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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Equador rebate informe da SIP e defende regulação da mídia no país



Equador rebate informe da SIP e defende regulação da mídia no país

Ana Maria Passos
Opera Mundi
23/10/2012 |

Especialistas em comunicação equatorianos disseram que o documento reflete apenas interesses dos empresários

"No dia em que a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) me felicitar, aí sim me preocuparei. Se os cachorros ladram, é sinal de que estamos avançando. Se a SIP questiona, critica, quer dizer que (...) está sendo inaugurada a verdadeira liberdade de expressão", disse neste fim de semana o presidente do Equador, Rafael Correa.

O Equador -- ao lado de Argentina e Venezuela -- está no “centro das preocupações” da SIP, que realizou recentemente sua 68ª Assembleia Geral, em São Paulo. Segundo a resolução da entidade, nesses países os presidentes "encabeçam uma ofensiva para silenciar os meios independentes".

Uma reportagem veiculada no programa semanal de prestação de contas de Correa mostrou outra versão para os casos citados no encontro e apontou inconsistências. O documento menciona, por exemplo, a morte de três jornalistas no país este ano, mas admite que apenas uma pode estar relacionada à profissão. Segundo a reportagem, o informe falha ainda ao não explicar que o caso não tem ligação com o governo.

A SIP disse que uma das violações mais graves à liberdade de expressão no Equador foi uma ação judicial contra quatro observadores da investigação sobre contratos ilegais firmados entre o irmão do presidente, Fabrício Correa, e o governo. Eles foram processados por falso testemunho ao concluírem que o presidente sabia dos negócios do irmão. A Presidência reiterou que os observadores “fizeram um relatório baseado em falsidades”.

Para a deputada Maria Augusta Calle, do mesmo partido do presidente, o motivo do embate entre governo e meios privados reside em uma concepção diferente de comunicação social. "O problema fundamental para a SIP não é a liberdade de expressão. O problema é que o governo equatoriano e as leis equatorianas consideram a comunicação um serviço público e que os meios têm que trabalhar em função dos direitos da maioria e não de uns poucos", afirmou a Opera Mundi.

Maria Augusta sustenta ainda que o informe cita ameaças a jornalistas de meios privados, mas omite a ofensiva contra meios públicos e estatais, que segundo a parlamentar, também enfrentam processos e são muitas vezes impedidos de participar de entrevistas coletivas organizadas pelos opositores do governo.

Quanto às ações na Justiça que o governo move contra jornalistas e meios privados, Maria Augusta avaliou que é necessário entender que, no Equador, é proibido atentar contra a dignidade e a honra. "Qualquer pessoa pode expressar o que queira, mas tem que expressar com respeito", lembrou.

Liberdade de expressão

O informe da SIP sobre o Equador afirma que no país "não existe plena liberdade de expressão e de informação" e que "todos os poderes do Estado estão tomando decisões que a deterioram."

O professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Andina Simon Bolívar, Hernan Reyes, classificou como enganoso o ponto de partida do documento. "A pergunta é: "existe plena liberdade de expressão -- e eu destaco a palavra plena --, em algum país dos que formam ou dos que são avaliados pela SIP? Existe nos Estados Unidos plena liberdade de expressão? No Chile?", questionou. "Nesses países o que poderia eventualmente existir são sistemas de menor regulação da imprensa privada e do funcionamento do mercado para o livre fluxo de informação. Nada mais."

O professor acredita a plena liberdade de expressão e informação é um horizonte que se busca. “Depois de analisar uma série de fatores, é possível determinar, na forma de uma escala, quanta liberdade de expressão, de informação, de opinião ou de imprensa existe em cada país. Esse é um exame que a SIP não faz e creio que a maior parte do informe, no caso do Equador, está baseada em suposições, em uma série de mitos”, salientou a Opera Mundi.

Regulação da mídia

Para Reyes, o verdadeiro motivo do protesto dos meios privados não é a liberdade de expressão, mas o fato de que o governo equatoriano limitou o alcance da propriedade midiática. Correa aprovou leis que impedem os bancos de terem empresas de comunicação e proíbem que os donos dos meios de comunicação tenham negócios em outras áreas.

Além disso, foram criados meios públicos, que reduzem a penetração dos veículos privados. "Isso é o miolo do assunto. Parece que a reação tão visceral, crescente e permanente por parte desses meios privados, em conjunto com os políticos de oposição, é porque os bolsos estão sendo afetados", defendeu.

Outro aspecto da reação da SIP, para o professor, é que a credibilidade dos meios vem sendo afetada pelo confronto com o governo. Em redes nacionais obrigatórias e no programa semanal de televisão, o presidente contesta as reportagens negativas veiculadas na imprensa.

Nesse ponto Reyes faz críticas ao governo, que construiu um "aparato enorme de vigilância e monitoramento. Por um lado “é útil porque revela uma quantidade de falhas e distorções que cometem os meios de comunicação”, mas por outro "é indevidamente centralizado num aparato estatal”. Para o professor, os cidadãos deveriam ser convidados a participar de observatórios de imprensa.

Reyes também discordou do “tom de virulência verbal” de Correa contra determinados meios privados e jornalistas. “Parecem excessivos certos gestos, como o de rasgar publicamente um jornal numa transmissão de prestação de contas aos sábados”, disse.

O professor observou ainda que apesar de certos avanços, como páginas de órgãos públicos na internet, ainda “há muito descumprimento por parte de autoridades não só desse governo, de todos os governos anteriores, do (direito ao) acesso que tem todo cidadão à informação."

Recentemente o presidente decidiu que vai responder apenas aos pedidos de informação de parlamentares que forem enviados por meio do presidente da Assembleia Nacional. A medida é considerada pela SIP como mais uma restrição.

Fernando Checa, diretor do Centro Internacional de Estudos Superiores para a América Latina (Ciespal) afirmou que a lei de acesso à informação pública não é cumprida cabalmente nas instituições do Estado. "Mas isso acontece em todas as partes do mundo", contemporizou. Para Checa, não se trata de uma evidência de que a liberdade de expressão está ameaçada no Equador, como faz parecer o informe.

O diretor do Ciespal também considera um erro a proibição do presidente de que ministros deem entrevistas a canais privados considerados "mercantilistas" por Correa. “Mas isso ameaça a liberdade de expressão? Não, porque esses funcionários estão dando declarações a outros meios. Por outro lado, os meios privados que reclamam disso são plurais? Não, porque há restrições também, não há pluralidade de vozes. Eles não gostam que o presidente proíba os funcionários do Estado falar, mas não que hajam listas negras nas redações, que certas pessoas sejam vetadas.”

Para o diretor do Ciespal, o informe esconde alguns atores que ameaçam a liberdade de expressão: “diretores, donos de meios de comunicação e anunciantes, que pressionam, limitam, fazem censura e promovem a autocensura.”

Não há elementos para afirmar que a liberdade de expressão está se deteriorando, defendeu Checa a Opera Mundi. "No Equador todo mundo pode dizer qualquer coisa. É uma questão de ver a imprensa privada, por exemplo. Há duríssimas críticas, às vezes, inclusive grosseiras não só contra o presidente, mas contra os funcionários do Estado e parlamentares, com absoluta liberdade.”

E conclui: “Sou contra a penalização da opinião. A liberdade de expressão é um direito universal e não só de jornalistas e meios. Mas também é uma obrigação. A obrigação de assumir esse direito com responsabilidade."

Reproduzido de Opera Mundi
23 out 2012

domingo, 19 de agosto de 2012

Assange faz Equador levantar “bandeira anti-imperialista”



Assange faz Equador levantar “bandeira anti-imperialista”

Por Redação, com BBC Brasil - de Brasília
17/8/2012

Quando Julian Assange pediu asilo pela primeira vez na embaixada do Equador, há dois meses, ele havia faltado a audiências na Justiça e tentava postergar o dia em que seria extraditado para a Suécia para responder a acusações de crime sexual.

Naquele momento, o governo de Quito tinha o cuidado de afirmar que não desejava deteriorar suas relações diplomáticas com a Grã-Bretanha. A chancelaria britânica insistiu que desejava uma saída negociada para a saia-justa.

Mas o que ficou claro nesta semana é que não há muito espaço para concessões. Embora o governo britânico afirme que deseja continuar as negociações, também diz categoricamente que Assange não terá salvo-conduto para sair do país e não negociará com a Suécia seu compromisso de extradição.

A Grã-Bretanha “não recuou uma polegada”, segundo o chanceler equatoriano Ricardo Patiño, e o que vinha sendo um diálogo amistoso se transformou em ameaça e chantagem explícita.

Mas o que particularmente enfureceu o Equador foi a insinuação feita pela Grã-Bretanha de que o país poderia usar uma lei britânica de 1987 para revogar o status de embaixada do edifício ocupado pela representação equatoriana para permitir que a polícia entrasse no local e prendesse Assange.

Se isso funcionasse, seria uma forma mais fácil de pôr fim ao impasse, segundo um embaixador britânico, do que a opção nuclear de romper relações diplomáticas com o Equador por completo.

Mas mesmo levantar a possibilidade de enviar a polícia à embaixada se mostrou uma medida polêmica por parte dos britânicos.

Além dos debates legais sobre se a lei britânica de 1987 poderia realmente se sobrepor às salvaguardas internacionais há muito asseguradas pela Convenção de Viena para assegurar a imunidade de diplomatas estrangeiros e embaixadas em todo o mundo, isso poderia abrir um precedente preocupante: que outros países poderiam seguir o exemplo e usar o pretexto de pegar criminosos para invadir embaixadas estrangeiras que abrigam dissidentes?

Mas o argumento que o Ministério das Relações Exteriores britânicos poderia utilizar seria: como ficar de lado e permitir que uma embaixada estrangeira em Londres possa ser usada por propósitos não-diplomáticos para abrigar um potencial criminoso que burlou os termos de sua fiança, sem tomar qualquer ação?

De imediato, já está claro que a cisão entre a Grã-Bretanha e o Equador se intensificou.

Em Quito, o Ministro das Relações Exteriores, Ricardo Patiño, agora argumenta que Assange é uma ”potencial vítima de perseguição política”, por conta de sua defesa da liberdade de expressão e de imprensa, devido às suas publicações no WikiLeaks.

Ele afirma ainda que é dever do Equador protegê-lo e assegurar que não se consumarão seus temores em ser extraditado para os Estados Unidos e possivelmente encarar uma longa pena de prisão – como a do militar Bradley Manning, que vazou segredos militares para o WikiLeaks – ou até mesmo a pena de morte. pena de morte.

Em meio a tudo isso, a Grã-Bretanha ainda foi acusada de tratar o Equador como uma colônia.

Não resta dúvida que o presidente equatoriano, Rafael Correa, vê toda a saga como uma oportunidade de firmar suas credenciais anti-imperialistas entre seus colegas. O Equador já convocou um encontro de países latino-americanos para que eles ofereçam uma resposta apropriada.

Visto que a Grã-Bretanha já vinha tentando lidar de forma delicada com a América Latina, a fim de evitar que sua briga com a Argentina sobre as Ilhas Malvinas se disseminasse pelo continente, o momento em que essa crise ocorre é ruim, para dizer o mínimo.

Por outro lado, a Suécia rapidamente se alinhou com a Grã-Bretanha para expor seu descontentamento com o Equador, convocando o embaixador do país na Suécia ao Ministério das Relações Exteriores em Estocolmo, classificando como inaceitável que o Equador tente bloquear a investigação sueca.

E uma questão permanece: por quanto tempo Assange permanecerá enfurnado na embaixada equatoriana, tendo obtido asilo, mas incapaz de sair da representação diplomática sem ser preso?

Parece haver pouca esperança prática de retirá-lo às escondidas. Em teoria, ele poderá permanecer lá por muito tempo.

O dissidente chinês Fang Lizhi, que buscou refúgio na embaixada americana em Pequim, em 1989, onde permaneceu por um ano.

O cardeal húngaro József Mindszenty, que encontrou abrigo na embaixada dos Estados Unidos em Budapeste após a insurreição anticomunista no país em 1956, permaneceu lá por 15 anos, até 1971. E há também dois integrantes da junta militar que governou a Etiópia que ainda estão refugiados na embaixada da Itália em Adis Abeba, onde se encontram desde 1991.

Foi talvez tendo isso em mente que um diplomata britânico observou, com aparente frustração, que seria impossível e caro demais manter um policiamento de 24 horas em torno à embaixada equatoriana indefinidamente e que alguma outra solução ao impasse teria de ser encontrada.

O que começou como uma negociação complicada se transformou em uma profunda crise, envolvendo não apenas a Grã-Bretanha e o Equador, mas também a Suécia e os Estados Unidos.

E quanto mais elevada for a temperatura política nesta história complexa e cheia de meandros, mais difícil será encontrar uma saída diplomática.

Reproduzido de Correio do Brasil
17 ago 2012

Assista a outros videos de "The Julian Assange Show" no RT clicando aqui.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Equador quer suspender publicidade oficial para a grande mídia


Equador quer suspender publicidade oficial para a grande mídia

Redação
Barão de Itararé
01/08/2012

No que depender do presidente equatoriano, Rafael Correa, os grandes jornais, revistas e canais de rádio e televisão do país já não poderão contar com as receitas da publicidade oficial para financiar sua programação. No último sábado (28), o mandatário anunciou que deixará de contratar anúncios pagos nos meios de comunicação comerciais.

“Não temos porquê, com o dinheiro dos equatorianos, beneficiar o negócio de seis famílias do país”, constatou o presidente, recomendando ao secretário de Comunicação, Fernando Alvarado, que retirasse imediatamente a grande mídia equatoriana da carta publicitária das empresas e instituições governamentais. “Daqui pra frente, zero publicidade oficial aos meios mercantilistas, para ver se fazem comunicação por vocação ou por negócio.”

"Daqui pra frente, zero publicidade oficial aos meios mercantilistas", disse o presidente durante evento em Ibarra (Foto: Presidência do Equador)

A notícia veio durante a 282ª edição do programa Enlace Ciudadano, uma espécie de prestação de contas misturada com propaganda institucional que Rafael Correa realiza semanalmente em algum lugar do país – desta vez, o evento ocorreu em Ibarra, ao norte da capital, Quito. O presidente lembrou que seis semanas antes havia sugerido aos meios de comunicação privados que renunciassem à publicidade oficial, uma vez que criticam tanto o governo por não respeitar a liberdade de expressão.

De acordo com o mandatário, nenhum meio abriu mão da verba publicitária. Pelo contrário, o presidente da Associação Equatoriana de Editores de Jornais (AEDEP, na sigla em castelhano), Diego Cornejo, afirmou em uma emissora de rádio que nenhuma empresa de comunicação do Equador deixaria de veicular as rentáveis propagandas oficiais. Fazê-lo, argumentou, seria contrariar a lógica do negócio. “Maravilhoso que seja honesto”, exaltou Correa. “Reconhece que é um negócio, que sua lógica é fazer dinheiro.”

Batalha

A suspensão da publicidade oficial é apenas mais um capítulo da batalha política entre o governo e os meios de comunicação equatorianos. O último passo de Rafael Correa em direção à grande mídia do país havia sido desferido em junho, quando o presidente proibiu seus ministros de concederem entrevistas exclusivas aos veículos comerciais. Em contrapartida, os editoriais e artigos de opinião atacam constantemente a administração correista por não respeitar a liberdade de imprensa.

A mais recente decisão do presidente ganha peso devido à Lei de Comunicação, que tramita há dois anos na Assembleia Nacional do Equador. Depois de muita discussão, o projeto está pronto para ser votado em plenário. O problema é que nem governo nem oposição têm maioria para aprová-la ou rechaçá-la. Esperava-se que a lei fosse apreciada pelos deputados na semana passada, mas o presidente da Assembleia, Fernando Cordero, suspendeu a votação alegando falta de quórum.

Entre seus 120 artigos, a Lei de Comunicação pretende dividir as frequências de rádio e televisão entre meios de comunicação privados, públicos e comunitários. A proporção seria 33%, 33% e 34%. Os canais de rádio e televisão que acabam de perder a verba publicitária oficial se opõem ferrenhamente ao projeto. O governo é seu maior entusiasta.

“O texto determina expressamente que o governo deve distribuir a receita publicitária entre os meios privados, públicos e comunitários – e também entre os meios rurais e urbanos”, assegura Romel Jurado, assessor do deputado Mauro Andino, presidente da comissão que escreveu a Lei de Comunicação.

Via Clipping FNDC

sábado, 21 de julho de 2012

“O texto é bom, mas não garante segurança jurídica”, diz mentor da lei de comunicação no Equador


“O texto é bom, mas não garante segurança jurídica”, diz mentor da lei de comunicação no Equador

“Não dá pra saber se a confrontação entre governo e meios de comunicação ajudou ou prejudicou”, questiona Romel Jurado

Tadeu Breda, Rede Brasil Atual
21/07/2012

Quito – Romel Jurado é dos equatorianos que melhor personificam a lei de comunicação que está prestes a ser votada pelo Legislativo do país. Não apenas porque foi um dos idealizadores do texto, e talvez o maior responsável por seu conteúdo, mas também pela ponderação com que disserta sobre os motivos que antagonizam governo e mídia no país.

Há quem diga que a constante troca de ofensas entre o presidente Rafael Correa e os principais jornais e canais de tevê do Equador tem atrapalhado a aprovação da lei. Romel não descarta essa teoria, mas traz outros elementos para o debate. “Não dá pra saber se a confrontação entre governo e meios de comunicação ajudou ou prejudicou”, questiona. “Todas as vezes em que se tentou mexer com os interesses da grande mídia, a reação foi tão forte que silenciou qualquer possibilidade de mudança.”

Desta vez, o discurso onipresente dos grandes grupos comunicacionais equatorianos encontrou na estridência de Rafael Correa um rival à altura. “Se o governo não tivesse vindo com a proposta de elaborar uma lei de comunicação, é possível que as coisas continuassem iguais”, conclui. Ainda nada mudou, mas se o texto sistematizado por Romel passar pelo crivo dos deputados, as frequência de rádio e tevê passarão a ser dividas igualmente entre meios de comunicação privados, públicos e comunitários.

É um tema controverso, mas há outros, que são discutidos na entrevista a seguir. Romel Jurado recebeu a Rede Brasil Atual em seu escritório na Assembleia Nacional do Equador, onde trabalha como assessor do deputado Mauro Andino, do partido Alianza País, na Comissão de Justiça e Estrutura do Estado. Em nenhum momento escondeu sua óbvia simpatia pelo texto que ajudou a escrever, mas nem por isso esqueceu-se de levar em consideração o contexto político equatoriano antes de emitir suas opiniões.

Qual é a situação da lei dentro da Assembleia Nacional?

A Constituição de 2008 estabeleceu que a lei de comunicação deveria ser elaborada em um ano. O prazo não foi cumprido porque existe uma enorme complexidade política em torno da matéria. Governo e meios de comunicação privados trocam acusações reciprocamente. Por um lado, o presidente diz que a mídia está tradicionalmente ligada aos bancos e às empresas, e que têm intervindo na política nacional em defesa de seus próprios interesses. Essa ingerência, diz o governo, contraria totalmente o dever social dos meios de comunicação.

A mídia admite que isso é verdade, mas não em todos os casos. Diz que o presidente exagera ao colocar todos os veículos no mesmo saco e argumenta que hoje em dia é mais independente do poder econômico. Acusa Rafael Correa de autoritarismo, de ter criado meios públicos para roubar espaço dos meios privados e de interferir na programação ao decretar cadeias nacionais para fazer propaganda de seu governo. Essa confrontação atrasou a lei.

Por outro lado, é a primeira vez que o país se propõe a elaborar uma lei de comunicação. Geralmente, as leis do setor regulam apenas os serviços de rádio e televisão. Nosso desafio aqui foi entender a comunicação e legislar sobre todos os direitos a ela relacionados. Este é outro motivo do atraso, porque o debate foi ficando cada vez mais complexo e técnico, e não apenas em termos jurídicos. Fazia falta, antes, entender o que é a comunicação para depois escrever um projeto de lei.

Outro problema é que não se conseguiam as condições políticas na Assembleia nem para rechaçar a lei nem para aprová-la. No último mês de abril, mandamos o texto definitivo para ser votado em plenário. Pouco antes da votação, a oposição apresentou uma moção para arquivá-lo. E perdeu. Mas quando íamos votar a lei, a bancada governista, que é favorável ao projeto, não tinha tinha os 62 votos necessários – faltava somente um para conseguir aprovar o texto por maioria absoluta, uma vez que o parlamente é composto por 124 deputados. Esse equilíbrio ainda continua, embora a probabilidade maior é de que a lei seja aprovada.

Se o texto passar, o presidente vai exercer seu poder de veto?

O ideal é que os deputados aprovem todos os 120 artigos da lei com ampla maioria. Um respaldo massivo da Assembleia dificultaria – mas não impossibilitaria – que o presidente fizesse mudanças no texto. No Equador, o Executivo tem a prerrogativa de vetar parcialmente as leis do Legislativo. Neste caso, o projeto volta ao parlamento, mas fica muito difícil para os deputados derrubarem o veto: para isso, precisam de 82 votos. É muito. Por isso, seria excelente que os parlamentares, na impossibilidade de arquivar a lei, a aprovassem com o maior apoio possível, para limitar a possibilidade do presidente mexer no texto.

Como os deputados têm recebido o conteúdo da lei?

Todos os deputados, inclusive os da oposição, já admitiram direta ou indiretamente que o texto é equânime, que desenvolve os direitos da comunicação e se mantém dentro dos padrões internacionais. Não existem objeções conceituais à lei. A desconfiança da oposição é outra: acreditam que, se votam a favor, o Executivo certamente modificará o texto e, depois, a bancada governista não vão querer derrubar os vetos. Essa é a situação política. A votação ocorrerá quando um dos dois grupos tenha maioria. Acredito que os deputados favoráveis à lei conseguirão os votos, mas não temos certeza se aprovarão todos os artigos. Devido a um acordo da Assembleia, o texto será votado artigo por artigo. Existe um núcleo duro de artigos que será defendido fortemente pelo governo, e outros que serão votados livremente, sem negociação.

Quais artigos terão aprovação mais difícil?

A distribuição das frequências de rádio e televisão é um tema polêmico, porque implica realizar mudanças profundas na propriedade dos meios de comunicação audiovisuais. A reversão das frequências que foram obtidas ilegalmente também é um tema controverso, porque afeta os interesses de gente com muito poder econômico, político e social. Ninguém vai querer renunciar às frequências.

A instalação do Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação é outro ponto que provoca uma tensão política muito forte. O governo sempre participou de conselhos que administram as concessões de rádio, televisão e telecomunicações, porque estes envolvem recursos e políticas públicas. Porém, devido ao alto nível de polarização política que vive o país, os meios de comunicação acreditam que a presença de um membro do Executivo seria silenciadora, autoritária e controladora.

Além do representante do presidente, o conselho terá outros cinco membros: um representante dos governos locais, dos povos indígenas, das universidades públicas de jornalismo e comunicação, de organizações dos direitos humanos e dos conselhos de igualdade. Mas não importa qual seja sua composição, a oposição sempre irá questionar e desaprovar a presença do Executivo nacional.

Há temores de que a lei possibilitará a censura, não?

Os direitos humanos e individuais devem ser respeitados. Existem alguns artigos relativos à responsabilidade dos meios de comunicação. Sempre que se publique alguma coisa, alguém deve ser responsável. Se o material não está assinado, então o meio deve responsabilizar-se pelo conteúdo. É o que chamamos responsabilidade solidária.

Se um meio de comunicação produz conteúdo discriminatório (contra homossexuais, negros ou indígenas, por exemplo) sua obrigação é prestar desculpas públicas. Essa é a sanção aplicada pelo conselho: uma punição moral. Mas se o veículo reincide pela terceira vez, o conselho começa a aplicar multas. A primeira corresponde a 10% do faturamento médio dos últimos dois meses. Mas as multas vão crescendo, pois o Estado entende que, se alguém emite reiteradamente conteúdos discriminatórios, está demonstrando um desprezo absoluto pelos direitos coletivos e individuais das pessoas – e isso não pode ser permitido, nem mesmo pelo código penal.

Outro tema conflitivo é a produção nacional. As grandes redes de televisão e os produtores nacionais associados a elas não têm muito interesse no desenvolvimento da produção audiovisual equatoriana – a não ser da sua própria. Dizer que 40% da produção deve ser nacional, e que não se computará nestes 40% a televenda, não são assuntos bem recebidos.

Há também certos direitos dos jornalistas, como a cláusula de consciência e o segredo da fonte, que são muito bem vistos por todos, mas... Os grandes meios os aceitam bastante bem na teoria, mas nem tanto na prática. A lei estabeleceu ainda direitos trabalhistas para os funcionários dos meios de comunicação para brindar-lhes algumas proteções sociais, porque é um mercado em que existe muita precarização.

Porém, não acredito que sejam artigos muito problemáticos. Como eu disse, os questionamentos não se encontram tanto pelo conteúdo do texto, mas pela polarização política do país e pelo que implica apoiar ou não apoiar a lei de comunicação.

E o que implica apoiar ou não a lei?

Muitos dizem que a lei é produto do governo nacional, que tem vocação controladora, que a estratégia dos governistas é passar um bom texto pela Assembleia para que o Executivo o modifique com seu poder de veto parcial. Existe a ideia de que apoiar a lei é soltar as rédeas para as pretensões autoritárias do presidente. Os que defendem essa tese não apoiarão a lei ainda que o texto seja maravilhoso. Por outro lado, a bancada governista argumenta que houve um longo processo legislativo, que a Constituição exige a aprovação da lei, que um referendo popular confirmou essa obrigação e é inadmissível que os deputados continuem devendo ao país uma lei de comunicação. Portanto, é uma polarização de posições políticas que não tem a ver necessariamente com o conteúdo da lei.

Então é a briga entre Rafael Correa e os meios de comunicação que está dificultando a votação e aprovação da lei?

Sim. Se o nível de enfrentamento entre a mídia e o presidente fosse menor, a lei talvez tivesse um caminho relativamente mais fácil. Talvez não, porque cada vez que mexemos no interesse dos grandes meios de comunicação, a reação é tremenda. Por isso não se pôde alterar o estado de coisas ao longo da história. Se não tivéssemos visto esse grau de enfrentamento, será que poderíamos ter avançado na elaboração da lei? Todas as vezes que tentamos corrigir as leis de comunicação, os meios silenciavam qualquer possibilidade de mudança. Por isso, não sei se a postura de Rafael Correa nos prejudicou ou beneficiou. Mas sei que, se o governo não tivesse patrocinado a lei, a situação continuaria exatamente igual.

Pode haver abusos por parte do Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação?

Não existem leis perfeitas que impossibilitem a ocorrência de infrações. A lei é um exercício de estruturação política e social realizado a partir de certos valores e direitos considerados importantes em determinado momento da vida de um país. Há mais dificuldade para aplicar a lei quando existe maior grau de arbitrariedade. Se as instituições de um país são administradas com arbitrariedade, ainda que a lei seja excelente, haverá atitudes arbitrárias.

Sinceramente, acredito que as fórmulas jurídicas estabelecidas na lei de comunicação são as melhores que conseguimos elaborar dentro de nossa cultura política e nível de desenvolvimento democrático. Mas não posso garantir que a lei em si mesma dê segurança jurídica à sociedade, porque as pessoas e instituições que irão operacionalizá-la – que a farão efetiva – ainda padecem de enormes margens de arbitrariedade. Isso não tem a ver com a lei, mas com a forma de exercer o poder no Equador e com a cultura política dos equatorianos, não apenas dos políticos, mas de todos os cidadãos. Infelizmente, a arbitrariedade e o exercício transgressor dos poderes públicos e privados ainda é uma norma imperante. Aqui, os poderes podem mais que as leis.

A lei de comunicação certamente funcionará bem para a maioria dos casos, mas quando houver dois grandes poderes enfrentados, o mais forte vencerá, sem dúvida. A lei tem artigos que impedem os abusos, mas o problema não é a lei. O problema é que quem aplica a lei ou se veja afetado por sua aplicação ativará seu poder para transgredi-la e desobedecê-la. E isso ainda é possível no Equador. A lei em si é boa, mas não garante segurança.

Como avalia as denúncias de que atualmente não existe liberdade de imprensa e de expressão no Equador?

Depende do que entendemos como liberdade de expressão. Vê-la apenas como livre fluxo de informações – que é o paradigma estabelecido nos Estados Unidos nos anos 1950 e adotado pelos grandes meios de comunicação – é encarar a informação como mercadoria. E, dentro do sistema em que vivemos, toda mercadoria deve circular livremente. Mas, podemos fazer uma análise mais complexa do que é informação e liberdade de expressão. As pessoas efetivamente têm direito de buscar, receber, produzir e fazer circular informação, mas em alguns casos essa informação deve ser qualificada.

Principalmente quando é uma informação de relevância pública: quando serve para que o cidadão decida sobre assuntos de seu interesse, sejam públicos ou privados de grande transcendência: a saúde de seu filho, por exemplo, ou medidas do governo que afetam à sociedade. Esse tipo de informação deve versar sobre a realidade, e não pode basear-se em rumores. Deve ser precisa e oferecer dados exatos. Deve ser produzida a partir de várias fontes, ser contrastada e contextualizada. Ou seja, a informação de relevância pública deve circular com toda liberdade, mas cumprir alguns requisitos de qualidade.

O problema é que os meios de comunicação costumam produzir informação enviesada, parcial, descontextualizada e não verificada, que, ainda por cima, obedece a seus próprios interesses. Não consigo aceitar que isso seja liberdade de expressão. Melhor dizendo, é manipulação da informação.

Vejo que Rafael Correa identificou e luta contra esse problema, mas também atende a seus próprios interesses como político. Nessa tensão entre mídia e presidente, quem perde somos nós, os cidadãos. A lei de comunicação propõe regras para que nem os poderes públicos nem os privados façam uso abusivo dos meios de comunicação – e para que todos tenham a responsabilidade de cumprir alguns requisitos e respeitar certos limites quando se trata de veicular informação de relevância pública. A lei foi pensada para beneficiar os cidadãos, mas, por sorte ou desgraça, está sendo proposta num contexto de confrontação aberta entre dois poderes titânicos.

No Equador, os meios públicos de comunicação foram criados recentemente, durante a gestão do presidente Rafael Correa. São efetivamente públicos ou seria mais correto dizer que são meios governamentais?

Todos os meios públicos do mundo nasceram sob a ingerência de algum governo, e com tendência a apoiar a administração. Com o passar do tempo, sempre existe gente dentro desses meios que começa a lutar por mais independência. E a autonomia vai sendo conquistada. No caso equatoriano, os meios públicos acabam de ser criados, e ainda estão vinculados à secretaria de comunicação da presidência. Seus funcionários têm lutado para ganhar autonomia em relação ao governo, mas ainda não venceram a batalha. Vai levar um tempo antes que consigam. Há um processo de transição que não sei quanto tempo vai demorar, mas que fará com que os meios sejam efetivamente públicos. Foi o que aconteceu em todos os países.

Como avalia a discussão e elaboração de leis de comunicação na América Latina?

Acredito que o que está acontecendo na Argentina, Uruguai, Bolívia, México e até mesmo no Brasil é uma evolução no paradigma que utilizamos para entender o papel dos meios de comunicação. Existe uma interpelação pela função social dos meios, da propriedade dos meios e do uso que se faz da comunicação. É um movimento novo. Estamos saindo da interpretação tradicional da liberdade de expressão como livre fluxo de informação para uma visão que diz: para que a liberdade de expressão seja possível, devemos criar condições materiais para que o exercício dessa liberdade se estenda a todos – e não apenas aos donos dos meios de comunicação. Acredito que esse paradigma deve ser estudado, revisado e criticado, mas parece ser irreversível. Estamos caminhando rumo a uma mudança substancial na maneira como se gestiona os direitos relacionados à liberdade de expressão e comunicação.

Reproduzido de RedeBrasil Atual
21 jul 2012

Leia também textos reproduzidos em Filosomídia:

"Equador, a um voto de aprovar regulação da comunicação", da Redação no Portal Vermelho (20/07/2012), clicando aqui.

Outras postagens sobre a democratização dos meios de comunicação no Equador, clicando aqui.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Equador, a um voto de aprovar regulação da comunicação


Equador, a um voto de aprovar regulação da comunicação

Redação
Vermelho
20/07/2012

O Equador está prestes a entrar no seleto grupo de países sul-americanos que recentemente democratizaram seus meios de comunicação. Nos últimos anos, apenas Argentina, Uruguai e Bolívia se mobilizaram para destinar ao menos 33% das frequências de rádio e televisão para organizações sociais sem fins lucrativos, que agora dividem a programação com meios públicos e privados.

Batizada como Lei Orgânica de Comunicação, Liberdade de Expressão e Acesso à Informação Pública, o texto equatoriano foi escrito, reescrito, discutido e rediscutido durante dois anos, e desde abril está pronto para ser votado pela Assembleia Nacional. Só não foi enviado ao plenário ainda porque o governo, que patrocina a lei, não conseguiu maioria absoluta para aprová-la. A oposição tampouco arrebanhou os votos necessários para rechaçá-la. A diferença é mínima: um deputado.

O Congresso equatoriano é unicameral – não existe Senado – e conta com 124 parlamentares. Os governistas possuem 62 votos garantidos. A bancada contrária ao projeto, 61. Um parlamentar deverá definir a sorte da lei, mas não do texto integral. Após negociações, surgiu a proposta de que a votação ocorresse artigo por artigo. A assembleia aceitou, e a matéria deve ser apreciada até o fim deste mês. Ou agosto. Ou setembro: depende de quem conseguir maioria primeiro. Tudo indica que o governo está na frente.


Histórico

A lei de comunicação não nasceu da cabeça do presidente Rafael Correa ou da bancada que seu partido, Alianza País, sustenta no Legislativo. Elaborá-la foi uma proposta da sociedade equatoriana, que, por sua vez, fez por onde escrevê-la na Constituição de 2008. De anseio popular, portanto, passou a ser uma obrigação do Legislativo, reforçada por um referendo que, em 2011, dirimiu qualquer dúvida sobre a vontade do povo em ver os deputados trabalhando num novo ordenamento jurídico sobre a radiodifusão nacional.

Em teoria, o Equador deveria ter aprovado uma lei de comunicação em 2009, um ano depois de aprovada a Carta Magna. Mas não foi possível – e por várias razões. A já citada correlação de forças partidárias dentro da Assembleia Nacional é uma delas. Outra, talvez a principal, é a complexidade política que envolve toda tentativa de legislar sobre o tema nos países latino-americanos, órfãos de pluralidade midiática.

“Existe uma enorme confrontação entre o governo nacional e os meios de comunicação privados”, explica Romel Jurado, assessor do deputado Mauro Andino, presidente da Comissão Temporária de Comunicação, que escreveu o projeto de lei. “O presidente da República diz que a grande mídia está submetida a interesses empresariais, que manipula a realidade a favor de seus próprios interesses e que, por isso, não cumpre sua função social. Já os meios de comunicação reafirmam sua independência, acusam o regime de querer roubar-lhes a voz e dizem que estamos vivendo sob um governo autoritário que não gosta da imprensa.”

É uma briga entre poderes titânicos, conclui Romel Jurado. Mas o atraso da lei também se deve a outros motivos mais nobres. “É a primeira vez que um país assume o desafio de regulamentar todos os direitos e deveres relacionados à comunicação, e não apenas aos serviços de rádio e televisão”, contextualiza o assessor. “O debate ficou complexo, não apenas em termos jurídicos, mas também conceituais: primeiro, tivemos de entender o que é comunicação para só depois esboçar um projeto.”

Frequências

O projeto de lei para regulamentar a comunicação equatoriana tem 127 artigos, alguns mais controversos que outros. O que deverá causar mais impacto social é a divisão de frequências de rádio e televisão. O texto propõe que 33% dos canais fiquem para os meios privados, 33% para os públicos (nos níveis nacionais, provinciais, cantonais e paroquiais) e 34% para os comunitários. As transmissões digitais estão incluídas na divisão: a lei impedirá que os proprietários de sinais analógicos multipliquem suas concessões com a chegada das novas tecnologias.

“A divisão do espectro radioelétrico é o melhor do texto”, define José Ignacio Lopez Vigil, diretor da ONG Radialistas Apaixonadas e Apaixonados, com sede em Quito, que produz clipes radiofônicos difundidos por emissoras livres e comunitárias de toda a América Latina. “Você pode definir como quiser a liberdade de expressão e o direito à comunicação, mas a questão é quem fica com as frequências. No fim das contas, o poder midiático está com quem possui canais de rádio e televisão.”

José Ignacio foi um dos membros da comissão que, em 2009, verificou a validade das concessões midiáticas no Equador – e tirou a sujeira debaixo do tapete. No período de 13 anos analisado pela auditoria, diz, as frequências foram roubadas, traficadas e vendidas ilegalmente. Caso a lei de comunicação seja aprovada, as revelações servirão de subsídio para reverter e redistribuir os canais de rádio e tevê concedidos de maneira irregular.

A auditoria mediu ainda o tamanho do oligopólio midiático no país. “Aqui não existem empresas como Televisa, Globo ou Clarín, mas umas dez famílias que controlam mais da metade das frequências”, compara José Ignacio. “A concentração também se manifesta por setores: 97% do espectro está nas mãos dos meios privados e apenas 3% pertencem às organizações comunitárias.” Emissoras públicas só passaram a existir com a eleição de Rafael Correa.



Poder versus lei

Para distribuir, reverter e tomar qualquer decisão relativa ao espectro radioelétrico, o projeto de lei institui o Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação. Terá seis membros, que representarão o governo nacional, os governos locais, os conselhos nacionais de igualdade, as faculdades públicas de comunicação, as organizações de direitos humanos e, claro, os povos indígenas, que por pouco não ficaram de fora.

Se fosse nomeado hoje, o conselho teria automaticamente pelo menos três votos favoráveis ao governo. E esse domínio incomoda, porque Rafael Correa controla os demais órgãos colegiados que deveriam ser independentes do Executivo. “Se o conselho de comunicação for tão manipulado como outras instâncias estatais, que perderam toda autonomia frente ao tremendo presidencialismo que temos aqui, a lei será um papel morto”, analisa José Ignacio.

O movimento indígena equatoriano concorda. “O cumprimento das leis só será possível se garantirmos no país a independência dos poderes, que é um pilar fundamental da democracia”, opina Diana Atamaint, deputada do Pachakutik, braço político das organizações indígenas, que, apesar de serem históricos defensores da divisão de frequências, decidiram votar contra todos os artigos da lei de comunicação. “O texto é medianamente aceitável, mas nada impede que o governo passe por cima de seus artigos e impeça os cidadãos de exercerem seus direitos.”

Romel Jurado, um dos principais responsáveis pelo conteúdo do projeto, explica que já não existem contestações sérias ao texto dentro da Assembleia. De acordo com o secretário, quase todos os parlamentares já se pronunciaram direta ou indiretamente simpáticos aos artigos da lei. O problema, identifica, está na polarização política em curso no país: presidente, meios de comunicação e movimentos sociais estão em pé de guerra e simplesmente não conseguem dialogar para além dos insultos mútuos. É caldo de cultivo ideal para proliferação de pulgas atrás d'orelha.

“A lei propõe regras para que nem os poderes privados nem os poderes públicos possam fazer uso abusivo dos meios de comunicação, para que todos cumpram com certos requisitos e atendam a certos limites”, define. “O texto é o melhor que pudemos elaborar dentro de nossa cultura política e democrática, mas não posso garantir que a lei por si só brinde segurança jurídica às pessoas. A arbitrariedade e o exercício transgressor dos poderes infelizmente ainda são uma norma operante no Equador.”

Liberdade de expressão

Quem se opõe ao projeto de lei não cansa de recordar um caso em especial, que envolveu o maior diário do país. Após a rebelião policial que no dia 30 de setembro de 2010 quase resultou no assassinato de Rafael Correa, um articulista do El Universo escreveu artigo acusando o presidente – ao qual se referia como ditador – de haver cometido um crime de lesa-humanidade ao refugiar-se dentro de um hospital. Quando a poeira baixou, jornal e jornalista foram processados e condenados a pagar uma indenização de US$ 40 milhões, além de cumprir três anos de prisão por calúnia e difamação.

“Acreditamos que a lei de comunicação pode servir como ferramenta para controlar politicamente a oposição, não apenas nesta, mas em qualquer administração”, prevê a deputada Diana Atamaint, ela mesma alvo de um processo judicial após ter dado declarações à emissora de televisão Ecuavisa sobre supostos esquemas de corrupção no governo. “Quem opina diferente ou questiona o presidente e seus funcionários responde na Justiça por danos morais e é obrigado a pagar indenizações milionárias.”

A oposição acredita que, com a aprovação da lei, o presidente vai legalizar seus atropelos à liberdade de expressão. “Aí depende de como você entende a liberdade de expressão”, problematiza Romel Jurado. Para o secretário da Assembleia Nacional, o termo significa muito mais do que apenas a livre circulação de informações prontas para consumo, como se fossem mais uma mercadoria à disposição de leitores e telespectadores.

“Aquela informação que tenha relevância pública deve observar algumas características: deve ser precisa, versar sobre fatos reais, oferecer dados exatos, ser produzida a partir de várias fontes, dar espaço ao contraditório e estar devidamente contextualizada”, argumenta. “A informação de qualidade sempre irá circular livremente. O problema é que os meios de comunicação costumam veicular informação enviesada, parcial, descontextualizada e não verificada, que obedece apenas a seus próprios interesses. Não posso aceitar que isso seja liberdade de expressão. É, melhor dizendo, manipulação.”

Sobretudo, o projeto de lei reconhece, em seu artigo 17, o direito de cada cidadão expressar-se livremente e, claro, responsabilizar-se pelo que diz. O vale-tudo midiático deixa de existir, ficando terminantemente proibida a veiculação de conteúdos discriminatórios, que atentem contra a honra e a reputação das pessoas ou firam sua intimidade. Também estabelece, no artigo décimo, uma série de recomendações às pessoas – jornalistas ou não – envolvidas no processo comunicacional: respeitar a presunção de inocência, não obter informação de maneira ilícita, proteger a imagem de crianças e adolescentes, distinguir claramente notícias de opiniões etc.

“Se um meio de comunicação descumpre as normas, o Conselho de Regulação analisa a falta e determina a punição, que é desculpar-se publicamente. Apenas quando o veículo reincide pela terceira vez é que começam a se aplicar multas”, explica Romel Jurado. “As sanções financeiras vão crescendo porque o Estado entende que, se alguém continua emitindo conteúdos discriminatórios apesar das multas, é porque tem um despreço absoluto pelos direitos coletivos e individuais das pessoas.”

Caminho sem volta

A lei determina ainda que a publicidade oficial deverá ser distribuída entre meios públicos, privados e comunitários, nas zonas rurais e urbanas, independentemente de seu alcance – nacional, regional ou local. Obriga que 40% da programação veiculada por canais de rádio e tevê sejam produzidas dentro do Equador, e que as emissoras reservem espaço para a música nacional e para produções culturais em línguas indígenas. No âmbito trabalhista, garante uma série de direitos aos funcionários dos meios de comunicação, que hoje em dia enfrentam um mercado laboral repleto de precarização.

“Sabemos que poderão aprovar a lei, que talvez até já tenham os votos suficientes, mas o texto que entrará em vigência não é o que buscamos com nossa luta para reivindicar mais igualdade em relação ao Estado e à sociedade”, defende Diana Atamaint, deputada do Pachakutik. “Podemos ter as melhores leis, mas o que importa é a vontade política dos governos em aplicá-las.”

Apesar de todas as desconfianças, que são compreensíveis dentro do contexto equatoriano, José Ignacio López Vigil acredita que o mais importante para o país neste momento é que haja uma lei de comunicação. Principalmente porque a legislação vigente foi elaborada em 1975, durante a ditadura militar, e reformada 20 anos depois sem grandes mudanças. “Com o novo texto, o Equador teria uma lei moderna: suscetível de manipulação, como todas as leis, mas, ainda assim, boa, inserida nos padrões internacionais.”

Romel Jurado acredita que as discussões que se desenvolvem com mais ou menos força em todos os países da América Latina sobre a função da mídia deverão apontar para uma mudança de paradigmas no uso que historicamente tem sido feito dos meios de comunicação. “Para que exista plena liberdade de expressão, devemos criar condições materiais para que todos, e não apenas aos donos das emissoras, possam exercer essa liberdade”, avalia. “Devemos estudar, debater e refletir, mas transformar a maneira como entendemos o direito à comunicação é um caminho irreversível.”

Reproduzido de Brasil Atual
20 jul 2012

Leia também:

Projeto de Lei Orgânica de Comunicação do Equador” clicando aqui.

Outras postagens em Filosomídia sobre a democratização dos meios de comunicação no Equador, clicando aqui.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Equador: uma lei para democratizar a comunicação


Equador: uma lei para democratizar a comunicação
  
Sally Burch
Brasil de Fato
11/04/2012

O Projeto de Lei Orgânica de Comunicação do Equador, que nesta quarta-feira (11) entrará em votação na Assembleia Nacional, estabelece as garantias e normas dos direitos da comunicação estabelecidos na Constituição de 2008, que é talvez a mais avançada na matéria no continente. Se a lei for aprovada, marcará um avanço significativo para as reivindicações históricas do movimento pela democratização da comunicação, não só do Equador, mas do continente.

Este projeto*, cuja votação se anuncia fechada, abre o caminho para uma mudança estrutural chave, uma virtual “reforma agrária do ar”, ao estabelecer uma repartição das frequências de rádio e televisão em três partes: 34% para os meios comunitários, 33% para os meios públicos e 33% para os meios privados.

Segundo o projeto de Lei, que reconhece a comunicação social como um serviço público que deve ser prestado com responsabilidade e qualidade, os meios comunitários são aqueles “cuja propriedade, administração e direção correspondem a comunas, comunidades, povos e nacionalidades, coletivos ou organizações sem fins lucrativos”. Operarão em igualdade de condições com os outros setores, mas se beneficiarão, também, de políticas públicas para sua criação e fortalecimento, como “mecanismo para promover a pluralidade, diversidade, interculturalidade e plurinacionalidade” (Art. 92). Além disso, sob a política de favorecer a economia solidária, prevê-se que as entidades estatais contratem publicidade e serviços em tais meios para a difusão de conteúdos educativos e culturais.

Outro aspecto importante da normativa é que impedirá a concentração oligopólica, ao estabelecer um limite para uma mesma pessoa (natural ou jurídica) de uma só frequência para matriz em AM, uma em FM e uma de televisão, em todo o território. Atualmente, cerca de 90% das frequências estão em mãos privadas. A lei prevê que para alcançar de forma progressiva a divisão aos setores público e comunitário, será priorizada a concessão a estes dois setores até alcançar as porcentagens correspondentes, utilizando as frequência disponíveis e as que serão revertidas ao Estado, pelos motivos dispostos na Lei e na Constituição.


Parte do espectro radioelétrico será liberado mediante a reversão daquelas frequências que foram concedidas sem seguir o devido processo legal ou cujos concessionários tenham feito uma utilização irregular das mesmas. A Auditoria de Frequências, realizada sob o mandato da Constituição, seria a base para determinar essas reversões, que poderiam ser mais de 200, segundo informou o Presidente da Assembleia, Fernando Cordero. Tais frequências deverão reverter-se de imediato ao Estado. Além disso, desde a consulta popular de 2011, a Constituição proíbe que as empresas de comunicação, seus diretores ou acionistas tenham participação acionária em empresas de outro setor econômico.

Outras medidas, destinadas a estimular a produção nacional, preveem a obrigação de ter 40% de conteúdo nacional nos meios audiovisuais e 10% de produção nacional independente. Nas rádios, 50% da música deve ser produzida, composta ou executada no Equador. Além disso, a publicidade deve ser produzida no país.

No projeto de Lei são estabelecidas também normas para uma utilização responsável da informação por parte da imprensa. Por exemplo, estipula-se que a informação publicada deve ser devidamente verificada e estabelece-se a obrigação – com as sanções correspondentes em caso de omissão – de retificação de informações falsas ou inexatas, e o direito de réplica quando uma pessoa considerar que a informação afeta seus direitos à dignidade, honra ou reputação.

Garante, ainda, os direitos dos profissionais da comunicação, como a cláusula de consciência, reserva da fonte e segredo profissional e direitos trabalhistas. Um dos temais mais polêmicos foi a titularização obrigatória de jornalistas. O debate girou em torno da questão sobre a violação ou não da liberdade de expressão da população, mas também sobre as garantias do direito cidadão de ser devidamente informado, o qual exige destrezas profissionais. Em sua última versão, o projeto de Lei prevê que quem exercer de forma permanente o jornalismo deve ter o título profissional (salvo editorialistas, colunistas de certas seções especiais e aqueles que comunicam em idiomas indígenas). Está previsto um prazo de seis anos para que quem já trabalha em um meio adquira seu diploma.



Uma lei construída com a sociedade

Assim como sucedeu na Argentina, boa parte da imprensa comercial e setores da direita têm unido forças, há 2 anos, contra o que, antes de se escrever uma linha, apelidaram de “lei da mordaça”, sob a premissa de quem em matéria de comunicação a melhor lei é a que não existe. É evidente que a lei afetará interesses poderosos, o que sem dúvida explica sua tenaz oposição, que justificam sob os protestos por “liberdade de expressão”. Um dos pontos mais polêmicos tem sido a composição do Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação – que tem entre suas funções elaborar o informe vinculante para cessão ou autorização de concessões de frequências – que para algumas vozes críticas concentra demasiado poder no governo de turno (se bem que o executivo só nomeia a um dos cinco representantes).

Argumenta-se que o texto da Lei infringe convenções internacionais firmadas pelo Equador, o qual vislumbra possíveis ações ante os organismos internacionais se a lei for aprovada (ainda que de fato, em sua redação, tem tido o cuidado de respeitar as convenções vinculantes). A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) já qualifica de “preocupante” a Lei e é de se esperar que articulará uma campanha midiática regional para atacá-la, como se fez tantas vezes nos últimos anos, cada vez que algum dos governos tem tocado os interesses do poder comunicacional.

A última versão do projeto, publicado em 5 de abril, representa o fruto de mais de dois anos de audiências públicas, debates em meios, propostas e ações por parte de organizações e instâncias sociais, e diversas outras contribuições, que fazem com que esta lei seja uma das mais debatidas do país. Várias das propostas centrais, como a repartição igualitária de frequências, não provieram de setores oficialistas, mas de atores sociais. O governo tem mantido uma atitude ambígua frente à Lei, feito que impediu que se votasse dois anos atrás – como mandava a Constituição – quando o movimento político governante, Alianza PAIS, ainda tinha maioria na Assembleia. Em várias oportunidades o próprio presidente Rafael Correa reiterou que não é uma lei prioritária para o governo e, tanto no executivo como no PAIS há setores que se opõem à tese dos três terços na repartição de frequências. Foi somente no último mês de março que Correa expressou um claro respaldo a ela, o qual alinhou posições ao governo anterior.

Sem dúvida, o projeto tem vários erros e aspectos que poderiam ser melhorados. Por exemplo, a participação cidadã na gestão dos meios públicos não está muito clara, sendo um aspecto importante para garantir seu caráter público. Não obstante, com sua aprovação poderiam firmar as bases para uma reconfiguração e democratização profunda do cenário comunicação, atualmente dominado por uns poucos grupos de poder. Seguramente sua implementação não será um processo fácil. Assim como a repartição de terras, vai requerer processos de organização, proposta, criação de capacidades e luta, particularmente para consolidar o setor comunitário. Mas se conseguir esta primeira batalha, poderá contar com a legitimação das demandas e um campo de jogo mais igualitário.

Neste contexto, torna-se difícil entender que setores da oposição equatoriana mais identificados com a esquerda se alinham com as posições dos grandes meios comerciais e da direita. Sem dúvida, consideram que opor-se à lei é uma maneira de golpear ao governo, quando na verdade golpeiam ao movimento social que tem promovido a lei, e à população que se beneficiará dela; e de quebra, fazem um favor àqueles setores dentro do próprio governo, que não veem com bons olhos as medidas democratizadoras.

Se simpatiza ou não com um governo, não se pode renegar das próprias bandeiras históricas, quando este as adota como suas. Melhor começar a mobilizar mais intensamente e vigiar para que sua implementação seja efetiva. Se aprovado, não só beneficiará o país, mas servirá como um exemplo para o continente.

É com este sentido que a Rede de Intelectuais em Defesa da Humanidade tornou público seu apoio ao projeto de lei mediante uma carta aberta** assinada, entre outros, por Ignacio Ramonet, Ana Esther Ceceña, Carmen Bohórquez, Marta Harnecker e Oscar Ugarteche, onde se afirma que é um projeto que “populariza o espectro radioelétrico equatoriano mediante uma redistribuição equitativa das frequências de rádio e televisão (…), elimina os monopólios, fomenta a produção nacional, promove a comunicação intercultural e plurinacional e garante a plena liberdade de expressão e informação”, e “será uma contribuição valiosa para a democratização das comunicações na Nossa América”.

Reproduzido de Brasil de Fato
11 abr 2012.

Via clipping FNDC

Texto acima em espanhol na página de Red Internacional de Estudios Interculturales clicando aqui.

* Veja a versão publicada em 5 de abril de 2012 clicando aqui.
** Veja a Carta Aberta clicando aqui.


Leia tambem na página de Telesur, "Suspendida sessión de Asamblea de Ecuador para votar proyecto de Ley para Comunicación" (11/04/2012) clicando aqui.


Saiba mais e conheça os antecedentes da Rede:

Red de Intelectualesy Artistas en Defensa de la Humanidad

La Red de Intelectuales y Artistas en Defensa de la Humanidad constituye un movimiento de pensamiento y acción contra toda forma de dominación. Este proyecto responde a la necesidad de dar cumplimiento al mandato de la Asamblea Plenaria del Encuentro Mundial de Intelectuales y Artistas en Defensa de la Humanidad, celebrada en Caracas el día 6 de diciembre de 2004, que congregó a representantes de cincuenta y dos países y diversas culturas.

En dicha Asamblea, se coincidió en la “necesidad de construir una barrera de resistencia frente a la dominación mundial que hoy se pretende imponer” y dar paso a una ofensiva mediante acciones concretas de lucha, entre las cuales están, “crear una red de redes de información, acción artística cultural, coordinación y movilización que vincule a intelectuales y artistas con los Foros Sociales y las luchas populares y garantice la continuidad de estos esfuerzos y su articulación en un movimiento internacional: En defensa de la Humanidad”.

Para maiores informações sobre a Red Intelectuales y Artistas clique aqui e ali para informações sobre a Rede Capítulo Equador e Capítulo Brasil.