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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ignacio Ramonet: Devemos ser ativos em nossa própria informação


Devemos ser ativos em nossa própria informação

Informar-se não pode ser uma atitude passiva. Os meios de comunicação não são confiáveis: o cidadão tem que aprender a verificar, ele mesmo, que fonte usar


No blog L’Ombelico de Mondo, o fundador do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, analisou o papel da mídia no panorama internacional e as novas formas de informação da era digital.

Em uma sociedade “hipermidiatizada”, o papel ativo de quem consome a informação é preponderante. Esta é a conclusão que o escritor e jornalista Ignacio Ramonet traz sobre as práticas dos grandes meios de informação aos quais estamos diariamente exposto.

“Informar-se não pode ser uma atitude passiva”, explicou Ramonet, em uma nova entrevista da série que o L’Ombelico del Mondo leva adiante com os principais protagonistas do jornalismo internacional em espanhol.

- Como o senhor analisa o panorama midiático latino-americano diante da aparição desta grande quantidade de meios alternativos, populares e comunitários?

Por um lado, é normal que os governos democráticos e progressistas que estão dirigindo a maioria dos países do continente abram espaço para este tipo de mídia. Estamos vendo muitos países da latino-americanos indo em busca de uma configuração desejada por muitos teóricos, onde o espectro midiático se divide em três partes de igual importância: meios privados, financiados pela publicidade; meios públicos, financiados pelo Estado (não pelos governos); e em meios comunitários, cujo objetivo é colocar em cena os movimentos sociais de uma maneira muito mais precisa e mostrar as questões locais, para que a cidadania possa se expressar.

O novo momento tecnológico que estamos vivendo, onde se desenvolveram tecnologias de comunicação muito rápidas e muito baratas e de alcance planetário, está permitindo que, ao lado do setor privado quase hegemônico faz alguns anos e o setor público em desenvolvimento atualmente, haja uma infinidade de meios que estejam se desenvolvendo. Porque hoje, para se ter um meio planetário, basta abrir um blog: qualquer um pode lê-lo, tanto na Argentina, quanto no México ou na Ásia, em qualquer lugar onde haja alguém que fale espanhol. E há gente assim por toda parte do mundo. Isto deu a possibilidade, junto com as redes sociais, que cada pessoa tenha a capacidade de se expressar. Estas duas razões, a política democrática e a tecnologia de rede, permitiram que haja uma emergência da expressão da cidadania no sentido mais amplo da palavra.

- E como reage a mídia hegemônica em relação a isto?

As duas razões que demos na primeira resposta criam uma atmosfera de inquietude entre os meios de comunicação dominantes. Até pouco tempo, eles eram privados e hegemônicos, não tinham rivais. Eram os únicos que tinham a possibilidade de se dirigir a todo mundo sem que tivessemos a possibilidade de responder. Por conseguinte, tinham o monopólio da informação e o monopólio da ideologia da mensagem.

Nos últimos 10 ou 15 anos, sobretudo desde a chegada da internet e na América Latina desde a expansão dos novos governos progressistas e democráticos, isto mudou. Então esta inquietude faz com que os meios dominantes de antes enfrentem três grandes problemas neste momento: estes dois que acabo de nomear mais a crise econômica, que faz com que tenham menos publicidade, o que faz com que fiquem muito "ansiosos". Então quando eles acreditam que têm uma informação e que são os únicos que dispõem dela, se precipitam. Com esta precipitação, creem que vão ser mais rápidos que os meios digitais e cometem erros que não podem prever. Porque essa manipulação corresponde ao que eles querem dizer.

Por exemplo, no caso célebre da foto falsa do presidente Chávez na mesa de cirurgia, evidentemente, a informação ali contida não era a de que o presidente havia sido operado, disso todos sabem. Eles queriam mostrar um Chávez debilitado, que é o que eles sonharam durante muito tempo. Então, ao invés de dar tempo para verificar se a foto era real ou não, apesar da origem extremamente estranha e labiríntica da foto, imediatamente decidiram publicá-la. O que ocorreu nas redes sociais? Em 20 minutos, demonstraram que a foto era falsa, que nem sequer era uma foto, e sim parte de um vídeo.

Isso demonstrou várias coisas. Por um lado, que os grandes meios de comunicação hegemônicos já não são confiáveis. O que já sabíamos, mas esta foi uma grande mostra disso. Não são confiáveis. Não é porque são grandes, poderosos, tenham muito dinheiro ou sejam difundidos em muitos países que têm de ser confiáveis. E por outro lado, que um enxame de internautas pode em algum momento preciso ser uma fonte de fiscalização e verificação da realidade de uma informação muito mais importante que todas as salvaguardas que os grandes meios de comunicação podem fazer.

- Ainda assim, há muito debate a respeito da confiabilidade das redes sociais. Existem relações de poder, informações mal intencionadas...

As redes sociais não são confiáveis. Mas assim como podemos afirmar tranquilamente que os grandes meios como El País, o New York Times, El Universal tampouco o são. Hoje em dia, a questão da confiabilidade dos meios é muito importante porque efetivamente não está garantida em nenhum lugar. E o cidadão tem de aprender a verificar ele mesmo que fonte vai usar.

As que se pretendem objetivas não o são e se pode demonstrar isso facilmente. Em certa medida, eu acredito que se tratam de fontes subjetivas, porque sei o que está a me ser dito, que vá no sentido do que creio ou na direção contrária. Porque em relação a isso posso ajustar meu ponto de vista. É daí que se faz cada vez mais importante ter acesso aos fatos, aos dados, para com isso fazer minha própria interpretação.

Hoje as redes sociais procuram novas ferramentas, que não nos deixam a sós diante dos meios de comunicação hegemônicos. Antes eu estava a sós ao me deparar com eles. Quando me passavam uma informação, eu não sabia se era verdadeira ou falsa, devia confiar neles. Agora não. Posso ir a internet e ver o que fulano disse. E talvez eles também se equivoquem, mas eu posso construir minha ideia. Em suma, informar-se é uma atividade.


Isto quer dizer que ninguém pode se informar passivamente. A pessoa não pode se sentar em frente ao televisor e esperar que lhe digam a verdade. Hoje isso já não pode ser, porque temos ferramentas, dispositivos, que estão permitindo que nos armemos. Por conseguinte, se dizemos que somos manipulados, isso não pode ser uma desculpa. É normal que queiram nos manipular. Mas hoje em dia dispomos de ferramentas que nos permitem que nos defendamos contra essa manipulação. E nós devemos ter um papel ativos em nossa própria informação.

Tradução: Roberto Brilhante

Reproduzido de Carta Maior

07 jun 2014 de L’Ombelico del Mondo 15 mai 2014

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A mídia (hegemônica) não me apresenta!


A mídia (hegemônica) não me apresenta!

Antes, os donos das mídias colocavam pela boca de seus apresentadores de telejornais que todos os manifestantes ao redor do mundo provocavam tumultos, que a ordem, o progresso e a "república" tinham suas bases abaladas pelos "bandidos" e "desordeiros". Agora, a manipulação midiática segue firme e forte, num discurso estereotipado pelas redes de televisão e comunicação.

Até o patético Jabor capitulou à força da voz das ruas, e os descarados não-anônimos atrás de suas bancas de "notitícias" não conseguem disfarçar o incômodo que sentem com os versos de (des)ordem cantado pelas multidões. Evitam a qualquer custo mostrarem cenas e falas que deixam mostrar a indignação das gentes com o autoritarismo das mídias, em especial da rede globobocalizante.

Além de quererem se apropriar das manifestações para colocar na pauta da discussão nacional a sua "polida" ladainha contra os desafetos políticos, os comentários jocosos pontuados nas edições ordinárias e extraordinárias dos telejornais, e das notícias pelos portais das grandes corporações, os caricatos esgares e trejeitos vidiotizantes dos patetas do falso "stand up news" no estilo de CQC e outras beldades (de)formadoras de opiniões, mostram muito mais que imaginam o (tele)espectador faminto pelo costumeiro terror propalado pelas mídias.

A caricatura das mídias hegemônicas não para por aí!

A "dieta informacional" indispensável do dia - como diz o SBT - vem como pílulas fortificando a questão da "inflação que voltou", que "deve haver transparência da gestão do dinheiro público", - como o Bom Dia Brasil anuncia entre risos sarcásticos e dançantes na cadeira -, e outros comentários do gênero feitos pelos âncoras esfregando uma mão na outra.

O povo nas ruas e as gentes indignadas já não engolem, tão docilmente, a amargura do pão e o frenesi do circo midiático querendo fazer crer que alguns (des)governantes e outros prepostos do poder estão tirando dinheiro da educação, saúde, infraestrutura etc. para, por exemplo, subsidiar as empresas privadas de transporte público na redução das tarifas de preços exorbitantes e qualidade de serviço que deixa muito a desejar.

"Vergonha" mesmo é que(des)governantes e prepostos da "rede polititica" patrocinam - com dinheiro público (leia-se verbas publicitárias) - essas grandes redes hegemônicas de (des)comunicação e prestadoras do des-serviço ao querer vidiotizar as pessoas.

É verdade, as reivindicações vão além dos R$ 0,20 e passam por uma série de questões que mantêm o povo escravizado a um sistema desumano que paga a conta das elites que curtem os (de)formadores de opinião, esses como marionetes dos donos das mídias que são os atrelados e comparsas dos donos do mercado, os bancos que patrocinam telejornais e, que no fundo, são sócios dessas companhias limitadas a destruir o mundo.

As mídias e seus donos que se cuidem, porque se não tiverem como esconder mais a insatisfação generalizada contra seus desmandos, espalhados em cartazes pintados á mão e nas mil e uma manifestações das redes sociais, correrão o risco de que “vândalos” e “desordeiros” invadam suas instalações.

Isso já está quase acontecendo e, finalmente, o povo tomará as mídias, além de tomarem brevemente as urnas para desalojar o que querem quis se legitimar pelo voto. A democracia direta é isso: ruas cheias e manifestantes re-vira-voltando o mundo, armados até o pescoço com a poderosa força de suas vozes indignadas, até há pouco engasgadas com o que de indigesto as mídias querem nos fazer engolir.


O vomitório de manifestantes está aí para abalar a ordem e o progresso falsos em que (des)governantes e prepostos, os apresentadores e âncoras de telejornais tinham em suas cadeirinhas frágeis.

A mídia (hegemônica) não me apresenta, nem me representa!
Democratização dos meios de comunicação pelo povo, já!

Paqonawta

PS: Pergunta que só o PHA conversando afiadíssimo saberia responder, via Stanely Burburinho.... cadê o MotoSerra no meio disso tudo? (21/06/13)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Emir Sader: Quem é progressista e quem é de direita


Quem é progressista e quem é de direita

Emir Sader*

Os dois maiores eixos do poder no mundo de hoje são a hegemonia imperial norte-americana e o modelo neoliberal. A direita se articula em torno da liderança política e militar norte-americana e desenvolve, em nível nacional e internacional, políticas de livre comércio e de mercantilização de todas as sociedades.

Diante desse quadro, progressistas são, em primeiro lugar, os governos, as forças políticas e as instituições que lutam pela construção de um mundo multipolar, que enfraqueça a hegemonia imperial hoje dominante, que logre a resolução dos conflitos de forma política e pacifica, contemplando a todas as partes em conflito, ao invés da imposição da força e da guerra. O que significa fortalecer os processos de integração regional – como os latino-americanos – que priorizam o intercâmbio entre os países da região e os intercâmbios entre o Sul do mundo, em contraposição aos Tratados de Livre de Comércio com os Estados Unidos.

Se diferenciam, na América Latina, com esse critério, os governos de países como a Venezuela, o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia, o Equador, entre outros, que fortalecem o Mercosul, a Unasul, o Banco do Sul, o Conselho Sul-americano de Defesa, a Alba, a Celac, entre outras iniciativas que privilegia o intercambio regional e se opõem aos Tratados de Livre Comercio com o Estados Unidos. Priorizam também o comércio com os países do Sul do mundo e as organizações que os agrupam, como os Brics, entre outras. São governos que afirmam políticas externas soberanas e não de subordinação aos interesses e orientações dos Estados Unidos.

Do outro lado do campo político se encontram governos como os do México, do Chile, do Panamá, da Costa Rica, da Colômbia, que priorizam por esses tratados e favorecem o comércio com a maior potência imperial do mundo e não com os parceiros da região e com os países do Sul do mundo.

Em segundo lugar, progressistas são os governos, forças políticas e instituições que colocam o acento fundamental na expansão dos mercados internos de consumo popular, na extensão e fortalecimento das políticas que garantem os direitos sociais da população, que elevam continuamente o poder aquisitivo dos salários e os empregos formais, ao invés da ênfase nos ajustes fiscais, impostos pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC e aceitos pelos governos de direita.

Além disso, as forças progressistas se caracterizam pelo resgate do papel do Estado como indutor do crescimento econômico, deslocando as políticas de Estado mínimo e de centralidade do mercado, e como garantia dos direitos sociais da população.

Por esses três critérios é que a maioria dos governos latino-americanos – entre eles os da Venezuela, do Brasil, da Argentina, do Uruguai, da Bolívia, do Equador – são progressistas e expressam, a nível mundial, o polo progressista, que se opõem às políticas imperialistas e neoliberais das potências centrais do capitalismo internacional.

* Emir Sader é filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas.

Reproduzido de Correio do Brasil
07 jun 2012

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Wikiliquidação do Império?


O mundo irá mudar depois destas revelações? A questão é saber qual das globalizações em confronto - a globalização hegemônica do capitalismo ou a globalização contra-hegemônica dos movimentos sociais em luta por um outro mundo possível - irá se beneficiar mais com as fugas de informação.

A divulgação de centenas de milhares de documentos confidenciais, diplomáticos e militares, pela Wikileaks acrescenta uma nova dimensão ao aprofundamento contraditório da globalização. (...) Irá o mundo mudar depois destas revelações? A questão é saber qual das globalizações em confronto - a globalização hegemônica do capitalismo ou a globalização contra-hegemônica dos movimentos sociais em luta por um outro mundo possível - irá beneficiar mais com as fugas de informação.
 

Boaventura de Sousa Santos

Leia o texto completo na Carta Maior clicando aqui.