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segunda-feira, 8 de abril de 2013

IX Conferência Brasileira de Mídia Cidadã: agosto de 2013 em Curitiba



Mídia Cidadã em Curitiba

Estão abertas as inscrições para a IX Conferência Brasileira de Mídia Cidadã e IV Conferência Sul-Americana de Mídia Cidadã, que acontecem em Curitiba, nos dias 6, 7 e 8 de agosto de 2013, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). 


O evento deste ano tem como temática os marcos regulatórios da Comunicação na América Latina. A Conferência objetiva estimular o debate acerca da democracia através dos processos comunicativos. A comunicação cidadã pressupõe a existência de pessoas ativas na construção do conteúdo informacional, não apenas receptoras. A mídia cidadã, portanto, deve promover a participação dos agentes da sociedade, considerando suas características e demandas específicas. 


As submissões de trabalhos devem ser realizadas até o dia 31 de maio.


A IX Conferência Brasileira de Mídia Cidadã/IV Conferência Sul-Americana de Mídia Cidadã, realizada em Curitiba – PR, conta com quatro categorias de trabalhos. Dessa maneira, as propostas de apresentações podem ser enviadas observando a seguinte divisão:

. Comunicações Científicas (Artigos Científicos e Relatos de Experiência a serem apresentados em GTs),
. Mostra de Vídeo Cidadão,
. Feira de Experiências Inovadoras em Mídia Cidadã
. Festival de Arte Cidadã.

Para maiores informações, clique aqui.

Reproduzido de Midia Cidadã
Via Carla Rabelo . Facebook

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Atílio Boron: Monopólios midiáticos na América Latina



Atílio Boron: Monopólios midiáticos na América Latina

“Não há erro: os meios de comunicação simplesmente são grandes conglomerados empresariais que têm interesses econômicos e políticos. Na América Latina, os monopólios midiáticos têm um poder fenomenal que vêm cumprindo na função de substituir os partidos políticos de direita que caíram em descrédito e que não têm capacidade de chamar a atenção nem a vontade dos setores conservadores da sociedade”. Assim o politólogo e cientista social argentino Atilio Boron caracteriza a canalha midiática.

Por Fernando Arellano Ortiz
no Observatório Sociopolítico Latino-Americano

Nesse sentido, explica, "cumpre-se o que muito bem profetizou Gramsci há quase um século, quando disse que diante da ausência de organizações da direita política, os meios de comunicação, os grandes diários, assumem a representação de seus interesses; e isso está acontecendo na América Latina”. Em praticamente todos os países da região, os conglomerados midiáticos converteram-se em "operadores políticos”.

A Crise do Capitalismo e o triunfo de Chávez

Boron, que dispensa apresentação por ser um importante referente da teoria política e das ciências sociais em Iberoamérica, foi um dos expositores principais do 6º Encontro Internacional de Economia Política e Direitos Humanos, organizado pela Universidad Popular Madres de la Plaza de Mayo, que aconteceu em Buenos Aires, entre os dias 4 e 6 de outubro.

Tópicos como a crise estrutural do capitalismo, o fenômeno da manipulação dos monopólios midiáticos e o que significa para a América Latina o triunfo de Hugo Chávez foram tratados com profundidade por esse destacado politólogo, sociólogo e investigador social, doutorado em Ciências políticas pela Universidade de Harvard e, atualmente, diretor do Programa Latino-americano de Educação a Distância em Ciências Sociais do Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini, na capital argentina.

Para aprofundar sobre alguns desses temas, o Observatorio Sociopolítico Latinoamericano (www.cronico.net) teve a oportunidade de entrevistá-lo no final de sua participação no fórum acadêmico internacional.

Rumo a um projeto pós-capitalista

No desenvolvimento de sua exposição no encontro da Universidad Popular de Madres de la Plaza de Mayo, Boron analisou o contexto da crise capitalista.

"Hoje em dia é impossível referir-se à crise e à saída da mesma sem falar do petróleo, da água e das questões meio ambientais. Essa é uma crise estrutural e não produto de uma má administração dos bancos das hipotecas subprime”.

Recordou que, recentemente, foram apresentadas propostas por parte dos Prêmios Nobel de Economia para tornar mais suave a débâcle capitalista. Uma, a esboçada por Paul Krugman, que propõe revitalizar o gasto público. O problema é que os Estados Unidos estão quebrados e o nível de endividamento das famílias nos Estados Unidos equivale a 150% dos ingressos anuais. "Krugman propõe dar crédito ao Estado para que estimule a economia. Porém, os Estados Unidos não têm dinheiro porque decidiram salvar os bancos”.

A outra proposta é de Amartya Sem, que analisa a situação do capitalismo como uma crise de confiança e é muito difícil restabelecê-la entre os poupadores e os banqueiros devido aos antecedentes desses últimos. Por isso, essas não deixam de ser "pseudo explicações que não levam à questão de fundo. Não explicam porque caem os índices do PIB e sobem as bolsas. Ambos índices estariam desvinculados e as bolsas crescem porque os governos injetaram moeda ao sistema financeiro”.

A crise capitalista serviu para acumular riqueza em poucas mãos, uma vez que "o que os democratas capitalistas fizeram no mundo desenvolvido foi salvar os banqueiros, não os endividados, ou seja, as vítimas”.

Exemplificou com as seguintes cifras: enquanto o ingresso médio de uma família nos Estados Unidos é de 50 mil dólares ao ano, o daqueles de origem latina é de 37 mil e o de uma família negra é de 32 mil, o diretor executivo do Bank of America, resgatado, cobrou um salário de 29 milhões de dólares.

Então, é evidente que cada vez mais há uma tendência mais regressiva de acumular riqueza em poucas mãos. Em trinta anos, o ingresso dos assalariados foi incrementado em 18% e o dos mais ricos cresceu 238%.

"No capitalismo desenvolvido houve uma mutação e os governos democráticos transformaram-se em plutocracias, governos ricos”. Porém, além disso, "o capitalismo se baseia na apropriação seletiva dos recursos”.

Por isso, citando o economista egípcio Samir Amin, Boron afirma sem medo que "não há saída dentro do capitalismo”.

Como alternativa, Boron sustenta que "hoje, pode-se pensar em um salto para o modelo pós-capitalista. Há algo que pode ser feito até que apareçam os sujeitos sociais que darão o ‘tiro de misericórdia’ no capitalismo. O que se pode fazer é desmercantilizar tudo o que o capitalismo mercantilizou: a saúde, a economia, a educação. Assim, estaremos em condições de ver o amanhecer de um mundo mais justo e mais humano”.

A reeleição na Venezuela

Sobre a matriz de opinião que os monopólios midiáticos da direita têm tentado impor no sentido de que a reeleição do presidente Chávez é um sintoma de que ele quer se perpetuar no poder, a análise de Boron foi contundente:

"Há um grau de hipocrisia enorme nesse tema, porque os mesmos que se preocupam com o fato de Chávez estar por 20 anos no governo, aplaudiam fervorosamente a Helmut Kohl, que permaneceu no poder por 18 anos, na Alemanha; ou Felipe González, por 14 anos, na Espanha; ou Margaret Thatcher, por 12 anos, na Inglaterra”.

"Há um argumento racista que diz que somos uma raça de corruptos e imbecis; que não podemos deixar que as pessoas mantenham-se muito tempo no poder; ou há uma conveniência política, que é o que acontece ao tentarem limar as perspectivas de poder de líderes políticos que não são de seu agrado. Agora, se Chávez instaurasse uma dinastia onde seu filho e seu neto herdassem o poder, eu estaria em desacordo. Porém, o que Chávez faz é dizer ao povo que eleja; e, em âmbito nacional, por um período de 13 anos, convocou o povo venezuelano para 15 eleições, das quais ganhou 14 e perdeu uma por menos de um ponto; e, rapidamente, reconheceu sua derrota. Então, não está dito em nenhum lugar sério da teoria democrática que tem que haver alternância de lideranças, na medida que essa liderança seja ratificada em eleições limpas e pela soberania popular”.

*Tradução: Adital

Reproduzido de Portal Vermelho
25 out 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Precisamos regulamentar imprensa no Brasil, afirma Lula



Precisamos regulamentar imprensa no Brasil, afirma Lula


Vanessa Silva/ Portal Vermelho
Portal CUT
18/10/2012

Ex-presidente se soma à mobilização “por um novo marco regulatório da comunicação”

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está na Argentina, onde cumpre intensa agenda política: almoçou com a presidenta Cristina Kirchner, na quarta (17) e participa, nesta quinta (18) de um congresso empresarial. Em entrevista ao jornal La Nación, ecoando o amplo debate a respeito da entrada em vigor da lei dos meios naquele país, Lula foi taxativo ao avaliar a situação do Brasil: “aqui precisamos instalar uma discussão política sobre um novo marco regulatório da comunicação”.

Lula também falou sobre o menor crescimento econômico do Brasil neste ano e destacou a necessidade de uma reformulação no FMI e nos organismos internacionais como a ONU. Com relação ao polêmico julgamento do mensalão e a possibilidade de ele também ser julgado, é categórico: “eu já fui julgado. A eleição de Dilma foi um julgamento extraordinário. Um presidente com oito anos de mandato sair com 87% de aprovação é um tremendo julgamento”.

Meios de comunicação

Eu penso que poucos líderes políticos do mundo foram e são tão criticados pela imprensa como eu. No entanto, não reclamo. Eu nunca tive a imprensa a meu favor, e não é por isso que deixei de ser presidente com a maior aprovação de meu país. Me parece que devemos acreditar na sabedoria dos leitores, dos ouvintes de rádio e dos telespectadores. Eles saberão julgar os valores do comportamento de um político, e também do comportamento da imprensa.

Acredito que no Brasil precisamos instalar uma discussão política sobre um novo marco regulatório da comunicação. A última regulação é de 1962, não há nenhuma explicação para que no século 21 tenhamos a mesma regulação que em 1962, quando não havia telefones celulares, nem internet. A evolução que teve nas telecomunicações não está regulada. Essa briga existe na Argentina, na Venezuela, no México, onde Ricardo Salinas e Slim estão em guerra todo santo dia. E no Brasil preparamos uma conferência nacional – na qual participaram partidos, meios de comunicação, telefonia – e elaboramos uma proposta de regulação, que precisa ser discutida com a sociedade. Não há modelo definitivo, não há o modelo de O Globo, da Folha, de Lula ou de Dilma, isso não existe. Então vamos começar uma discussão com a sociedade para saber o que é o mais importante para que os meios de comunicação sejam cada vez mais retransmissores de conhecimento, de informação, cada vez mais livres e sem ingerência do governo.

Relações internacionais

O fato de querermos fazer uma reforma nas instituições multilaterais não depende da crise. A crise apenas agravou este debate. O Brasil, há pelo menos 15 anos luta para que a ONU seja reformada, e que tenha uma representação do mundo geográfico correspondente a 2012 e ao século 21 e não que represente o mundo de 1948. Não há explicação para que apenas cinco países tenham o controle dos assuntos mais importantes do mundo, sem que haja um representante da América Latina, da África, sem um país de 1 bilhão de habitantes como a Índia ou mesmo a Alemanha.

Queremos que a ONU e o Conselho de Segurança sejam representativos da realidade de hoje, e não do passado.

O FMI também tem que ser reformado para que possa funcionar como um banco que possa ajudar os países em crise e não como um banco para fazer pressão nas economias dos países pobres. Na crise atual dos Estados Unidos e Europa, o FMI não sabe o que fazer. Ninguém sequer quer escutar o FMI! É como se não servisse para nada! Dá a impressão de que foi criado para Argentina, Brasil, Bolívia ou México e não para a Alemanha nem Grécia. É por isso que nós queremos fazer um debate.

Integração

Sonho com a integração da América Latina. A integração não é um discurso, deve transformar-se em um ato cotidiano de cada cidadão e de cada governante. E ainda nos resta muito por fazer.

Irã

Vejamos o caso do Irã. Todos os dias vejo notícias que dizem que o Irã quer construir uma bomba atômica. Eu não acredito nisso. Eu desejo para o Irã o mesmo que desejo para o Brasil: utilizar a energia nuclear para fins pacíficos. E com esta ideia eu fui ao Irã. Os membros do Conselho de Segurança nunca tinham conversado com [Mahmoud] Ahmadinejad. A política foi terceirizada, colocam assessores para conversar e os presidentes nunca conversam. E quando eu disse que ia conversar com Ahmadinejad para que ele se comprometesse a aceitar as regras que eram impostas pela AIEA, disseram que era ingênuo. Fomos ao Irã, estivemos dois dias juntos com a Turquia, e conseguimos que o Irã se comprometesse com o que os norte-americanos e a União Europeia queriam. Para a minha surpresa, quando Ahmadinejad aceitou e nós apresentamos um documento assinado, o que aconteceu? Sancionaram o Irã. Por quê? Porque não era aceitável que um país do terceiro mundo tivesse conseguido o que eles não conseguiram.

Chávez

É necessário analisar a Venezuela não em comparação com o Brasil ou Argentina, nem com a Europa. Tem que analisar a Venezuela de Chávez em comparação com a Venezuela antes de Chávez. E melhorou muito a Venezuela. O povo pobre ganhou dignidade. A América do Sul ganhou muito com o Chávez. Porque antes até os vasos sanitários eram importados dos Estados Unidos. Hoje importa de outros países: Brasil, Argentina… A Venezuela começou a olhar a América Latina e por isso defendi a entrada da Venezuela no Mercosul. Pela importância estratégica da Venezuela, é uma das maiores reservas de petróleo do mundo e de gás, tem um potencial energético extraordinário. Nós precisamos, enquanto Unasul, discutir como nos tornar sócios dessa riqueza que temos. Por isso penso que Chávez foi importante para a Venezuela. (…) Com a minha chegada ao poder, a de Kirchner, de Chávez, de Evo Morales, foi que as pessoas começaram a perceber que gostamos de nossos países, que começamos a ver nossos países a partir de nossa própria realidade. Isso mudou. Quando cheguei ao governo, a relação comercial entre Brasil e Argentina era de 7 bilhões. No ano passado, foi 40 bilhões de dólares.

Mercosul

Penso que o que fizemos na América do Sul já é muito. O problema é que éramos países com uma cultura colonizada, com uma mente colonizada. Fomos doutrinados para que nos víssemos como adversários, como inimigos e os amigos estavam no norte. Quando na verdade, não tem que ter inimigos nem no Norte, nem aqui, temos que construir o que for bom para Argentina e Brasil. Lembro que há muito tempo realizamos reuniões onde muitos países diziam que o Mercosul já não interessava, que o Mercosul tinha acabado, e que havia que implementar a Alca. Hoje, nem o governo norte-americano fala da Alca. Sequer eles.

Mensalão

Não me manifesto sobre esse processo, primeiro porque naquela época eu era presidente da república e creio que um ex-presidente não pode opinar sobre a Suprema Corte. Principalmente quando o processo está em desenvolvimento. Vamos esperar que termine o processo e então com certeza poderei emitir minha opinião.

Eu já fui julgado. A eleição de Dilma foi um julgamento extraordinário. Um presidente com oito anos de mandato sair com 87% de aprovação é um tremendo julgamento e não me preocupo com nada. Cada poder: Executivo, Legislativo ou Judicial, tem suas próprias responsabilidades e cada um deve cumprir com a mesma.

Economia

Sejamos sinceros. Há uma desaceleração econômica promovida pelo próprio governo. Obviamente há problemas com a crise econômica, mas acontece que em 2010 nós crescemos muito, o consumo era exageradamente alto e era necessário diminuir um pouco esse ímpeto da economia. Essa redução do governo também foi afetada pela crise internacional. Houve uma diminuição das exportações. As exportações da Argentina caíram quase 20%, houve uma diminuição importante, e no nível mundial a diminuição foi somente 6%. Era necessário controlar a inflação. As informações que tenho da presidência e do ministro da Fazenda é que a inflação está controlada e para o próximo ano, Brasil voltará a crescer mais ou menos 4,5%.

Volta à presidência

Um político não pode nunca descartar [esta hipótese]. O problema é que cada vez que fazem esta pergunta... se eu digo que não o descarto, a imprensa diz: “Lula admite que será candidato”. Se eu digo o contrário, dizem “Lula nunca mais será presidente”. Eu sou um político, e creio que já cumpri minha parte. Toda a minha vida tive vontade de provar que era capaz de fazer o que eu reivindicava, e creio que conseguimos fazer muito mais. Hoje, o principal legado que deixamos para a sociedade brasileira, além dos 40 milhões de brasileiros que ascenderam à classe média, além do aumento do salário mínimo, dos 17 milhões de empregos formais criados, o principal legado é a relação entre o Estado e a sociedade. Realizamos 73 conferências nacionais. As principais políticas de meu governo foram decididas em plenários, onde havia debates no âmbito municipal, estatal e nacional. Eram políticas de todas as áreas, tudo foi discutido. Queria provar a mim mesmo que um governante nunca, em hipótese alguma, deve ter medo de conversar com a sociedade. Não podemos ver em cada pessoa que nos cerca na rua um inimigo. Porque muitas vezes temos que nos perguntar por que é inimigo agora se votou em mim.

Reproduzido de clipping FNDC
18 out 2012

Foto: Foto: Juani Roncoroni/Estadão . Via Portal Vermelho
O ex-presidente Lula visita a presidente argentina, Cristina Kirchner, no Palácio do Governo, em Buenos Aires, nesta quarta-feira (17)

Leia também:

"PT retomará debate sobre a mídia?", por Altamiro Borges (20/10/12) do Blog do Miro, via clipping FNDC clicando aqui.

"Chávez e a derrota dos barões da imprensa", por Roberto Amaral (22/10/12) no Brasil de Fato, via clipping do FNDC clicando aqui.

"Venezuela: ministro quer construção coletiva da comunicação", por Prensa Latina no Portal Vermelho (22/10/12) via clipping do FNDC clicando aqui.

sábado, 21 de julho de 2012

“O texto é bom, mas não garante segurança jurídica”, diz mentor da lei de comunicação no Equador


“O texto é bom, mas não garante segurança jurídica”, diz mentor da lei de comunicação no Equador

“Não dá pra saber se a confrontação entre governo e meios de comunicação ajudou ou prejudicou”, questiona Romel Jurado

Tadeu Breda, Rede Brasil Atual
21/07/2012

Quito – Romel Jurado é dos equatorianos que melhor personificam a lei de comunicação que está prestes a ser votada pelo Legislativo do país. Não apenas porque foi um dos idealizadores do texto, e talvez o maior responsável por seu conteúdo, mas também pela ponderação com que disserta sobre os motivos que antagonizam governo e mídia no país.

Há quem diga que a constante troca de ofensas entre o presidente Rafael Correa e os principais jornais e canais de tevê do Equador tem atrapalhado a aprovação da lei. Romel não descarta essa teoria, mas traz outros elementos para o debate. “Não dá pra saber se a confrontação entre governo e meios de comunicação ajudou ou prejudicou”, questiona. “Todas as vezes em que se tentou mexer com os interesses da grande mídia, a reação foi tão forte que silenciou qualquer possibilidade de mudança.”

Desta vez, o discurso onipresente dos grandes grupos comunicacionais equatorianos encontrou na estridência de Rafael Correa um rival à altura. “Se o governo não tivesse vindo com a proposta de elaborar uma lei de comunicação, é possível que as coisas continuassem iguais”, conclui. Ainda nada mudou, mas se o texto sistematizado por Romel passar pelo crivo dos deputados, as frequência de rádio e tevê passarão a ser dividas igualmente entre meios de comunicação privados, públicos e comunitários.

É um tema controverso, mas há outros, que são discutidos na entrevista a seguir. Romel Jurado recebeu a Rede Brasil Atual em seu escritório na Assembleia Nacional do Equador, onde trabalha como assessor do deputado Mauro Andino, do partido Alianza País, na Comissão de Justiça e Estrutura do Estado. Em nenhum momento escondeu sua óbvia simpatia pelo texto que ajudou a escrever, mas nem por isso esqueceu-se de levar em consideração o contexto político equatoriano antes de emitir suas opiniões.

Qual é a situação da lei dentro da Assembleia Nacional?

A Constituição de 2008 estabeleceu que a lei de comunicação deveria ser elaborada em um ano. O prazo não foi cumprido porque existe uma enorme complexidade política em torno da matéria. Governo e meios de comunicação privados trocam acusações reciprocamente. Por um lado, o presidente diz que a mídia está tradicionalmente ligada aos bancos e às empresas, e que têm intervindo na política nacional em defesa de seus próprios interesses. Essa ingerência, diz o governo, contraria totalmente o dever social dos meios de comunicação.

A mídia admite que isso é verdade, mas não em todos os casos. Diz que o presidente exagera ao colocar todos os veículos no mesmo saco e argumenta que hoje em dia é mais independente do poder econômico. Acusa Rafael Correa de autoritarismo, de ter criado meios públicos para roubar espaço dos meios privados e de interferir na programação ao decretar cadeias nacionais para fazer propaganda de seu governo. Essa confrontação atrasou a lei.

Por outro lado, é a primeira vez que o país se propõe a elaborar uma lei de comunicação. Geralmente, as leis do setor regulam apenas os serviços de rádio e televisão. Nosso desafio aqui foi entender a comunicação e legislar sobre todos os direitos a ela relacionados. Este é outro motivo do atraso, porque o debate foi ficando cada vez mais complexo e técnico, e não apenas em termos jurídicos. Fazia falta, antes, entender o que é a comunicação para depois escrever um projeto de lei.

Outro problema é que não se conseguiam as condições políticas na Assembleia nem para rechaçar a lei nem para aprová-la. No último mês de abril, mandamos o texto definitivo para ser votado em plenário. Pouco antes da votação, a oposição apresentou uma moção para arquivá-lo. E perdeu. Mas quando íamos votar a lei, a bancada governista, que é favorável ao projeto, não tinha tinha os 62 votos necessários – faltava somente um para conseguir aprovar o texto por maioria absoluta, uma vez que o parlamente é composto por 124 deputados. Esse equilíbrio ainda continua, embora a probabilidade maior é de que a lei seja aprovada.

Se o texto passar, o presidente vai exercer seu poder de veto?

O ideal é que os deputados aprovem todos os 120 artigos da lei com ampla maioria. Um respaldo massivo da Assembleia dificultaria – mas não impossibilitaria – que o presidente fizesse mudanças no texto. No Equador, o Executivo tem a prerrogativa de vetar parcialmente as leis do Legislativo. Neste caso, o projeto volta ao parlamento, mas fica muito difícil para os deputados derrubarem o veto: para isso, precisam de 82 votos. É muito. Por isso, seria excelente que os parlamentares, na impossibilidade de arquivar a lei, a aprovassem com o maior apoio possível, para limitar a possibilidade do presidente mexer no texto.

Como os deputados têm recebido o conteúdo da lei?

Todos os deputados, inclusive os da oposição, já admitiram direta ou indiretamente que o texto é equânime, que desenvolve os direitos da comunicação e se mantém dentro dos padrões internacionais. Não existem objeções conceituais à lei. A desconfiança da oposição é outra: acreditam que, se votam a favor, o Executivo certamente modificará o texto e, depois, a bancada governista não vão querer derrubar os vetos. Essa é a situação política. A votação ocorrerá quando um dos dois grupos tenha maioria. Acredito que os deputados favoráveis à lei conseguirão os votos, mas não temos certeza se aprovarão todos os artigos. Devido a um acordo da Assembleia, o texto será votado artigo por artigo. Existe um núcleo duro de artigos que será defendido fortemente pelo governo, e outros que serão votados livremente, sem negociação.

Quais artigos terão aprovação mais difícil?

A distribuição das frequências de rádio e televisão é um tema polêmico, porque implica realizar mudanças profundas na propriedade dos meios de comunicação audiovisuais. A reversão das frequências que foram obtidas ilegalmente também é um tema controverso, porque afeta os interesses de gente com muito poder econômico, político e social. Ninguém vai querer renunciar às frequências.

A instalação do Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação é outro ponto que provoca uma tensão política muito forte. O governo sempre participou de conselhos que administram as concessões de rádio, televisão e telecomunicações, porque estes envolvem recursos e políticas públicas. Porém, devido ao alto nível de polarização política que vive o país, os meios de comunicação acreditam que a presença de um membro do Executivo seria silenciadora, autoritária e controladora.

Além do representante do presidente, o conselho terá outros cinco membros: um representante dos governos locais, dos povos indígenas, das universidades públicas de jornalismo e comunicação, de organizações dos direitos humanos e dos conselhos de igualdade. Mas não importa qual seja sua composição, a oposição sempre irá questionar e desaprovar a presença do Executivo nacional.

Há temores de que a lei possibilitará a censura, não?

Os direitos humanos e individuais devem ser respeitados. Existem alguns artigos relativos à responsabilidade dos meios de comunicação. Sempre que se publique alguma coisa, alguém deve ser responsável. Se o material não está assinado, então o meio deve responsabilizar-se pelo conteúdo. É o que chamamos responsabilidade solidária.

Se um meio de comunicação produz conteúdo discriminatório (contra homossexuais, negros ou indígenas, por exemplo) sua obrigação é prestar desculpas públicas. Essa é a sanção aplicada pelo conselho: uma punição moral. Mas se o veículo reincide pela terceira vez, o conselho começa a aplicar multas. A primeira corresponde a 10% do faturamento médio dos últimos dois meses. Mas as multas vão crescendo, pois o Estado entende que, se alguém emite reiteradamente conteúdos discriminatórios, está demonstrando um desprezo absoluto pelos direitos coletivos e individuais das pessoas – e isso não pode ser permitido, nem mesmo pelo código penal.

Outro tema conflitivo é a produção nacional. As grandes redes de televisão e os produtores nacionais associados a elas não têm muito interesse no desenvolvimento da produção audiovisual equatoriana – a não ser da sua própria. Dizer que 40% da produção deve ser nacional, e que não se computará nestes 40% a televenda, não são assuntos bem recebidos.

Há também certos direitos dos jornalistas, como a cláusula de consciência e o segredo da fonte, que são muito bem vistos por todos, mas... Os grandes meios os aceitam bastante bem na teoria, mas nem tanto na prática. A lei estabeleceu ainda direitos trabalhistas para os funcionários dos meios de comunicação para brindar-lhes algumas proteções sociais, porque é um mercado em que existe muita precarização.

Porém, não acredito que sejam artigos muito problemáticos. Como eu disse, os questionamentos não se encontram tanto pelo conteúdo do texto, mas pela polarização política do país e pelo que implica apoiar ou não apoiar a lei de comunicação.

E o que implica apoiar ou não a lei?

Muitos dizem que a lei é produto do governo nacional, que tem vocação controladora, que a estratégia dos governistas é passar um bom texto pela Assembleia para que o Executivo o modifique com seu poder de veto parcial. Existe a ideia de que apoiar a lei é soltar as rédeas para as pretensões autoritárias do presidente. Os que defendem essa tese não apoiarão a lei ainda que o texto seja maravilhoso. Por outro lado, a bancada governista argumenta que houve um longo processo legislativo, que a Constituição exige a aprovação da lei, que um referendo popular confirmou essa obrigação e é inadmissível que os deputados continuem devendo ao país uma lei de comunicação. Portanto, é uma polarização de posições políticas que não tem a ver necessariamente com o conteúdo da lei.

Então é a briga entre Rafael Correa e os meios de comunicação que está dificultando a votação e aprovação da lei?

Sim. Se o nível de enfrentamento entre a mídia e o presidente fosse menor, a lei talvez tivesse um caminho relativamente mais fácil. Talvez não, porque cada vez que mexemos no interesse dos grandes meios de comunicação, a reação é tremenda. Por isso não se pôde alterar o estado de coisas ao longo da história. Se não tivéssemos visto esse grau de enfrentamento, será que poderíamos ter avançado na elaboração da lei? Todas as vezes que tentamos corrigir as leis de comunicação, os meios silenciavam qualquer possibilidade de mudança. Por isso, não sei se a postura de Rafael Correa nos prejudicou ou beneficiou. Mas sei que, se o governo não tivesse patrocinado a lei, a situação continuaria exatamente igual.

Pode haver abusos por parte do Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação?

Não existem leis perfeitas que impossibilitem a ocorrência de infrações. A lei é um exercício de estruturação política e social realizado a partir de certos valores e direitos considerados importantes em determinado momento da vida de um país. Há mais dificuldade para aplicar a lei quando existe maior grau de arbitrariedade. Se as instituições de um país são administradas com arbitrariedade, ainda que a lei seja excelente, haverá atitudes arbitrárias.

Sinceramente, acredito que as fórmulas jurídicas estabelecidas na lei de comunicação são as melhores que conseguimos elaborar dentro de nossa cultura política e nível de desenvolvimento democrático. Mas não posso garantir que a lei em si mesma dê segurança jurídica à sociedade, porque as pessoas e instituições que irão operacionalizá-la – que a farão efetiva – ainda padecem de enormes margens de arbitrariedade. Isso não tem a ver com a lei, mas com a forma de exercer o poder no Equador e com a cultura política dos equatorianos, não apenas dos políticos, mas de todos os cidadãos. Infelizmente, a arbitrariedade e o exercício transgressor dos poderes públicos e privados ainda é uma norma imperante. Aqui, os poderes podem mais que as leis.

A lei de comunicação certamente funcionará bem para a maioria dos casos, mas quando houver dois grandes poderes enfrentados, o mais forte vencerá, sem dúvida. A lei tem artigos que impedem os abusos, mas o problema não é a lei. O problema é que quem aplica a lei ou se veja afetado por sua aplicação ativará seu poder para transgredi-la e desobedecê-la. E isso ainda é possível no Equador. A lei em si é boa, mas não garante segurança.

Como avalia as denúncias de que atualmente não existe liberdade de imprensa e de expressão no Equador?

Depende do que entendemos como liberdade de expressão. Vê-la apenas como livre fluxo de informações – que é o paradigma estabelecido nos Estados Unidos nos anos 1950 e adotado pelos grandes meios de comunicação – é encarar a informação como mercadoria. E, dentro do sistema em que vivemos, toda mercadoria deve circular livremente. Mas, podemos fazer uma análise mais complexa do que é informação e liberdade de expressão. As pessoas efetivamente têm direito de buscar, receber, produzir e fazer circular informação, mas em alguns casos essa informação deve ser qualificada.

Principalmente quando é uma informação de relevância pública: quando serve para que o cidadão decida sobre assuntos de seu interesse, sejam públicos ou privados de grande transcendência: a saúde de seu filho, por exemplo, ou medidas do governo que afetam à sociedade. Esse tipo de informação deve versar sobre a realidade, e não pode basear-se em rumores. Deve ser precisa e oferecer dados exatos. Deve ser produzida a partir de várias fontes, ser contrastada e contextualizada. Ou seja, a informação de relevância pública deve circular com toda liberdade, mas cumprir alguns requisitos de qualidade.

O problema é que os meios de comunicação costumam produzir informação enviesada, parcial, descontextualizada e não verificada, que, ainda por cima, obedece a seus próprios interesses. Não consigo aceitar que isso seja liberdade de expressão. Melhor dizendo, é manipulação da informação.

Vejo que Rafael Correa identificou e luta contra esse problema, mas também atende a seus próprios interesses como político. Nessa tensão entre mídia e presidente, quem perde somos nós, os cidadãos. A lei de comunicação propõe regras para que nem os poderes públicos nem os privados façam uso abusivo dos meios de comunicação – e para que todos tenham a responsabilidade de cumprir alguns requisitos e respeitar certos limites quando se trata de veicular informação de relevância pública. A lei foi pensada para beneficiar os cidadãos, mas, por sorte ou desgraça, está sendo proposta num contexto de confrontação aberta entre dois poderes titânicos.

No Equador, os meios públicos de comunicação foram criados recentemente, durante a gestão do presidente Rafael Correa. São efetivamente públicos ou seria mais correto dizer que são meios governamentais?

Todos os meios públicos do mundo nasceram sob a ingerência de algum governo, e com tendência a apoiar a administração. Com o passar do tempo, sempre existe gente dentro desses meios que começa a lutar por mais independência. E a autonomia vai sendo conquistada. No caso equatoriano, os meios públicos acabam de ser criados, e ainda estão vinculados à secretaria de comunicação da presidência. Seus funcionários têm lutado para ganhar autonomia em relação ao governo, mas ainda não venceram a batalha. Vai levar um tempo antes que consigam. Há um processo de transição que não sei quanto tempo vai demorar, mas que fará com que os meios sejam efetivamente públicos. Foi o que aconteceu em todos os países.

Como avalia a discussão e elaboração de leis de comunicação na América Latina?

Acredito que o que está acontecendo na Argentina, Uruguai, Bolívia, México e até mesmo no Brasil é uma evolução no paradigma que utilizamos para entender o papel dos meios de comunicação. Existe uma interpelação pela função social dos meios, da propriedade dos meios e do uso que se faz da comunicação. É um movimento novo. Estamos saindo da interpretação tradicional da liberdade de expressão como livre fluxo de informação para uma visão que diz: para que a liberdade de expressão seja possível, devemos criar condições materiais para que o exercício dessa liberdade se estenda a todos – e não apenas aos donos dos meios de comunicação. Acredito que esse paradigma deve ser estudado, revisado e criticado, mas parece ser irreversível. Estamos caminhando rumo a uma mudança substancial na maneira como se gestiona os direitos relacionados à liberdade de expressão e comunicação.

Reproduzido de RedeBrasil Atual
21 jul 2012

Leia também textos reproduzidos em Filosomídia:

"Equador, a um voto de aprovar regulação da comunicação", da Redação no Portal Vermelho (20/07/2012), clicando aqui.

Outras postagens sobre a democratização dos meios de comunicação no Equador, clicando aqui.

Nova relação de poder em escala mundial


Nova relação de poder em escala mundial

Emir Sader . Carta Maior
17/07/2012

Entre as coisas que mais incomodam a direita latino-americana estão os processos de integração regional. Um argumento forte que a direita sempre usava e que tende, cada vez mais, a perder força, é o que consideravam caráter inevitável da hegemonia econômica norteamericana, o que nos levaria, segundo a direita, a termos que nos submeter a políticas de subordinação aos EUA, sob o risco de ficarmos para trás nos processos de modernização e desenvolvimento econômico.

A atual crise econômica representa, entre tantas outras coisas, a culminação de um processo de enfraquecimento das economias do centro do capitalismo, depois de décadas de aplicação de políticas de livre comércio e de neoliberalismo. A crise profunda e prolongada em que estão imersas, tem consequências recessivas para o conjunto do sistema econômico mundial, mas não o suficiente para levá-lo, por inteiro à recessão. Seus efeitos políticos têm sido o oposto do que costumavam ser: ao invés de reafirmar o peso e o lugar incontornáveis dos países do centro, tem levado ao seu enfraquecimento. Os países que mais dependem deles são os mais afetados pela crise e pela recessão. Os modelos que eles afirmavam como inevitáveis, os levam à recessão prolongada, enquanto as economias que aplicam modelos distintos, conseguem se defender das ondas recessiva vindas do centro, mantendo níveis de expansão, associados a políticas sociais redistributivas.

A prioridade dos projetos de integração regional ao invés dos Tratados de Livre Comércio com os EUA revelam-se não apenas uma opção política coerente, como produzem efeitos econômicos favoráveis. A opção do México – o primeiro a assinar TLC na America Latina – se revelou frustrada: ao invés de impulsionar seu crescimento e renovação econômica, o condenou a atrelar seu destino ao da economia norteamericana – um dos epicentros da crise econômica internacional -, com mais de 90% do seu comércio exterior com os EUA e praticamente nenhuma comércio com a China e muito pequeno com a América do Sul, duas das principais fontes de crescimento econômico no mundo hoje.

Assim a opção preferencial pelos processos de integração Sul-Sul revelam não apenas uma postura de luta por um mundo multipolar, como mostram sua eficácia econômica, tirando da direita o argumento que não privilegiar relações econômicas com os EUA e a Europa levaria os países ao atraso, ao isolamento e à recessão.

Há uma nova correlação de forças econômicas em nível mundial e ela favorece o Sul do mundo em detrimento dos países do centro do sistema. Não se trata de uma reversão nas relações de poder, promovendo a hegemonia do Sul sobre o Norte, mas sim de uma situação que permite relações distintas às que predominaram desde o surgimento do sistema capitalista, como o colonialismo e o imperialismo que ele promoveu. Além de que o dinamismo econômico já não é monopólio dos países do centro, que podem seguir detendo vantagens do ponto de vista tecnológico, mas não podem aplicar esses elementos sem dinamismo econômico, com que não podem contar.

Do que se trata agora é de construir espaços de integração em nível mundial, conforme a visão e os interesses do Sul do mundo, que permitam superar o sistema institucional internacional que foi criado para consolidar e perpetuar o poder dos países centrais, hoje declinantes em escala mundial.

Reproduzido de Carta Maior
17 jul 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Despierta Latinoamérica


Despierta, es un movimiento de personas, de amigos que toman la palabra para hablar contigo y con todos, de todo aquello que nos encamine a tener una consciencia más clara del mundo en que vivimos para poder establecer los verdaderos caminos que nuestros destinos deban tomar. DESPERTAR!

Equador, a um voto de aprovar regulação da comunicação


Equador, a um voto de aprovar regulação da comunicação

Redação
Vermelho
20/07/2012

O Equador está prestes a entrar no seleto grupo de países sul-americanos que recentemente democratizaram seus meios de comunicação. Nos últimos anos, apenas Argentina, Uruguai e Bolívia se mobilizaram para destinar ao menos 33% das frequências de rádio e televisão para organizações sociais sem fins lucrativos, que agora dividem a programação com meios públicos e privados.

Batizada como Lei Orgânica de Comunicação, Liberdade de Expressão e Acesso à Informação Pública, o texto equatoriano foi escrito, reescrito, discutido e rediscutido durante dois anos, e desde abril está pronto para ser votado pela Assembleia Nacional. Só não foi enviado ao plenário ainda porque o governo, que patrocina a lei, não conseguiu maioria absoluta para aprová-la. A oposição tampouco arrebanhou os votos necessários para rechaçá-la. A diferença é mínima: um deputado.

O Congresso equatoriano é unicameral – não existe Senado – e conta com 124 parlamentares. Os governistas possuem 62 votos garantidos. A bancada contrária ao projeto, 61. Um parlamentar deverá definir a sorte da lei, mas não do texto integral. Após negociações, surgiu a proposta de que a votação ocorresse artigo por artigo. A assembleia aceitou, e a matéria deve ser apreciada até o fim deste mês. Ou agosto. Ou setembro: depende de quem conseguir maioria primeiro. Tudo indica que o governo está na frente.


Histórico

A lei de comunicação não nasceu da cabeça do presidente Rafael Correa ou da bancada que seu partido, Alianza País, sustenta no Legislativo. Elaborá-la foi uma proposta da sociedade equatoriana, que, por sua vez, fez por onde escrevê-la na Constituição de 2008. De anseio popular, portanto, passou a ser uma obrigação do Legislativo, reforçada por um referendo que, em 2011, dirimiu qualquer dúvida sobre a vontade do povo em ver os deputados trabalhando num novo ordenamento jurídico sobre a radiodifusão nacional.

Em teoria, o Equador deveria ter aprovado uma lei de comunicação em 2009, um ano depois de aprovada a Carta Magna. Mas não foi possível – e por várias razões. A já citada correlação de forças partidárias dentro da Assembleia Nacional é uma delas. Outra, talvez a principal, é a complexidade política que envolve toda tentativa de legislar sobre o tema nos países latino-americanos, órfãos de pluralidade midiática.

“Existe uma enorme confrontação entre o governo nacional e os meios de comunicação privados”, explica Romel Jurado, assessor do deputado Mauro Andino, presidente da Comissão Temporária de Comunicação, que escreveu o projeto de lei. “O presidente da República diz que a grande mídia está submetida a interesses empresariais, que manipula a realidade a favor de seus próprios interesses e que, por isso, não cumpre sua função social. Já os meios de comunicação reafirmam sua independência, acusam o regime de querer roubar-lhes a voz e dizem que estamos vivendo sob um governo autoritário que não gosta da imprensa.”

É uma briga entre poderes titânicos, conclui Romel Jurado. Mas o atraso da lei também se deve a outros motivos mais nobres. “É a primeira vez que um país assume o desafio de regulamentar todos os direitos e deveres relacionados à comunicação, e não apenas aos serviços de rádio e televisão”, contextualiza o assessor. “O debate ficou complexo, não apenas em termos jurídicos, mas também conceituais: primeiro, tivemos de entender o que é comunicação para só depois esboçar um projeto.”

Frequências

O projeto de lei para regulamentar a comunicação equatoriana tem 127 artigos, alguns mais controversos que outros. O que deverá causar mais impacto social é a divisão de frequências de rádio e televisão. O texto propõe que 33% dos canais fiquem para os meios privados, 33% para os públicos (nos níveis nacionais, provinciais, cantonais e paroquiais) e 34% para os comunitários. As transmissões digitais estão incluídas na divisão: a lei impedirá que os proprietários de sinais analógicos multipliquem suas concessões com a chegada das novas tecnologias.

“A divisão do espectro radioelétrico é o melhor do texto”, define José Ignacio Lopez Vigil, diretor da ONG Radialistas Apaixonadas e Apaixonados, com sede em Quito, que produz clipes radiofônicos difundidos por emissoras livres e comunitárias de toda a América Latina. “Você pode definir como quiser a liberdade de expressão e o direito à comunicação, mas a questão é quem fica com as frequências. No fim das contas, o poder midiático está com quem possui canais de rádio e televisão.”

José Ignacio foi um dos membros da comissão que, em 2009, verificou a validade das concessões midiáticas no Equador – e tirou a sujeira debaixo do tapete. No período de 13 anos analisado pela auditoria, diz, as frequências foram roubadas, traficadas e vendidas ilegalmente. Caso a lei de comunicação seja aprovada, as revelações servirão de subsídio para reverter e redistribuir os canais de rádio e tevê concedidos de maneira irregular.

A auditoria mediu ainda o tamanho do oligopólio midiático no país. “Aqui não existem empresas como Televisa, Globo ou Clarín, mas umas dez famílias que controlam mais da metade das frequências”, compara José Ignacio. “A concentração também se manifesta por setores: 97% do espectro está nas mãos dos meios privados e apenas 3% pertencem às organizações comunitárias.” Emissoras públicas só passaram a existir com a eleição de Rafael Correa.



Poder versus lei

Para distribuir, reverter e tomar qualquer decisão relativa ao espectro radioelétrico, o projeto de lei institui o Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação. Terá seis membros, que representarão o governo nacional, os governos locais, os conselhos nacionais de igualdade, as faculdades públicas de comunicação, as organizações de direitos humanos e, claro, os povos indígenas, que por pouco não ficaram de fora.

Se fosse nomeado hoje, o conselho teria automaticamente pelo menos três votos favoráveis ao governo. E esse domínio incomoda, porque Rafael Correa controla os demais órgãos colegiados que deveriam ser independentes do Executivo. “Se o conselho de comunicação for tão manipulado como outras instâncias estatais, que perderam toda autonomia frente ao tremendo presidencialismo que temos aqui, a lei será um papel morto”, analisa José Ignacio.

O movimento indígena equatoriano concorda. “O cumprimento das leis só será possível se garantirmos no país a independência dos poderes, que é um pilar fundamental da democracia”, opina Diana Atamaint, deputada do Pachakutik, braço político das organizações indígenas, que, apesar de serem históricos defensores da divisão de frequências, decidiram votar contra todos os artigos da lei de comunicação. “O texto é medianamente aceitável, mas nada impede que o governo passe por cima de seus artigos e impeça os cidadãos de exercerem seus direitos.”

Romel Jurado, um dos principais responsáveis pelo conteúdo do projeto, explica que já não existem contestações sérias ao texto dentro da Assembleia. De acordo com o secretário, quase todos os parlamentares já se pronunciaram direta ou indiretamente simpáticos aos artigos da lei. O problema, identifica, está na polarização política em curso no país: presidente, meios de comunicação e movimentos sociais estão em pé de guerra e simplesmente não conseguem dialogar para além dos insultos mútuos. É caldo de cultivo ideal para proliferação de pulgas atrás d'orelha.

“A lei propõe regras para que nem os poderes privados nem os poderes públicos possam fazer uso abusivo dos meios de comunicação, para que todos cumpram com certos requisitos e atendam a certos limites”, define. “O texto é o melhor que pudemos elaborar dentro de nossa cultura política e democrática, mas não posso garantir que a lei por si só brinde segurança jurídica às pessoas. A arbitrariedade e o exercício transgressor dos poderes infelizmente ainda são uma norma operante no Equador.”

Liberdade de expressão

Quem se opõe ao projeto de lei não cansa de recordar um caso em especial, que envolveu o maior diário do país. Após a rebelião policial que no dia 30 de setembro de 2010 quase resultou no assassinato de Rafael Correa, um articulista do El Universo escreveu artigo acusando o presidente – ao qual se referia como ditador – de haver cometido um crime de lesa-humanidade ao refugiar-se dentro de um hospital. Quando a poeira baixou, jornal e jornalista foram processados e condenados a pagar uma indenização de US$ 40 milhões, além de cumprir três anos de prisão por calúnia e difamação.

“Acreditamos que a lei de comunicação pode servir como ferramenta para controlar politicamente a oposição, não apenas nesta, mas em qualquer administração”, prevê a deputada Diana Atamaint, ela mesma alvo de um processo judicial após ter dado declarações à emissora de televisão Ecuavisa sobre supostos esquemas de corrupção no governo. “Quem opina diferente ou questiona o presidente e seus funcionários responde na Justiça por danos morais e é obrigado a pagar indenizações milionárias.”

A oposição acredita que, com a aprovação da lei, o presidente vai legalizar seus atropelos à liberdade de expressão. “Aí depende de como você entende a liberdade de expressão”, problematiza Romel Jurado. Para o secretário da Assembleia Nacional, o termo significa muito mais do que apenas a livre circulação de informações prontas para consumo, como se fossem mais uma mercadoria à disposição de leitores e telespectadores.

“Aquela informação que tenha relevância pública deve observar algumas características: deve ser precisa, versar sobre fatos reais, oferecer dados exatos, ser produzida a partir de várias fontes, dar espaço ao contraditório e estar devidamente contextualizada”, argumenta. “A informação de qualidade sempre irá circular livremente. O problema é que os meios de comunicação costumam veicular informação enviesada, parcial, descontextualizada e não verificada, que obedece apenas a seus próprios interesses. Não posso aceitar que isso seja liberdade de expressão. É, melhor dizendo, manipulação.”

Sobretudo, o projeto de lei reconhece, em seu artigo 17, o direito de cada cidadão expressar-se livremente e, claro, responsabilizar-se pelo que diz. O vale-tudo midiático deixa de existir, ficando terminantemente proibida a veiculação de conteúdos discriminatórios, que atentem contra a honra e a reputação das pessoas ou firam sua intimidade. Também estabelece, no artigo décimo, uma série de recomendações às pessoas – jornalistas ou não – envolvidas no processo comunicacional: respeitar a presunção de inocência, não obter informação de maneira ilícita, proteger a imagem de crianças e adolescentes, distinguir claramente notícias de opiniões etc.

“Se um meio de comunicação descumpre as normas, o Conselho de Regulação analisa a falta e determina a punição, que é desculpar-se publicamente. Apenas quando o veículo reincide pela terceira vez é que começam a se aplicar multas”, explica Romel Jurado. “As sanções financeiras vão crescendo porque o Estado entende que, se alguém continua emitindo conteúdos discriminatórios apesar das multas, é porque tem um despreço absoluto pelos direitos coletivos e individuais das pessoas.”

Caminho sem volta

A lei determina ainda que a publicidade oficial deverá ser distribuída entre meios públicos, privados e comunitários, nas zonas rurais e urbanas, independentemente de seu alcance – nacional, regional ou local. Obriga que 40% da programação veiculada por canais de rádio e tevê sejam produzidas dentro do Equador, e que as emissoras reservem espaço para a música nacional e para produções culturais em línguas indígenas. No âmbito trabalhista, garante uma série de direitos aos funcionários dos meios de comunicação, que hoje em dia enfrentam um mercado laboral repleto de precarização.

“Sabemos que poderão aprovar a lei, que talvez até já tenham os votos suficientes, mas o texto que entrará em vigência não é o que buscamos com nossa luta para reivindicar mais igualdade em relação ao Estado e à sociedade”, defende Diana Atamaint, deputada do Pachakutik. “Podemos ter as melhores leis, mas o que importa é a vontade política dos governos em aplicá-las.”

Apesar de todas as desconfianças, que são compreensíveis dentro do contexto equatoriano, José Ignacio López Vigil acredita que o mais importante para o país neste momento é que haja uma lei de comunicação. Principalmente porque a legislação vigente foi elaborada em 1975, durante a ditadura militar, e reformada 20 anos depois sem grandes mudanças. “Com o novo texto, o Equador teria uma lei moderna: suscetível de manipulação, como todas as leis, mas, ainda assim, boa, inserida nos padrões internacionais.”

Romel Jurado acredita que as discussões que se desenvolvem com mais ou menos força em todos os países da América Latina sobre a função da mídia deverão apontar para uma mudança de paradigmas no uso que historicamente tem sido feito dos meios de comunicação. “Para que exista plena liberdade de expressão, devemos criar condições materiais para que todos, e não apenas aos donos das emissoras, possam exercer essa liberdade”, avalia. “Devemos estudar, debater e refletir, mas transformar a maneira como entendemos o direito à comunicação é um caminho irreversível.”

Reproduzido de Brasil Atual
20 jul 2012

Leia também:

“Projeto de Lei Orgânica de Comunicação do Equador” clicando aqui.

Outras postagens em Filosomídia sobre a democratização dos meios de comunicação no Equador, clicando aqui.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Brasília: Seminário Internacional debate uso de Tecnologias na Educação



Seminário Internacional debate uso de Tecnologias na Educação

Representantes do setor educacional de nove países da América Latina estarão reunidos até a próxima sexta-feira, 15, em Brasília, durante o Seminário Latino-Americano de Disseminação de Conteúdos Digitais, que discutirá a presença e implantação das tecnologias digitais nas escolas do continente.

Participaram da abertura do evento, na tarde desta quarta-feira, 13, representantes dos Ministérios da Educação do Brasil, Colômbia, Equador, Uruguai, Peru, El Salvador, Guatemala e Paraguai, além de entidades voltadas para a formação de professores e difusão de políticas públicas educacionais, como a Fundação SM, da Espanha, e a Fundação Centro de Estudos de Políticas Públicas (CEPP) de Buenos Aires, respectivamente.

De acordo com a diretora de formulação de conteúdos educacionais do MEC, Mônica Franco, o evento deve resultar em um novo modelo de referências nos países envolvidos para o uso de tecnologias nas escolas. “As referências na América Latina costumam ser de países de outros continentes, e com a troca de experiências neste evento procuramos mudar isto”, disse. Em sua apresentação a gestora descreveu o cenário atual da educação brasileira.

Para Gustavo Iaies, Diretor do Centro de Estudos de Políticas Públicas, não se pode provocar uma ruptura no sistema de ensino existente ao incentivar o uso de novas tecnologias. “Quando pensamos em novos instrumentos, pensamos em melhorar a estrutura existente nas salas de aula. Não podemos desmontar a escola que temos hoje”, afirma. Ele também ressalta que se deve pensar na comunidade na preparação para o uso das tecnologias no ambiente escolar e que há muito por ser feito no entorno, além de preparar os professores, ao instituir uma política pública neste sentido.

Debate – O primeiro dia de reunião contou ainda com um debate a respeito do uso de conteúdos digitais na aprendizagem. Em sua explanação, a conferencista e consultora do CEPP, Elena García, lembrou que existem diversos pontos a serem levados em consideração quando se propõe o uso de conteúdos digitais nas escolas. ”Quando falamos em tecnologia da informação temos de pensar a qual geração nos referimos”, afirmou, ao descrever a evolução dos instrumentos tecnológicos na aprendizagem durante as últimas décadas.

No debate, em que foram apresentados exemplos de atividades que podem ser desenvolvidas online, também foi ressaltado que, além de incluir as novas tecnologias nas salas de aula, deve-se atentar para a sua correta utilização, para que sejam melhor aproveitadas. “Com isso quero mostrar que um conteúdo pode ou não ser educacional”, destacou.

Ao longo dos próximos dois dias os países participantes apresentarão suas políticas para implantar e disseminar o uso de tecnologias digitais no aprendizado dos alunos, além dos problemas e abordagens comuns em torno desta política no continente.

Assessoria de Comunicação do MEC

Reproduzido de Portal MEC
13 jun 2012
Prefeitura Municipal de Florianópolis

Foto: Para a diretora de conteúdos educacionais do MEC, Mônica Franco, as referências para a educação na América Latina devem ser do próprio continente.
Foto por Fabiana Carvalho.

Leia também:

“Para conferencista, tecnologia deve ser adaptada à Educação” no Portal do MEC (14/06/2012), clicando aqui.