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sábado, 4 de outubro de 2014

Criança, Escola e Consumismo Infantil: uma "mãonifestação" pelos direitos da infância


Criança, Escola e Consumismo Infantil: uma "mãonifestação" pelos direitos da infância

Como professores dos Anos Iniciais, nos estabelecimentos públicos ou privados, temos imensa responsabilidade de discutir entre nós - e com as crianças, pais/responsáveis e funcionários nas unidades escolares - sobre o tema nessa relação criança, escola e consumo.  A publicidade e a comunicação mercadológica abusiva direcionada à criança, em especial, é percebida mais ou menos pelos professores desde quando a meninada chega à sala de aula com seu material escolar refletindo a moda consumista do momento. Prestamos atenção nesses fatos em nossas escolas? Como? E, como pensamos, refletimos e agimos em relação a isso?

Cada nova geração escolar é bombardeada pelo mercado e, assim, vemos das mochilas, bolsinhas e pochetes ao lápis de cores, da borracha, réguas, cadernos e aos estojos levando as imagens dos personagens mais queridos "da hora", por exemplo, e do que a indústria da “cultura” e do “entretenimento” fazem por se tornar o assunto preferido a povoar o imaginário infantil.

Adereços, tênis, sapatos e as camisetas por debaixo do uniforme escolar (a que geralmente resistem) nos mostram fulano ou beltrana dos desenhos animados, gibis, heróis dos games, salas de cinema, lojas de fast-food ou das gôndolas ao alcance das mãos das crianças nos supermercados, bem perto do caixa de pagamento. A criançada mais vulnerável à propagandice generalizada praticamente não resiste, e esperneia para que se comprem isso ou aquilo para elas.

Se meninos e meninas pequenas levam seus brinquedos para interagirem em diversos momentos onde isso é possível - com ou sem a mediação do professor -, lá vão junto em algazarra se divertirem com seus carrinhos, bolas, jogos, bonecas e uma quase infinita tralha que saiu das vitrines e prateleiras dos shoppings, ganharam os corredores, salões e áreas destinadas ao entretenimento infantil, para se reproduzirem em brinquedotecas, quadras e cantinhos da sala de aula e do exíguo espaço verde em meio ao cimento e paredes encalacrando os mais nobres ideais da Educação para os filhos e filhas da sociedade onde o conhecimento adquirido na escola tem valor.

Nos poucos 20 minutos de recreio - sempre longe dos olhos da sala dos professores - a meninada consome os biscoitinhos, docinhos e chocolates, salgadinhos, refrigerantes ou suquinhos processados, eventualmente embalados nos mesmos cenários que estimulam produtos que necessariamente não levam consigo os nutrientes sadios que promovam a saúde harmoniosa do corpo.

Os aniversários das crianças celebrados na escola vão na mesma linha, com a sala de aula transformada em salão de festa em torno de quitutes, chapeuzinhos, copinhos, pratinhos e balõezinhos coloridos estourando a cota do bom senso como se fosse alegria pelo coleguinha para quem cantam “parabéns”.

No smartphone e tablet pessoal adquiridos como item atualmente essencial à lista de material escolar, ou no computador das escolas, a hora da “pesquisa” de determinado assunto sempre vai recheada com visitas aos “joguinhos educativos” e infinidade de páginas que promovem mais que diversão e passatempo em meio às tarefas do ensinar-aprender, mas também a ideologia imperante do consumir, consumir e consumir à exaustão os produtos que o mercado para crianças oferece. A senha do wi-fi nas escolas de hoje em dia é segredo guardado a sete chaves pelos síndicos, os que determinam tudo feito diretores zelando pela ordem e bons costumes estabelecidos como regras para o perfeito estudar.

Houve um tempo em que até as cartilhas de alfabetização e os livros didáticos reproduziam toda sorte de preconceitos e ideologias, sem que ninguém questionasse a gigantesca indústria editorial reforçando o estereótipo de uma criança globalizada, e uma infância pasteurizada que nem era preciso chacoalhar para homogeneizar.

E as megaempresas de “produtos” alimentícios e outras corporações de comunicação que tentam se infiltrar nos estabelecimentos de ensino pelas vias do “jornal na escola”, pelas revistas que são impressas como coluna social do meio escolar? E, quando fazem alarde pelas quadras de esporte e campeonatos, patrocinando jogos com suas marcas e logotipos reluzentes como grife comercial que agrega valor aos uniformes ou alambrados?

Acrescente-se a isso os apelos comerciais disseminados entre a programação adulta e à pequeníssima programação infantil na televisão aberta, diferentemente do que se passa nos canais privados, na TV a cabo ou por satélite, invariavelmente descontroladas e supostamente autorreguladas por um conselho que se faz parecer governamental, quando não passa de uma agremiação formada por proprietários e representantes das corporações de olho no mercado infantil, este vulnerável e desamparado pelos pais e professores super atarefados e com seus próprios problemas de adultos a resolver.

Tudo isso parece ser visto, ouvido e falado - ou não - no diminutivo. Essas cenas são coisinhas pequenininhas diante da inadiável tarefa professoral de “ministrar o conteúdo”, enquanto nos subsídios contidos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) os temas exigidos como adequados às diversas faixas etárias, não tocam no assunto nem para a Educação Infantil, tampouco para os primeiros ciclos nos Anos Iniciais (1º. ao 5º. Ano) do Ensino Fundamental. O tema está relacionado como “trabalho e consumo” para crianças e jovens apenas no 3º. e 4º. Ciclos do Ensino Fundamental, ou seja, do 6º. ao 9º. Anos em nossa sociedade.

O texto do PCN, na introdução do caderno de “Temas Transversais” (Pág. 20), esclarece o professor no caminho dessa tarefa para discussão - no âmbito da escola - da questão dos direitos humanos em nossa sociedade:

A democracia pode ser entendida em um sentido restrito como um regime político. Nessa concepção restrita, a noção de cidadania tem um significado preciso: é entendida como abrangendo exclusivamente os direitos civis (liberdade de ir e vir, de pensamento e expressão, direito à integridade física, liberdade de associação) e os direitos políticos (eleger e ser eleito), sendo que seu exercício se expressa no ato de votar.

Entendida em sentido mais amplo, a democracia é uma forma de sociabilidade que penetra em todos os espaços sociais. Nessa concepção, a noção de cidadania ganha novas dimensões.

A conquista de significativos direitos sociais nas relações de trabalho, previdência social, saúde, educação e moradia, amplia a concepção restrita de cidadania. Os movimentos sociais revelam as tensões que expressam a desigualdade social e a luta pela crescente equidade na participação ou ampliação dos direitos, assim como da relação entre os direitos individuais e os coletivos e da relação entre os direitos civis, políticos, sociais e econômicos com os Direitos Humanos.

A sociedade brasileira carrega uma marca autoritária: já foi uma sociedade escravocrata, além de ter uma larga tradição de relações políticas paternalistas e clientelistas, com longos períodos de governos não democráticos. Até hoje é uma sociedade marcada por relações sociais hierarquizadas e por privilégios que reproduzem um altíssimo nível de desigualdade, injustiça e exclusão social. Na medida em que boa parte da população brasileira não tem acesso a condições de vida digna, encontra-se excluída da plena participação nas decisões que determinam os rumos da vida social (suas regras, seus benefícios e suas prioridades). É nesse sentido que se fala de ausência de cidadania, cidadania excludente ou regulada, caracterizando a discussão sobre a cidadania no Brasil.

Novos atores, novos direitos, novas mediações e novas instituições redefinem o espaço das práticas cidadãs, propondo o desafio da superação da marcante desigualdade social e econômica da sociedade brasileira, com sua consequência de exclusão de grande parte da população na participação dos direitos e deveres. Trata-se de uma noção de cidadania ativa, que tem como ponto de partida a compreensão do cidadão como portador de direitos e deveres, além de considerá-lo criador de direitos, condições que lhe possibilita participar da gestão pública.

Compreendendo o exposto acima no PCN, o debate em torno dessa relação “Criança, Escola e Consumismo Infantil” deve necessariamente passar não só pelo tema como conteúdo curricular para ensino às crianças e jovens, ou nas diversas instâncias e momentos da formação dos professores e qualificação para a gestão educacional.  A preocupação e ocupação com o “tema”, e tudo o que ele envolve, deve transpassar todas as relações refletidas ou experienciadas nos estabelecimentos de ensino, para não só “discutir” cidadania, mas para “vivenciar” essa condição cidadã em todos os momentos da vida na comunidade escolar, de maneira crítica, participativa e criativa, não apenas na reprodução daqueles relações autoritárias, mas na superação dessas e re-criação de um outro mundo, de uma outra escola, de uma outra infância.

Aquelas cenas de des-respeito e des-proteção aos direitos das crianças face às relações impostas pelo mercado criando necessidades abusivas de consumo, percebidas mais ou menos no cotidiano das escolas, muitas vezes parece que é levada como coisinha de criancinha, como se não fosse gigantesco o problemão visível à frente de professores, pais e gestores educacionais sobre aquilo que afeta, des-afeta e re-nega os direitos inalienáveis das crianças. Direitos que devemos como “prioridade absoluta” defender, como registrado no artigo 227 da Constituição Federal do Brasil de 1988.

Se a propaganda e publicidade direcionada ao adulto nesse mundo eletrizante em que vivemos já nos aliena de nossa humanidade, que dizer daquelas ações mercadológicas tão “bonitinhas” e recheadas do que chamam apropriado para retratar a “inocência infantil”, tão bem preparadas e tão bem pensadas por profissionais e empresários para alienar as crianças de suas meninices na vida, e de sua infância na escola?

À medida em que a Educação se faz como mercadoria, a criança quase sempre parece ser percebida como nicho de um mercado em expansão que vai gerando lucros fabulosos que não são revertidos nem à meninada, nem às escolas, nem à Educação, exceto para o viver bem dos comandantes do mundo do mercado financeiro. Nesse contexto infeliz da educação mercantilizada, aos professores parece caber um papel de formadores de consumidores exigentes e aptos a quererem isso e aquilo, custe o que custar.

Decerto que profissionais da Educação mais conscientes de seus deveres existem nas escolas, assim como nas redes municipais de ensino públicas e privadas, tentando sensibilizar colegas, diretores, professores, pais/responsáveis e funcionários, bem como as crianças, para uma vida baseada em outras relações e outros valores, mais humanizadores e no sentido de vivenciar na reflexão e na prática o que de modo geral é letra morta e caduca nos documentos e legislação nacional e internacional, ou nos projetos político-pedagógicos continuamente objeto de renovação, de lembrança ou esquecimento nas escolas, dependendo das conveniências e poderes em jogo.

Assim, nesse contexto de descaso e resistência, os direitos humanos das crianças, em especial, podem ser encarados como campo de luta em meio a uma guerra declarada do mercado para impor uma lógica e uma ordem desumanizadora, onde quem se refastela com bugigangas são as crianças consumidoras, e quem obtém lucro e vantagens - inclusive das possíveis mesadas da meninada - são os empresários e dirigentes do mercado nacional e internacional.

Mas as crianças são os cidadãos e cidadãs do futuro, e por isso estão na escola, para receber por transmissão, de quem sabe mais para quem sabe menos, o conhecimento historicamente produzido pela humanidade! As crianças são a esperança para o nosso mundo futuro! As mídias hegemônicas não propalam essa verdade a toda hora, e ela não é repetida como ladainha bem decorada,  exaustivamente, ao longo de todo o ano letivo com sua carga horária descomunal, exigida que se cumpra para o bem dos alunos?

As crianças não são os cidadãos do futuro, quando muitas vezes parece que esse chega em meio ao desalento e sentimento de impotência frente aos bombardeios do império do lucro a qualquer custo, ao custo da morte e do des-aparecimento da infância, seja nos lares, nas escolas e na sociedade.

As crianças são cidadãs de direito, no aqui e no agora, de nossas relações pessoais e profissionais, de amor ou des-amor, de cuidados ou des-cuido, de maternidade, paternidade e, de professorabilidade, mesmo quando queremos crer que não é papel dos professores fazer as vezes de mãe e pai para a criança-aluna ali à nossa frente, sentada ou correndo pela escola.

Direitos humanos e das crianças devem ser vividos, ensinados e aprendidos na escola, com certeza. E, é por isso que se erigiram sistemas educacionais ao longo da história moderna e contemporânea, quando na atualidade temos como professores o inadiável dever de re-ver, re-ouvir e re-falar dos problemas e possibilidades a enfrentar no campo educacional re-vira-voltado pelas novas demandas sociais que reclamam democratização, participação, cidadania, plenitude dos direitos, bem viver para todos em um mundo construído por outros valores em que nos manifestemos como seres amorosos, responsáveis pela alegria geral.

A escola, hoje, agora, é o espaço/tempo para a des-coberta desse outro mundo re-humanizado, e como irmãos, mães e pais, funcionários e amigos das crianças, parece a nós que cabe ao professor uma responsabilidade imensa para debater e ajudar as crianças a serem mais felizes sem as perversidades da publicidade e a comunicação mercadológica direcionada à meninada. Se não for assim, estaremos sendo mais que irresponsáveis, mas coniventes ou muito mais perversos num passado que reproduzimos, e num futuro que projetamos infeliz e avesso aos sonhos de bem viver no mundo das crianças.

A mediação crítica e des-conformadora de antigas tradições antes inquestionáveis, efetivada pelo professor na sua relação com os alunos, multiplicará a alegria para resultar em possibilidades inimagináveis de des-cobrirmos, numa Educação libertadora das carcomidas opressões, outros destinos de felicidade para todos.

O “dia das crianças”, como convencionado no calendário anual brasileiro - re-invenção com finalidades puramente mercantis -, é celebrado nas escolas como um momento de desafogo em meio às obrigações cotidianas da vida de estudos de cada menino e menina. É com muita falta de graça que chegamos a constatar que em apenas um dia, ou semana dedicada às brincadeiras típicas da infância, conseguimos deturpar todo o sentido de um ano inteiro que poderia ser de alegria e criatividade do trabalho docente prazeroso, pautado no bom senso e consenso para a libertação da infância à plenitude de seus direitos dentro das escolas.

Não nos esqueçamos de celebrar, também, nos princípios da “Declaração Universal dos Direitos das Crianças” (20/11/1959) e nos artigos da “Convenção sobre os Direitos das Crianças” (20/11/1989) - promulgada e assinada pelo Brasil - que nossos sábios antepassados lutaram incansavelmente para colocar no devido lugar “a importância das tradições e dos valores culturais de cada povo para a proteção e o desenvolvimento harmonioso da criança”.

Professores, é preciso abrir os olhos, os ouvidos e as bocas para proclamar, defender e viver os direitos das crianças nas escolas! Um espaço/tempo de grandes des-cobertas se instala definitivamente nessa era atual em que muito mais cidadãos, sujeitos e seres amorosos participam de um outro projeto de mundo possível onde todos também aprendem o que só as crianças podem ensinar: a querer o bem em se expressando por uma ética dos direitos humanos acima de interesses mesquinhos, egoístas, fúteis, perversos, enfim, a des-cobrir o mundo com alegre curiosidade e boa-vontade, sem maldade.

Poderíamos nos transformar, assim, em crianças, além de tudo o que devemos e queremos para a infância nas escolas?

“Crianças do mundo inteiro, uni-vos”, e “mãonifestem-se” pelos quatro cantos desse Planetinha Azul, declarem seu amor pelos seus direitos, por um mundo e uma escola que lhes respeitem e protejam os seus direitos contra a publicidade e comunicação mercadológica abusiva, expressadas na recente Resolução 163 do CONANDA, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Que possamos nos unir e re-unir, brincar e re-brincar pela infância com simplicidades, as mais profundas e as mais altas alegrias!

Não exilemos a infância das escolas - Ó pátria amada! - Pois nossa infância na escola tem mais vida e, nossa vida com direitos tem mais amores... [1]

Avante e em frente, criançada!

Revoguem-se as disposições e in-disposições ao contrário desses direitos, e dos sonhos dos meninos e das meninas do Brasil e do mundo a celebrarem que todos os dias são seus.

Leo Nogueira Paqonawta

Professor e Catador de Histórias
Primavera de 2014


[1] Referência a versos da “Canção do exílio” de Gonçalves Dias, escrito em 1843, e os versos que passaram a fazer parte do Hino Nacional Brasileiro, composto por Joaquim Osório Duque Estrada (letra de 1909) e Francisco Manuel da Silva (música de 1822).


Conheça a Resolução 163/2014 do CONANDA, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente:

Resolução CONANDA Nº 163 DE 13/03/2014

Publicado no DO em 4 abr 2014

Dispõe sobre a abusividade do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança e ao adolescente.

O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - CONANDA, no uso de suas atribuições estabelecidas na Lei nº 8.242, de 12 de outubro de 1991 e no Decreto nº 5.089, de 20 de maio de 2004 e no seu Regimento Interno,

Considerando o estabelecido no art. 227 da Constituição Federal;

Considerando o disposto nos arts. 2º, 3º, 4º e 86 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990;

Considerando o disposto no § 2º do art. 37, da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990;

Considerando o Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, especialmente o objetivo estratégico 3.8 - "Aperfeiçoar instrumentos de proteção e defesa de crianças e adolescentes para enfrentamento das ameaças ou violações de direitos facilitadas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação",

Resolve:

Art. 1º Esta Resolução dispõe sobre a abusividade do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança e ao adolescente, em conformidade com a política nacional de atendimento da criança e do adolescente prevista nos arts. 86 e 87, incisos I, III, V, da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.

§ 1º Por 'comunicação mercadológica' entende-se toda e qualquer atividade de comunicação comercial, inclusive publicidade, para a divulgação de produtos, serviços, marcas e empresas independentemente do suporte, da mídia ou do meio utilizado.

§ 2º A comunicação mercadológica abrange, dentre outras ferramentas, anúncios impressos, comerciais televisivos, spots de rádio, banners e páginas na internet, embalagens, promoções, merchandising, ações por meio de shows e apresentações e disposição dos produtos nos pontos de vendas.

Art. 2º Considera-se abusiva, em razão da política nacional de atendimento da criança e do adolescente, a prática do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço e utilizando-se, dentre outros, dos seguintes aspectos:

I - linguagem infantil, efeitos especiais e excesso de cores;
II - trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de criança;
III - representação de criança;
IV - pessoas ou celebridades com apelo ao público infantil;
V - personagens ou apresentadores infantis;
VI - desenho animado ou de animação;
VII - bonecos ou similares;
VIII - promoção com distribuição de prêmios ou de brindes colecionáveis ou com apelos ao público infantil; e
IX - promoção com competições ou jogos com apelo ao público infantil.

§ 1º O disposto no caput se aplica à publicidade e à comunicação mercadológica realizada, dentre outros meios e lugares, em eventos, espaços públicos, páginas de internet, canais televisivos, em qualquer horário, por meio de qualquer suporte ou mídia, seja de produtos ou serviços relacionados à infância ou relacionados ao público adolescente e adulto.

§ 2º Considera-se abusiva a publicidade e comunicação mercadológica no interior de creches e das instituições escolares da educação infantil e fundamental, inclusive em seus uniformes escolares ou materiais didáticos.

§ 3º As disposições neste artigo não se aplicam às campanhas de utilidade pública que não configurem estratégia publicitária referente a informações sobre boa alimentação, segurança, educação, saúde, entre outros itens relativos ao melhor desenvolvimento da criança no meio social.

Art. 3º São princípios gerais a serem aplicados à publicidade e à comunicação mercadológica dirigida ao adolescente, além daqueles previstos na Constituição Federal, na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, Estatuto da Criança e do Adolescente, e na Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, Código de Defesa do Consumidor, os seguintes:

I - respeito à dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais;
II - atenção e cuidado especial às características psicológicas do adolescente e sua condição de pessoa em desenvolvimento;
III - não permitir que a influência do anúncio leve o adolescente a constranger seus responsáveis ou a conduzi-los a uma posição socialmente inferior;
IV - não favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou discriminação de gênero, orientação sexual e identidade de gênero, racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade;
V - não induzir, mesmo implicitamente, sentimento de inferioridade no adolescente, caso este não consuma determinado produto ou serviço;
VI - não induzir, favorecer, enaltecer ou estimular de qualquer forma atividades ilegais.
VII - não induzir, de forma alguma, a qualquer espécie de violência;
VIII - a qualquer forma de degradação do meio ambiente; e
IX - primar por uma apresentação verdadeira do produto ou serviço oferecido, esclarecendo sobre suas características e funcionamento, considerando especialmente as características peculiares do público-alvo a que se destina;

Art. 4º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

MIRIAM MARIA JOSÉ DOS SANTOS
p/Conselho

quinta-feira, 27 de junho de 2013

"É Tua revelação que deslumbra os ofuscados olhos"...


Prosseguindo O Caminho

Célia Laborne Tavares

O místico som de cítara comanda o ritmo interno, talvez o manso ondular do vento, sobre velhas palmeiras, faz aflorar reminiscências de longínquo viver.

No relembrar saudoso, surgiram guirlandas de flores e sinos de templos; as longas vestes de caminhantes, cujos pés, conheceram vales e montanhas, lagos e grutas consagradas, no seu buscar incessante.

No anoitecer, figuras chegaram e imobilizarem-se junto ao rio sagrado, como antenas eretas a pesquisar o céu. Por vezes, ecoaram sons de místicas palavras...

Tudo parecia acordar velhas e perdidas memórias de tempos raros.


No leve acordar impunha-se a necessidade muito urgente, de refazer histórias para dar continuidade ao longo caminho de eras bem remotas. Crescia o dever de entrelaçar etapas, num fluir e refluir da consciência que desperta e se apaga, sucessivamente, até que a luz se imponha definitivamente.

O Portal do passado já não sabe como reter seus mistérios, como esconder o germe da primeira claridade latente. – Que desça a paz sobre os tropeços do caminho, que chegue logo o acordar definitivo, para surpreender as fantasias e simbolismos que compuseram o degrau primário; que a palavra encontre sua correta função. Que possa gotejar, sobre tudo e sobre todos, o crescente irradiar da verdade e da luz que se esforça, agora, para ampliar-se sobre o mundo.

As Verdades grandes como a própria vida, são simples, como a mente do mais simples dos homens. Por isso, às vezes se indagam; - de que reminiscência vem este reconhecimento místico? – De onde crescem as belezas vindas da Luz e do mais profundo e pessoal sentir? São planos que se ligam para se comunicarem; é o humano desmaterializando-se. É como um revoar de asas brancas sobre resplandescente lótus, um cristalizar de pérolas sobre profundas águas. É Tua revelação que deslumbra os ofuscados olhos quando, de outras esferas comandas o transmutar do espírito.

- De que energia cósmica se reveste o Ser, à simples reminiscência dessa elevadíssima vibração?

Recebido via e-mail da autora. Conheça seu Blog "Vida em Plenitude", clicando aqui.

domingo, 12 de agosto de 2012

Aprendizado...


Aprendizado

Célia Laborne

Aceita em paz, e de coração alegre, a companhia que te fazem, tanto aquelas que são maiores do que tu e sabem mais, e veem mais longe; como aquelas que sendo menores e mais limitadas, por isso se julgam os mais perfeitos e aptos a te ensinarem.

Recebe a todos de coração aberto, pois a cada instante pode brotar de qualquer lábio o pedaço da Verdade que te faltava ou que buscavas no mundo. No burburinho do tagarelar alheio pode vir uma mensagem para ti, ou podes deixar ali tua mensagem.

A Vida usa teus amigos, teus irmãos e até aqueles com os quais não te sintonizas, para te falar e te ensinar. Aprende, pois, a ouvir.

Ouve sempre com paciência, sem agressividade, sem ondas mentais de espanto ou luta e competição. Deixa que as palavras cheguem e partam, retirando delas, apenas o que te caiu no coração, não no intelecto. Ouve sem recriminar, sem disputar, sem competir ou impor teu pensamento. Tens o teu sinal interior e nada pode te abalar.

Ama igualmente a compreensão e a incompreensão dos companheiros, são apenas passos mais leves ou mais lentos que escutas ao teu lado. Faz sair de tua boca só aquilo que embeleza ou engrandece o mundo, o que alegra o irmão, o que expressa corretamente a percepção mais clara da Verdade e deixa que a Vida faça o resto por ti.

Ficarás surpreso com o esplendor que nascerá em teu caminho, quando tu o fizeres limpo, puro, ético e luminoso.

Usa sempre a beleza de cada momento em favor de alguém. A palavra que conforta, o pensamento que eleva, o gesto que perdoa. Entrega a todos o botão entreaberto que se vai revelar seu perfume.

Não é preciso, nem deve haver um programa para melhorar tua vida; vá espalhando a paz e o carinho conforme a necessidade que encontrares. Não é necessário ser uma enciclopédia ou professor graduado, não é preciso rótulos ou definições. Sê apenas a flor que precede o fruto, a semente que contem a árvore, a água que refresca e passa.

Se não te é dado brilhar como o sol, sê um raio da luz, se não é tua a sintonia universal, só a nota da harmonia, a vibração do amor te são necessários.

Não deixa passar em vão o tempo da beleza, o momento da entrega, a hora da comunhão.

(...)

Recebido da autora via e-mail.  Conheça seu Blog “Vida em Plenitude” clicando aqui.   

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

"Um grito de liberdade, de alegria pura, de esplendor"...


O ônibus das cinco e quinze

Elaine Tavares

Chegar em casa é sempre uma viagem. Cada dia diferente, embora o caminho seja o mesmo. Mas é que dentro do ônibus seguidamente acontecem coisas espantosas, visto que os seres humanos são sempre surpreendentes. O trajeto até o Rio Tavares é de puro assombramento. Primeiro com a paisagem. O mar, os montes descortinando o horizonte, os casebres de pescadores, o absurdo do aterro, as gentes, os motociclistas e suas ousadas manobras, os carros em profusão. Quando é final de tarde então, é de enlouquecer. O céu fica de um rosado/dourado, uma coisa única, e a vontade que se tem é de gritar, tamanha a força da beleza.

Depois, no terminal desintegrado, a espera. Meia hora, quarenta minutos, aquela coisa dolorosa de se estar aprisionada num lugar, tão perto de casa. Hora de pensar no quão surreal pode ser uma obra pública, se não tiver um mínimo de humanidade. Quem planejou o transporte, nunca o usou. Não sabe do horror e da exasperação que aquilo tudo pode acometer num vivente.

Então, num dia qualquer, vindo mais cedo para casa, por conta da sorte (essa danada), a gente pega o ônibus das cinco e quinze. É o que sai do Tirio rumo ao Jardim Castanheira, via Eucalipto. Ele segue pela Pequeno Príncipe, tranqüilo e sereno, passando pelas casas sem muro, cheias de ameixas, romãs e limões. Então, lá no final, quase perto da praia chega a parada que fica em frente à Escola Brigadeiro Eduardo Gomes. É quando tudo começa.

Ali, o ônibus fica parado por uns quinze minutos. É hora de entrar toda a profusão de meninos e meninas, libertos do colégio. Dois deles tem deficiência e sobem com as cadeiras de rodas, felizes por partilharem aquela fartura de vozes. O restante parece formar um poderoso furacão. Eles vão passando a catraca, revestidos de uma atmosfera de gritos e risadas. Todos falam muito alto e ninguém consegue entender o que de fato dizem. Desconfio que não digam nada, é só uma algaravia juvenil, atordoante e insana. Um grito de liberdade, de alegria pura, de esplendor.

Alguns deles se dependuram nos ferros que servem para o povo se segurar e sacodem feito macaquinhos felizes. O cobrador, que já os conhece pelo nome, um a um, vai vociferando. “André, sai do buraco da porta”, “Marquinho, não pula no banco”, “Sossega Fabiano”. E aquilo tudo vai se transformando numa balbúrdia digna de Babel. Ninguém ouve ninguém. Os passageiros que nunca pegaram aquele ônibus ficam com os olhos arregalados, sem fôlego, incomodados. Clamam por Herodes e o abençoariam se ali aparecesse para dar um fim naquela confusão.

Mas, quem já se acostumou a pegar o Castanheira das cinco e quinze não consegue disfarçar a incontrolável alegria que vai invadindo a alma. Aquela gritaria toda vai atordoando, atordoando, até o ponto de a pessoa também começar a gritar. Quando o ônibus passa em um quebra-mola então, os decibéis vão ao volume máximo. É a catarse. Êxtase total.

Então, quando o ônibus passa da parada do Raio de Sol., os grupos de pequenos vão saindo em profusão e, pouco a pouco, o barulho arrefece. Os gritos vão amainando e se perdem nos caminhos de areia do Campeche por onde vão sumindo as crianças e suas enormes mochilas de aula.

Na parada do Centro Comercial Castanheira eu desço junto com uma parte desta turba. E com ela ainda vou um bom trecho do caminho, partilhando da gritaria. Meus 47 anos desaparecem e consigo ver a menininha que fui, vestida de vermelho, a bailar, pulando as poças de água que se formam no caminho. Minha alma dança e penso que todo o ser humano deveria ter um ônibus das cinco e quinze na vida. Porque iria perceber que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é se embriagar de meninice. Gritar feito louco, pular pelas ruas, sorrir por nada. Ah, esse meu Campeche e esses anjos que me ensinam a des-crescer!

Reproduzido de Palavras Insurgentes
03 mar 2008

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Liberdade: comum-única-ação entre os povos insurgentes de Abya Yala


Liberdade: comum-única-ação entre os povos insurgentes de Abya Yala

Leo Nogueira Paqonawta*

“Eu sou da América do Sul,
Eu sei, vocês não vão saber,
Mas agora sou cowboy,
Sou do ouro, eu sou vocês

Sou do mundo, sou Minas Gerais”
Fernando Brant, Márcio e Lô Borges

A “Cumbre Continental de Comunicação Indígena de Abya Yala” (2010) declarou que 2012 é o “Año Internacional de la Comunicación Indígena” e, desde então os povos indígenas estão promovendo intensos debates pelo mundo e, em especial em Abya Yala[1] (Amérikas), resgatando o sabedoria ancestral no fazer proposições justíssimas pelo Bem Viver. É o caminho contrário dessa estrada desumanizante engendrada pelo capitalismo e sua tropa de elite a destruir a tudo e a todos.

Os povos andinos, e os que habitam ao longo da coluna vertebral das Amérikas, seguem numa luta acirrada contra a opressão e os oligopólios, reivindicando as terras para o usufruto dos descendentes daqueles povos originários, e para uma sociedade de justiça entre todos. Suas organizações indígenas unem os povos para criar suas universidades interculturais que, sem desprezar um conhecimento verdadeiramente legítimo do “mundo ocidental” desenvolvido por homens e mulheres de boa vontade ao longo dos séculos, trazem à luz uma sabedoria edificada por milênios no respeito à natureza e às relações do ser humano com o Cosmos. Eles vivem, lutam e morrem por esses ideais desde há séculos.

Isso tudo no Brasil é tão desconhecido quanto se sabe tudo na vassalagem aos “darlings” americanos e europeus nas ciências sociais. O nível de colonização do pensamento aqui é tal que, os nativos tupiniquins brasileiros são todos cor de rosa e vivem naquele mundo da “Barbie”, rezam pela cartilha do consumismo fácil e até incentivado pelo governos, desprezam tudo a que possa cheirar ao “cecê” das classes subalternas que usavam o elevador de serviço e, agora pagam religiosamente os carnês da Casa Bahia, as prestações do carro O km e do imóvel comprado nos feirões da Caixa, a conta do “smartphone” plugado na Internet e suas delícias. Tudo seria sempre lindo nesse país tropical, não fossem os irritantes “blogueiros sujos” e educadores/comunicadores de esquerda, por exemplo, a sacudir as redes sociais ampliando as denúncias de corrupção, peculato e porcariada do “PIG”[2].

Nos meios de comunicação são os colonistas que des-informam de tudo para manter o povo longe de qualquer possibilidade de contato com esses conhecimentos, e o professorado dos altos escalões determina as políticas educacionais a completar a tragédia. A economia manda, a política obedece, as escolas e universidades se empenham no controle e estupidificação dos “recursos humanos” sendo preparados cegamente para o “mercado de trabalho”. E, finalmente, as mídias concentradas nas mãos de poucas famílias das elites entopem as telas de TV, tablets, computadores, outdoors e o que seja com entretenimento, fofoquinha de novela, programas de auditório para macacas amestradas e outros tantos com as tais periguetes e bombadões desnudos. Nem as crianças escapam da manipulação desse polvo midiático, vez que têm sua vez de serem “vidiotizadas” exatamente pelos idiotas de plantão disseminando o pensamento eurocêntrico e consumista nos programas infantis.

Os campos educacional e comunicacional se completam nessa tarefa de “vidiotizar”, de “globobocalizar” e alienar os cidadãos de seus direitos, inclusive e pior ainda, de colocar sombras e escuridões ocultando o mínimo esperado de uma educação e comunicação de qualidade. Não seria por outra razão que, na educação, absolutamente todo o trabalho do professor é determinado por mil leis e detalhes do saber/fazer pedagógico, que controla desde cima até em baixo tudo numa estrutura panótica assustadoramente opressiva, que tolhe a autonomia do docente e lhe cassa a dignidade profissional. A palavra é colonizada, sim, e os verbos a reger a ação do professor são: eles mandam, nós obedecemos.

Já com o setor, e os meios de comunicação, tudo é completamente desregulado. Não há tratado ou convenção internacional que garanta os direitos humanos e, tampouco a Constituição Federal é respeitada nos mixurucas cinco artigos que tratam da matéria.

Obviamente que isso é intencional da parte daqueles que herdaram, por mil meios e falcatruas, o controle dos meios de produção do saber/fazer, da primazia na determinação das políticas de educação e comunicação nesses 500 anos de dominação e (de)formação desse gigante adormecido chamado Brasil. Vai aí o catecismo liberal ditando as regras do mercado, reinventando-se desde o Brasil colonial, imperial e republicano.

“Ordem por base e progresso por finalidade”, e “Libertas quase será tamen”[3] vai o bezerrinho de ouro sendo mamado pelos poderosos e alimentado pela turba que frequenta escola, assiste TV e consome conteúdos “da hora” na curtição disso e daquilo na rede social da moda. Foi sob a proteção de Deus que também promulgaram a Constituição “dos Estados Unidos do Brasil”, essa que defendeu como ministro anos à fio aquele colonizadíssimo privatista tucano da história da bolinha de durex, factoide  que as mídias mostraram exaustivamente como objeto mais pesado que o ar, e contundente. Quantos quiseram que esse objeto voador não identificado fosse verdadeiramente um tijolo...

Liberdade no Brasil, e vale para as Amérikas, disse a poetisa Cecília Meireles, “essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”[4], nos tempos de hoje é a luta não só dos sinceros Inconfidentes ou Libertadores contemporâneos, mas também de milhares e milhões de homens, mulheres e crianças do grande gontinente Abya Yala que já vão sentindo a indignação subir até o pescoço ante ao completo desprezo pelos cidadãos demonstrado pelos poderes empodrecidos, esses constituídos ao longo de séculos de exploração da boa fé da população sacrificada.

O sangue de outros milhões de assassinados por tiranos e empresas multinacionais moderníssimas que exaurem os recursos da Mãe Terra, e escravizam os trabalhadores e povos, clama por uma re-vira-volta sem precedentes na história do mundo. Subindo pelos Andes, indo até as beiradas de gelo no círculo polar Ártico, perpassa uma energia jamais vista que sobe da terra e chega às mãos, aos corações e às mentes libertadas da velha nova escravidão que se unem num grito de “basta!” de todos aqueles em “comum-única-ação” pelo Bem Viver.

Na educação e na comunicação essa luta dos indígenas também é travada por eles nos tribunais, nas cortes de justiça, nas casas legislativas, quando poucos são aqueles que no poder executivo se atreveram a tomar para si essa tarefa de expressar a vontade vinda de seu povo. Desde as escolas e universidades interculturais ou indígenas um movimento intenso reúne os que se reconhecem cosmocidadãos em torno do conhecimento e da sabedoria ancestral, a se expressar num poder e amor profundamente implicados na prática escolar, e na mídia alternativa, que impressionam pela beleza e lógica irrefutáveis.

Mas, são nas “cumbres” e diversos encontros regionais, em uníssono, que essas batalhas são visivelmente mais belas, autênticas e fortes, sem a presença e o ranço dos políticos colonialistas que se eternizaram no poder quase que indefinidamente.

Vejamos, por exemplo, recentes documentos e textos que traduzem essa sentida, pensada e vivida “Luz” da Sabedoria que muitos de nós almejamos ter em nossos mais profundos sonhos - a relação entre o micro e o macro cosmo que os povos indígenas “rexistiram”, resistiram para existir no Bem Viver com o custo de suas vidas - e que, timidamente, a Ciência vem comprovando pelas leis da Física Quântica. Do mundo sub-atômico aos cordões formados por galáxias tudo pulsa e vibra “Luz” e, no “Reino Humano”, esses fótons se dão a “casar” com os filamentos de DNA impregnando todo o ser resplendentemente.    Algo que os povos ancestrais bem sabiam: nós somos Luz re-verberando nessas ondas cósmicas, celestes, estrelares, ecos indo e vindo da grande explosão do Fiat Lux.

São exemplos os textos “Ejercer la palabra y la acción es el camino para Defender la Madre Tierra”, do III Congresso da CAOI (Coordinadora Andina de las Organizaciones Indígenas) realizado de 15 a 17 de julho em Bogotá/Colômbia; a “Declaração de Kari-Oca” a partir da Rio+20; a “Declaración de la Conferencia Internacional de Pueblos Indígenas sobre Desarrollo Sostenible y Libre Determinación”; as “Declaraciones del Foro Permanente para las Cuestiones Indigenas de la ONU” no 11º. Período de Sessões; a “Declaración de la IV Cumbre de Líderes Indígenas de las Américas . “Tejiendo Alianzas por la Defensa de la Madre Tierra”, em Cartagena de Indias/Colômbia, ambas de 2012, e essa impressionante de alguns anos atrás, a proposta dos “Derechos Cósmicos de los Pueblos Indígenas”, dentre tantos outras cartas não menos importantes.

Os povos indígenas das Amérikas têm levado muito à sério, muito mesmo, as questões da autodeterminação dos povos, da educação e da comunicação, da sua participação  nos meios onde se decidem as políticas educacionais e comunicacionais. E, no Brasil ressalta-se a ação apaixonada de Marcos Terena, incansável na frente e no compromisso “pelo futuro que queremos“ para o Bem Viver. São muitos os compatriotas que lutam como ele nessa guerra travada com as mídias tradicionais e hegemônicas, seja coletivamente pela Frentecom, FNDC, Intervozes e o Centro de Estudos Barão de Itararé dentre outros comunicadores e educadores.

“Eu sei, vocês não vão saber”[5]... Grande parte da sociedade brasileira desconhece tudo isso, mesmo porque o projeto civilizatório aqui na Terra Brasilis delineou-se de modo a excluir o povo de maneira exemplar, tanto pela escola como pelas mídias, do que fosse o mínimo de consciência cidadã. Os que ousaram atravessar os caminhos dos poderes estabelecidos pagaram tal afronta com a tortura, o desaparecimento e com a própria vida, muitas vezes sem deixar rastros.

Uns dizem que o Brasil não é América Latina, que deu às costas para a latino-americanidade, talvez porque o país tenha sido tão fortemente mantido como quintal de metrópoles diferentes no decorrer do tempo que, por isso, a identificação com os patrões do Velho e do Novo Mundo seja algo a ser estudado como o que se verifica na Síndrome de Estocolmo: a vítima e o vitimizador do sequestro da dignidade interagem emocional e psicologicamente, têm afeto e apreço um pelo outro. Que seja também uma relação de comensalismo onde um tira vantagem do outro, vampirismo recíproco.

O certo é que, numa similaridade com o “Efeito Borboleta”, a “Síndrome de Liberdade” é aquela que se sabe estar acontecendo, quando há um ecoar pelo grande continente “Amerikano”, e pelo mundo inteiro, daquele grito de re-vira-volta que agora toma as consciências, e ocupa as ruas e praças, e incomoda, e corrói as bases desse sistema falido de coisas. Há indignação e paixão, há muita luz sobre as coisas e muito amor no ar, que mesmo os inconscientes de sua humanidade aviltada sentem subir pelos pés e descer pela cabeça.

O ponto de confluência dessa força espetacular sobe das entranhas da Terra até se fazer mais forte no “Umbigo do Mundo” e, explodirá em “comum-única-ação” para o Bem Viver quando os corações já não aguentarem mais represar tanta energia e indignação. Aqueles que passaram pelo “Caminho dos Justos”, onde a Sabedoria Ancestral fez morada e pouso, escola e hospital para tantos cansados das estradas poeirentas e sangrentas do mundo, sabem disso.

Vai que um menininho de touca de lã colorida na cabeça, pastoreando as lhamas nas alturas das montanhas dos altiplanos andinos, parou um instante nas simplicidades e graça de sua vida, levantou seus olhinhos e braços para o céu, feito uma antena viva, e captou cantou uma canção que fizesse dançar as estrelas, o sol, a lua, a luz. Isso é coisa que só se explica pelo Efeito Abya Yala.

Por minúsculo que seja esse pequeno Planeta Azul no concerto das órbitas desse universo infinito, desde os tempos imemoriais os Povos Antigos reverenciam essa “entidade” Gaia, Pachamama, Terra ou Natureza com o respeito devido ao lar que nos recebeu a todos para que tivéssemos a vida em plenitude, na condição de filhos e filhas feitos do pó das estrelas. Algo que o pensamento colonizador - como que re-negando tudo isso - fez questão de ocultar com todas as suas infelizes e arrogantes forças de explorar, saquear e matar.

A rexistência aos meios de educação e comunicação colonizados se deu com muitos, com milhões. Agora é a hora dos que sofreram e foram espoliados de quase tudo, dos que tiveram roubadas suas terras, de restituir à Terra sua força no ouro e prata surrupiados; é a hora dos mansos que mantiveram suas crenças inabaláveis, dos que choraram sangue, dos nunca e dos ex-dominados, dos perseguidos e esquartejados; é a hora dos que lutaram e morreram pela justiça, dos re-vira-voltosos que rejeitam definitivamente esse Velho Novo Mundo carcomido. É a hora e o dia do hastear a bandeira do arco-íris pelos ares, é a hora de uma indescritível, profunda e simples alegria.

Essa data de encontro amoroso está escrita nas estrelas, como se a Cruz no céu desenhasse exatamente o local da fonte de tesouros infinitos de uma Sabedoria guardada numa Caixa de Jóias a ser, enfim, re-des-coberta...

Nada a temer... adeus “lixo ocidental”[6]. Chegou a hora do levante, da libertação das vozes e da palavra ancestral que tem a doçura e a leveza da brisa da sabedoria de um saber/fazer/poder e amar que a tudo transformará. E, não há ninguém, e nada que se oporá à força desse furacão de bater conjunto de asas de Águia e Condor que vem dos Andes para assoprar a Liberdade voando feito um Colibri Dourado pelos quatro cantos do mundo. 

Liberdade, canção de comum-única-ação entre os povos insurgentes de Abya Yala e, se todo o universo está em movimento harmônico nesse vai e vem da dança das formas, assim, não tão tardiamente, um Outro Mundo se anuncia...



(*) Pedagogo, mestre em Educação e Comunicação buscando o doutoramento pelo “Emíndio, ou da Educação e Comunicação Indígena em Abya Yala”, projeto de pesquisa iniciado em 2012, re-negado pelos grupos de estudos hegemônicos tradicionais, re-produtivistas do pensamento colonizador.


[1] “Abya Yala, significando “Terra madura”, “Terra Viva” ou “Terra em florescimento” hoje vem sendo usado como uma auto-designação dos povos do continente como contraponto a “América”, expressão associada aos conquistadores europeus que “batizaram” as terras “descobertas” como América”.  O nome Abya Yala provém do povo Kuna originário da Serra Nevada no norte da Colômbia e que habitou a região do Golfo de Urabá assim como as montanhas de Darien  e vive atualmente na costa caribenha do Panamá na Comarca de Kuna Yala (San Blas). Muito embora os diferentes povos que habitam o continente atribuíssem nomes próprios às regiões que ocupavam – Tawantinsuyu, Anauhuac, Pindorama – a expressão Abya Yala vem sendo cada vez mais usada pelos povos originários do continente objetivando construir um sentimento de unidade e pertencimento.” Adaptado de Carlos Walter Porto-Gonçalves In “Abya Yala: uma outra visão da América”. Acesso em 12 out 2010, disponível em http://www.grupalfa.com.br/arquivos/Congresso_trabalhosII/palestras/carlosw.pdf

[2] Referência que blogueiros ativistas e progressistas fazem aos donos das mídias e seus veículos de comunicação: Partido da Imprensa Golpista.

[3] Dísticos das bandeiras do Brasil e de Minas Gerais, respectivamente.

[4] Romanceiro da Inconfidência. Coletânea de poemas, 1953, dedicada aos derrotados da Inconfidência Mineira (1789), que depois vieram a ser considerados heróis da independência do Brasil. Dentre ele o Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A bandeira dos inconfidentes foi sugerida por Alvarenga Peixoto, e aprovada por Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, o amado de Marília de Dirceu. O texto do dístico, em latim, foi inspirado na obra “Écloga” de Virgílio (70 a.C./19 a.C.), poeta romano clássico

[5] Trecho da canção “Para Lennon e McCartney“ de Fernando Brant, Márcio e Lô Borges, do Clube da Esquina de Belo Horizonte, Minas Gerais.

[6] Verso da canção “Para Lennon e McCartney”, anteriormente citado.


Leia também o texto que me inspirou a escrever este acima:

"A semana e a comunicação em dois atos", por Maria Luiza de Castro Muniz em Carta Maior (21/07/2012) clicando aqui.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A lembrança do antigo Lar...


Som do Infinito

Célia Laborne Tavares

Sim, essa noite foi de luz, e galáxias translúcidas se  manifestaram. Soou o canto da alvorada e a nota se alongou na busca do infinito acordando o mundo.

Como um clarim distante, houve um chamado, há muito perdido na memória, e formulou a ordem de regresso; cones de luz, espirais de prata, penetraram o sono e sacudiram o Ser.

Não houve dúvida, era o reencontro; o reino da jornada de regresso, a lembrança do antigo Lar. A voz muito melodiosa, entoou o canto, como se conhecesse o tempo propicio da flor entreabrir-se.

Sobre a primeira pétala registrou-se o comando, o símbolo, a semente de vida, para que o Lótus girasse sobre si. No céu, a lua clara comandou o ritmo, registrou a freqüência do impacto.

Soou o despertar no cálice do coração e, quase ninguém percebeu que havia festa sobre o altar. Manso e estranho acordar de um sono de séculos; voz de retorno, e de permanência, contato com a própria realidade.

Uma presença velava o passo inicial, enquanto a transformação se processava no mais íntimo. Dourados reflexos de luz amanhecendo; comunhão de um sucessivo girar e desabrochar. Alvorecer da alma.

Não é tempo ainda de soltar os pés do solo térreo, mas a manhã aflora quebrando os limites, os condicionamentos. A viagem começou e o infinito foi crescendo dentro do finito; ninguém deterá a irresistível subida.

Agora, é um não indagar, não planejar, não falar, agora é um simples aspirar, um leve flutuar, um entregar-se à corrente viva.

A identificação pousa no campo do silêncio e exige quietude e contemplação; derrama-se sobre tudo, unifica todos. Não mais o corpo, a mente, as ondas da emoção; tão só o campo novo da experiência, do conhecer-se, do iluminar-se, do permanecer no eterno.

Se ainda há barreiras são de luz e cores, de expressões diversas do uno intraduzível!

De repente um assombroso conhecer-se ou um comunicar-se, um expandir-se, um identificar-se. Um caminhar dentro da intuição que encontra sua forma de se firmar.

Rosas sobre a terra, lótus, sobre a água, luzes pelo ar. Um portal que se abre, passos que avançam, mas tendem a voar. Palavras que se calam por não saber qualificar-se.

Lua no seu zênite, sol no seu brilhar. Pássaros que estão libertos nas mãos, que são dança e são radar. Na dimensão nova, o novo caminhar, regresso ao mais intimo, ao mais familiar. E tudo tão sem forma, tão sem jeito de explicar.

Um místico clima de viver, do respirar, do conhecer sem separar, do tentar dizer e não saber falar.

De repente o poema onde se tentou revelação, ou se pretendeu reter o encantamento da iniciação.

Recebido via e-mail da autora. Conheça mais textos da poetisa no blog “Vida em Plenitude”, clicando aqui.