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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Amy Goodman: "Nós precisamos libertar a mídia – e vamos fazê-lo"


Nós precisamos libertar a mídia – e vamos fazê-lo

Amy Goodman

A mídia não deveria ser uma ferramenta somente para os poderosos. A mídia pode ser um palanque para os debates mais importantes dos nossos dias: guerra e paz, liberdade e tirania. O debate deve ser abrangente – e não apenas uma discussão estreita entre democratas e republicanos incorporados ao sistema. Precisamos romper os limites que definem atualmente o que é uma discussão aceitável. Precisamos de uma mídia democrática.

Uma mídia democrática nos dá esperança. Ela registra os movimentos e as organizações que estão fazendo história, hoje. Quando as pessoas ouvem as vozes de seus vizinhos, quando elas identificam suas lutas naquilo a que assistem e que leem, seus espíritos se erguem. Elas se sentem como se pudessem fazer diferença.

Mudanças sociais não saltam para fora das mentes de generais ou presidentes – na verdade, mudanças são normalmente impedidas pelos poderosos. Mudanças começam com as pessoas comuns trabalhando em suas comunidades, e é aí que a mídia deveria começar também. O papel da mídia não é concordar com qualquer pessoa ou grupo – nem com o governo nem com os poderosos. Mas a mídia tem responsabilidade de incluir todas as vozes em um discurso e depois deixar que as pessoas decidam. Este é um novo tipo de política de poder. No lugar de acordos a portas fechadas, reuniões a céu aberto, públicas, transparentes, e com debates calorosos. É assim que se parece uma democracia.

Introdução do capítulo 18 . Conclusão: libertar a mídia

GOODMAN, Amy; GOODMAN, David. Corrupção à Americana: desnudando as mentiras, a imprensa, os empresários e os políticos que produzem e lucram com a guerra (Tradução de Tatiana Salem Levy) Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
Págs 281-282

Em “Corrupção à Americana”, os consagrados jornalistas Amy e David Goodman partem impiedosamente para o ataque e desafiam o poder da Casa Branca. Correndo atrás da verdade e sem medo de expô-la, a dupla prova definitivamente que há algo de muito podre no reino do Tio Sam. Amy, que já foi celebrada por militantes como Michael Moore e Noam Chomsky, dá voz às poucas cabeças pensantes interessadas em mudar o mundo e escancara todas as atrocidades cometidas pelos políticos, empresários e aqueles que se dizem representantes da imprensa. Mais do que um livro, “Corrupção à Americana” é documento fundamental e transformador. Planeta news

"Ela levanta a cada manhã - muito antes da maioria de nós! - para fazer ouvir a única voz da verdade na radio dos Estados Unidos. Triste ue eu ainda tenha que escrever estas palavra! Uma nação de 300 milhões de pessoas, com liberdade de imprensa assegurada por escrito, e ninguém faz o trabalho que Amy Goodman faz, de maneira tão simples e tão profunda. Este livro aponta todas as mentiras que nos contam, dia sim dia não. Amy Goodman é um tesouro nacional”. Livraria Sapiens

Título original
The exception to the rulers

Videos em Inglês sem legendas

Amy Goodman: The Exception to the Rulers (1 of 6)
Amy Goodman: The Exception to the Rulers (2 of 6)
Amy Goodman: The Exception to the Rulers (3 of 6)
Amy Goodman: The Exception to the Rulers (4 of 6)
Amy Goodman: The Exception to the Rulers (5 of 6)
Amy Goodman: The Exception to the Rulers (6 of 6)

Vídeos em Inglês legendado em Português

Mídia Independente em Tempos de Guerra - 1/3
Mídia Independente em Tempos de Guerra - 2/3
Mídia Independente em Tempos de Guerra - 3/3

Amy Goodman é a âncora de Democracy Now!, um noticiário internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em mais de 250 em espanhol. É co-autora do livro "Os que lutam contra o sistema: Heróis ordinários em tempos extraordinários nos Estados Unidos", editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur. Diário Liberdade

Democracy Now! em inglês clicando aqui.
Democracy ow! em espanhol clicando aqui.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Importa ser misericordioso"...


Não basta ser bom, importa ser misericordioso

Ele não se propôs fundar uma nova religião. Nem pretendeu que as pessoas fossem mais religiosas. Mas o que de fato quis, foi que todos, com a religião ou sem ela, fossem mais humanos, solidários, fraternos, justos, amorosos e misericordiosos

Leonardo Boff
04/04/2012

A Semana Santa nos convida a pensar sobre o sentido maior de nossas vidas à luz daquele que foi radicalmente humano e por isso também divino. Ele não se propôs fundar uma nova religião. Nem pretendeu que as pessoas fossem mais religiosas. Mas o que de fato quis, foi que todos, com a religião ou sem ela, fossem mais humanos, solidários, fraternos, justos, amorosos e misericordiosos.

Para Jesus não bastava ser bom. Tinha que ser misericordioso. Só assim seria plenamente humano. O Deus que anunciava era um Pai bom mas principalmente era um Pai misericordioso. Sentir a dor do outro, abaixar-se até o seu nível e compreender sua vulnerabilidade sem logo julgá-la, constituía a originalidade de sua mensagem.

Ela é atualíssima. Num mundo cruel e sem piedade, onde nações são arrasadas pela voracidade do capital que as mergulha em dívidas, como se faz urgente e necessária esta virtude escandalosa e tão radicalmente humana que é a misericórida.Precisamos trazer de volta a figura do Pai bom mas fundamentalmente misericordioso.

Se há um eclipse da figura do pai na sociedade moderna, há também uma saudade por sua volta, já testemunhada há séculos por Telêmaco, filho de Ulisses, na Odisséia de Homero: “Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria, seria a volta do pai”. Curiosamente esta volta é augurada pelo Cristianismo, numa página memorável de São Lucas ao falar da volta do pai ao filho pródigo.

Para compreender esta volta do pai, importa situar a parábola no contexto da prática e da proposta de Jesus. É um dado historicamente assegurado que Jesus circulava entre pessoas de má companhia e que comia com elas. Comer era considerado, para os critérios do tempo, um sinal de amizade. Naturalmente provocava escândalo entre as pessoas piedosas que passavam a criticá-lo.

Por que Jesus assumia um comportamento assim ambíguo? Responder a isso é identificar sua experiência espiritual e sua forma de entender Deus. Jesus experimentou um Deus que é Pai de infinita bondade e que, por isso, assumiu características de mãe: acolhe a todos, a bons e a maus e revela uma misericórdia ilimitada. A forma como Jesus expressa a misericórdia de Deus é ser ele mesmo misericordioso, coerente com o que aconselhava aos outros: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Em razão disso, se misturava às pessoas de má fama para que, em contacto com ele, pudessem sentir a misericórdia divina.

Para facilitar a compreensão dos piedosos que se escandalizavam, narra três parábolas: a da moeda perdida, a da ovelha desgarrada e a mais conhecida de todas, a do filho pródigo. Cada parábola termina com estas palavras consoladoras: “alegrai-vos comigo porque encontrei a ovelha desgarrada, a moeda perdida e porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”.

Precisamos ser duros de coração e faltos de espiritualidade para não apreciarmos essa experiência de Deus como Pai de misericórdia. Como o amor é incondicional, incondicional é também a misericórdia. Nisso a parábola do filho pródigo é explícita. A novidade não reside no fato de o filho voltar ao pai, depois de haver esbanjado tudo e se encher de remorsos e de saudades. A novidade reside no fato de o pai voltar ao filho: ao vê-lo na curva da estrada, o pai corre-lhe ao encontro, lança-se ao pescoço e cobre-o de beijos. Não lhe cobra nada. Ao contrário, prepara-lhe uma festa.

Com isso Jesus quis deixar claro: Deus é um Pai materno ou uma Mãe paterna que sempre volta para os filhos e filhas, por malévolos que sejam, porque nunca lhe saem do coração.

As Igrejas, diferentes de Jesus, raramente se voltam para as pessoas para que façam uma experiência de misericórdia. Antes, continuam a aterrorizar as consciências com as chamas do inferno. Escolhem o caminho do moralismo, reforçando o medo que mantém cativa a liberdade e torna triste a vida.

Jesus mesmo denuncia essa atitude, presente no filho bom que ficou em casa, à sombra do pai. Ele se nega a voltar para o irmão. Quer a observância da norma e a aplicação do castigo. Esse filho bom é o único a ser criticado por Jesus. Para Jesus não basta sermos bons. Importa sempre voltar para o outro e mostrar amor e misericórdia.

Pai e filho voltam um ao outro: fecha-se o círculo e irrompe então a irradiação da plena humanidade.

Reproduzido de Brasil de Fato
04 abr 2012
Via Faceook

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sem adeus, Mosquito... Tu vives... você nos comoveu...


Sem adeus, Mosquito... Tu vives...

Por Elaine Tavares
14 dez 2011

Ali estávamos os dois, frente a frente. Eu, arrasada. Ele, abatido, no caixão. Lembrei-me de uma de nossas últimas conversas quando ele dizia, naquele jeito atabalhoado e gritão: “a solidão é foda, Elaine Tavares”. E ele falava da solidão que a pessoa fica quando se decide a andar na contramão. Quando tudo aponta para que a criatura aceite as coisas, não esbraveje, não enxergue, não reivindique, não se indigne – e ela insiste em não fazer parte do cordão dos escravos de Jó. Aí ela fica sozinha. A pessoa assume o status de “leproso social”. Era como ele se sentia. “Abandonam a gente”. Alguma coisa assim como a imagem dada por um poeta, do qual não lembro o nome: numa terra de fugitivos, quem fica é que parece estar fugindo.

Amilton Alexandre, o Mosquito era assim. Ele podia ter fugido para o mundo farto dos que se rendem ao sistema. Mas não, ele preferiu ficar do lado das gentes, do lado da cidade, das maiorias. Pagou alto preço por isso. E era uma dessas pessoas que não passam incólumes. Espalhafatoso, agitado, resmungão, inconveniente, excessivo. Tudo isso, é certo! Mas também era meigo, generoso, brincalhão, quase um menino, como lembrou hoje a Raquel Wandelli. Nietszche o descreve. “O super-homem é criança”. Assim, o Mosquito.

A primeira vez que o vi, não gostei dele. Era carnaval e ele comandava a folia no seu mítico bar, o Havana, reduto da cultura e da política no Desterro. Falava aos berros, xingava, esculhambava todo mundo. Eu, outra insuportável, torci o nariz. Mas, minha amiga Rose Laurindo, que é a generosidade em pessoa me dizia: “Ele é gente boa”. Fui acreditando. O tempo passou e comecei a gostar daquele homem amalucado que sonhava com uma cidade cheia de cultura, de coisas boas, de gente de bem. Com o fim do bar, o Mosquito sumiu. Mas, vez ou outra, quando acontecia alguma coisa muito escabrosa na cidade ele ligava, ou gritava da janela de um ônibus: “Elaine Tavares, tem que falar sobre isso, sobre aquilo”. Muitas das minhas pautas nasceram daquele olhar insistente que ele lançava sobre a vida da cidade. Era um repórter, dos bons.

E essa era outra de suas broncas. Ele se acreditava jornalista e queria o registro. Tivemos algumas conversas sobre isso, já que eu defendia o diploma. Tentava mostrar para ele que a questão do fim da exigência do diploma era coisa dos patrões, para explorar mais e melhor os trabalhadores, mas ele não se conformava. E mandava todos os sindicalistas “tomar no c” ... A gente ria. E eu o confirmava, dizendo que ele era mais jornalista do que uma multidão de formados. Ele ficava feliz. Gostava de ser elogiado.

Então, com o advento da tecnologia, a internet, o blog, ele pode dar vazão àquilo tudo que só esbravejava pelas ruas, nos bares, no mercado. E o seu blog “Tijoladas do Mosquito” passou a pautar a vida e a política da cidade e do estado. Mosquito matava a cobra e mostrava o pau. Dizia as denúncias com todas as letras. “Ele era muito excessivo”, dizem alguns. Excessivo? Excessivos são os filhos de uma aberração que destroem a cidade, o estado, a natureza, as gentes. Excessivos são os empresários corruptos, os devastadores de praias, os que usam da justiça para proteger os ricos, os políticos ladrões. Esses são os “excessivos”, e Mosquito os nomeava, com nome, sobrenome e CPF, acompanhado de um monte de outros adjetivos de baixo calão. Tão baixo quanto os crimes que as figuras cometem. Ainda que freqüentem os salões.

Mosquito amava a cidade. Cuidava dela como uma mãe extremada vigia seus filhotes. Era comum encontrá-lo pelo terminal urbano, tarde da noite, com seu computador levantado, mostrando alguma barbaridade. Ou então pelas ruas da cidade, registrando as falcatruas e os abusos. Ele era o vigia da beleza, do bem viver. Queria que a cidade fosse para todos e não só para alguns e não poupava os vilões e os vendilhões. Por isso, acumulou processos. Dizia o que nenhum jornalista diplomado jamais disse. Mostrava os documentos, provava.

Nas últimas semanas estava arrasado. Sem trabalho, sem dinheiro, sem o respeito dos seus colegas, ele se debatia em meio a uma série de ameaças de morte e de prisão. Não aceitava ser condenado numa ação do Marcondes de Mattos, por exemplo, que destruiu o Santinho para colocar lá um hotel cinco estrelas para usufruto só dos ricos. Na sua ingênua bondade, ele acreditava que a justiça não iria lhe dar esse golpe. Mas ela deu. Porque a justiça está quase sempre com os poderosos. Queria um emprego, o Mosquito. Mas não encontrava quem desse. Ele era um incômodo. Da sua boca poderia sair a vociferação contra qualquer um, desde que esse um fizesse alguma merda contra a cidade, contra as gentes.

Hoje, ali, na pequena capela, os amigos foram chegando. E das suas bocas saíram as palavras mais belas. “Guerreiro, lutador, generoso, criança, defensor da cidade, apaixonado por Florianópolis, carinhoso, amigo, implacável contra a injustiça”. Cada uma delas foi tecendo a fala do Padre Vilson, que montou um mosaico dessa criatura cheia de contradições, mas igualmente repleta de maravilhas. Um ser humano, de sombra e luz! E, inacreditavelmente, Mosquito permanecia quieto. Fiquei a imaginar se numa outra dimensão ele não estaria aos gritos, vociferando.

Mosquito foi embora numa tarde temporal. A velha Desterro se derretia em água e relâmpagos. Foi a “hora noa” (hora da agonia) do guerreiro jornalista. Não sabemos ainda se alguém o matou. Pode ser que ele tenha se desencantado tanto com as ações, as ameaças de morte, de prisão, o fim do blog, a falta de perspectiva de futuro e tenha decidido partir. Se foi assim, certamente seu gesto foi a definitiva banana para os seus inimigos. Ninguém iria se deliciar sobre seu despojo. O grande urso, o menino indignado, o valente boca-suja deixa a vida. Mas a vida não o deixará. Amilton Alexandre, o Mosquito, é história! Não só por ter vivido a novembrada, pelo Havana Bar, pelos seus gritos de aviso, mas pelo seu amor incondicional pela cidade, pela cultura, pela justiça. E, enquanto o corpo que o abrigava baixa ao chão eu já o imagino, vivo, articulando junto a São Pedro, alguma confusão no céu... Quem sabe um bar?... Ou um cinema? Talvez um carnaval...

Reproduzido de Palavras Insurgentes

Comentário de Filosomídia:

Eu estive pessoalmente com ele apenas uma vez, quando o vi com seu megafone e um maço de boletins impressos do Tijoladas na outra mão,em frente ao horroroso TICEN no centro de Florianópolis. Claro que adquiri alguns boletins para colaborar na manutenção do seu blog que eu visitava de quando em vez e, dava boas gargalhadas sobre as porcariadas que  denunciava. E, naquele final de tarde chuvoso - equilibrando as minhas muletas com o guarda-chuva - passei bons momentos papeando com ele,  pessoa super gentil...

Outro dia eu seguia des-muletado pela Felipe Schmidt e, na altura do "Senadinho", havia um grupo teatral apresentando um esquete na encruzilhada, inclusive com som feito por um DJ em sua mesa cheia de botões, e pessoas apinhadas ao redor. Eis que, de repente, chega um rapaz e me pergunta: "- Você não quer fazer uma foto?". Eu que sempre ando com a camerazinha registrando isso e aquilo pela cidade, respondi surpreso, do porquê eu faria uma foto.E, o rapaz afirma sorrindo: -"Você não é o Tijoladas?". Sorri à sua observação e me olhei numa vitrine espelhada, reparando que às vezes uso o cavanhaque à maneira do Amilton e, que apesar de estar Pedagordo, não sou tão cheiinho assim como ele estava. E, segui na minha lida.

Voltando da universidade à noitinha, depois daquela tempestade de terça-feira, recebi a notícia de que ele tinha sido encontrado morto. E, me lembrei dessas cenas acima, do que noticiava pelo blog, e também do que acabara de ler há pouco no DC, tomando um cafezinho na UFSC: um tal importante político e ex-governador catarinense estava "tomado pela emoção" e, finalmente "ficha limpa" depois da Justiça rejeitar denúncia movida pelo Ministério Público...

E, fui ler na internet sobre o que havia acontecido. Eu me lembrei do Herzog, que também se suicidou e mil outras cenas foram surgindo, passando como um filme ora mudo, ora com os ecos da Novembrada... e desenhei um "mosquitinho" pra ele, que foi tantas vezes pousar na sopa dos finos pratos dos poderosos...

E, mais tarde, estava a assistir a entrevista de Paulo Henrique Amorim a Amaury Ribeiro Jr, denunciando as privatarias tucanas recentes, dando outras gargalhadas, mas me entristecendo e quase sabendo que daqui a pouco ele é outro jornalista que pode aparecer suicidado também...

Agora lendo e refletindo sobre o texto da insurgente amiga "só isso, jornalista", fico  pensando naqueles que saem dessa vida cheia de bandidos por toda parte, e vão entrando assim para a História, lembrados amorosamente por tantos de nós, porque de alguma forma nos espelhamos e nos sentimos ligados a eles por suas heroices e lutas...

É verdade... aqueles polititicos vivem bem às custas da ignorância e ingenuidade do povo, e entram para as histórias como a razão de muitas mortes que provocaram e que levam em suas costas pesadas e culpadas... Mas, "tu vives...", Mosquito... e, porque não tivesses costas largas entre aquela gente poderosa, e fostes pelo caminho dos que são poucos os que sabem seguir até o Calvário bradando pela dignidade, em suas costas de Amilton só cabem mesmo duas asinhas...

Aos polititicos do galinheiro eleitoral só cabe dizer e dar, como você disse e deu, uma bela "banana"... essa gente que fica "tomada de emoção" por não serem presas por roubar...

Inspire daí de cima que nos movamos aqui em baixo em nossas lutas na mesma pauta da dignidade, denunciando as baixarias dessa polititica feita por gente sem escrúpulos...Verdadeira justiça seja feita, a você que nos co-moveu...

E, como nos lembrou Elaine e assim é que imaginamos você - menino indignado - mandamos um abraço fraterno e respeitoso. Agora que está junto com o  Pedrão aí em cima não dizemos adeus, mas até breve, Mosquito...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Deixai vir à midia as criancinhas...


Todo dia é dia da criança

Elaine Tavares
07 out 2011

Para meu amigo Leo Nogueira (que é criança)

Dois homens, os quais amo muito, disseram coisas muito semelhantes sobre a criança. Um deles foi Jesus. Ao verem o mestre, numa de suas paradas, entre os caminhos poeirentos das estradas da Palestina, ser rodeado pelos pequenos barulhentos, os seus companheiros decidiram enxotá-los, acreditando que era isso que Jesus desejava. Mas o Rabi fez foi enxotar os apóstolos. “Deixai vir a mim as criancinhas, porque é delas o reino do meu pai”. Daquela cena fala Lucas, em seu evangelho: “O reino de Deus é dos que se parecem com as crianças. O que não receber o reino como uma criança, não entrará nele”, ( Lucas.18:15).

Bem mais tarde, Nietzsche, na Alemanha, vai oferecer ao mundo sua visão de super-homem. Para ele, o super-homem é, justamente, a criança. No seu lindo livro “Assim falava Zaratustra”, Friedrich diz: “Dizei-me irmãos: que poderá a criança fazer de que o próprio leão tenha sido incapaz? Para que será preciso que o altivo leão tenha de se mudar ainda em criança?” A resposta é a chave para a idéia de super-homem. Diz Zaratustra que a criança é a inocência, o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si. “Para jogar o jogo dos criadores é preciso ser uma santa afirmação. O espírito quer agora a sua própria vontade, tendo perdido o mundo, conquista seu próprio mundo”.

A criança não sabe das maldades do mundo, não foi domesticada pela sociedade onde está inserida. Nela não há bem, nem mal, apenas o viver, a descoberta. A surpreendente descoberta de um dedo que se move, de um pé, de coisas que a rodeiam e sobre as quais ela nada sabe. É por isso que um bebê pode sorrir diante de um lobo, ele não sabe do mal, está cheio de encantamento pela vida que passeia diante de seus olhos. É isso que o profeta Zaratustra, de Nietzsche, vem dizer quando propõe a “terceira transformação”. Nenhum mal, nenhum bem, só esse encantamento, esse brilho no olhar, essa sede de descobrir.

É na criança que se vê, inteira, a coragem, a nobreza, a aceitação da diferença, a força que desloca para frente, destemida. Percebe-se aqui o amor imenso de Nietzsche pelo ideal pré-socrático. A criança de Nietzsche é um pouco o herói homérico, guerreiro que vai para a luta pensando em nada. Só a vontade de lutar o impulsiona e, se sai vivo da batalha, celebra a vida que continua. Nem bem, nem mal.

Por isso, esses homens tão desiguais se encontram em mim, porque também acredito que é preciso que a gente nunca perca de vista a criança em nós. Porque só assim entraremos no “reino” (a vida boa e bonita), porque só assim nos tornaremos aquele que podendo fazer tudo, só faz o que é nobre (o super-homem).

Nesses dias que antecedem o dia da criança observei muitas coisas estranhas. Na internet rolou um movimento de colocar desenhos para denunciar a violência contra a criança, e coisas do tipo. Acredito que isso pode ser válido, mas não é suficiente. A violência contra as crianças começa dentro da gente. Todo o drama da violência que vimos expressado cotidianamente nos programas televisivos de desgraças e nas páginas policiais é fruto da ação de adultos que perderam sua criancice. Seja pela desgraça da miséria e da dor que pode ter sido tão grande que os endureceu, seja pela violência de um sistema que tem por premissa básica o lema: para que um viva, outro tem de morrer.

Quando vejo por aí essas caminhadas pela paz, ou esses movimento virtuais, isso me desconforta. Não basta pedir paz aos “bandidos”. Essas criaturas que andam pelos caminhos roubando e matando não são sensíveis a isso. Elas querem é ver mudanças concretas nas suas vidas. Por que raios dariam paz a uma classe que as oprime e destrói? E aí o círculo da violência segue girando.

O concreto da luta pela paz é a mudança real de cada ser humano. Viver como criança, sentir como criança, brincar como criança, amar como criança. Gratuidade, alegria, partilha. Caminhar nessa beleza é o primeiro passo. Depois, já impregnados dessa ternura infantil, a gente sai para a vida, para mudar o mundo. No partido, no sindicato, no movimento, na luta real, concreta, nas estradas secundárias. Mudar o sistema, o modo de organizar a vida. Atuar no sentido de tornar todos crianças, capazes da nobreza, do bem-viver.

Nestes dias em que a televisão ideologiza e bestifica a infância induzindo ao consumo desenfreado, eu busco Jesus e Nietzsche, esses meus amigos, para tentar soprar algum segredo mágico nos ouvidos que sabem ouvir: ouvidos de criança.

Assim, quem sabe, em vez de comprar presentes de plástico, a gente não sai por aí dando cambalhota, pulando amarelinha, brincado de esconde-esconde, cantando cantigas de roda, passando rasteira nos vilões do amor? Precisamos ser crianças, todos nós... Só assim, quem sabe, essa coisa egoísta e fútil que se tornou o mundo, começa a mudar.

Reproduzido de Palavras Insurgentes


“Olhai as crianças nos campos, nas ruas, nas montanhas, nas casinhas pobres, como crescem... Elas não têm celular, nem televisão ou tablets, e eu sei e digo, que nenhum "Salomão" da Educação e da Comunicação jamais teve tanta alegria e sabedoria quanto elas”...


Leo Nogueira Filosomidiando em trecho da dissertação "Telejornais e crianças no Brasil: a ponta do iceberg" em andamento. Defesa provável em 11/11/11 UFSC.