terça-feira, 26 de junho de 2012

Regulação: "Senhor ministro, o que falta?"


Senhor ministro, o que falta?

Por Venício A. de Lima em 26/06/2012 na edição 700

Um ano e meio após a posse da presidenta Dilma Rousseff, o ministro das Comunicações Paulo Bernardo fez um importante pronunciamento sobre “Regulação e Liberdade de Expressão”, na abertura do 26º Congresso da Abert, em Brasília, na terça-feira (19/6). Estava lá boa parte dos concessionários do serviço público de radiodifusão. Ausentes os empresários filiados a Abra (redes Band e RedeTV!) e a Abratel (Rede Record).

Trata-se, sem dúvida, do mais claro posicionamento deste governo sobre o tema até o dia de hoje [ver aqui a íntegra do discurso do ministro].

A cobertura da grande mídia sobre a abertura do Congresso da Abert, por óbvio, optou por destacar a “flexibilização” do horário de transmissão da Voz do Brasil e as garantias sobre a “liberdade da imprensa” – como se ela estivesse sob constante ameaça. Uma leitura isenta do pronunciamento do ministro as Comunicações, todavia, não poderá ignorar que, além das reiterações de praxe sobre o respeito à liberdade de expressão e a ausência de incompatibilidade entre regulação e democracia, estão lá as seguintes afirmações:

1. A questão de um marco regulatório para as comunicações no Brasil se transformou em questão de “bom senso”:

“Quanto à necessidade de regulação, ou de atualização das leis que regem a comunicação no Brasil, minha expectativa é de que o tema avance e ganhe apoio rapidamente, até por questão de bom senso”;

2. A legislação do setor está totalmente defasada e as normas e princípios constitucionais sobre o assunto não foram regulamentadas:

“O rádio e a televisão são regulados por uma Lei que completa meio século de vida em 27 de agosto próximo. Se não bastasse, a Constituição de 1988 prevê que questões como a programação local e independente ou o estímulo à cultura regional sejam regulamentadas. E até hoje inexiste qualquer lei que discipline como isso deve ser feito”;

3. Não deve surpreender, portanto, que exista uma série de questões concorrenciais, jurídicas e estratégicas que não encontra resposta no quadro legal existente. Alguns exemplos:

“A regra que obriga o controle de empresas jornalísticas por capital brasileiro vale para a internet? As empresas que vendem conteúdos online ou em televisores conectados devem ser submetidas a regras semelhantes às da TV paga ou radiodifusão? O que deve ser feito para que o audiovisual brasileiro continue a ser produzido e veiculado em um mercado no qual a infraestrutura e os serviços estão em mãos de grandes empresas multinacionais? Como se pode garantir a livre circulação de conteúdos e a pluralidade de fontes de informação em um mercado que tende à concentração, como é o caso das telecomunicações ou dos gigantes da Internet? Quais devem ser os mecanismos para que o Brasil continue a contar com um ambiente jurídico e normativo que permita, no longo prazo, que empresas continuem a prestar serviços gratuitos, como é o caso atual do rádio e da televisão?”;

Acesso plural

4. A possibilidade de avanços na normatização do setor chegou ao limite. Não há como prosseguir sem um novo marco regulatório:

“Com a modernização do Regulamento de Serviços de Radiodifusão (...) chegaremos ao limite dos avanços infralegais que podem ser feitos no atual ambiente regulatório das comunicações. Para irmos além, precisamos de uma nova Lei – e não podemos esperar que o rádio e a televisão sejam substituídos pela Internet para dar início à sua formulação”;

5. Os objetivos de uma Lei Geral proposta pelo Executivo não incluem a prática do jornalismo e, portanto, não se aplicarão a jornais e revistas. São eles:
“(a) regulamentar os artigos constitucionais relativos à comunicação eletrônica,(b) modernizar as regras provadamente defasadas e (c) possibilitar o tratamento à convergência tecnológica”;

6. A ausência de interferência do Estado (liberdade negativa) não é garantia da liberdade de expressão. É necessário que o cidadão comum tenha também garantidos seu direito de acesso à informação e às tecnologias que “mediam” o debate público:

“Abominamos a censura ou o que se chamou de “controle sobre a mídia”. Do mesmo modo, sabemos que o pleno exercício das liberdades individuais vai muito além da não interferência do Estado nas atividades jornalísticas. Ele passa pelo acesso dos cidadãos às variadas fontes de informação e meios de comunicação”.

Questão premente

A nota à imprensa divulgada pela Abert ao término do seu 26º Congresso fala em “resultados altamente positivos” e destaca especificamente “a garantia do governo, através do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, de que o novo marco legal da comunicação eletrônica será fruto de diálogo com toda a sociedade e que seu conteúdo respeitará os princípios de liberdade de expressão e de imprensa, sem impor qualquer tipo de controle sobre os veículos de comunicação no país” (ver aqui a íntegra da nota).

Nas últimas semanas, setores impermeáveis até mesmo ao debate sobre um marco regulatório para as comunicações têm feito declarações reconhecendo a necessidade de uma proposta legal e de sua discussão pública.
Diante desses fatos, reaparece a incontornável questão: o que impede o governo da presidente Dilma de colocar em debate uma proposta de regulação para setor de comunicações?

Senhor ministro, o que falta?

26 jun 2012

domingo, 24 de junho de 2012

Fórum Mundial de Mídia Livre: as lutas pela democratização da mídia e solidariedade internacional


Fórum Mundial de Mídia Livre: as lutas pela democratização da mídia e solidariedade internacional

Redação
Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
19/06/2012

Como parte da programação da Cúpula dos Povos – evento paralelo à Rio+20 –, o Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML) aconteceu neste final de semana, no Rio de Janeiro. O evento reuniu cerca de 250 midialivristas do Brasil e de países como Colômbia, Argentina, China, França, Itália, Moçambique, Equador e Curdistão. O debate girou em torno dos desafios e das conquistas relacionadas à liberdade de expressão e acesso à informação na América Latina e no Oriente Médio.

A campanha pela liberdade de expressão, que reivindica ações concretas do governo federal para encaminhar o projeto do novo marco regulatório da comunicação no país, também foi apresentada. De acordo com João Brant, do coletivo Intervozes e da comissão executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o direito à comunicação está historicamente relacionado à liberdade de expressão e a concentração dos meios de comunicação constitui um dos maiores problemas do setor.

O Brasil ainda não tomou as atitudes necessárias para tornar a comunicação mais democrática, apontou Rita Freire, coordenadora da Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada. Ela apresentou um panorama da luta pela mídia livre no Brasil e no mundo, destacando que é preciso compreender a comunicação como estratégica a todas as lutas dos povos, em especial durante a Rio+20. “A comunicação é estratégica para mostrar o protagonismo dos povos nas soluções para a crise socioambiental”, afirmou.

Ivana Bentes, coordenadora do curso de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ratificou essa visão. “ “Na Cúpula dos Povos e na Rio+20, está sendo discutida a questão dos recursos finitos. Na comunicação ocorre o oposto. A produção é imaterial e os recursos, ilimitados. Mas temos cercas que a transformam em algo restrito, escasso”. Segundo Bentes, legislações restritivas e os crescentes ataques à liberdade na Internet, como a criminalização do compartilhamento, barram a proliferação das mídias livres.

De acordo com Bia Barbosa, também do coletivo Intervozes, o objetivo do FMML é que o encontro termine com ações concretas aprovadas. “Queremos articular propostas para que esse não seja só mais um fórum”. De acordo com ela, “os países vivem tempos históricos diferentes, mas todos enfrentam realidades muito semelhantes no campo da comunicação”.

Mídialivrismo digital

Os chamados “levantes conectados”, como os movimentos globais de ocupação iniciados a partir do Occupy Wall Street, além da Primavera Árabe e da Revolta dos Indignados, na Espanha, são objetos de análise fundamentais para compreender o papel das mídias livres. A afirmação é de Renato Rovai, editor da Revista Fórum. Segundo ele, a mobilização do Occupy foi motivado por uma revista alternativa canadense, a Adbusters, veículo anticonsumista, mantido por leitores.

Representando o coletivo Fora do Eixo, Driade Aguiar ressaltou: “Temos que pensar a comunicação como uma ferramenta de mobilização. É através dos softwares e hardwares que vamos conseguir trazer as pessoas para as ruas”. Para ela, colaboração e pluralidade das plataformas de comunicação são questões que entram no debate do software livre e dos direitos sociais. “É uma maneira de se apropriar das técnicas e do conhecimento simbólico”, destacou.

Experiências internacionais

Nelsy Lizarazo, da Associação Latino-americanade Educação Radiofônica, apontou que, em países como o Equador, a luta pela democratização da comunicação está sendo incoporada por muitos grupos comunitários. “Comunicação é um direito e a luta é por novos marcos nos processos de legislação e políticas públicas. A redistribuição de frequências nas empresas de mídias é uma questão central, que envolve poder. Há uma necessidade de pluralização das vozes e de relatos, de cultura e conhecimento necessários para a democracia”.

A argentina Magali Ricciardi Yakin, que participou da iniciativa Comunicação Compartilhada para o Projeto Nacional (Copla), contou a experiência de seu país na reconquista de espaços cidadãos na comunicação, que culmino, em 2009, na Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual. “Nesses últimos anos houve dificuldade de implementação, mas recentemente o Legislativo cobrou as ações. E ocorreram algumas melhorias, como a capacitação da sociedade civil e meios comunitários, além do projeto de TV aberta com fibra ótica gratuita. Estudantes da rede pública também começaram a receber netbooks, com a idéia de compartilhar o acesso com as famílias e comunidades”.

As lutas pelo espaço democrático na comunicação do Curdistão, no Oriente Médio, foram discutidas por Yilmaz Orkan, da organização de redes sociais Kurdishnetwork e vice-presidente de relações internacionais e desenvolvimento da Kon-kurd (Confederação de Associações dos Curdos na Europa). “Com o golpe militar, a população reagiu abrindo jornais e outros meio de comunicação via Internet. Até três meses atrás, tívemos muitos problemas de acesso. A internet é frenquentemente proibida para o povo curdo”, disse.

Orkan também mencionou episódios sangrentos relativos à luta pela democracia em seu país: a repressão teria sido responsável pelo assassinato de 66 jornalistas do veículo “Livre e atual” e pela condenação de seu diretor a 147 anos de prisão. Segundo ele, para tentar furar o cerco midiático, o movimento abriu um canal de TV na Dinamarca, mas “o governo turco interviu através da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e conseguiu o fechamento”.

Ele destacou que, após a Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada ter publicado dois artigos sobre o povo curdo, muitas pessoas se interessaram em conhecer sua realidade. Para Orkan, o fato remete à importância da solidariedade internacional, inclusive no campo das mídias livres.

Da redação, com informações da Revista Fórum, Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada e Mercado Ético

Reproduzido de clipping FNDC
19 jun 2012

sábado, 23 de junho de 2012

A comunicação como direito e bem comum


A comunicação como direito e bem comum

Redação
21/06/2012

O Rio de Janeiro foi o cenário do II Fórum Mundial de Mídias Livres, nos dias 16 e 17 de junho, no marco da Cúpula dos Povos - Rio+20. Após debater aspectos como direitos da comunicação, gênero, tecnologias e políticas públicas, em sua sessão plenária o Fórum reuniu as propostas formuladas, que incluem, entre outras, iniciar um processo para elaborar uma Carta de princípios das Mídias Livres. Por sua vez, acordou encaminhar várias das propostas à Plenária da Cúpula sobre "Defesa dos Bens Comuns contra a Mercantilização”.

Nesse marco, um dos objetivos é fortalecer a articulação entre movimentos sociais e mídias livres, para enfrentar a hegemonia das grandes mídias nos debates ambientais e sociais.

Da mesma forma, aborda-se a importância de políticas públicas para impulsionar a educação midiática no sistema escolar. Neste sentido, nos debates foi ressaltada a importância de um currículo educativo que não ensine somente a ler e a receber os conteúdos midiáticos com olhos críticos, mas também que forme uma cidadania com capacidade de apropriação das ferramentas e destrezas para ser produtora de conteúdos.

Considerando a educação como um bem comum, o Fórum propõe igualmente que os movimentos utilizem e se apropriem das mídias livres para fortalecer a solidariedade entre os povos que estão em luta pelos direitos e pela liberdade, a fim de romper a barreira midiática.

Também objetiva lutar por novos marcos regulatórios que garantam a liberdade de expressão para todos/as e pela universalização do serviço de banda larga pública e de qualidade.

Os intercâmbios abordaram também a diversidade das lutas em matéria de direitos, tendo em conta a situação de repressão e censura que ainda existe em muitas partes do mundo – particularmente no Oriente Médio-, mas também os debates que foram abertos em outros países, especialmente na América Latina, sobre novos direitos e a necessidade de políticas para romper os monopólios e oligopólios das mídias. Nesse âmbito, ressaltou-se a nova legislação argentina que estabelece a repartição igualitária das frequências de rádio e televisão entre mídias públicas, privadas e sem fins lucrativos. E desde o país sede do Fórum, Brasil, se informou a campanha "Regula Dilma” que será lançada no dia 27 de agosto para exigir à presidenta a elaboração de um novo marco regulatório de comunicação.

Com esse espírito, as propostas para a Plenária de Convergência contemplam também denunciar o fato de que as mídias corporativas mundiais inibem e limitam a liberdade de expressão; mas que também vários governos a censuram. Neste sentido, foi sugerida a ideia de organizar uma grande campanha internacional pelo direito à comunicação e à liberdade de expressão para todos e todas.

A notícia é da ALAI | Minga Informativa de Movimentos Sociais Convergência de Comunicação dos Movimentos na Cúpula

Reproduzido de clipping FNDC
21 jun 2012

“Não vou mudar de lado: Haddad é o melhor candidato”


“Não vou mudar de lado: Haddad é o melhor candidato”

Najla Passos
Carta Maior
21/06/2012

Apesar de ter desistido de concorrer como vice à Prefeitura de São Paulo, na chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT), a deputada Luíza Erundina (PSB-SP) descartou a possibilidade de apoiar outro candidato: “Minha desistência não significa recusa ao Haddad ou ao projeto que ele representa. Nada me move ou me leva a sair deste campo onde eu sempre estive, que é o campo socialista. Eu não vou mudar de lado nunca”.

Brasília - Apesar de ter desistido de concorrer como vice à Prefeitura de São Paulo, na chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT), a deputada Luíza Erundina (PSB-SP) descartou, nesta quarta (20), em coletiva à imprensa, a possibilidade de apoiar outro candidato nas eleições deste ano. “Minha desistência não significa recusa ao Haddad ou ao projeto que ele representa. Esse compromisso permanece, até porque é um compromisso com minhas bases em São Paulo. Nada me move ou me leva a sair deste campo onde eu sempre estive, que é o campo socialista. Eu não vou mudar de lado nunca”, esclareceu.

A deputada atribuiu sua desistência única e exclusivamente ao espaço que o partido deu ao presidente estadual do PP, deputado Paulo Maluf, com quem firmou aliança na última segunda (18). Sua renúncia, inclusive, foi anunciada após publicação, pela imprensa, de uma foto em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta Maluf, após visita à residência dele, no bairro Jardins, em São Paulo. “Não foi a foto em si, mas o simbolismo dela, o que ela representa. O fato do ex-presidente Lula, com a força que tem, com a popularidade que tem, ir à casa do Maluf. Uma pessoa só vai a casa da outra quando mantêm relações de amizade, relações de respeito mútuo”, observou.

Para Erundina, Lula errou ao aceitar se reunir com Maluf em ambiente privado e firmar uma aliança com ele, em troca de espaço na TV para a campanha de Haddad. “É um preço muito alto por uma coisa tão pequena. Mídia é importante, mas não é tudo em uma campanha. Caso contrário eu não teria me elegido há 22 anos”, disse. E, após reconhecer que não manteve contatos recentes com o ex-presidente, alfinetou: “Lula é sensível. A essas alturas ele já deve ter percebido o fora que deu”.

Erundina contou que, quando aceitou ser vice na chapa de Haddad, não foi informada das pretensões do PT em firmar aliança com o PP de Maluf. “A presença do Maluf só atrapalha, só desqualifica, só afasta as pessoas”.

Entretanto, admitiu que não é ingênua e que não descartava essa hipótese, principalmente em função das relações que os dois partidos mantém em âmbito nacional. “Eu estive na residência do Haddad, no domingo à noite, e ele minimizou o acordo com o PP e disse que estava esperando o retorno da direção nacional do PT. Eu achava que a aliança até poderia ser fechada, mas na sede de um dos partidos, de uma forma mais institucional”, justificou.

Para a parlamentar, Maluf representa o que há de pior para a política brasileira, por ser procurado pela Interpol e, principalmente, “pelo estrago que ele fez à democracia do país”. “Ele se alinhou com a ditadura, foi prefeito biônico e construiu cemitérios para desova dos corpos de militantes de esquerda que sumiram, que foram vítimas de tortura. Quando eu fui prefeita, nos identificamos uma vala clandestina, no Cemitério de Perus, com oito corpos de desaparecidos políticos da Ditadura Militar. Portanto, conviver com esta criatura não dá. Muito menos, fazer política com ele”, explicou.

Questionada se Maluf já não estaria morto politicamente antes da aliança, foi contundente. “Maluf é muito vivo. Ele parecia morto e enterrado, e por isso investiu pesado para ser resgatado pelo PT. O que ele quer, agora, é se higienizar ao lado de forças políticas que não o representam, porque nós estamos em pleno processo de revelação dos crimes da ditadura”, observou.

Provocada pela mídia, Erundina admitiu que considera a aliança com o PP uma “concessão de princípios”. Porém, afirmou que não irá permitir que sua desistência seja utilizada pelo campo da direita para prejudicar o projeto que o campo socialista, incluindo o PT e seu partido, têm para a prefeitura de São Paulo. “O Maluf tem muito mais a ver com o outro campo e só não está lá porque não aceitaram pagar o preço alto que ele cobrou: a Secretaria de Habitação de São Paulo”.

De acordo com ela, a decisão de deixar a chapa de Haddad foi, também, uma forma de preservar o projeto encabeçado por ele. “Se eu continuasse, teria que passar o tempo todo me justificando pela saia justa de estar ali junto com o Maluf. E isso atrapalha qualquer processo eleitoral. Foi uma decisão muito difícil, mas fiz o que julguei correto”, acrescentou.

Reproduzido de clipping FNDC
21 jun 2012

Altamiro Borges: Merval Pereira é uma “farsa histórica”


Altamiro Borges: Merval Pereira é uma “farsa histórica”

Merval Pereira se acha mesmo um “imortal”. Em seu artigo de ontem no jornal O Globo, ele insinuou que o ex-presidente Lula é uma “farsa histórica”. O motivo de mais este ataque histérico é a famosa foto de Lula junto com Maluf, superexplorada pela mídia demotucana. Para o “talentoso” integrante da ABL, a imagem “é simbólica de um momento muito especial da infalibilidade política de Lula”.


Por Altamiro Borges

O colunista da famiglia Marinho nunca entendeu os altos índices de popularidade do ex-presidente, num caso doentio de ódio de classe. Daí sua excitação com a tal foto. A imagem seria, caso o tucano Jose Serra vença as eleições em São Paulo, “a marca da decadência política de Lula, que estará então encerrando um largo ciclo político em que foi considerado insuperável na estratégia eleitoral”.


A torcida pelo tucano Serra

Merval até justifica os acordos políticos feitos pelos tucanos. “Até o momento, as alianças com Maluf eram feitas por baixo dos panos, de maneira envergonhada, como a negociação em que o PSDB paulista fechava um acordo com o PP em busca de seu 1m30s de tempo de propaganda eleitoral”. Mas ele não tolera a participação do ex-presidente no jogo bruto da política.

Para ele, Lula está obcecado pelo poder, não tem escrúpulos na política de alianças e ruma para o declínio. “A sucessão de erros políticos que Lula parece vir cometendo nos últimos meses – a escolha de Haddad, o encontro com Gilmar Mendes, a CPI do Cachoeira, o acordo com Maluf – só será superada se acontecer o que hoje parece improvável, uma vitória de Fernando Haddad”.

Os bastidores das alianças na ABL

Merval Pereira, tão preocupado com a política de alianças nos últimos anos, só não consegue explicar porque o Lula, com a sua “sucessão de erros”, conseguiu se eleger e reeleger presidente e ainda garantiu a vitória de sua sucessora, Dilma Rousseff. Isto apesar de toda a campanha de satanização da mídia hegemônica, a quem ele presta serviços.

Já que está tão indignado com a crise das alianças, “que explicita uma maneira de fazer política que não tem barreiras morais e contagiou toda a política partidária, deteriorando o que já era podre”, Merval poderia expor os bastidores da campanha que o levaram a ser um “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ou será que a poderosa Rede Globo não se meteu nesta eleição? O que ela ofereceu? Como se justifica esta autêntica “farsa histórica”?

Reproduzido de Portal Vermelho (21/06/12) via Blog do Miro

Especialistas discutem os rumos da TV digital e da comunicação pública no Brasil


Especialistas discutem os rumos da TV digital e da comunicação pública no Brasil

Redação
Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
21/06/2012

Na noite desta quarta-feira (20), a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Cosette Castro e o assessor da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) Diogo Moisés protagonizaram debate sobre os avanços do campo público na TV digital. O evento aconteceu em São Paulo, como parte do Ciclo de Debates Panorama da Comunicação e Telecomunicações, promovido pelo Ipea, Socicom e Barão de Itararé. A mediação foi de Fernanda Carneiro, jornalista do Ipea.

Cosette Castro apresentou um amplo panorama da TV digital no Brasil, abrangendo aspectos mercadológicos, políticos e acadêmicos. Segundo a pesquisadora, o projeto de TV digital no Brasil é isolado e desconexo em relação a outras áreas, o que fragiliza a proposta. A campanha em torno da TV digital, segundo ela, também é ineficiente. “O Fórum Brasileiro de TV Digital e o governo parecem empurrar um para o outro a missão de construir uma campanha sólida”, afirma.

De acordo com ela, a campanha brasileira é veiculada em horários ruins, geralmente depois das 22h, com pouca frequência e em poucos veículos. Como exemplo, Castro cita o caso da Argentina: “Há uma ampla e atraente campanha, chamada Televisión Digital Abierta, com histórias animadas e musicadas, compreensíveis e informativas”. Ela chama a atenção para o fato de que a ideia de TV digital no Brasil não releva seu caráter de serviço público, limitando a inovação apenas à questões técnicas, como melhorias de imagem e som.

A pesquisadora definiu conteúdos e aplicativos digitais como “programas de software para computadores, celulares, videojogos, revistas digitais, televisão e convergência tecnológica em geral”. Ela ressaltou que os conteúdos podem ser desenvolvidos tanto em código aberto – como o Ginga –, como em código fechado. Os aplicativos têm capacidade de melhorar a qualidade de vida, afirma. “Uma pessoa que depende do INSS pode marcar consulta sem sair de casa, por exemplo”.

Segundo Castro, os projetos de desenvolvimento de conteúdos, serviços e aplicativos digitais não passam de protótipos e a indústria de conteúdos digitais ainda não saiu do plano teórico, sendo que o país foi responsável pela criação do Ginga. “Desde 2003, o país investiu 150 milhões na área de tecnologia digital, mas apenas 0,1% foram, de fato, empregados. O investimento em conteúdos digitais gera PIB, favorece o mercado de trabalho, aumenta a oferta e procura de conteúdos, além de estimular a cultura nacional”, afirma.

Dentre outros fatores apontados por ela em sua pesquisa, receberam destaque o atraso da legislação em comunicação, especialmente a eletrônica; a necessidade de revitalização da TV pública e a constante descontinuidade dos projetos relacionados à TV digital e ao setor. “A falta de continuidade nos projetos impede o desenvolvimento de políticas públicas sólidas na área, o que afeta, também, os investimentos no setor”.

Os desafios da TV pública

Diogo Moisés explicou as dificuldades da comunicação pública no Brasil a partir do exemplo da EBC, criada em 2007. “O sistema público de comunicação no país ainda é uma intenção. Até o momento, tivemos apenas pílulas dele”, afirma. Em sua avaliação, a EBC ainda está na “primeira infância”, tendo enfrentado muitas dificuldades desde seu nascimento, já que assumiu passivos da Radiobrás.

Segundo Moisés, a defasagem nos campos da comunicação pública e da TV digital está intimamente relacionada. “É um processo político complexo, que passa pela arquitetura regulatória, recursos financeiros e formação”, opina. Em sua visão, o governo precisa organizar o setor e planejar investimentos, construindo políticas públicas de longo prazo. “A grande lição até agora é que os investimentos e projetos não podem ser descontinuados”.

Ainda em relação à EBC, Moisés ressaltou que a instituição está sendo construída em pleno período de transformação da comunicação. Mesmo com o disparate entre os recursos financeiros de uma TV pública e de veículos comerciais, ele acredita que os produtos têm de ser pensados de forma “transmidiática”. “Teremos um portal para agregar produção colaborativa, multimídia e multiplataforma”, afirma, acrescentando que “multiplataforma não é apenas pegar um produto de TV e colocar em um hotsite, mas pensar novas dinâmicas de interatividade e participação”, afirma.

Formação e capacitação

Tanto Moisés quanto Castro avaliam que o campo do ensino é fundamental para o desenvolvimento das áreas de TV digital e TV pública. Segundo os debatedores, há uma carência aguda em recursos humanos e formação na área. “Faltam iniciativas e recursos para capacitação e atualização profissional e acadêmica na área”, afirma Castro. Os dois defenderam o projeto da Escola Nacional de Comunicação Pública, que ofereceria uma formação distinta do ensino mercadológico predominante nas instituições de ensino do país.

Reproduzido de clipping FNDC
21 jun 2012

Mulher, mídia e bens comuns


Mulher, mídia e bens comuns

Terezinha Vicente

O conhecimento, a cultura, o saber popular e tradicional e a comunicação são bens comuns fundamentais, ainda que o senso comum e os meios de comunicação de massa falem apenas dos bens dados pela natureza, como a água, a terra, a biodiversidade, o ar.

“Queremos colocar na agenda os bens comuns imateriais, os bens em forma de cultura, memória, história, que não está contada do ponto de vista das mulheres”, falou Rita Freire, fundadora e editora da Ciranda na abertura do painel “Mulher, Mídia e Bens comuns”, dentro da programação do II FMML (Forum Mundial de Mídias Livres), que acontece na Cúpula dos Povos, Rio+20. “A História é um bem comum e temos que lutar pela nossa identidade”, continuou a midialivrista, acrescentando sobre a metodologia desta Cúpula, o compromisso das mulheres em colocar o machismo e o patriarcado como causa estrutural da crise sistêmica em que o capitalismo nos colocou. Pela primeira vez, o Fórum de Midias Livres organiza um painel específico com a visão das mulheres, parceria desta Ciranda, do Instituto Patricia Galvão (IPG) e da Rede Mulher e Mídia.

Contra a mercantilização da vida e em Defesa dos bens comuns, como se define esta Cúpula dos Povos na Rio+20, é tema privilegiado para as mulheres que sempre tiveram esses objetivos na sua agenda, pois conhecem bem o que é ter até seu corpo mercantilizado. “A comunicação e a cultura estão colonizadas pelo poder econômico”, seguiu Rita Freire. “Estamos aqui debatendo a descolonização de nossas redes sociais, para nos libertarmos do ‘jardim murado’ que é o Facebook. Descolonizar a comunicação é construir as nossas próprias redes”. A ativista destacou o fato das mulheres também desenvolverem tecnologia da informação, anonimamente, sem colocar um ritmo competitivo, talvez por isso sejam sempre chamados homens a falar sobre o assunto.

A voz pública das mulheres

Mulheres sempre trabalham para dar voz às pessoas e às lutas que estão nas ruas, como o exemplo das convidadas para este painel do FMML. Maria Pia, da AMARC (Associação Mundial de Rádios Comunitárias), diz que o feminismo a ensinou a falar das práticas das mulheres, olhar o lugar de expressão pública das mulheres. “Ainda que o senso comum diga o contrário”, acredita Maria Pia, “a diferença entre homens e mulheres ainda é muito grande; devemos fazer dessas diferenças uma potencialidade política pra mudar um mundo tão desigual”. Ela destaca a atuação voltada para a comunidade por parte das mulheres, a importância de “fazermos nossas audiências entenderem que os bens comuns devem ser compartilhados e não tratados apenas como questão de ganância financeira”.

A comunicadora elogiou os princípios da Ciranda como fundamentais neste processo de entendermos a comunicação como um direito, para “além da questão de mercado e da titularidade de quem faz comunicação. Quando falamos em frequências de rádios, estamos falando de um bem comum da humanidade, falamos de um direito que não conseguimos praticar pela intolerância dos governantes, desconhecimento dos políticos tradicionais e desconhecimento até dos movimentos sociais”. A liderança da AMARC falou ainda das questões colocadas pelo movimento feminista, “mas que não são temas bem compreendidos, e esse buraco que tem a ver com a grande mídia que captura as consciências. Queremos fazer radio que fala para a maioria, que se escute e que tenha a ver com políticas públicas”.

Maria Cienci, da ALER - Associação Latinoamericana de Educação Radiofônica, que atua com os movimentos sociais, diz que “na radio de onde venho, sempre parece que temos que justificar como mulheres alguns temas, é preciso desconstruir que os homens sabem de política e nós mulheres das compras!” Indignada com a visão dicotômica do mundo, a ativista venezuelana defende a desconstrução do nosso modelo de desenvolvimento e acha que muitas vezes deixamos decisões para outros, nos vitimizamos e acredita na importância de incidirmos com os nossos temas nos espaços de luta geral.

Da Comunicação dependem outros bens comuns

Lottie Spade, ativista da comunicação em Detroit (EUA), defende que “comunicação é direito humano, não só a mídia mas a tecnologia, que continua mantendo comunidades afastadas e com as suas vozes silenciadas”. Ela atua em diversas organizações na sua cidade, em defesa da justiça política, ambiental e alimentar, que tem por princípios o acesso desses direitos, bem como da informação, deve ser para todos, a infraestrutura e todas as formas de comunicação. Lottie diz que faz um trabalho intergeracional, onde os jovens ensinam os idosos sobre os benefícios, mas também sobre os malefícios da Internet e a propriedade pública é um princípio, como também criar nossas próprias ferramentas. “Desmistificamos a tecnologia, falamos da pegada tecnológica, ensinamos as pessoas e toda a quadra pode partilhar um acesso”, por exemplo. “Fizemos um trabalho com as mulheres para elas criarem mensagens de segurança alimentar para as crianças, provocamos a discussão de porque é tão mais fácil encontrar McDonald e assemelhados do que comidas naturais em Detroit”. A feminista afro-americana diz que devemos usar e mudar a internet, ferramenta que grandes empresas estão usando para tomar decisões em nosso nome. “Precisamos compreender que nada substitui a comunicação, não basta a ferramenta”.

Ora, as mulheres sempre foram responsáveis pela “administração” dos bens naturais. Sobretudo na escassez destes, é a mulher que “tem que se virar” para garantir água e alimento para sua família, especialmente os filhos. Entretanto, o capitalismo invisibiliza o trabalho das mulheres, as soluções criadas por elas e a gestão que conseguem fazer dessa escassez. Assim como invisibilizam a história, a memória e as lutas de vários povos oprimidos sem direitos políticos, como os palestinos, os curdos e os saarauis, com participação neste II FMML. Como disse Rita Freire, “os povos que não tem território vieram aqui para se expressar, pois é clara a relação entre a falta de solidariedade política e a necessidade da comunicação”.

“Nas guerras”, diz Soraya Misleh, ativista da comunicação e pela libertação da Palestina, “em que estão em disputa os bens comuns, as mulheres são as que mais sofrem, na Palestina elas nem conseguem fazer pré-natal, tem os filhos nas zonas de controle”. Ela fala também do estereótipo que é vendido pela mídia da mulher árabe e dos árabes em geral. “Orientais e ocidentais são contrapostos e os primeiros são os bárbaros, terroristas. A mulher árabe é sempre um ser exótico, submisso, com algo escondido por trás dos véus”, lamenta Soraya. “Toda árabe é muçulmana, outra generalização irreal. A mídia reproduz essa forma de retratar os árabes para manter o sistema hegemônico global”. A militante palestina lembra que a mídia tratou como fenômeno as mulheres indo para a rua na “Primavera Árabe” e conta que as mulheres palestinas sempre estiveram lado a lado com os homens, muitas vezes na linha de frente, os movimentos feministas árabes existem desde o início do século XX e as lutas também. “Nas revoluções sociais, a mídia teve papel importante, mas foi ferramenta”, diz Soraya, contando que hoje há uma blogueira tunisiana em greve de fome, mostrando que a revolução continua seu curso, mas essa informação não chega até nós.

Produtoras e reprodutoras da vida que são, as mulheres sempre defenderam uma relação harmoniosa com a natureza. São elas as conservadoras das sementes, as cultivadoras das plantas medicinais, as defensoras das fontes de vida, da água, da segurança alimentar, da paz. Mas isso só é possível com o direito à comunicação democratizado e com liberdade de expressão para todos e todas. Sabemos que da informação e da comunicação depende a mudança dos paradigmas em que estamos vivendo ou a continuidade da destruição da vida e do planeta. As mulheres estão em muitas atividades desta Cúpula, inclusive atuando na Rádio Cúpula, fazendo a cobertura de tudo o que acontece, sendo protagonistas da grande manifestação lilás realizada hoje no Rio de Janeiro. Estaremos defendendo fortemente a inclusão da comunicação e a cultura como prioridades no eixo de convergência em defesa dos bens comuns contra a mercantilização.

19 jun 2012

domingo, 17 de junho de 2012

Oswaldo Giacóia Jr.: a diáspora de convicções, mídia e filosofia


Vivemos uma diáspora de convicções e somos direcionados pela mídia, diz filósofo Oswaldo Giacóia Jr.

“Nós vivemos numa sociedade leiga, essencialmente marcada por um pluralismo de cosmovisões. Então não existe mais aquele tipo de mentalidade monolítica, que tinha uma certa garantia de verdade, chancelada ou religiosamente ou metafisicamente. Pelo contrário, nós vivemos hoje numa espécie de diáspora de convicções. Cada uma delas sustentando seu próprio direito, e esse direito efetivamente só pode ser assegurado no caso de uma sociedade multicultural como a nossa e essencialmente pluralista do ponto de vista ético, a partir da argumentação.

Desde que você não queira impor alguma coisa, nem pela força nem pela astúcia, a única via possível de legitimação de pretensões é a via argumentativa. Esse é um elemento que complica bastante nossas relações hoje. Nós não temos mais o recurso mais ou menos rápido e cômodo de invocar a vontade de Deus. Não, “eu creio” é uma afirmação que tem de exibir seus títulos de crédito. Se você não for capaz de exibir esses títulos de crédito não está suficientemente qualificado para participar do debate público.

Uma sociedade multicultural, eticamente plural como a nossa, mas uma sociedade de massa, tem necessariamente que conviver com certos riscos de manipulação em termos de formação, de formatação de opinião, que são capazes de engendrar uma espécie de aparência de liberdade, uma aparência de formação livre de convencimento, onde de fato há uma espécie de direcionamento prévio. O exemplo mais claro que posso oferecer para vocês disso é a formatação do debate cultural pela agenda da sociedade, digamos, ligada aos interesses da grande imprensa hoje.

Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não são questões que nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. De tal maneira que nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos, porque aquilo já está dado antes. Já está pautado antes pela imprensa”.

Reproduzido de Educação Política por Glauco Cortez
17 jun 2012

(Texto integral na Revista E), reproduzido abaixo:

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Oswaldo Giacóia Jr. dedica-se à pesquisa em filosofia moderna e contemporânea, com ênfase em história da filosofia e ética, ocupando-se de temas como teoria da cultura, filosofia do direito, filosofia social e política. É autor de Pequeno Dicionário de Filosofia Contemporânea (Publifolha, 2006), Nietzsche & para além de Bem e Mal (Zahar, 2005) e Nietzsche – Para a Genealogia da Moral (Scipione, 2001).

Em encontro realizado pelo Conselho Editorial da Revista E, o convidado desta edição falou sobre a importância de se compreender a filosofia em relação a outras esferas da cultura, das ciências, das artes e, sobretudo, da política, além de comentar sobre a demanda de filósofos em setores da sociedade civil. “Isso pode parecer uma espécie de consultoria de luxo, mas não é. Embora pessoas eventualmente nos procurem com demandas nesse sentido, como se fosse possível você dar soluções padronizadas para serem consumidas com uma certa facilidade. A filosofia não tem absolutamente nada o que dizer nesse sentido. Pelo contrário, a função da filosofia é colocar em questão esse tipo de convicção apressada”, diz. A seguir, trechos da conversa.

Filosofia e outras áreas do saber

Acho que filosofia é, fundamentalmente, uma relação com a linguagem. Destacaria aqui a relação com a psicologia, psicanálise, antropologia, sociologia e também com certos setores do direito – em particular, com a filosofia do direito. E com a filosofia política. Porque penso que as questões filosóficas não podem efetivamente ser compreendidas se forem amputadas de suas relações com outras esferas da cultura.

Penso que fazer filosofia hoje é um desafio muito grande porque exige daquele que se dedica a ela não somente esse domínio bastante específico da competência filosófica, mas também essa abertura para um enfrentamento das questões que são de natureza filosófica e que são colocadas para a filosofia do espaço propriamente das outras esferas da cultura, das ciências, das artes e, sobretudo, da política.

Somos frequentemente confrontados por questões que surgem no âmbito da física, da mecânica, da matemática, da informática, das ciências médicas, em particular no entrecruzamento que se faz, por exemplo, entre a neurofisiologia e as ciências informáticas, que colocam questões filosóficas absolutamente incontornáveis.

Questões éticas, por exemplo, no caso das práticas clínicas, como itens da genética e da biologia molecular, que constituem para nós hoje um campo muito fértil. Além de questões que nos são colocadas e que sempre nos acompanharam ao longo desses milênios de história, por exemplo, no campo da religião – nessa confluência que há entre o desenvolvimento técnico-científico e os valores éticos, morais e religiosos de uma sociedade como a nossa.

Consultoria filosófica

Outro exemplo de onde surge um pulso bastante forte, bastante motivador em relação a filosofia e sociedade, é a demanda que cada vez se torna mais expressiva e mais intensa por parte de setores organizados da sociedade civil que nos buscam a fim de ajudá-los a pensar algumas questões postas em suas próprias práticas. Por exemplo, organizações como a OAB, a escola da magistratura da justiça federal, a escola da magistratura da justiça estadual, a escola do ministério público.

Acho que as questões mais importantes que surgem hoje para a filosofia política nascem do campo do direito, sobretudo o debate atual sobre direitos humanos. Questões relativas, por exemplo, a Estado, soberania, cidadania, teorias da justiça ou então ligadas à discussão de princípios, como o constitucionalismo, os impasses atuais do estado nacional.

Quando disse que somos procurados por setores organizados da sociedade civil, isso pode parecer uma espécie de consultoria de luxo, mas não é. Embora pessoas eventualmente nos procurem com demandas nesse sentido, como se fosse possível você dar soluções padronizadas para serem consumidas com uma certa facilidade. A filosofia não tem absolutamente nada o que dizer nesse sentido. Pelo contrário, a função da filosofia é colocar em questão esse tipo de convicção apressada.

Manipulação da opinião pública

Nós vivemos numa sociedade leiga, essencialmente marcada por um pluralismo de cosmovisões. Então não existe mais aquele tipo de mentalidade monolítica, que tinha uma certa garantia de verdade, chancelada ou religiosamente ou metafisicamente. Pelo contrário, nós vivemos hoje numa espécie de diáspora de convicções. Cada uma delas sustentando seu próprio direito, e esse direito efetivamente só pode ser assegurado no caso de uma sociedade multicultural como a nossa e essencialmente pluralista do ponto de vista ético, a partir da argumentação.

Desde que você não queira impor alguma coisa, nem pela força nem pela astúcia, a única via possível de legitimação de pretensões é a via argumentativa. Esse é um elemento que complica bastante nossas relações hoje. Nós não temos mais o recurso mais ou menos rápido e cômodo de invocar a vontade de Deus. Não, “eu creio” é uma afirmação que tem de exibir seus títulos de crédito. Se você não for capaz de exibir esses títulos de crédito não está suficientemente qualificado para participar do debate público.

Uma sociedade multicultural, eticamente plural como a nossa, mas uma sociedade de massa, tem necessariamente que conviver com certos riscos de manipulação em termos de formação, de formatação de opinião, que são capazes de engendrar uma espécie de aparência de liberdade, uma aparência de formação livre de convencimento, onde de fato há uma espécie de direcionamento prévio. O exemplo mais claro que posso oferecer para vocês disso é a formatação do debate cultural pela agenda da sociedade, digamos, ligada aos interesses da grande imprensa hoje.

Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não são questões que nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. De tal maneira que nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos, porque aquilo já está dado antes. Já está pautado antes pela imprensa.

Essa questão, por exemplo, do Big Brother. Há uma série de perguntas a serem feitas acerca da autenticidade, da revolta ou da suscetibilidade moral popular a respeito do estupro ou não, questões que antecedem a essa. Em que medida um tipo de programação como essa é imposta à sociedade brasileira sem que haja discussão sobre os critérios que determinam esse tipo de imposição, como os critérios mercadológicos?

Por que as cotas de mershandising desse programa são tão altas e tão caras? Por que esse programa ainda está no ar? Por que as pessoas que demonstram indignação em relação ao possível estupro que houve continuam validando o mesmo tipo de relação mercantil? Isso não é discutido. O que é discutido é se houve ou não estupro.

“Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não (...) nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. (...) Nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos porque aquilo já está dado antes (...) pela imprensa”

Reproduzido de Revista E 179 SESC SP
Via Educação Política por Glauco Cortez
17 jun 2012

Foto: O professor e doutor em Filosofia Oswaldo Giacóia Jr. esteve presente na Reunião do Conselho Editorial da Revista E em 16 de fevereiro de 2012. Foto de Adriana Vichi


sábado, 16 de junho de 2012

Brasil tem mais de 4 milhões de crianças e adolescentes trabalhando


Brasil tem mais de 4 milhões de crianças e adolescentes trabalhando

Marcelo Pellegrini
Carta Capital
13 jun 2012

Há dez anos as Nações Unidas celebram, no dia 12 de junho, o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil. No Brasil, não há muitos motivos para comemorar. Nos primeiros cinco meses do ano, operações comandadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) encontraram 2.275 crianças e adolescentes trabalhando irregularmente. Essas pessoas são parte das 4 milhões de crianças e adolescentes que trabalham no País.

De acordo com o chefe da Divisão de Fiscalização do Trabalho Infantil do MTE, Luiz Henrique Lopes, a região Nordeste lidera as autuações do MTE em 2012, com 48% dos afastamentos, seguida pela região Centro-Oeste (24%), Norte (13), Sudeste (8%) e Sul (7%).

O percentual do ranking das regiões brasileiras está relacionado com a atividade econômica e com os níveis de renda e escolariadade.

De acordo com a secretária executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPeti), Isa Oliveira, a pobreza e a baixa escolaridade das famílias estão entre as principais causas do trabalho infantil no País. Segundo ela, o principal motivo para que as crianças permaneçam trabalhando é o fato de as famílias não considerarem a escola uma alternativa viável. “Principalmente na área rural, há uma grande precariedade educacional, acrescida da precariedade no transporte para que essas crianças cheguem à escola”, diz Isa. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), no mundo, 59% do trabalho infantil encontra-se na zona rural.

Prevenção

Apesar da legislação brasileira proibir qualquer forma de trabalho exercido por crianças com idade entre 5 a 14 anos, este tipo de prática ainda é comum. Hoje, 1,4 milhão de crianças brasileiras de 5 a 14 anos trabalham. Em estados como a Bahia, o Piauí e o Maranhão o percentual de menores no trabalho chega a cerca de 17%, segundo a OIT.

Segundo o MTE, só ações integradas com órgãos do governo e da sociedade civil conseguem combater de forma efetiva o trabalho infantil. “Hoje, o ministério tem protagonismo na Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil que congrega órgãos do governo, organizações civis e associações de trabalhadores e empregadores, mas não temos como combater essa prática sozinhos”, diz Luiz Henrique Lopes, da Divisão de Fiscalização do Trabalho Infantil do MTE. Para Lopes, sem ações conjuntas com o Ministério Público, com o Ministério da Justiça e do Desenvolvimento Agrário, o trabalho infantil não poderá ser erradicado. “Estamos com ações em diversas frentes para aumentar a fiscalização nos estados e combater as causas do trabalho infantil”, afirma.

Atualmente, as crianças flagradas em situação de trabalho são afastadas e encaminhadas para os serviços de proteção. Já os empregadores são autuados com uma multa que gira em torno de um salário mínimo por criança. Além disso, o Ministério Público Federal também abre uma ação penal contra a empresa. O Brasil assumiu um compromisso internacional de erradicar as piores formas de trabalho infantil até 2015 e todas as formas até 2020. “O número de flagrantes de crianças em situação de emprego vêm caindo”, diz Lopes. “Estamos trabalhando para erradicar o trabalho infantil no País até 2015″, conclui. O objetivo é nobre, mas, como se vê, não será uma tarefa fácil.

*Com informações da Agência Brasil

Reproduzido de Carta Capital . 12 junho 2012
Via Educação Política por Glauco Cortez . 13 junho 2012

Eventos lembram 75 anos do nascimento de Vladimir Herzog


Eventos lembram 75 anos do nascimento de Vladimir Herzog

Instituto realiza mostra de documentários políticos e cartazes sobre as décadas de ditadura

31/05/2012
Camila Moraes
do Opera Mundi

Os processos formais ligados à restauração da memória e ao direito à justiça, nos países latino-americanos que viveram décadas de ditadura, demoraram bastante a se estabelecer. É o caso do Brasil, que só em 2012, longos anos após a queda do poder ditatorial, vê estampadas com maior frequência na imprensa nacional manchetes sobre as chamadas Comissões da Verdade.

O cenário é ainda mais complicado quando o assunto são crimes de estado isolados ou jamais investigados e, especialmente, os que são cometidos no presente. É o que acontece em países como a Colômbia, nos esforços de contenção (ou de maquiagem) de uma guerra interna envolvendo exército, guerrilha e paramilitares, que já dura quase 60 anos.

A cultura não garante o direito à vida ou faz justiça, mas muitas vezes é mais rápida do que os interesses governamentais. Através dela, podem ser estabelecidos panoramas e discussões que ativem a busca por esclarecimento. Com esse objetivo, foi idealizada uma mostra de documentários políticos latino-americanos que ocupará as salas da Cinemateca Brasileira e do Cinesesc, em São Paulo, a partir de junho.

Quem está por trás do projeto é o Instituto Vladimir Herzog, que contou com o apoio do Ministério da Cultura para realizá-lo no ano em que Vlado – jornalista que dá nome ao Instituto e que foi torturado e assassinado em 1975 pela ditadura em São Paulo – completaria 75 anos de idade. Seu objetivo é fazer um repasso, de 1950 aos dias atuais, pelo cenário sócio-político latino, com foco em obras que tratam das lutas de resistência às ditaduras militares, governos totalitários e outras formas de opressão do poder contra o povo, grupos étnicos ou minorias.

No rastro da memória

São 49 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens documentais, vindos de 13 países latino-americanos e curados por Marina Dias Weis, socióloga e cineasta formada na EICTV, escola de cinema fundada por Fernando Birri e Gabriel García Márquez em Cuba. O critério de seleção dos filmes, muitos deles de rara exibição no Brasil, passa sempre pela questão da memória, segundo a curadora. “Os documentários dessa mostra, sejam autocríticos, engajados, nostálgicos, intimistas, utópicos ou brutais, são um olhar no espelho: a memória como ponte para o presente”, explica.

A programação, que é gratuita e terá início no dia 19.06, conta com quatro seções temáticas: “No calor da hora”, com destaque para o curta “Revolución”, de Jorge Sanjinés, importante referência do cinema boliviano; “Transformação da memória”, na qual figura o longa mais recente de Patricio Guzmán, grande documentarista chileno, “Reinvenção da herança”, com títulos de jovens realizadores que passam adiante as histórias ouvidas, como “Alfaro vive, carajo! Del sueño al caos”, da equatoriana Isabel Dávalos; e, finalmente, “Direito à verdade e à justiça”, em que os realizadorescriam uma arqueologia do passado recente, como faz a brasileira Beth Formaginni em “Memória para uso diário”, construindo uma ponte por justiça dos familiares de desaparecidos políticos e das mães de jovens executados nos dias de hoje pela polícia que atua nas favelas do Rio de Janeiro.

Guzmán no Brasil

Um dos destaques do evento é, sem dúvida, a vinda do realizador chileno Patricio Guzmán a São Paulo para a realização de um seminário de criação de documentários – já oferecido por ele em outras capitais da América do Sul, como Buenos Aires e Bogotá.

Os interessados nas 60 vagas disponíveis poderão se inscrever no começo de junho no site do Instituto Herzog. A participação dos selecionados será gratuita.

Na mostra, da qual Guzmán é o grande homenageado, serão exibidos quatro de seus filmes, entre eles “A batalha do Chile” (partes 1, 2 e 3) ” e “Nostalgia da luz”. Este último contará com uma apresentação especial do cineasta, que hoje vive na França, sobre seu trabalho.

Exposição de cartazes

Esquentando a mostra de documentários, a organização do evento anuncia uma Exposição de Cartazes sobre a Anistia, que reunirá 60 trabalhos na Cinemateca a partir desta quinta-feira, 31.05, até 08.07.

Na abertura dessa exposição, será exibido o único documentário dirigido pelo jornalista Vladimir Herzog, o curta Marimbás (1963),além o filme Tire diré (1960), do cineasta Fernando Birri, com quem Vlado conviveu em Santa Fé, na Argentina.Celebrando a relação entre dois, será apresentado também “Vlado e Birri: encontros”, de Marina Weis e Laura Faerman, curtarealizado especialmente para a ocasião.

Serviço:
“Memória e transformação: o documentário político na América Latina ontem e hoje”
Exposição de cartazes: 31.05 a 08.07 (Cinemateca Brasileira).
Mostra de documentários: 19.06 a 08.7 (Cinemateca Brasileira e Cinesesc).


Entrada gratuita.

Reproduzido de Brasil de Fato . 31 mai 2012
Via Educação Política por Glauco Cortez . 16 jun 2012