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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Emir Sader: Quem é progressista e quem é de direita


Quem é progressista e quem é de direita

Emir Sader*

Os dois maiores eixos do poder no mundo de hoje são a hegemonia imperial norte-americana e o modelo neoliberal. A direita se articula em torno da liderança política e militar norte-americana e desenvolve, em nível nacional e internacional, políticas de livre comércio e de mercantilização de todas as sociedades.

Diante desse quadro, progressistas são, em primeiro lugar, os governos, as forças políticas e as instituições que lutam pela construção de um mundo multipolar, que enfraqueça a hegemonia imperial hoje dominante, que logre a resolução dos conflitos de forma política e pacifica, contemplando a todas as partes em conflito, ao invés da imposição da força e da guerra. O que significa fortalecer os processos de integração regional – como os latino-americanos – que priorizam o intercâmbio entre os países da região e os intercâmbios entre o Sul do mundo, em contraposição aos Tratados de Livre de Comércio com os Estados Unidos.

Se diferenciam, na América Latina, com esse critério, os governos de países como a Venezuela, o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia, o Equador, entre outros, que fortalecem o Mercosul, a Unasul, o Banco do Sul, o Conselho Sul-americano de Defesa, a Alba, a Celac, entre outras iniciativas que privilegia o intercambio regional e se opõem aos Tratados de Livre Comercio com o Estados Unidos. Priorizam também o comércio com os países do Sul do mundo e as organizações que os agrupam, como os Brics, entre outras. São governos que afirmam políticas externas soberanas e não de subordinação aos interesses e orientações dos Estados Unidos.

Do outro lado do campo político se encontram governos como os do México, do Chile, do Panamá, da Costa Rica, da Colômbia, que priorizam por esses tratados e favorecem o comércio com a maior potência imperial do mundo e não com os parceiros da região e com os países do Sul do mundo.

Em segundo lugar, progressistas são os governos, forças políticas e instituições que colocam o acento fundamental na expansão dos mercados internos de consumo popular, na extensão e fortalecimento das políticas que garantem os direitos sociais da população, que elevam continuamente o poder aquisitivo dos salários e os empregos formais, ao invés da ênfase nos ajustes fiscais, impostos pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC e aceitos pelos governos de direita.

Além disso, as forças progressistas se caracterizam pelo resgate do papel do Estado como indutor do crescimento econômico, deslocando as políticas de Estado mínimo e de centralidade do mercado, e como garantia dos direitos sociais da população.

Por esses três critérios é que a maioria dos governos latino-americanos – entre eles os da Venezuela, do Brasil, da Argentina, do Uruguai, da Bolívia, do Equador – são progressistas e expressam, a nível mundial, o polo progressista, que se opõem às políticas imperialistas e neoliberais das potências centrais do capitalismo internacional.

* Emir Sader é filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas.

Reproduzido de Correio do Brasil
07 jun 2012

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mídia planetária e alinhamento ortodoxo da informação


A civilizada barbárie midiática e as mídias livres

A verdade e o inusitado

Observemos as palavras heterodoxia e ortodoxia: ambas têm em comum o radical doxa, que significa simplesmente opinião popular, estereótipo, convenção, verdade, motivo pelo qual heterodoxo é o contrário de ortodoxo, pois enquanto a primeira palavra indica aquilo que é o contrário da opinião popular, o diferente, o inusitado, o não esperado, a outra lógica; a segunda, por sua vez, reforça o sentido comum como fonte ou referência fundamental das condutas consideradas certas e normais; logo ortodoxas.

No entanto, observando mais de perto a palavra ortodoxia, começamos a achar que existe algo de podre no reino de Dinamarca, pois é um vocábulo formado por orto, que significa correto, e por doxa, que significa, como vimos, opinião comum, donde podemos concluir que ortodoxo constitui a opinião comum mais correta que as demais supostas opiniões comuns.

Existe, pois, na palavra ortodoxo, uma pretensão autoritária de algo ou alguém que se julga de posse de uma verdade, que é mais verdade que a verdade comum, a do senso comum, pois se apresenta como a verdade correta ou simplesmente como a verdade que todos devem acatar, a pretexto de seguir o caminho considerado comumente correto.

Para escarafunchar mais agulha no paiol, é possível notar ainda que ortodoxia não quer apenas significar uma verdade mais verdadeira que as demais, posto que pretende constituir-se também como uma verdade do e para o senso comum, de modo que quer ser ao mesmo tempo correta, unidimensional e, por isso mesmo, aquilo que deve ser aceito por todos, como verdade qualquer, e heterodoxa, e ao mesmo tempo única, logo ortodoxa.

A batalha pelo heterodoxo

A esse estranho fenômeno de uma verdade querer sempre ser mais verdadeira que outra e ao mesmo tempo banal, porque presente no comportamento da maioria, podemos chamar de paradoxo da doxa ou de paradoxo da verdade, o paradoxo de uma verdade arrogante, por querer ou pretender ser ao mesmo tempo a única verdade para todos, independente de diferenças econômicas, étnicas, de gênero, históricas, culturais.

O que distingue, por outro lado, as culturas de massa, como a nossa, das sociedades precedentes, é exatamente isto: a verdade continua sendo, de forma ortodoxa, controlada por uma elite ou casta, embora deva estar sob a posse de qualquer um. No mundo da sociedade do espetáculo, que é o nosso, a ortodoxia não é uma verdade cuja posse legítima é a de um grupo restrito, mas a da massa, da maioria, de qualquer um, razão pela qual é uma ortodoxia heterodoxa, por funcionar ou valer sempre conforme as circunstâncias e os interlocutores.

Ortodoxo, hoje, portanto, é a verdade, banal, estúpida, acessível, sob a posse de qualquer um, mas manietada por poucos. Eis porque tem poder, na sociedade contemporânea, quem consegue transformar a verdade de seus interesses em vulgar verdade ortodoxa ou, para dizer de outro modo, em vulgar verdade mais correta que as outras verdades vulgares, como se uma vulgaridade fosse melhor que a outra.

(...) O que chamamos de mídia planetária, hoje oligopolizada, nada mais é que o resultado comunicacional-tecnológico do alinhamento ortodoxo da informação aos donos do mundo, aos aliados, tendo em vista a mesma estratégia que subjaz instituições como o FMI, Banco Mundial, ONU: falar em nome da igualdade, da liberdade e da fraternidade para eliminá-las e evitá-las a todo custo – claro, custo para a liberdade, para a igualdade e para a fraternidade, não para os aliados imperiais, evidentemente da partilha ortodoxa do mundo.

Luís Eustáquio Soares
07/06/2011 na edição 645

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