Trechos de “A
história secreta a Rede Globo, de Daniel Herz.
"( ...)
Nos anos da ditadura, os jornais do dr. Roberto chamavam Médici de democrata,
negavam a tortura e expurgavam dom Paulo Arns e dom Helder Câmara. Nos tempos
da Nova República, o chefão, pessoalmente, desce ao Departamento Pessoal com a demissão
dos funcionários graduados que haviam aderido à greve geral do dia 12 de
dezembro (de 1986) - ante a oposição meio constrangida de outros
diretores"[1].
"Sim, eu
uso o poder"[2],
admitiu publicamente o presidente das Organizações Globo nos primeiros dias de
1987, ano em que ele – associado com o banqueiro Amador Aguiar, dono do maior
banco privado nacional pretende passar a controlar telecomunicações via satélite
no Brasil[3].
No cenário da Nova República, parece não haver, de parte do dono da Globo, mais
limites para a sede de poder e o apetite por vantagens e favores. A existência
da Globo parece seguir uma regra tão simples, quanto aterradora, coma observou
a revista alemã Der Spiegel: "engolir,
tudo o que é possível engolir"[4].
A origem deste desmesurado poder de Roberto Marinho, obtido através da sua Rede
Globo, é o
objeto deste
livro.
HERZ, Daniel. A
História Secreta da Rede Globo. Porto Alegre: editora Tchê!, 1986. P. Página 27 no PDF,clicando
aqui.
Leia também, “Uma história da Rede Globo: “Sim, eu sou o
poder” e “um modelo de sedução”, no Blog do Manuel Dutra - Jornalismo
Ciência Ambiente, clicando aqui.
[1] SENHOR. O atacado do Globo. São Paulo. N. 306. 27 jan. 1987. P.44-S.
[2] O ESTADO DE SÃO PAULO. "Globo"
e o poder, nos EUA. São Paulo. Op.cit. 1987. P.9.
[3] SENHOR. O atacado do Senhor Globo. Op. cit.
P.45. E CHACEL, Cristina. Jornal do Brasil. Engenheiro teme Embratel
privatizada. Rio, l8jan. 1987. P. 31.
Por Luciano Martins Costa em 06/03/2015
na edição 840
Comentário para o programa radiofônico
do Observatório, 6/3/2015
Se você lê
jornais e assiste ao noticiário televisivo, e além disso leva em conta os
comentários dos especialistas em generalidades que proliferam nas emissoras de
rádio e acompanha sofregamente tudo que circula nas redes sociais digitais,
pode estar certo de que você está incurso no arco de seres humanos que estão
sendo estudados pelos especialistas em comunicação de algumas das melhores
universidades do mundo. Esse espectro vai do indivíduo profundamente elaborado,
que é capaz de filosofar sobre o mundo midiatizado, ao perfeito midiota.
O contexto
teórico considerado por esses estudiosos tem como objeto o que em língua
inglesa se chama “media literacy” e que, em português, é chamado,
principalmente no núcleo de estudos específicos da Universidade de São Paulo,
como Educomunicação. Trata, como se pode depreender, de uma educação especial
que habilita o indivíduo a entender o conteúdo da mídia e formular sua própria
opinião a respeito dos assuntos abordados. O pressuposto de tal disciplina é
que a mídia tem uma função social que vai muito além da tecnologia e dos
recursos financeiros usados para fazer com que aconteça a comunicação.
O professor
Thomas Bauer, responsável pela cadeira de Cultura da Mídia e Educação pela
Mídia na Universidade de Viena, observa que essa função dos meios deve
extrapolar o conceito de troca de informações passando por um filtro
(mediação), para o propósito de contribuir para a construção de uma ordem
social baseada na diversidade. Além de balizar a organização da ordem social,
juntamente com outras instituições e entidades formais ou informais, a mídia
deve participar das negociações entre os indivíduos, isoladamente ou em grupos,
e entre si, para que se obtenha uma sociedade sustentável.
Uma proposta de
educação que considere o papel da mídia como tal deve, segundo Bauer, apontar
para a conquista da competência de distinção do significado de diferentes
situações, em termos de ética, estética e benefício potencial. Numa
circunstância ideal, a sociedade sustentável conta com pessoas capazes e
responsáveis pelo uso da mídia como meio de comunicação e conexão social, e não
apenas como clientes a serem convencidos disto ou daquilo.
Uns e outros
Como no
“vidiota” do romance de Jerzy Kosinski que inspirou o filme intitulado Muito além do jardim, a intensa exposição à mídia, sem o contraponto do senso
crítico, pode ser uma prática perigosa. O indivíduo habilitado para interpretar
a narrativa e o discurso propostos pela mídia nesse papel é também capaz de
questionar o sentido que a mídia propõe para os acontecimentos do cotidiano.
Um grande
contingente de cidadãos em condições de distinguir os vários significados das
situações que a imprensa lhes apresenta será mais senhor de seu destino e se
tornará menos vulnerável a discursos manipuladores e demagógicos.
O dilema está
no fato de que esse benefício depende em grande parte de uma determinação da
mídia hegemônica de usar seus recursos eticamente e com grande empenho
estético. O problema se complica quando a própria imprensa faz escolhas
contrárias à ética, esteticamente inadequadas e fora do propósito do bem, com o
objetivo de usar a conectividade social que lhe é atribuída para arregimentar
adeptos a um modo de vida simbólico que contraria o interesse coletivo.
Claro que tudo
isso pressupõe a existência de interesses coletivos em meio a idiossincrasias
individuais, mas o problema se resolve com a observação segundo a qual a
sociedade se forma por meio da comunicação, produtora de sentido – portanto,
criadora de cultura.
Uma maneira
simples de avaliar se determinado meio contribui para este ou aquele tipo de
sociedade é observar se suas mensagens estimulam, por exemplo, uma cultura de
paz ou a violência; se propõe uma visão tolerante das diferenças ou se investe
no confronto.
É da
modernidade supor que o indivíduo se torna responsável por suas escolhas, ou,
em outra acepção, no uso de suas vontades fortes ou fracas. Portanto, parte da
responsabilidade pelo que se processa no ecossistema midiático compete à mídia,
mas o arbítrio ainda é do cidadão.
Quando dizemos
que “você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”, estamos apostando que,
exercitando a observação crítica da imprensa, o indivíduo se educa para a
mídia. Essa distinção de habilidades é o que faz, de uns, midialiteratos e, de
outros, no ponto extremo do que acreditam em tudo que leem, midiotas.
Graça Lago
deveria entrar na Justiça para proibir o nome do pai numa ‘farsa’?
Kiko Nogueira
O desabafo
contundente da filha de Mário Lago sobre o prêmio conferido a William Bonner no Faustão esbarra num problema: o “Troféu” Mario Lago é apenas mais uma
piada do programa. Disfarçada, mas piada. O equivalente ao Troféu Imprensa
do Silvio Santos.
“Meu pai, Mário
Lago, merece respeito! Enojada e revoltada com a farsa que foi o Prêmio Mário
Lago 2014. Com a audiência do Jornal Nacional despencando, o premiado foi o
editor geral do panfleto global”, ela escreveu no Facebook. “Lá no infinito,
papai e mamãe devem ter ficado muito revoltados. E atenção, Rede Globo, não sou
instrumentalizada por ninguém ou por nada. Sei pensar, refletir, fazer
escolhas, opinar, me posicionar”.
Quem vota nos
indicados? Durante quanto tempo? Quantos são? Votação aberta ou fechada?
Ninguém jamais ficará sabendo porque não é essa a intenção.
A única
informação sobre o modus operandi da coisa foi dada pelo apresentador no site
oficial: “O Troféu tem um critério, um conceito. A pessoa precisa ter uma longa
ficha de serviços prestados. Tem que ser uma pessoa com a importância, pelo
trabalho, dignidade, ética… por tudo aquilo que representa a figura do Mário
Lago”, disse Faustão. São ideias elásticas, vindas de um apresentador que se
especializou em chamar qualquer mané que vá ao seu estúdio de “grande figura
humana”.
A tal premiação é mais um ato de autocongratulação da Globo. A emissora, porém, dá a isso ares
de solenidade. Pobre público dominical. O próprio Bonner, ao receber a
estatueta (feita por Hans Donner, talvez?) das mãos de Fernanda Montenegro,
vencedora do ano anterior, afirmou que “em sonho nenhum eu poderia imaginar que
aconteceria isso.” Em seguida, ajoelhou-se diante dela, teatral.
O negócio foi
criado em 2001 com o nome originalíssimo de “Conjunto da Obra” e dado a Mario
Lago, que morreria logo depois e acabaria por batizar o evento.
Desde então, a
lista de ganhadores vai de Glória Menezes a Tarcisio Meira, passando por Hebe
Camargo, Regina Duarte e Roberto Carlos. Bonner é o primeiro jornalista a fazer
parte desse rol. Tire suas conclusões. No ano que vem, ninguém deve se
surpreender se Arnaldo Jabor subir ao palco por sua contribuição para o
apocalipse.
Graça Lago tem
sua razões para se indignar. Mario Lago, um homem de esquerda, provavelmente,
não concordaria com o resultado. Se estaria rindo ou furioso, jamais saberemos.
Fica uma sugestão: que ela entre na Justiça para proibir que o nome do velho
seja ligado a uma palhaçada.
Comentário postado por Graça Lago:
Primeiro, me
apresento - sou Graça Lago, filha de Mário Lago, tenho 63 anos, 50 de militância
política e 46 de jornalismo. O prêmio com o nome de papai foi instituído em
2002, ano da morte dele, e parecia uma homenagem bacana à memória dele. Nada
grandioso, nem um pouco espetacular, apenas um prêmio corriqueiro de uma
emissora de TV (onde ele trabalhou muitos anos) e destinado a homenagear
artistas, principalmente atores. Nada especial, mas que poderia manter a sua
lembrança viva. Bacana. Nunca nos consultaram sobre isso, mas confesso que
fiquei profundamente emocionada quando, passados sete meses da morte de papai,
foi anunciado o prêmio, com um belo clipping sobre a trajetória dele e dedicado
à grande atriz e pessoa de Laura Cardoso. Durante todos esses anos, o prêmio se
manteve em um patamar honesto, com homenagens a diferentes artistas. Ainda que
não concordasse com um ou outro, nenhum ofendia a memória de papai; nem na
escolha e nem na cerimônia, é importantíssimo registrar.
Mas, desta vez,
foi tudo diferente, foi tudo armado e instrumentalizado (como quer o bonner)
para fazer da premiação um ato político, de defesa das orientações facciosas da
globo e de seu principal (embora decadente) telejornal. Foi uma pretensa
maneira de usar o prêmio para abafar as críticas que a partidarização do JN e
de seu editor/apresentador vêm recebendo.
Em tudo o
prêmio fugiu aos seus propósitos originais. Bonner não é um artista, a não ser
na arte de manipular e omitir os fatos. O evento virou um circo de elogios
instrumentalizados. Enaltecer a "imparcialidade" com que ele e sua
parceira conduziram as entrevistas com os presidenciáveis é esquecer que ele
não deu espaço para uma só resposta de Dilma Rousseff; é esquecer que ele e sua
parceira ocuparam mais da metade do tempo estipulado para a entrevista com a
presidenta. É esquecer que esse tratamento não foi dedicado a qualquer outro
entrevistado. É esquecer que, mesmo no auge das denúncias sobre os escândalos
dos aeroportos de Cláudio e Montezuma, o sr. Aécio não foi pressionado nem um
terço do que foi Dilma Rousseff para explicar os flagrantes delitos dos empreendimentos.
É esquecer que, mesmo frente às denúncias da ilegalidade do jato de Eduardo
Campos, a sra. Marina não teve qualquer questionamento contundente (e viajava,
sim, no jato). Isso para não falar de mil e outros atos de atentado à
informação praticados no JN, como bem foi demonstrado pelo laboratório da UERJ.
Mas não parou
aí. Ouvir o bonner criticar as redes sociais revirou o meu estômago. Ouvir o
bonner chamar os que o criticam, e à Globo, de robôs instrumentalizados é
inqualificável. É um atentado à democracia.
Tudo demonstra
que o prêmio, criado talvez até por força de uma admiração por meu pai, foi
usado este ano politicamente, para proteger com a respeitabilidade e memória de
Mário Lago o que não tem respeito, nem nunca terá. Se a intenção foi política,
politicamente me manifestei.
Não poderia
ouvir calada todas essas imensas ofensas à memória de meu pai. Meu pai era um
homem político, e assim se manifestava e comportava cotidianamente. Não
aceitaria, jamais, ser manipulado por excrecências como essa. Vi meu pai
recusar propagandas bem remuneradas por discordar politicamente delas. Sempre
trabalhou e ganhou o seu salário com a maior decência.
Por sua
postura, mereceu a admiração e o respeito até de homens como Roberto Marinho.
No final dos anos 60, o Exército informou à Globo que queria papai como
apresentador das Olimpíadas do Exército. Seria uma maneira de humilhá-lo, de
jogar no lixo a sua biografia. Roberto Marinho recusou o pedido justificando da
seguinte forma: "se o Mário recusar, terei que demiti-lo; se o Mário
aceitar, perderei o respeito por ele". Meio século depois, a Globo tentou
jogar no lixo a biografia do meu pai. A isso digo não e me manifesto
publicamente sobre a imensa farsa montada nesta premiação do jornalismo mais
instrumentalizado e faccioso deste país.
O Facebook não tem obrigação de revelar
como manipula o sistema de notícias e tem se tornado um novo sistema de poder
sem controle social.
Luciano Martins Costa
Observatório da Imprensa
As empresas de jornalismo estão perdendo o controle do que é notícia. O domínio
de empresas de tecnologia na produção e distribuição de conteúdo informativo e
opinativo está criando uma nova esfera pública, cujos controladores não estão
especialmente preocupados com transparência e ética.
Esse é o tema
de publicações recentes sobre a maneira como a mídia tradicional ajuda, por
omissão, a consolidar no mundo contemporâneo o poder quase absoluto dos
tecnólogos que inundam o planeta com uma enxurrada ininterrupta de aplicativos
cujas possibilidades as pessoas desconhecem. Uma das análises mais
interessantes é feita por Emily Bell, diretora do Centro Tow de Jornalismo
Digital, instituto de pesquisas da Escola de Jornalismo da Universidade
Columbia, e foi considerada pelo Fórum Mundial de Editores como o mais
importante texto sobre o futuro do jornalismo divulgado neste ano (ver aqui, em inglês, a versão editada para o Instituto
Reuters, de Oxford, publicada na terça-feira, 2/12). Sua principal qualidade
está em marcar o esvaziamento do poder do jornalismo em definir sua própria
natureza.
Emily Bell
observa que as principais decisões que impactam o espaço público da comunicação
estão sendo tomadas por engenheiros que raramente pensam em jornalismo, em
impacto social da informação ou na responsabilidade sobre como notícias são
geradas e disseminadas. “Jornalismo e liberdade de expressão se agregaram como
parte de uma esfera comercial onde as atividades de notícias e jornalismo se
tornaram marginais”, alerta a pesquisadora.
Apontada como
responsável pelo renascimento do grupo britânico Guardian, do qual foi diretora
de conteúdo digital, ela lembra também que nenhuma das principais iniciativas
tecnológicas que dominam o serviço de relacionamentos e interações entre
pessoas foi criado ou pertence a empresas jornalísticas.
Como as
plataformas de mediação social não estão interessadas em contratar jornalistas
ou criar estruturas para a tomada de “decisões editoriais”, atividade altamente
complexa e custosa – conclui –, o espaço público fica à mercê dos interesses do
mercado de tecnologia.
Onde mora o perigo
Emily Bell
comenta que o Facebook usa um conjunto de complicadas fórmulas para decidir
como as notícias vão para o alto das páginas pessoais dos usuários; esses
mecanismos não apenas determinam o que o indivíduo vai ver, mas também definem,
pela constância do uso, o modelo de negócio das plataformas sociais. Esses
algoritmos são secretos, não são alcançados pelas regulações que asseguram as
liberdades básicas inerentes ao direito à livre informação e à privacidade e,
pior, podem ser alterados sem aviso prévio.
A diretora do
Centro Tow lembra que nenhuma outra plataforma na história do jornalismo criou
tal concentração de poder, o que faz do jovem Gregory Marra um dos mais
poderosos executivos do mundo. Ele é diretor de produto do sistema de notícias
do Facebook e tem apenas 26 anos de idade. Recentemente, Marra repetiu no New
York Times o refrão dos tecnólogos segundo o qual a tecnologia é neutra, porque
não faz julgamento editorial sobre o conteúdo postado nas redes sociais. Pois é
justamente aí que mora o perigo, diz Emily Bell.
Ainda que os
engenheiros acreditem que não estão tomando decisões editoriais, é isso que
fazem suas fórmulas matemáticas. Por exemplo, ela lembra, em junho deste ano
pesquisadores registraram que o Facebook manipulou as fontes de notícias de 700
mil usuários para observar como diferentes tipos de informação poderiam afetar
o humor das pessoas. A resposta: boas notícias deixas as pessoas mais felizes.
A questão dos pesquisadores: como o Facebook ousa brincar, literalmente, com as
emoções das pessoas?
Em 2010, a rede
social fez outra experiência, para verificar como a inserção de notícias sobre
eleição estimula pessoas a votar no sistema americano de voto facultativo. Um
professor de Harvard pondera que o mesmo recurso pode convencer milhões de
eleitores, por exemplo, a escolher determinado candidato.
Emily Bell
conclui o artigo alertando que o Facebook não tem obrigação de revelar como
manipula o sistema de notícias. Ela afirma também que a imprensa tradicional
deveria parar de se deslumbrar com as filas para comprar o novo iPhone e olhar
mais para a tecnologia como um novo sistema de poder sem controle social.
Bláblá e Bornhausen: direita
reacionária desbragada
A candidata do PSB pratica a velha
política enquanto prega o contrário. Destruiu o ideário de Eduardo Campos e
talvez consiga demolir o próprio partido que representa
por Mino Carta
Não há quem
segure a candidata Marina Silva nesta caminhada final rumo à eleição. Em
Florianópolis, subiu ao palanque de Paulinho Bornhausen e com empenho apaixonado
pediu votos para sua candidatura a senador. Precioso trunfo para o filho de
Jorge Bornhausen, governador biônico de Santa Catarina durante a ditadura,
liderança do ex-PFL e patriarca de uma das mais ricas famílias do estado.
Direita reacionária na sua acepção mais desbragada.
Esta adesão
eufórica à velha política assinala a enésima contradição de pregadora da nova.
Uma análise da personagem do ponto de vista psicológico exibe, isto sim, uma
nova Marina. A contida, austera ambientalista na qualidade de candidata em
campanha mudou radicalmente o seu estilo, a ponto de pôr em xeque as crenças
professadas até ontem. A perspectiva do
poder leva-a a renovar seu verbo e seus gestos e a buscar a companhia de quantos
aparentemente haveriam de ser seus adversários, se não inimigos. Vale tudo para
chegar lá, é o que se deduz sem maiores esforços.
Confesso
minha surpresa. Marina Silva revela uma determinação obcecada que não imaginava. Certo é que a candidatura
de Eduardo Campos, sua plataforma, suas ideias, seus projetos e propósitos,
Marina conseguiu destruir. Receio que logre ir além, para demolir o próprio
Partido Socialista. Em lugar da nova política, temos a nova Marina.
Humoristas midiáticos
Há momentos
de puro humorismo propiciados pela mídia nativa. No momento a Folha de S.Paulo
celebra a instituição do ombudsman há 25 anos, de sorte a estabelecer a
autocrítica dentro do próprio jornal. O Folhão se apressa a esclarecer,
pomposo, que o exemplo não foi acompanhado pelas demais publicações brasileiras
enquanto em vários países do mundo a prática salutar é adotada. O nome
ombudsman, admito, me soa desagradável. De todo modo, tivesse funcionado sempre
para valer, viveria física e moralmente esgotado.
A leitura e a
audiência que parcimoniosamente dedico à mídia nativa me revelam o autêntico
responsável por todos os males no momento padecidos pelo Brasil. Ou melhor, a
responsável, Dilma Rousseff, a começar, pasmem, pela crise econômica mundial,
que ninguém poupa, até a inflação e o desemprego. Mas os porcentuais não são
bastante baixos em relação aos números globais? Segundo o Cérbero da família
Marinho, o cão de três cabeças à porta do Hades, a presidenta maquia os dados.
Ou finge ignorá-los?
Tudo é culpa
da Dilma, até, quem sabe, o 7 a 1 imposto pela seleção alemã aos canarinhos, ou
o tráfego congestionado, ou falta de luz em casa. Só mesmo a crescente,
inexorável escassez de água em São Paulo não pode ser atribuída à presidenta.
No caso, entretanto, o culpado, o governador, Alckmin, é prontamente perdoado e
se prepara ao passeio eleitoral.
A presidenta colheu precisamente os
resultados do que não semeou: não promoveu a emergência de um sistema
democrático de informação.
Wanderley Guilherme dos Santos
Aproveitando
a vaia pornofônica que singularizou a participação dos reacionários e
distraídos na abertura da Copa das Copas, a oposição saiu-se com o comentário
de que a presidenta Dilma Roussef colheu o que semeou. Pensou que estava
abafando. Não estava. Para além da falta de compostura e civilidade, a oposição
errava outra vez no diagnóstico. A presidenta colheu precisamente os resultados
do que não semeou: não promoveu a emergência de um sistema de informação
democratizado.
A falta de
pluralismo nos meios de comunicação não é ambição de esquerdas partidárias.
Trata-se da prestação de um serviço privado, pago por consumidores, atualmente
fraudados em suas aspirações de consumo. Ler um jornal, uma revista ou assistir
ao noticiário da televisão faz parte da pauta de itens que a vida moderna põe,
ou devia por, à disposição de quem os deseje usufruir. E os consumidores têm o
direito de protestar. Assim como os passageiros urbanos reclamam da qualidade
dos serviços pelos quais pagam, os leitores e espectadores insatisfeitos se
julgam ludibriados pelos fornecedores da mercadoria que compram.
Os jornais,
revistas e emissoras de televisão registraram com olhos complacentes os
quebra-quebras aleatórios propulsionados pela carestia e falta de qualidade dos
transportes em circulação. Não seria bom para a democracia, tal como não o eram
os destemperos de violência, que os desgostosos com o pífio padrão do
jornalismo, minorias como as de junho do ano passado ou maiorias como a queda
de audiência e circulação atestam, empastelassem jornais ou ocupassem estações
de televisão, exigindo participação e honestidade de gestão.
Durante o
período que antecedeu a Copa das Copas e não somente em relação a ela, os meios
de informação sonegaram centenas, milhares de notícias altamente relevantes
para a vida dos leitores e espectadores. Mais do que isso, disseminaram
incansavelmente uma visão de mundo incompatível com a realidade dos fatos. Era
falso que os aeroportos, estádios, avenidas e metrôs não iriam ficar prontos.
Era falso que os gramados não drenariam as chuvas, as comunicações não
funcionariam, os holofotes não acenderiam. Era falso que os turistas seriam
assaltados, que não haveria segurança, que conflitos gigantescos ofuscariam os
jogos nos campos de futebol pela pancadaria generalizada nas arenas do lado de
fora. Tudo falso. Moeda falsa. Produto estragado vendido a preço de luxo.
As trombetas
da derrocada econômica, da inflação sem controle, do afinal bem vindo
desemprego, são igualmente serviço fraudulento. Os leitores estão sendo
diariamente lesados em sua boa fé, duplamente: não são informados do que ocorre
efetivamente na sua cidade, no seu estado e no país, e são levados a acreditar
que há um pesadelo à espreita assim que puserem os pés fora de casa. Quando não
o vêem não é porque não exista, mas porque ainda não chegou a alguns lares:
inflação, desemprego, falta de saúde e de educação; pior, falta de perspectiva.
A lição é
terrível. Dela sabiam os tiranos da antiguidade, os tiranos da
contemporaneidade os imitaram: um sistema articulado de falsidades pode
produzir os delírios fantasistas ou as angústias aterradoras de uma droga, se
absorvido por tempo suficiente. Uma imprensa oligopolizada é nada menos do que
uma droga. Eficientíssima, capaz de produzir o pessimismo sem fundamento das
análises econômicas, tanto quanto o desvario irracional das vaias pornofônicas.
Ao se manter indiferente à péssima qualidade do serviço pago, inclusive com as
bondades das concessões e outras benfeitorias, a presidenta Dilma Roussef colheu
o que não semeou.
Em
entrevista, Muniz Sodré fala de racismo e manipulação da mídia
Muniz Sodré é negro,
baiano, fala russo, alemão, iorubá e francês, é faixa-preta em caratê e
jiu-jítsu. Mas não foi por isso que um dia, quando trabalhava na revista
Manchete, agrediu fisicamente Adolpho Bloch – coisa que muito jornalista já
teve vontade de fazer. Sodré completou 70 anos em 2012, no dia 12 de janeiro, e
entre os vários eventos que lhe prestam homenagem, um leva o nome de um grande
amigo.
O Prêmio de Jornalismo
Abdias Nascimento – organizado pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade
Racial (Cojira-Rio), ligada ao Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio –
vai homenagear este professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ. Na
noite de segunda-feira (12/11), em meio à entrega dos prêmios aos jornalistas
vencedores, Sodré será chamado ao palco. Ele vai ouvir algumas palavras, por
sua militância contra a discriminação racial e contribuição à diversidade
cultural, e falar algumas outras.
Antes disso, o site do Sindicato
dos Jornalistas foi até sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, para
uma entrevista sobre imprensa, jornalismo de hoje, de ontem, racismo e
preconceito. Confira a seguir.
Sindicato
dos Jornalistas do Rio: Ao longo de 2012 o senhor recebeu várias
homenagens pelos seus 70 anos. Como o senhor encara isso? A idade começou a
chegar de fato?
Muniz
Sodré: Ela chega. Com 70 anos você
começa a perceber que o corpo não está mais o mesmo. Eu faço esporte violento
(capoeira, caratê, jiu-jítsu), mas o corpo não reage da mesma maneira. Você
sente que o esqueleto não aguenta mais. No caratê, que é um esporte de impacto,
com o passar do tempo as pancadas vão ficando muito fortes. E o corpo não é
mais o mesmo. Faço ioga também. Outro dia, pela manhã, estava com o corpo todo
doído.
Sindicato dos
Jornalistas do Rio: Sua ligação com jornalismo vem de onde?
MS: Eu sempre gostei de ler e escrever. Sempre fui meio CDF. Falo várias
línguas. Fui tradutor, falo inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, russo,
árabe, iorubá (de origem africana, língua dos terreiros de candomblé), fui
professor de latim. Era muito conhecido na Bahia por isso. Fui tradutor oficial
da Prefeitura de Salvador. Quando você vai envelhecendo, o gosto por falar vai
desaparecendo. Não falo bem como eu falava antes. Mas ainda dou conferência
nestas línguas. O jornalismo vem desta coisa de escrever. Sempre fui
profissional de jornalismo. Mas deixei a profissão em 1974, não estava mais
interessado. Tinha um cargo na Bloch. Fui chefe de reportagem e redator da
Manchete. Comandei a TVE em 1979 e 80. Meu último cargo público foi na
Biblioteca Nacional, de 2005 a 2010. Nunca mais na vida quero cargo público.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Causa
muito problema?
MS: É
muito arriscado. Você dirigir orçamento público hoje é tão perigoso quanto
entrar à noite da favela do Rato Molhado (Zona Norte do Rio), você não sai
vivo. Pode entrar armado, vai sair sem arma e sem cabeça. Dirigir orçamento
público é a mesma coisa. Existem duas instituições de controle contábil no País
que acho que são as melhores do mundo: a Controladoria Geral da União (CGU) e o
Tribunal de Contas da União (TCU). Todo mudo acha que no Brasil tem muito
roubo. Tem roubo mas se sabe. É impossível roubar no serviço público sem que
(os órgãos) saibam. Cada conta, cada despesa é controlada integralmente pela
CGU, e no final do ano, pelo TCU.
Sindicato
dos Jornalistas do Rio: Uma vírgula fora do lugar e…
MS: Está
frito. Mas falam que é tanto roubo… Mas se sabe, só escapa quem tem força
política. É um tipo de trabalho que é muito bom para ladrão. Se você é honesto,
você pode se acusado por uma besteira e vai para o Diário Oficial da mesma
forma que o ladrão. Enquanto que o ladrão está acostumado a isso e não vai para
a cadeia. A primeira vez que estou vendo ir para a cadeia alguém deste tipo é
nessa história do mensalão. Quem costuma ir para cadeia mesmo é preto e pobre,
pp.
Sindicato
dos Jornalistas do Rio: E qual a sua avaliação sobre a cobertura dos
jornais atualmente, a exemplo da forma como foi noticiado o julgamento do
mensalão?
MS: Hoje
em dia o leitor se interessa muito pouco por assuntos sérios. O entretenimento
e a diversão são o grande módulo do jornalismo. Isso é uma lástima. Um exemplo:
o Segundo Caderno de O Globo. Os assuntos são música popular, TV, teatro,
shows. Aí você tem colunistas que, se você prestar a atenção, todos estão
ligados ao show business de um modo ou de outro – até quando são muito bons.
Francisco Bosco, filho do João Bosco, é muito bom articulista. Mas o pai é
músico, ele faz letra, é poeta… José Miguel Wisnik (também colunista em O
Globo) é músico, professor. Caetano Veloso é Caetano. Hermano Vianna, irmão de
Herbert Vianna. O show business, o entretenimento atravessam por inteiro o
jornalismo. Tudo é diversão. E acho que isso contaminou o assunto mensalão.
Para atrair leitores para este assunto, que é técnico, precisaram fazer uma
novela do Supremo Tribunal Federal, o bem e o mal. O Lewandowski (Ricardo,
ministro do STF, votou pela absolvição de réus do mensalão) foi votar (nas
últimas eleições) e recebeu vaia porque ficou como vilão da novela. Já o
Joaquim Barbosa (relator do caso) ficou de herói. Acompanhei o mensalão pelo
Globo, pelos jornais, como uma novelização do julgamento.
Sindicato
dos Jornalistas do Rio: A imprensa pode ter sido mais rigorosa por se
tratar de um julgamento que envolve políticos do PT?
MS: Tem
uma atração a mais. Se fosse o PSDB, e não tivesse no poder o PSDB, não teria a
mesma atração. Sabe-se que houve mensalão do PSDB, o caso do FHC nas Ilhas
Cayman, mas nunca tocaram nisso. É o mesmo tipo de escândalo se alguém vê e
denuncia. O problema é que alguém sempre apita, quando apita é preciso saber se
a imprensa está disposta a pegar isso.
Sindicato
dos Jornalistas do Rio: Pelo que o senhor observa nos alunos de
Jornalismo, qual é a expectativa deles com o futuro profissional, com o que vão
encontrar?
MS: O
jornalismo mudou. Ninguém que sai de lá (ECO) está desempregado. Estão nas
redações? Não. O maior mercado é a assessoria de comunicação, depois a
Internet. A comunicação hoje é um território onde a sociedade se desenvolve. As
pessoas no fundo criam seus próprios empregos hoje. Claro, tem muitos que vão
para jornal, para rádio, TV. As redações estão cheias de ex-alunos da ECO, da
Fluminense, da PUC. Mas é um emprego de uma rotatividade muito grande, você
passa pouco tempo nele. A profissão de deslocou da questão da entidade do
jornalista.
Na edição do Jornal Nacional de 24 defevereiro de 2012 – um momento marcado pelas ainda recentes ações higienistas de retirada dos chamados “noias” das ruas de São Paulo e Rio de Janeiro –, após uma longa reportagem de sete minutos sobre o crack para discutir a internação compulsória de seus usuários, o âncora William Bonner arrematou, diante das sobrancelhas graves de sua colega Patrícia Poeta: “Todo mundo diz que crack basta experimentar uma vez só e a pessoa fica viciada”.
Infelizmente, Bonner não citou fontes nem apresentou referências. Mesmo com as fantasias apocalíptico-epidêmicas associadas ao crack, ainda assim é necessário corrigir a informação do jornalista e alertar ao leitor que “todo mundo”, nesse caso específico, está errado. Não existe uso de droga sem usuário e sem contexto. Por mais que uma substância possa ter, por sua farmacologia, um maior ou menor potencial para induzir dependência, não existem drogas com propriedades “mágicas”. É a combinação entre a substância, o momento de vida da pessoa e o contexto de consumo que causam ou impedem a adição. Nenhuma droga vicia por si e nem instantemente, e isso vale tanto para o crack e a heroína quanto para uma das drogas de maior potencial de dependência, o tabaco.
A redução da criminalidade em Portugal
É uma tarefa árdua para o jornalista se mover dentro deste campo. Drogas, incluindo o álcool, são um assunto polêmico e complicado, que afeta as pessoas de formas diferentes e envolve campos distintos do conhecimento – Direito, Sociologia, Antropologia, Farmacologia, Neurociências, Psicologia, Religião, Saúde e Segurança Pública – áreas que usam termos mutuamente incongruentes e expressam visões frequentemente antagônicas entre si. Para complicar ainda mais, os jornalistas são uma categoria profissional cujo contato com as drogas legais e ilegais não é, definitivamente, menor do que na população em geral.
A segurança do profissional de imprensa, portanto, diante da dificuldade deste tipo de pauta, do peso do prazo e da necessidade de que a notícia também venda o meio onde ela circula, acaba sendo o lugar onde a classe política viceja diante da questão das drogas: o senso comum. Não ofenda, não contorne, não surpreenda o senso comum: enquanto as pessoas acreditarem que as drogas são um mal em si, mantém-se a zona de segurança.
Em um painel organizado pela Organização Mundial da Saúde em Washington para marcar o Dia Internacional contra o Abuso de Drogas, na terça-feira (26/6), especialistas defenderam as estratégias de redução de danos e até a legalização de substâncias ilícitas como formas de reduzir o impacto social de seu uso. Até onde a imprensa nacional chegará sobre este assunto, além de reproduzir as notas de agências internacionais e mencionar as “campanhas” oficiais? É fato que Portugal tem uma história de já 10 anos de sucesso na redução da criminalidade e do abuso ao tornar o uso de drogas legal. O que ficamos sabendo disso em nosso país? O que ouvimos por aqui do impacto das narcossalas da Europa para usuários de drogas que têm o mesmo perfil de nossos dependentes de crack?
Estimulante cerebral
O que lemos, assistimos ou escutamos são, quase invariavelmente, visitas dramáticas às “cracolândias” reais ou imaginárias e incursões a um único tipo de tratamento – internações compulsórias nas ditas comunidades terapêuticas – cuja efetividade é questionável. Monocordicamente, a imprensa reforça o que todo mundo já pensa sobre o assunto e, colateralmente, além de não contribuir socialmente no debate, capitaliza política e financeiramente pessoas e modelos que estão atrelados a, no mínimo, violações aos direitos humanos, segundo demonstrou um recente relatório do Conselho Federal de Psicologia.
Quando assisti à manifestação de William Bonner em cadeia nacional e horário nobre, fiquei pensando se o âncora dispararia expressões de tamanho senso comum se o assunto fosse, por exemplo, a pena de morte (“todo mundo diz que bandido bom é bandido morto”) ou a conduta de algum político (“todo mundo diz que o deputado fulano é ladrão”). Claro que não – apesar de ser, neurologicamente, um estimulante cerebral, só o crack é capaz de entorpecer a imprensa a esse ponto.
#YoSoY 132, a rebelião contra manipulação midiática no México
Se o movimento estudantil mexicano se definiu claramente contra o representante do PRI, Enrique Peña Nieto, sua irrupção na cena política foi muito mais além da disputa pela presidência. #YoSoY 132 instaurou um espaço de debate e diálogo que soube liberar-se da camisa de força tradicional com que os meios de comunicação do sistema oficial envolvem as sociedades. Por meio da internet e das redes sociais #YoSoY 132 criou um canal paralelo de discussão e de crítica global ao Estado mexicano que não tem precedentes no país. A reportagem é de Eduardo Febbro.
Eduardo Febbro - Cidade do México
Cidade do México - O impensável sempre tem lugar. Em pleno processo eleitoral mexicano, o impensável se chamou #YoSoY 132, um movimento estudantil que surgiu na Universidade Iberoamericana contra o candidato do PRI, Enrique Peña Nieto, e contra o ultraje da informação simbolizado para os jovens no canal Televisa. Se o movimento estudantil mexicano se definiu claramente contra o representante do PRI, sua irrupção na cena política foi muito mais além da disputa pela presidência. #YoSoY 132 instaurou um espaço de debate e diálogo que soube liberar-se da camisa de força tradicional com que os meios de comunicação do sistema oficial envolvem as sociedades. Por meio da internet e das redes sociais #YoSoY 132 criou um canal paralelo de discussão e de crítica global ao Estado mexicano que não tem precedentes no país.
Ainda que o contexto seja diferente e o México seja uma democracia, a sua maneira repentina e mobilizadora #YoSoY 132 segue a trajetória dos jovens revolucionários do Egito que, graças à internet, conseguiram plasmar uma rebelião contra todo um sistema. Acusado de partidarismo, de servir aos interesses do candidato da esquerda, Andrés Manuel López Obrador, dividido, contaminado pela contrapropaganda, # YoSoY 132 sobreviveu aos ataques e manipulações para deixar uma marca fresca e duradoura.
Como no Egito da Revolução da Praça Tahrir, ou como ocorreu com os indignados espanhóis, #YoSoY 132 se inscreve em uma corrente universal de renovação e saneamento da democracia contra os poderes e interesses incrustados nos grandes meios de comunicação. Como desse chamado quarto poder que é a mídia depende em grande parte a qualidade da democracia, o movimento estudantil agrupado em #YoSoY 132 inventou um quinto poder: a possibilidade de difundir uma verdade não coincidente com a informação normalizada da indústria da informação. De ator periférico #YoSoy 132 se converteu em ator central e chegou até a realizar um debate presidencial com três candidatos, do qual Enrique Peña Nieto não participou.
Ana Rolón, estudante da Universidade Iberoamericana, e Rodrigo Serrano, estudante de Comunicação na mesma universidade, fazem parte do comitê logístico de #YoSoY 132. Têm apenas 22 anos, mas se expressam com a convicção e a maturidade herdada de uma luta política que não sonhavam protagonizar quando saltaram ao primeiro plano há apenas alguns meses.
Neste diálogo com Carta Maior mantido em uma praça do bairro boêmio de Coyoacán, os estudantes-dirigentes delineiam a sociedade na qual se projetam no futuro.
Com que postulado central nasceu e se manteve o #YoSoy 132.
Rodrigo Serrano: Nosso principal postulado é a democratização dos meios de comunicação e a democracia verdadeira. Acreditamos que o candidato do PRI, Peña Nieto, pode ganhar a eleição, mas pensamos que a fraude está também na manipulação da informação. Os meios de comunicação distorcem a informação. Queremos que a democracia mexicana seja uma democracia informada e não uma democracia puramente formal.
Ana Rolon: A democratização dos meios de comunicação vai muito além desta conjuntura eleitoral. Parte do movimento lutou muito pelo voto informado, ou seja, que se ofereça uma informação que integre as propostas dos candidatos e o que cada um deles fez. O que dizemos para as pessoas é: “não vá atrás do marketing político, da propaganda, da cara do candidato”.
Como se situa o movimento com respeito à violência que sacudiu o México nos últimos seis anos e às propostas bastante tímidas dos candidatos?
Ana Rolon: Somos um movimento pacifista. Trata-se de lutar, mas com nossas armas: educação, conhecimento, leitura, cultura, arte.
Rodrigo Serrano: Nos criticaram porque protestávamos contra o governo e não contra os narcos. Mas isso é uma contradição porque o narco é criminal, não obedece à sociedade, mas sim a interesses privados. Protestar contra o narco é como protestar contra uma árvore. Em troca, em teoria, o governo funciona para escutar os cidadãos. Por isso, se queremos acabar com a violência, primeiro precisamos de um governo que escute os cidadãos. E essa é a causa pela qual estamos lutando.
Ana Rolon: Nosso movimento exige este diálogo entre governo e cidadania. Por isso nós organizamos um debate entre os candidatos onde o formato mudou totalmente em relação aos debates anteriores organizados pelo IFE, o Instituto Federal Eleitoral. O formato que escolhemos foi: “escuta os que os cidadãos têm a dizer”. Recebemos as perguntas formuladas por toda a cidadania através da internet. E aí se abriu o debate para todos, não importando se o autor da pergunta fosse ou não estudante, do Distrito Federal ou de outra parte. Recebemos 7.100 perguntas provenientes de todo o país. Tomamos o debate desde um lado distinto, dizendo: “Escutem-nos, nós somos a cidadania”.
Vocês, graças às chamadas novas tecnologias, romperam o bloco tradicional no qual funcionam os processos políticos, ou seja, onde os meios de comunicação são intermediários absolutos entre os partidos e os eleitores.
Ana Rolon: Nosso movimento partiu de um vídeo feito por 131 alunos da Universidade Iberoamericana que respondiam aos ataques. Só quisemos dizer: “cuidado, quero usar meu direito de resposta, não preciso enviar uma carta aos editores. Posso usar as tecnologias e te desmentir”.
As novas tecnologias foram então determinantes para o auge do movimento estudantil mexicano.
Rodrigo Serrano: A tecnologia é a espinha dorsal desse movimento. Nos primeiros dias havia uma imagem muito interessante que circulava no Facebook e que dizia: “não é que o México estivesse adormecido, é que não havia a internet”. Há muita gente que está aqui enojada e com as redes sociais se abre a possibilidade de se organizar.
As redes sociais serviram para romper o cerco da informação.
Ana Rolon: Sim. Graças às redes sociais não precisamos ficar esperando que os meios tradicionais informem sobre uma marcha. Não faz falta mais. Nós jogamos muito com tecnologia e com a rua. Assim nós podemos saltar por cima desses meios que nós consideramos de “duvidosa neutralidade”. Por exemplo, como os meios tradicionais sempre distorcem a informação sobre quanta gente participa realmente das marchas, nós cantamos para eles: “não somos um, não somos cem, imprensa vendida, conta-nos bem”. As tecnologias tem nos ajudado muito a limpar o viés dos meios oficiais e ir muito mais além.
Rodrigo Serrano: Muitos canais de televisão não entenderam que, agora, nós somos o meio. Transmite-se através de nosso canal. Esses canais não gostam que não necessitemos deles. Chegaram até a dizer que havíamos firmado um contrato de exclusividade com o Youtube. Mas o Youtube não é um meio, o meio é nosso canal, o canal 131. O sinal está aberto para que seja acessado, mas a produção é nossa. Isso eles não aceitam. Não conseguem entender que agora os cidadãos também podem ser meios de comunicação. O problema central no México não está no fato de que os meios de comunicação e o poder político sejam cúmplices, mas sim que são a mesma coisa. Por isso, não temos uma democracia real.
Ana Rolon: O tema da democratização dos meios de comunicação vai mais além desta eleição presidencial. Vai para sempre. Ganhe quem ganhe, vamos seguir exigindo esse diálogo, essa interação muito mais direta entre cidadãos e políticos. Seguiremos em cima dos meios de comunicação que não respeitam os interesses da cidadania, mas sim os interesses políticos e os interesses privados. Não vamos dormir. Seguiremos exigindo o diálogo. Esse é o grande símbolo.
Como vocês projetam o futuro? Qual papel e que estratégia pretendem adotar?
Rodrigo Serrano: O México já tem um século de governos autoritários e paternalistas onde o governo acredita fazer o favor de promover algumas melhoras para alguns. Mas isso não deve ser assim. Nos últimos 12 anos, nossa democracia foi meramente formal, não se meteu na vida pública. Isso que ocorreu é um sintoma de que os cidadãos se deram conta de que podem exigir e serem escutados. Nós estamos hoje em condições de organizar debates. Os candidatos, o governo ou o presidente não são deuses com os quais não podemos falar. São pessoas e estão aqui para nos atender. São servidores públicos. O que importa agora não é nosso movimento como organização, mas sim como símbolo. Graças ao debate que organizamos com os candidatos, aos protestos contra Peña Nieto, aos protestos contra a Televisa, demonstramos que é possível falar cara a cara com os governantes. Isso, no México, era algo impensável. Eu creio que, ganhe quem ganhe, isso veio para ficar. Pode ser que o PRI conserve ainda o gene autoritário e repressor, mas nós temos agora novas tecnologias de comunicação e um novo modo de pensar. Não vai ser tão fácil.
O anti-espírito de Occupy na Educação e na vida...
A falta de Educação, a mercantilização dela, o roubo do espírito e da imagem de libertadores e de um movimento pela libertação de tudo isso...
Leo Nogueira
O vídeo insistentemente veiculado na TV pelo Sistema de Ensino Energia (Pré-Vestibular) falando de um “mundo mais justo”, “ocupar as ruas”, “juntos somos 100%”, “menos ganância” e “liberdade”, “quem quer deixar o mundo melhor” etc. mostra imagens cuidadosamente trabalhadas, até bonitas graficamente, mas des-virtuando e deturpando completamente o espírito do Movimento Occupy e de tudo o que ele representa.
A certa altura, até a imagem de Che Guevara, imortalizada por Alberto Korda, ilustra o material, querendo fazer parecer que o grande e verdadeiro revolucionário apoiaria um cursinho pré-vestibular que só existe em função da exploração de estudantes que buscam uma vaga na universidade.
Ocupar a universidade? O que é isso, senão lutar pelo direito de todos à educação de qualidade, algo que ao redor do mundo realmente acontece na guerra por re-evolucionar esse sistema capitalista des-humanizador que provoca a exclusão, inclusive dos jovens na universidade, o que os "occupiers" fazem?
O “Energia” faz isso, ou o tal cursinho é um braço na Educação dessa ideologia que mercantiliza tudo, que reduz o cidadão de direitos a consumidor de apostilas e aulões com decorebas e musiquinhas que imbecilizam os estudantes, até que estes se tornem autômatos passando pelo gargalo do funil, enquanto pelas mensalidades pagas às empresas de educação as moedinhas passam pelo buraco do cofrinho? Dessa inculcação à moda da educação bancária a juventude desse cursinho representa os altos índices de aprovação para frequentar a universidade bancária, essa que em suma reproduz e reforça esse sistema de coisas.
Eu me sinto completamente ofendido por essa propaganda falsa, enganosa, mentirosa, leviana, hipócrita, nojenta, que toma e rouba símbolos da resistência a esse capitalismo para fazer passar um cursinho de de-formação de consciências, “ajudando” os jovens “a ocupar o seu lugar no mundo” como algo revolucionário.
Só faltava esse “comercial” para colocar uma cereja no sorvetinho doce da manipulação da propaganda para enganar jovens que querem seguir para a universidade.
A educação superior não é sonho, a educação não é mercadoria como querem essas empresas. A educação de qualidade é um direito, e todos deveriam ocupar a universidade lutando por seus direitos negados por políticos, direitos explorados pelos donos dessas empresas-cursinhos mancomunados nesse jogo de interesses da mercantilização da educação.
Quem quer entrar para a universidade pública, de qualidade, que lute desde pequeno, e quanto possa para des-mascarar os mercadejadores dos direitos de todos, esses agiotas de nossa cidadania que nesse caso criminoso são representados pelo “Energia”.
Quem quer entrar para a universidade e verdadeiramente revolucionar o mundo, comece a não aceitar esse tipo de propaganda mentirosa e enganadora. Quem quer entrar para a universidade que ocupe todos os espaços de manifestação que ao redor do mundo não aceitam mais tais tipos de imposição e mentiras ditadas pelos banqueiros e donos do mundo.
É isso que os “occupiers” fazem ao redor do mundo, como também o movimento estudantil revolucionário latino-americano. Coisas que, naturalmente, as mídias/sócias dos cursinhos não mostram na sua integridade. As mídias hegemônicas e o Pré-Vestibular Energia fazem bem é isso: mentem. E usar imagens/ideias de Occupy é um crime que merece explicações, à organização em Nova Iorque, aos estudantes e "ocupantes" legítimos e verdadeiros.
Essa estratégia de marketing dissimulada, revoltante, elaborada para despertar simpatia entre a juventude é um gesto que deve ser repudiado, uma atitude intolerável e indigna. Só mesmo a falta de Educação, de qualidade, para gerar uma propaganda de teor tão repugnante.
Divulguem e colaborem para denunciar isso!
Conheçam e confiram tal acinte na página do Sistema (Capitalista) de Ensino Energia seus criadores, que deveriam estar envergonhados com tal proeza anti-ética de manipulação midiática, e botem a boca no trombone, defendam seus direitos, defendam a verdadeira revolução e o espírito libertário de Che Guevara e do Movimento Occupy:
"Nova campanha do pré-vestibular Energia"
"Está no ar a nova campanha do pré-vestibular Energia. As peças pegam carona no famoso movimento Occupy, lembrando aos jovens que tão importante quanto ocupar as praças e as ruas é ocupar a Universidade. E que o Energia está aí para ajudar a gurizada a ocupar as vagas do ensino superior e fazer um mundo melhor a partir do conhecimento".
Conheça também o Movimento Occupy, participe dele, revolucione-se com ele. Basta dessa "Energia" de baixo teor vibratório na educação, e na vida da gente!
Comentário via Facebook:
Não é de hoje que a propaganda se apropria das formas contestatórias esvaziando seus conteúdos políticos.
A contracultura e os ícones da esquerda revolucionária são esvaziados de sentido histórico e emancipador para vender mercadorias, sejam elas camisetas de griffes ou cursos pré-vestibulares.
A sociedade do espetáculo gera a adaptação juvenil aos valores vigentes em um ciclo, quanto mais adaptado à lógica do consumo da rebeldia como mercadoria, mais adaptado a uma sociabilidade consumista.
Entretanto nem sempre essa lógica tem conseguido absorver a contestação, muitos jovens inicialmente tem o primeiro contato com expressões da contracultura por meio da indústria cultural e depois passa a questionar a lógica do consumo.
Exemplo: um garoto que começa escutar Sex Pistols porque todo mundo fala e a mídia convencional o apresenta como um modelo da contracultura punk, mas ao frequentar os espaços onde encontram os signatários da contracultura vai percebendo que ser punk vai além de consumir certas bandas, a questão do grupo de afinidade acaba por levantando questões inerentes ao consumo e as questões políticas.
Ainda que essa lógica tenha causado bastante perdas as lutas contraculturais, acho que uma das alternativas denunciar como fez o Leo Nogueira Paqonawta e ampliar as convergências entre vários setores dos movimentos de contestação.
Também me indignei com propagando do Energia e me impressionei com rapidez que os publicitários usaram isso para vender o curso pré-vestibular, correndo o risco do seu material de publicidade serem atacados como já aconteceu com outras empresas.