Por uma história conceitual do político”, “A legitimidade democrática” ou “O capitalismo utópico, história da ideia de mercado” aportam um caudal impressionante de reflexões sobre um sistema político do qual, apesar de tudo, desconhecemos seus impulsos. “A sociedade dos iguais” responde perfeitamente à crise contemporânea marcada por uma perigosa dualidade: o avanço da democracia política, dos direitos, e a paulatina desaparição do laço social que cria e alimenta as sociedades democráticas.

Com grande rigor, Rosanvallon esmiúça as teorias da justiça promovidas por autores como John Rawls e seu conseguinte ideal: a igualdade de possibilidades e sua aliada principal, a meritocracia. Rosanvallon destaca como entre a revolução conservadora encarnada pela ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher e pelo ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e a posterior queda do comunismo surgiu um novo capitalismo que mudou a fase da história. Mas esse novo capitalismo destroçou a capacidade de os seres humanos viverem e construírem juntos como iguais e não apenas como consumidores ou forças majoritárias. Rosanvallon moderniza então o termo da igualdade entendida não já como uma questão de distribuição das riquezas mas sim como uma filosofia da relação social.

Em entrevista à Carta Maior, realizada em Paris, Pierre Rosanvallon aborda os conteúdos essenciais de seu livro.

Praticamente para qualquer lugar que se olhe, a democracia vive um processo de degradação potente. No caso concreto do Ocidente, a impressão é de que os valores democráticos mudaram de planeta.

Isso se deve a que, há 30 anos, nos países da Europa, nos Estados Unidos e em praticamente todo o mundo, houve um crescimento extraordinário das desigualdades.

Podemos inclusive falar de uma mundialização das desigualdades. Trata-se de um fenômeno espetacular. Há cerca de 20 anos, as diferenças entre os países diminuíram. As rendas medidas na China, Brasil ou Argentina se aproximaram das da Europa. No entanto, em cada um desses países, as desigualdades aumentaram. Ao mesmo tempo em que a China se desenvolvia, as desigualdades se multiplicaram de forma vertiginosa. Esse problema concerne ao conjunto dos países. A Europa é o caso mais emblemático porque o aumento da desigualdade surge logo depois de um século de redução das desigualdades. Entre a Primeira Guerra Mundial e a primeira crise do petróleo, nos anos 70, na Europa e nos EUA houve uma redução espetacular das desigualdades. Podemos dizer que, para a Europa, o século 20 foi o século da redução da desigualdade. Agora estamos no século da multiplicação das desigualdades.

Neste sentido, você sustenta que ao mesmo tempo em que a democracia se afirma como regime ela morre como forma de sociedade sob o peso da desigualdade. O laço entre os cidadãos desaparece.

Como regime, a democracia tende a progredir em todo o mundo. Mas sabemos que ela se define também como uma forma de sociedade, uma sociedade na qual podemos viver juntos, uma sociedade da vida comum, uma sociedade com relações de igualdade. A democracia política do sufrágio universal e da liberdade progrediu ao mesmo tempo em que a democracia da sociedade dos iguais perdia vigência. Hoje vemos um divórcio completo entre o cidadão eleitor e o cidadão companheiro de trabalho. Na maioria dos países estão se multiplicando os guetos, as formas de secessão e de separatismo social.

A história da democracia nos mostra que ela tinha como objetivo a construção de um mundo comum entre os habitantes de um país. Hoje vemos a multiplicação dos mecanismos de encerramento em si mesmo, de isolamento. Isso é muito perigoso porque se a distância entre a democracia política e a democracia social segue aumentando é a própria democracia política que corre um grande perigo.

Você chama esse processo de “desgarramento democrático”. Em suma, o desgarramento da democracia é a desaparição do laço entre os componentes da sociedade.

O grande problema da sociedade moderna radica no fato de que é uma sociedade de indivíduos. Mas esses indivíduos devem formar uma sociedade todos juntos. os indivíduos querem ter êxito em sua vida individual, querem ser reconhecidos pelo que são, pelo que tem de específico. Mas isso implica saber compor com essas singularidades e oferecer um marco comum. E é precisamente esse marco comum que está faltando. Por conseguinte, essa demanda de singularidade só se expressa mediante um individualismo galopante. Esse problema do indivíduo está no coração da modernidade. Desde a revolução norteamericana e a revolução francesa, no final do século XIX, já estamos em uma sociedade de indivíduos.

O desenvolvimento do capitalismo criou o fenômeno da classe operária, do partido de classe. Era então uma sociedade de indivíduos que recompôs as formas de solidez coletiva. Hoje essas formas já não existem. Por quê?

Porque o que aproxima as pessoas não é o mero fato de compartilharem uma condição, mas sim, também, pelo fato de que compartilham trajetórias, situações. Hoje se requer outra forma para pensar o laço social.

Você redefine a noção de igualdade. Em sua análise, é preciso abordar a igualdade não como uma redistribuição das riquezas, mas sim como uma relação social em si.

Precisamos que na sociedade haja redistribuição e também solidariedade, mas para que haja solidariedade é preciso que antes se tenha o sentimento de que pertencemos a um mundo comum. Isso é o que ocorreu na Europa: se o Estado providência se tornou tão importante é porque houve a experiência das duas guerras mundiais, é porque houve o medo das revoluções. Se o Estado providência foi tão importante foi porque houve o sentimento de uma desgraça vivida em comum, de uma vida em comum que resultou decisiva.

Hoje o que falta a nossas sociedades é precisamente a possibilidade de refazer o laço social. A igualdade é uma forma de fazer isso. Um filósofo britânico, John Stuart Mill, tomava o exemplo da relação entre homens e mulheres. Mill dizia: a igualdade entre o homem e a mulher não consistem em que sejam os mesmo, em que se pareçam, mas sim em que vivam como iguais. O problema de nossas sociedades é esse: não vivemos como iguais.

E não vivemos como iguais porque há pessoas que vivem em seus bairros fechados, em suas mansões rodeadas de muros e alarmes enquanto outros vivem na pobreza. Não vivemos como iguais porque há cada vez menos espaços públicos, porque se multiplicam os subúrbios onde pessoas que têm as mesmas opiniões, a mesma religião, o mesmo nível de vida vivem entre si (e, neste sentido, os Estados Unidos são um exemplo extraordinário desse modo de vida).

Temos então sociedades fechadas em si mesmas e não sociedades onde haja um mundo comum. A igualdade é, antes de tudo, isso: consiste em fazer um mundo comum. Mas esse mundo comum não pode ser construído se as diferenças econômicas entre os indivíduos são muito importantes, não se pode fazer um mundo comum se não há respeito pelas diferenças, se todo mundo não joga as mesmas regras do jogo. Por isso tentei construir essa ideia da igualdade redefinida como uma relação social em torno de três princípios: singularidade (reconhecimento das diferenças), reciprocidade (que cada um jogue as mesmas regras do jogo) e comunalidade (a construção de espaços comuns).

Na história do mundo, se as cidades foram centros de liberdade foi porque criaram algo em comum entre os indivíduos. As cidades não foram somente lugares de produção econômica ou lugares de circulação. Não, elas estavam organizadas em torno do fórum, da praça pública, de espaços que permitiam a discussão entre as pessoas. É isso que está desaparecendo hoje.

Um dos capítulos mais profundos de seu livro é o que desenvolve uma crítica contra as teorias da justiça promovidas por autores como John Rawls. Essa teoria da justiça, que dá legitimidade à ideologia da igualdade de possibilidades, é para você uma pirâmide invertida: promove a igualdade, mas acrescenta a desigualdade.

A igualdade ocupou o centro de minha reflexão intelectual para pôr fim a uma visão de progresso social percebida unicamente a partir do tema da igualdade de possibilidades. Está claro que a igualdade de possibilidades não existe mais. A ideologia do mérito, da virtude, da igualdade de possibilidades, não pode servir para reconstruir sociedades. Por isso critiquei as chamadas teorias da justiça, Essas teorias, inclusive entre aqueles que apresentam sua versão mais progressista, como o prêmio Nobel de Economia Amartya Sem ou John Rawls, seguem inscritas em uma filosofia das desigualdades aceitáveis enquanto essas desigualdades estejam articuladas em torno do mérito, da ação do indivíduo.

Esse não é o modelo da boa sociedade. O modelo da boa sociedade não é a meritocracia. O bom modelo é o da sociedade dos iguais entendida no sentido de uma sociedade de relação entre os indivíduos, uma relação fundada sobre a igualdade. Temos a impressão de que a noção de igualdade de possibilidades, sobretudo se a definimos de forma radical, pode ser uma visão de esquerda. Todo o combate político se joga entre a definição mínima e a definição radical da ideia de igualdade de possibilidades. Eu digo que é preciso desconfiar dessa ideia de igualdade de possibilidades porque se vamos até suas últimas consequências terminamos por justificar as desigualdades e também justificar a falta de reação contra as desigualdades na medida em que estas foram legitimadas.

O grande sociólogo britânico Michael Young foi o primeiro a falar nos anos 60 da meritocracia, que é um velho ideal dos séculos XVIII e XIX. Young definia como um pesadelo todo país que fosse governador pela meritocracia. E é um pesadelo porque, neste caso, ninguém teria direito a protestar contra as diferenças. Se todas as diferenças estão fundadas sobre o mérito, aquele tem uma condição inferior a tem por culpa própria. Trata-se então de uma sociedade onde a crítica social não teria mais lugar.

É preciso ter consciência do limite do ideal meritocrático, do limite das teorias da justiça, do limite das políticas sobre a igualdade das possibilidades. Mesmo que essas políticas tenham seu espaço de validade, elas não representam a bússola que deve orientar uma sociedade para sua transformação.

(...)

Para você, a democracia ainda é um regime insuperável.

A democracia é o regime natural do moderno. Vivemos em sociedades que não podem mais ser reguladas pela tradição. Não se pode dizer que estamos regulados mediante o poder dos nossos ancestrais. Estamos em sociedades que não podem ser reguladas também recorrendo a uma lei divina. Por conseguinte, estamos em sociedades onde devemos organizar o mundo comum a partir da discussão pública. E se isso é tão decisivo é porque se trata de uma experiência que sempre é difícil. Aqueles que olham a história da democracia como a história de um progresso que vai da tirania à democracia realizada se equivocam. A história da democracia é uma história de êxitos e traições.

No século XX, a Europa foi, por um lado, o continente da invenção da democracia e, por outro, o continente que viu as piores patologias da democracia. Os totalitarismos foram, em primeiro lugar, uma história europeia. O que me fascina na história da democracia é que ela é a história de uma experiência frágil e não uma espécie de progresso acumulativo. É a história de uma experiência, de uma indeterminação, de um combate que nunca acaba, de uma luta contra seus fantasmas que não termina de tornar mais clara a deliberação entre os cidadãos para que encontrem o caminho de uma vida comum. No fundo, a democracia é isso: organizar a vida comum sobre a deliberação de regras que se fixam e não sobre algo que teria nos sido dado como uma herança.

Esse é, para você, o ponto essencial.

Sim, é o ponto essencial: a democracia é uma experiência sempre frágil. Não podemos nos tornar democratas crédulos: temos que ser democratas atentos, vigilantes. Não há democracia sem vigilância de suas debilidades e dos riscos de manipulação. O cidadão não é simplesmente um eleitor. Ele deve exercer esta função de vigilância individual e coletiva.

Tradução: Katarina Peixoto

Texto completo reproduzido em Carta Maior
27 nov 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

“Capitalismo é antivida, assassina as vidas humanas para acumular”, diz Leonardo Boff



“Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, negros, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora”, defende o teólogo Leonardo Boff.

“Capitalismo é antivida, assassina as vidas humanas para acumular”, diz Leonardo Boff

Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada, afirma Leonardo Boff

“A Teologia é séria quando toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida, pessoalmente, à IHU On-Line.

Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).

Reproduzido de Pragmatismo Político
19 out 2012

Leia também:

sábado, 21 de julho de 2012

Hablando con el corazón sin esperar nada a cambio...



Desde que la autoridad puso su aguijón en el cerebro humano
despertó la guerra social,

Desde que hay esclavos del orden,
hay quienes lo combaten.

Acaso el amargo sabor de esta vida que nos imponen
No merece la guerra?

El hambre, la explotación,
la discriminación y la marginación
No merece la guerra?

El poder que tortura y somete a todo ser viviente
en cada rincón de esta tierra para prolongar su bienestar y despotismo
No merece la guerra?

Esta guerra, la nuestra,
es en contra de la civilización
que despojo a los pueblos de sus tierras y su historia
que esclavizo, asesino y martirizo
en nombre de dios y su maldito dinero,
contra quienes se repartieron el mundo con nosotros dentro
creando fronteras, cercando selvas y montañas
apropiándose de ríos y mares hasta llegar a los cielos
que también tienen dueño,
contra el maldito reloj
que nos condena a repetir tortuosamente
cada minuto de nuestras gigantescas prisiones que llamamos ciudades,
sentenciándonos a trabajar para consumir su tecnología innecesaria.

Guerra contra la culpa las rejas y todo sistema carcelario
que termina con la dignidad y la vida.

Guerra a este estado de control
que con los traidores militarizados
nos sumergen en la cultura del terror,
a los que apoyan y sustentan toda esta farsa,
al patriarcado, al hombre y su ley
basada en la inteligencia manipulada.

Guerra a nosotros mismos
que es la mas difícil en todo momento, en todo lugar,
esto es lo que nos toco vivir
este suplicio que nos atormenta
la pregunta simplemente es ¿Por qué?
Esta es la rabia que masticamos
la impotencia que nos cierra el puño
y nos hace desobedecer, la sublevación al orden establecido
es la guerra de la que hablamos?

Generando revueltas a lo cotidiano
conspirando con la inserrucción atacando y desapareciendo,
alli estaremos, siempre anonimos
soñando y luchando por la libertad
porque mientras perdure el poder y la autoridad
habrán quienes resistan y combatan su existência.

El tiempo corre muy rápido
el mundo gira al ritmo del hombre, el dinero, la ley
lo rige todo y la dignidad se pierde como trozos de papel.

Estamos envenenados por la codicia
enfermos de consumo y de televisión,
encerradas en pequeños mundos
viviendo en esta realidad perfectamente creada.

Crimen y castigo se respira y así somos criadas
y educadas y esclavizadas y torturadas por las rutinas.

Trabaja produce, consume y muere.
TRABAJA PRODUCE, CONSUME Y MUERE.

Fuimos mutilados del amor, la historia,
la consciencia y la iluminación
con pequeños placeres impuestos
que solo marcan sonrisas de momentos
y así hoy despertamos en esta cárcel mal llamada vida,
abrimos los ojos y sentimos que somos dueños de nuestros pasos
del camino que nos hacemos, desobedecemos,
cuestionamos, crecemos,
nos quitamos su maldita cultura, nos reeducamos,

Nos empezamos a mirarnos a los ojos
y hacernos sinceros entre nosotros y nosotras.

Seremos capaces de usar los espejos con un sentido critico
seremos capaces de mirarnos a los ojos
y decirnos nuestras verdades
y terminar con tanta hipocresía
dejar de mentirnos a nosotros mismos,
es el paso mas difícil de todos,
hacernos cargo de nuestras vidas
y de lo que queremos hacer con ella,
ahí empieza la revolución, el cambio,
el paso a paso con lo que nos rodea
demostrando lo que somos
como somos y hacia donde vamos.

Hablando con el corazón sin esperar nada a cambio
solo ser vos misma, como tu te has creado
un ser conciente coherente y consecuente
con vos misma y con tu idea.

Porque el capitalismo te da oportunidades en la vida,
pero la anarquia te da la vida misma

por eso hoy solo decimos que:
SOMOS LO QUE HACEMOS PARA CAMBIAR LO QUE SOMOS,
PROTESTA Y SOBREVIVE CON AMOR Y RABIA...

SALUD

Resiste y lucha

Reproduzido de Anarquistas1 Youtube



Leia também:

"Os pensamentos Anarquistas ainda vivem", por Heitor Vinícius Ferreira (24/01/11) clicando aqui.

"Quem tem medo dos Anarquistas? Resposta à campanha mediática anti-anarquista", na página de Rede Libertária (22/07/10) clicando aqui.

Visite a página de "Centro de Cultura Libertária" clicando aqui.

Nova relação de poder em escala mundial


Nova relação de poder em escala mundial

Emir Sader . Carta Maior
17/07/2012

Entre as coisas que mais incomodam a direita latino-americana estão os processos de integração regional. Um argumento forte que a direita sempre usava e que tende, cada vez mais, a perder força, é o que consideravam caráter inevitável da hegemonia econômica norteamericana, o que nos levaria, segundo a direita, a termos que nos submeter a políticas de subordinação aos EUA, sob o risco de ficarmos para trás nos processos de modernização e desenvolvimento econômico.

A atual crise econômica representa, entre tantas outras coisas, a culminação de um processo de enfraquecimento das economias do centro do capitalismo, depois de décadas de aplicação de políticas de livre comércio e de neoliberalismo. A crise profunda e prolongada em que estão imersas, tem consequências recessivas para o conjunto do sistema econômico mundial, mas não o suficiente para levá-lo, por inteiro à recessão. Seus efeitos políticos têm sido o oposto do que costumavam ser: ao invés de reafirmar o peso e o lugar incontornáveis dos países do centro, tem levado ao seu enfraquecimento. Os países que mais dependem deles são os mais afetados pela crise e pela recessão. Os modelos que eles afirmavam como inevitáveis, os levam à recessão prolongada, enquanto as economias que aplicam modelos distintos, conseguem se defender das ondas recessiva vindas do centro, mantendo níveis de expansão, associados a políticas sociais redistributivas.

A prioridade dos projetos de integração regional ao invés dos Tratados de Livre Comércio com os EUA revelam-se não apenas uma opção política coerente, como produzem efeitos econômicos favoráveis. A opção do México – o primeiro a assinar TLC na America Latina – se revelou frustrada: ao invés de impulsionar seu crescimento e renovação econômica, o condenou a atrelar seu destino ao da economia norteamericana – um dos epicentros da crise econômica internacional -, com mais de 90% do seu comércio exterior com os EUA e praticamente nenhuma comércio com a China e muito pequeno com a América do Sul, duas das principais fontes de crescimento econômico no mundo hoje.

Assim a opção preferencial pelos processos de integração Sul-Sul revelam não apenas uma postura de luta por um mundo multipolar, como mostram sua eficácia econômica, tirando da direita o argumento que não privilegiar relações econômicas com os EUA e a Europa levaria os países ao atraso, ao isolamento e à recessão.

Há uma nova correlação de forças econômicas em nível mundial e ela favorece o Sul do mundo em detrimento dos países do centro do sistema. Não se trata de uma reversão nas relações de poder, promovendo a hegemonia do Sul sobre o Norte, mas sim de uma situação que permite relações distintas às que predominaram desde o surgimento do sistema capitalista, como o colonialismo e o imperialismo que ele promoveu. Além de que o dinamismo econômico já não é monopólio dos países do centro, que podem seguir detendo vantagens do ponto de vista tecnológico, mas não podem aplicar esses elementos sem dinamismo econômico, com que não podem contar.

Do que se trata agora é de construir espaços de integração em nível mundial, conforme a visão e os interesses do Sul do mundo, que permitam superar o sistema institucional internacional que foi criado para consolidar e perpetuar o poder dos países centrais, hoje declinantes em escala mundial.

Reproduzido de Carta Maior
17 jul 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quem mais maltrata você? Sua operadora de telefonia celular? Seu banco? Pelas companhias aéreas?

Quem mais maltrata você?

Moisés Naím
Folha Online
20/07/2012

Por quem você se sente mais maltratado? Por sua operadora de telefonia celular? Seu banco? Pelas companhias aéreas? As relações entre as empresas e seus clientes estão carregadas de conflitos de interesses recobertos por uma capa de hipocrisia, publicidade e marketing.

Em última análise, as empresas querem arrancar o máximo possível de dinheiro de seus clientes, e estes querem pagar o mínimo possível. Criar lealdade à marca e não perder clientes são as principais motivações que levam as empresas a tratar bem a seus clientes. Nada de novo. Não obstante, as empresas insistem em nos convencer que são nossas aliadas amáveis e que suas decisões com relação a preços, qualidade e serviços também são guiadas pela ética. As coisas não têm ido bem ultimamente para esta ideia.

O Barclays Bank, por exemplo, pagou uma multa de US$452 milhões por ter manipulado as taxas de juros interbancárias (a taxa Libor, que alguns cínicos agora andam chamando, em inglês, Lie-More, ou mente-mais). "Não somos os únicos!" disse o presidente do Barclays antes de renunciar. Seu colega do JP Morgan Jamie Dimon insiste que os bancos não precisam de mais controles, já que seus valores éticos, seu seus controles próprios e a concorrência garantem que suas decisões estejam alinhadas com os interesses da sociedade. Mas Dimon foi surpreendido por perdas ocultas de US$2 bilhões em seu banco (ou US$5 bilhões. Ou mais. Ainda não se sabe).

Dimon se disse indignado com a desonestidade dos banqueiros do JP Morgan (pequeno detalhe: são seus empregados). Rajat Gupta, o ex-chefe da prestigiosa consultoria McKinsey & Co ("somos uma organização guiada por valores") acaba de ser condenado em Nova York por ter passado a seu cúmplice informações secretas e valiosas sobre o Goldman Sachs, empresa da qual Gupta era diretor. O banco HSBC também está pedindo desculpas: em 2007 e 2008 sua subsidiária no México enviou aos EUA US$7 bilhões em cédulas supostamente depositadas por cartéis do narcotráfico.

E, por falar no México: de acordo com a OCDE (organismo formado pelos países mais ricos do mundo), os preços excessivos cobrados pela AmericaMovil --a empresa de telefonia de Carlos Slim-- custam aos consumidores desse país US$26 bilhões por ano. Mas pagar a mais para fazer uma ligação telefônica não é tão perigoso quanto tomar um medicamento que, ao invés de curar, mata. A empresa farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) acaba de ser multada em US$3 bilhões por promover medicamentos que causam efeitos negativos ou até a morte. O valor da multa é muito alto, mas não tão alto quando os US$8,2 bilhões que a empresa teve de lucro em 2011.

O que está acontecendo? Essa explosão de comportamentos empresariais abusivos e corruptos é algo novo, ou é simplesmente que agora estamos mais bem informados? As duas coisas. Mas o certo é que o velho princípio do "caveat emptor", frase latina que significa que é o comprador quem deve tomar todas as precauções, porque o risco é todo dele e não de quem vende a ele, é mais válido hoje que nunca. A enorme complexidade do comércio moderno coloca os consumidores em desvantagem. Mas a boa notícia é que hoje os compradores têm acesso a mais informação que nunca antes sobre o que compram e quem vende a eles. O banco Barclays e a GSK acabam de descobri-lo.

Tradução de Clara Allain

O escritor venezuelano Moisés Naím, do Carnegie Endowment for InternationalPeace, foi editor-chefe da revista "Foreign Policy". Escreve às sextas na versão impressa de "Mundo"


Reproduzido de clipping FNDC
20 jul 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Notícias diárias sobre as bolsas de valores na grande mídia funciona como uma ditadura ideológica da informação


Notícias diárias sobre as bolsas de valores na grande mídia funciona como uma ditadura ideológica da informação

Glauco Cortez
Educação Política

A informação sobre o sobe e desce das bolsas de valores todos os dias no rádio e na televisão funciona como uma lavagem cerebral e não tem nada de jornalismo. Todos os dias o Jornal Nacional nos mostra como estão as bolsas do Brasil, dos Estados Unidos, de países da Europa, do Japão etc… A Rádio CBN, por exemplo, expõe a situação da bolsa praticamente a cada meia hora. E para quê? Quantos brasileiros têm dinheiro aplicado em bolsas fora do pais? Ou melhor, quantos brasileiros tem dinheiro aplicado na bolsa no Brasil? Segundo informações do próprio mercado empresarial, menos de 1% da população investe na bolsa. Alguns sites especializados falam em 0,2% ou 0,3%.

Qual o motivo de se dar notícia diuturnamente sobre a bolsa em rádio e televisão abertas, fora de programas exclusivamente econômicos? Aparentemente nenhuma. Eles servem para criar uma expectativa de tensão na população. Em momentos especulativos, em que agentes financeiros podem apostar contra alguma moeda, as bolsas oscilam de forma mais intensa, provocando a sensação na população de que alguma coisa está errada.

Quando ocorre alterações bruscas há pelo menos a justificativa jornalística de que há algo anormal, mas a notícia diária das bolsas de valores são profundamente irrelevantes para o espectador ou ouvinte, assim como são enfadonhas. No entanto, lá estão essas notícias diariamente, como se fossem um dogma do jornalismo. Elas não tem novidade, não tem interesse (menos e 1% aplicam em bolsa), não tem empatia, não tem interesse público ou social, não tem ineditismo, não tem improbabilidade e não tem apelo, mas é um dogma.

Um dogma criado para sustentar a ditadura ideológica dos especuladores financeiros, que pelos meios de comunicação, expressam incessantemente (diariamente) que o interesse dos grandes apostadores das bolsas de valores são os mesmos interesses de toda a sociedade. Na maioria das vezes, em verdade, são o contrário. Eles apostam contra uma moeda e destroem a economia de um país, ou colocam esse país em condições financeiras de difícil solução e tendo de adotar medidas de austeridade fiscal contra a população, enquanto engordam seus lucros.

É certo que a ação da grande mídia hoje no Brasil está no nível mais baixo da intervenção. Ela atua politicamente, defendendo certos grupos políticos, mas a questão econômica são o seu grande triunfo ideológico, visto que cria uma espécie de chantagem sobre a vida política e cultural do país.

Reproduzido de Educação Política
17 jul 2012

domingo, 1 de julho de 2012

O anti-espírito de Occupy na Educação e na vida...


O anti-espírito de Occupy na Educação e na vida...

A falta de Educação, a mercantilização dela, o roubo do espírito e da imagem de libertadores e de um movimento pela libertação de tudo isso...

Leo Nogueira

O vídeo insistentemente veiculado na TV pelo Sistema de Ensino Energia (Pré-Vestibular) falando de um “mundo mais justo”, “ocupar as ruas”, “juntos somos 100%”, “menos ganância” e “liberdade”, “quem quer deixar o mundo melhor” etc. mostra imagens cuidadosamente trabalhadas, até bonitas graficamente, mas des-virtuando e deturpando completamente o espírito do Movimento Occupy e de tudo o que ele representa.

A certa altura, até a imagem de Che Guevara, imortalizada por Alberto Korda, ilustra o material, querendo fazer parecer que o grande e verdadeiro revolucionário apoiaria um cursinho pré-vestibular que só existe em função da exploração de estudantes que buscam uma vaga na universidade.

Ocupar a universidade? O que é isso, senão lutar pelo direito de todos à educação de qualidade, algo que ao redor do mundo realmente acontece na guerra por re-evolucionar esse sistema capitalista des-humanizador que provoca a exclusão, inclusive dos jovens na universidade, o que os "occupiers" fazem?

O “Energia” faz isso, ou o tal cursinho é um braço na Educação dessa ideologia que mercantiliza tudo, que reduz o cidadão de direitos a consumidor de apostilas e aulões com decorebas e musiquinhas que imbecilizam os estudantes, até que estes se tornem autômatos passando pelo gargalo do funil, enquanto pelas mensalidades pagas às empresas de educação as moedinhas passam pelo buraco do cofrinho? Dessa inculcação à moda da educação bancária a juventude desse cursinho representa os altos índices de aprovação para frequentar a universidade bancária, essa que em suma reproduz e reforça esse sistema de coisas.

Eu me sinto completamente ofendido por essa propaganda falsa, enganosa, mentirosa, leviana, hipócrita, nojenta, que toma e rouba símbolos da resistência a esse capitalismo para fazer passar um cursinho de de-formação de consciências, “ajudando” os jovens “a ocupar o seu lugar no mundo” como algo revolucionário.

Só faltava esse “comercial” para colocar uma cereja no sorvetinho doce da manipulação da propaganda para enganar jovens que querem seguir para a universidade.

A educação superior não é sonho, a educação não é mercadoria como querem essas empresas. A educação de qualidade é um direito, e todos deveriam ocupar a universidade lutando por seus direitos negados por políticos, direitos explorados pelos donos dessas empresas-cursinhos mancomunados nesse jogo de interesses da mercantilização da educação.

Quem quer entrar para a universidade pública, de qualidade, que lute desde pequeno, e quanto possa para des-mascarar os mercadejadores dos direitos de todos, esses agiotas de nossa cidadania que nesse caso criminoso são representados pelo “Energia”.

Quem quer entrar para a universidade e verdadeiramente revolucionar o mundo, comece a não aceitar esse tipo de propaganda mentirosa e enganadora. Quem quer entrar para a universidade que ocupe todos os espaços de manifestação que ao redor do mundo não aceitam mais tais tipos de imposição e mentiras ditadas pelos banqueiros e donos do mundo.

É isso que os “occupiers” fazem ao redor do mundo, como também o movimento estudantil revolucionário latino-americano. Coisas que, naturalmente, as mídias/sócias dos cursinhos não mostram na sua integridade. As mídias hegemônicas e o Pré-Vestibular Energia fazem bem é isso: mentem. E usar imagens/ideias de Occupy é um crime que merece explicações, à organização em Nova Iorque, aos estudantes e "ocupantes" legítimos e verdadeiros.

Essa estratégia de marketing dissimulada, revoltante, elaborada para despertar simpatia entre a juventude é um gesto que deve ser repudiado, uma atitude intolerável e indigna. Só mesmo a falta de Educação, de qualidade, para gerar uma propaganda de teor tão repugnante.

Divulguem e colaborem para denunciar isso!

Conheçam e confiram tal acinte na página do Sistema (Capitalista) de Ensino Energia seus criadores, que deveriam estar envergonhados com tal proeza anti-ética de manipulação midiática, e botem a boca no trombone, defendam seus direitos, defendam a verdadeira revolução e o espírito libertário de Che Guevara e do Movimento Occupy:




"Nova campanha do pré-vestibular Energia"

"Está no ar a nova campanha do pré-vestibular Energia. As peças pegam carona no famoso movimento Occupy, lembrando aos jovens que tão importante quanto ocupar as praças e as ruas é ocupar a Universidade. E que o Energia está aí para ajudar a gurizada a ocupar as vagas do ensino superior e fazer um mundo melhor a partir do conhecimento".

Ficha técnica:

Criação: André Sanches, Sandro Akira
Diretor Criação: Josué Orsolin
Atendimento: Rafaela Rombaldi
Mídia: Glaucilene Matos
Produção: Rosana Schmitz
Produtora Vídeo: Midia Effects
Produtora Áudio: Technológica
Aprovação: Percy Haensch


Conheça também o Movimento Occupy, participe dele, revolucione-se com ele. Basta dessa "Energia" de baixo teor vibratório na educação, e na vida da gente!




Comentário via Facebook:

Não é de hoje que a propaganda se apropria das formas contestatórias esvaziando seus conteúdos políticos.

A contracultura e os ícones da esquerda revolucionária são esvaziados de sentido histórico e emancipador para vender mercadorias, sejam elas camisetas de griffes ou cursos pré-vestibulares.

A sociedade do espetáculo gera a adaptação juvenil aos valores vigentes em um ciclo, quanto mais adaptado à lógica do consumo da rebeldia como mercadoria, mais adaptado a uma sociabilidade consumista.

Entretanto nem sempre essa lógica tem conseguido absorver a contestação, muitos jovens inicialmente tem o primeiro contato com expressões da contracultura por meio da indústria cultural e depois passa a questionar a lógica do consumo.

Exemplo: um garoto que começa escutar Sex Pistols porque todo mundo fala e a mídia convencional o apresenta como um modelo da contracultura punk, mas ao frequentar os espaços onde encontram os signatários da contracultura vai percebendo que ser punk vai além de consumir certas bandas, a questão do grupo de afinidade acaba por levantando questões inerentes ao consumo e as questões políticas.

Ainda que essa lógica tenha causado bastante perdas as lutas contraculturais, acho que uma das alternativas denunciar como fez o Leo Nogueira Paqonawta e ampliar as convergências entre vários setores dos movimentos de contestação.

Também me indignei com propagando do Energia e me impressionei com rapidez que os publicitários usaram isso para vender o curso pré-vestibular, correndo o risco do seu material de publicidade serem atacados como já aconteceu com outras empresas.

Por Carlos André/São José/SC no Facebook
01 jul 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

"A violência é a única maneira de se sustentar a desigualdade social, econômica e cultural"...


Na sociedade construída sob a égide da violência e da intolerância, o amor e o afeto de dois irmãos precisam ser espancados

Numa noite, pai e um filho foram agredidos porque estavam abraçados; em outra, dois irmãos foram espancados, sendo um morto, por estarem também abraçados.

Nos dois casos, eles foram confundidos com homossexuais. Isso não são fatos isolados e nem fruto exclusivo da ignorância dos agressores, que pensaram erroneamente que se tratavam de relações homossexuais.

As agressões são os resultados históricos da sociedade sob o mando da intolerância e da violência para a manutenção da desigualdade. Afinal, que sociedade é essa em que o afeto e o carinho são transformados em ofensa e o amor se torna insuportável?

Quando nos deparamos com tamanha barbaridade, ficamos a pensar como as pessoas não percebem que está tudo errado na sociedade? Como as pessoas não percebem que construímos uma sociedade de ponta cabeça? Como não percebem que outra sociedade é possível?

Ficamos a pensar como as pessoas se convencem de que as coisas são assim mesmo? Como elas se convencem de que não há nada a fazer? O que faz com que as pessoas pensem que não há solução? Como não lhes parece tão evidente que certos grupos sociais se beneficiam da sociedade da violência? Como não lhes parece evidente que os que dificultam avanços são os responsáveis pela situação?

A sociedade da violência é uma sociedade animalizada, onde a razão presente no ser humano está a serviço da violência. A primeira violência é a manutenção da desigualdade social, levando pessoas a viverem em condições sub-humanas, diante de uma estrutura de opulência. As violências continuam com um sistema de saúde péssimo diante de uma sociedade perdulária e luxuosa. A violência persegue numa educação ruim, sem investimento, sem afeto, uma educação instrumental e imbecilizada pela objetividade do sucesso profissional. A violência continua na manutenção e sustentação da desigualdade por empresas de mídia que se beneficiam da associação com políticos conservadores e mantenedores dessa desigualdade.

A sociedade brasileira foi construída sob a égide da violência. A violência é legitimada em todos os sentidos, nas delegacias, na justiça, na legislação, na mídia. Isso fica explícito quando os crimes contra a vida são muito menos esclarecidos do que os crimes contra o patrimônio, quando não se investe em educação e saúde ou quando não se pune os drogados pelo dinheiro.

A sociedade é violenta porque a violência é a única maneira de se sustentar a desigualdade social, econômica e cultural. É por isso que as pessoas não se indignam, porque sabem que podem sofrer com isso, serem agredidas, violentadas. O que foi a ditadura militar brasileira, tão festejada pelos meios de comunicação na época? Nada mais do que uma forma violenta de impedir que a desigualdade fosse diminuída e isso prejudicasse o interesse de setores da sociedade, setores que precisam da violência como padrão social de sustentação de privilégios.

É dito popular afirmar que agredir fisicamente outra pessoa é “partir para a ignorância”. Da mesma forma, o político que prioriza a ação policial é o político que prefere partir para a ignorância. É fácil notar quando o político é um ignorante e representante da violência para manter a desigualdade. O foco é sempre a necessidade de mais policiamento, de mais investimento em segurança pública, de mais armas para a polícia, é preciso pulso firme, etc etc etc…  Quando menos investe em educação, saúde e combate a desigualdade econômica e social, mais ignorante é o político. Ou seja, é um reprodutor da violência.

A violência contra o amor, o afeto e o carinho é uma construção social que, para alguns setores privilegiados da sociedade, vale a pena manter.

Reproduzido de Educação Política por Glauco Cortez
29 jun 2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Caros Amigos promove debate por seus 15 anos: “O Brasil que queremos: principais desafios”


Uma reflexão sobre o que importa

Em comemoração ao seu 15º aniversário, a revista Caros Amigos tem a satisfação de oferecer a amigos, apoiadores, leitores e público em geral, um debate de alto nível sobre o tema “O Brasil que queremos: principais desafios”, com a participação de Leda Maria Paulani, Luiz Gonzaga Belluzzo, Paulo Vannuchi, Tânia Bacelar e Ladislau Dowbor.

Já está provado que o crescimento econômico – por si só – não produz desenvolvimento político, social e cultural. O Brasil tem um PIB situado entre os das maiores potências econômicas do mundo, mas, ao mesmo tempo, coleciona indicadores que colocam o país entre os mais desiguais do planeta. O que fazer para superar os fatores que geram tamanha desigualdade?

O modelo neoliberal – que tomou conta do mundo desde os anos 1980 – está em grave crise desde 2007, com consequências desastrosas não apenas no campo econômico e financeiro, mas também nos campos social e político. Os Estados Unidos tentam reativar sua economia depois de anos de estagnação; a Europa afunda em dívidas, desaceleração econômica, desemprego e derrubada de governos passivos diante do sistema dominante.

Queiramos ou não, a crise econômica (social e política) que ronda o capitalismo mundial vem fustigando continuamente o limitado crescimento brasileiro. Seja pelo desaquecimento da China, fragilidade da União Europeia, medidas protecionistas de parceiros comerciais ou seja pelo esgotamento da capacidade de consumo das classes médias, o fato é que a situação atual está a exigir a descoberta de novos caminhos para o país, especialmente para que não sofra retrocessos sociais e políticos.

Pensar o “país que queremos” certamente inclui enfrentar os obstáculos econômicos, defender a soberania nacional, aperfeiçoar o sistema democrático, assegurar a todos – sem exceção – os direitos fundamentais para uma vida com dignidade. Significa superar os resquícios ainda fortes do regime escravocrata, da herança oligárquica e do autoritarismo da Ditadura Militar. Esses são alguns dos nossos desafios. O debate, com certeza, vai abrir o leque das mais importantes opções
.
Assista. Participe. Você é convidado da Caros Amigos. Vamos refletir juntos os atuais desafios do Brasil que queremos.

Dia 11 de junho, segunda-feira, às 20 horas, no Tucarena, na PUC-SP.

Abraço.

Hamilton Octavio de Souza
Editor

Recebido via e-mail

terça-feira, 1 de maio de 2012

Alexandre Haubrich: O Trabalho como afirmação do ser


O Trabalho como afirmação do ser

Alexandre Haubrich
15 abril 2011

Desde o fim das sociedades primitivas, cujo trabalho era baseado na coleta e na troca, vimos a ascensão e a permanência de modos de produção que têm por base a exploração, a dominação, o autoritarismo. Os binômios explorador x explorado não deixam dúvidas: na sociedade escravista, amo x escravo; na sociedade feudal, proprietários de terra x vassalos; e hoje, capitalistas x trabalhadores assalariados. Na essência de todas essas composições está o empoderamento de alguns poucos indivíduos e o rebaixamento de muitos outros à condição de simples objeto.

No Brasil especificamente e no mundo ocidental de modo geral, o escravismo foi abolido a partir da conjunção de pressões sociais, esgotamento econômico e interesses políticos. Note que as pressões sociais, de caráter humanitário, formaram apenas uma pequena parte dos elementos desencadeadores da libertação dos escravos. A necessidade de abertura de novos mercados consumidores e de deslocamento do eixo econômico foram determinantes para que as elites econômicas e políticas cedessem e permitissem a troca gradual – ou nem tanto – do trabalho escravo pelo assalariado.

Alianças ou mesmo coincidências de fato entre elites econômicas e políticas, aliás, permeiam toda a atual lógica exploradora do trabalho. Com o domínio econômico, o grande empresariado controla também a política institucional, bancando campanhas milionárias, associando-se de formas nem sempre legais a determinados políticos e partidos ou sendo eles mesmos as pontes entre os dois setores. Dessa forma, o controle do Estado permite a utilização das instituições para a manutenção e reprodução da lógica opressora do Trabalho. O uso da Educação como forma de educar para a submissão, como já vimos em outro texto desta coluna, é um exemplo. As intervenções nos sindicatos e a utilização da polícia para conter greves são outros pilares estatais nos quais se apoiam as elites econômicas para manter o trabalhador sob seu jugo. Além disso, o controle ou a associação com a mídia hegemônica confere ao grande empresariado o monopólio da palavra e da publicidade.

O ser humano e as sociedades que constitui possuem sempre heranças variadas de momentos políticos e organizacionais anteriores. Nosso passado mantém-se presente em pequenas marcas, viciosas ou virtuosas, que nos acompanham indeléveis. Nossos maiores dramas podem ser convertidos, porém, em meras lembranças de algo detestável, desde que os fatos realmente sejam entendidos como detestáveis. Não parece ser o caso do escravismo. As marcas da escravidão, recentemente abolida, permanecem através das práticas de domínio do homem sobre o homem através do Trabalho. A aversão das elites ao trabalho manual, que cria na consciência coletiva a ideia do trabalho como humilhação, é uma dessas heranças sombrias, assim como o autoritarismo e a verticalidade da lógica de produção.

A lógica opressiva aplicada sobre o Trabalho é um dos grandes crimes cometidos ainda hoje contra a humanidade e contra os direitos básicos do ser humano. Em primeiro lugar, porque é no Trabalho que construímos a base sobre a qual irá se erguer nossa organização social. Não no sentido dos bens produzidos, mas no sentido da lógica que empregamos nessa prática. Os modos de produção são elementos fundantes da sociedade. E todo ser humano, como constitutivo e agente dessa sociedade, tem o direito básico de construí-la e optar pelos caminhos que levem a essa construção. O que quero dizer é que para mudar substancial e essencialmente a sociedade é impreterível a mudança intransigente do modo de produção. Com os meios de produção nas mãos dos empresários, o que resta ao trabalhador é submeter-se às condições impostas por aqueles – que, como vimos, atua em sintonia direta ou indireta com o Estado. Os trabalhadores, estejam nas fábricas, nas escolas ou no campo, se veem obrigados a seguir as regras do jogo, estabelecidas pelos patrões, caso queiram ter o que comer e onde morar.

Como já foi explicado, os grandes empresários e o Estado caminham juntos na opressão à esmagadora maioria da população. A intenção do trabalho é a falsa esperança de acumulação de capital pelo empregado, uma esperança introjetada por este a partir da publicidade capitalista, controlada exatamente pelos proprietários dos meios de produção. As conquistas que a classe trabalhadora tem alcançado nas últimas décadas nada mais são do que a reacomodação de valores monetários com vistas ao consumo – mesmo a questão da gradual redução das horas de atividade corresponde também ao uso do tempo de lazer como consumo compulsivo. São conquistas importantes, é claro, mas não são realmente modificadoras, já que não mexem na lógica do modo de produção capitalista, que faz do trabalhador pouco mais do que um instrumento nas mãos das elites econômicas nacionais e internacionais.

Explorado, oprimido, alienado, o trabalhador perde sua condição de sujeito social, pois apenas obedece regras e normas sem jamais ter qualquer poder de decisão. Transforma-se também em mercadoria, alugada pelo patrão para produzir novas mercadorias. Por sua vez, essas mercadorias serão vendidas, em muitos casos, para os próprios trabalhadores, ou seja, estes devolvem ao patrão parte do pagamento que receberam para produzir aquele mesmo bem. Nos outros casos, o salário do trabalhador não será suficiente para comprar a mercadoria que ele mesmo produz.

Se o modo de produção é fundante da sociedade, o Trabalho é fundante do ser. Marx já demonstrava o trabalho como diferenciação fundamental entre o ser social e o ser natural. Ou seja, o trabalho é o que nos torna humanos, seres dispostos a viverem em sociedade e atuarem sobre essa sociedade através de interações recíprocas e culturais. O trabalho, como produção racional, é o que nos desloca da pura ação instintiva, animalesca. Pois ali, na prática do trabalho, transformamos objetos ou conhecimento em outros objetos e outros conhecimentos. E fazemos isso racionalmente, intencionalmente, com um sentido cultural, social, não instintivo ou biológico. O trabalho é o que nos emancipa, é o que nos humaniza. Novamente Marx: “O trabalho liberta o homem”. Sim, mas não em uma sociedade escravocrata. E, como vimos, os resquícios da escravidão ainda perseguem os trabalhadores. Muda-se a superfície, mas a estrutura de exploração continua a mesma.

A estrutura que precisa nascer tem os trabalhadores no centro das decisões e de todas as etapas do Trabalho: organizacionais, manuais e de recompensa sobre o produzido. A desvinculação arbitrária entre trabalhadores e meios de produção é injusta e logicamente inconcebível. Sob que ponto de vista pode ser naturalizada uma prática na qual milhões de pessoas são obrigadas a disponibilizar sua força de trabalho para que algumas poucas lucrem? Sob que ponto de vista pode ser considerado “normal” o domínio de uns homens sobre os outros? É tolerável que, por ter mais pedaços de papel pintado, chamados arbitrariamente de “dinheiro”, uns poucos homens ganhem o direito de explorar uma grande quantidade de homens iguais a eles?

Se o Trabalho é o que deveria separar o ser humano dos demais animais, temos, em sua dinâmica maior, exatamente o oposto disso. Temos a lei do mais forte como única norma. A racionalização da igualdade e da coletividade é substituída pelo selvagem instinto do leão que ataca a presa, sempre de outra raça. No modo de produção capitalista, a exploração do trabalhador pelo patrão representa exatamente o rebaixamento deste a uma raça inferior. As elites não identificam no trabalhador um igual, e a publicidade dá a este a noção de que só se tornará respeitável se consumir mais. E mais: só poderá consumir mais se trabalhar mais. Na verdade, o que ocorre é que, por mais que trabalhe, nunca será respeitado como outro sujeito, pois é construído socialmente como objeto desde sua educação formal até sua rotina de trabalho.

É preciso, então, construir autonomia, emancipação. E nada disso se alcança através de conquistas superficiais. Os trabalhadores, para constituírem verdadeiros sujeitos sociais, não podem estar apartados dos meios de produção. O Trabalho não deve visar lucro pessoal, mas a construção da sociedade. Com os meios sob controle de quem neles trabalha e com a produção destinada à sociedade, cria-se, paulatinamente, uma cultura de solidariedade em todos os setores sociais. O trabalho deixa de constituir um sacrifício necessário ao consumo, e torna-se uma necessidade como afirmação do ser, que se vê participante da sociedade, se vê sujeito, livre e emancipado.

Nesse sentido, grita alto um trecho de artigo escrito em 1965 por Ernesto Guevara, para o semanário Marcha, de Montevidéu, no Uruguai, e dirigido a seu diretor Aníbal Quijano. Escreve Che:

“Para que se desenvolva no primeiro caso (como experiência libertadora), o trabalho deve adquirir uma condição nova; a mercadoria-homem deixa de existir e instala-se um sistema que estabelece uma cota pelo cumprimento do dever social. Os meios de produção pertencem à sociedade e a máquina é apenas a trincheira onde se cumpre o dever. O homem começa a libertar seu pensamento do fato repugnante que pressupunha a necessidade de satisfazer suas necessidades animais por meio do trabalho. Começa a ver-se retratado em sua obra e a compreender sua grandeza humana por meio do objeto criado, do trabalho realizado. Isso já não implica deixar uma parte de seu ser em forma de força de trabalho vendida, que não mais lhe pertence, antes significa uma emanação de si mesmo, um contributo à vida comum em que se reflete: o cumprimento de seu dever social.

“Fazemos todo o possível por dar ao trabalho essa nova categoria de dever social e uni-lo ao desenvolvimento da técnica, por um lado, o que trará condições para maior liberdade, e ao trabalho voluntário, por outro, baseados na apreciação marxista de que o homem alcança realmente sua plena condição humana quando produz sem a compulsão da necessidade física de vender-se como mercadoria”.

Ainda que a mídia corporativa omita, existem experiências bem sucedidas de organização autônoma dos trabalhadores, mesmo considerando-se a enorme barreira que é, para uma indústria estruturada comunitariamente, competir em uma sociedade capitalista. O funcionamento da autogestão das indústrias – e de outras estruturas sociais – seria obviamente muito facilitado se em toda a sociedade tivéssemos aplicada essa outra lógica sobre o Trabalho. É o caso transposto de países que, através de governos de orientação anticapitalista e anti-imperialista, ficam isolados internacionalmente e, assim, têm dificultadas suas tarefas de aprofundamento revolucionário. Porém, ainda com as dificuldades impostas pelo isolamento e pelas agressões externas, fábricas como a Flaskô, no Brasil, e outras espalhadas por Argentina, Uruguai, Paraguai, México e Venezuela, crescem sob a gestão direta dos trabalhadores, que tomam todas as decisões coletivamente. Estas fábricas foram ocupadas pelos operários e passaram a ser geridas por eles. No Brasil, da experiência da Flaskô e de outras que acabaram sucumbindo às pressões do capital, nasceu o Movimento Fábricas Ocupadas, que, segundo reportagem da revista brasileira Caros Amigos, chegou a atuar em 35 fábricas na primeira década dos anos 2000.

O papel dos movimentos sociais e dos sindicatos é determinante na caminhada revolucionária. Essas organizações devem atuar no sentido não de doutrinar os trabalhadores, mas de, através do diálogo e da troca, construir juntos uma consciência de classe como percepção dos interesses comuns que devem ser buscados coletivamente. Deve-se partir da formação da crítica e da ação através de situações desencadeadoras de discussões coletivas. Isolado, o indivíduo tende a tornar-se acomodado, conformado, desesperançoso, mas ao compartilhar experiências, frustrações e contestações, sua atitude torna-se rebelde, e essa rebeldia pode desencadear atitudes revolucionárias. É producente, nesse sentido, a organização em sindicatos e associações que estimulem aprimoramento profissional, mas também pessoal, politizante, cultural.

São inúmeras as dificuldades que se impõe a alterações estruturais na lógica do Trabalho, a começar por uma velha questão: por onde começar a mudança? Em outras palavras: muda-se o Estado para mudar a cultura e as instituições ou muda-se a cultura e as instituições para mudar o Estado? Na verdade, essas mudanças precisam caminhar juntas. O Estado ou constitui-se em aliado ou será barreira possível mas extremamente difícil de ser superada na busca por criar autonomia nos e com os trabalhadores. Ao mesmo tempo, o Estado não será verdadeiramente democrático sem que se modifique estruturalmente o modo de produção dominante. Estado e modo de produção são, portanto, partes inseparáveis de um mesmo problema e de uma mesma solução revolucionária. Caia quem caia primeiro, modo de produção ou Estado (em seus moldes atuais), sem a alteração profunda na lógica do Trabalho e na organização estatal, a revolução não será completa, pois o empoderamento popular estará pela metade.

Reproduzido de Diário Liberdade
15 abr 2011

Leia também “Problemas da construção do socialismo”, por Alberto Anaya Gutiérrez, Alfonso Ríos Vázquez, Arturo López Cándido, José Roa Rosas na página de Rsistir.info (2006) clicando aqui.