O leitor de jornais pela internet pode notar que há alguma mudança nos títulos de reportagens e blogs, com textos mais chamativos e uma evidente predileção em usar expressões ambíguas. Também se pode observar que na maioria dos sites jornalísticos aumentou o espaço destinado a fofocas sobre celebridades, que agora aparecem misturadas a notícias sobre os acontecimentos urbanos e mais próximas do noticiário sobre futebol. Por outro lado, os jornais passaram a prestar mais atenção aos assuntos que surgem nas redes sociais digitais, o que pode dar a impressão de mais agilidade.
O motivo para essas mudanças mais ou menos sutis, que podem ser notadas nas últimas semanas, pode não ter relação direta com jornalismo, mas com um debate em curso em outro campo da comunicação – o da publicidade.
Discute-se mais precisamente o valor das métricas de audiência na internet e especialmente nas redes sociais. A questão está presente em eventos internacionais sobre mídia, nos quais alguns anunciantes questionam o preço cobrado por estratégias integradas que procuram manter o valor das mídias tradicionais e acrescentar o custo das ações nas novas redes digitais.
Supostamente, quando um produto é exposto ao mesmo tempo na televisão, em anúncios estáticos nos jornais e revistas e percorrem ações nas redes sociais digitais, sua exibição deverá ser notada por mais pessoas e, portanto, essa estratégia haverá de produzir mais resultados.
Como produzir receitas?
Acontece que essa visão linear, muito utilizada nos tempos da mídia unívoca, na qual o receptor tinha menos condições de interagir com a mensagem, não pode ser simplesmente replicada no ambiente hipermediado no qual o antigo leitor ou telespectador há muito deixou de ser um receptor passivo.
O que alguns anunciantes estão contestando é a garantia de resultado versus o preço cobrado.
Todo processo de comunicação precisa levar em conta que a disputa é pelo tempo e pela qualidade da atenção do sujeito que se quer alcançar. E se, atualmente, um número crescente de pessoas costuma colocar sua atenção simultaneamente em duas ou mais mídias, qual é o valor de cada uma delas?
Além disso, questiona-se a própria métrica, uma vez que as mensurações meramente demográficas, que informam quantas pessoas são expostas a determinados conteúdos, não asseguram com que disposição ou humor as mensagens estão sendo recebidas.
Eventualmente, uma campanha pode saturar o público e, em determinado momento, provocar uma reversão na intenção da mensagem, passando a produzir reações negativas capazes de se propagar instantaneamente pelas redes digitais.
As estratégias tradicionais de bombardeamento podem, portanto, gerar um efeito desastroso, se milhões de indivíduos ativos nas redes resolverem questionar algum aspecto da mensagem e se colocarem em posição antagônica com relação à proposta da comunicação.
Mas esse é um problema de quem produz publicidade ou ações de marketing. O que pode afetar a mídia jornalística é o engajamento do campo editorial nesse esforço para produzir receita nas versões digitais das empresas tradicionais.
Alhos e bugalhos
A busca incessante por audiência por parte das empresas pode alterar o conceito de valor da informação jornalística?
Esse é um risco permanente, uma vez que essas empresas precisam continuar se apresentando ao mercado como portadoras de relações valiosas com seus públicos. E sempre haverá os consultores “criativos” com ideias mirabolantes sobre o empacotamento do conteúdo noticioso em formatos mais atraentes e, portanto, mais interessantes para o anunciante.
Certas ações no ambiente digital lembram as edições de domingo dos diários, ainda muito comuns, nas quais uma capa publicitária produz um simulacro de jornal, com a intenção de chamar a atenção do leitor para determinado produto ou marca.
No jornal de papel, a consequência é o eventual aborrecimento de ter que separar a capa falsa para ter acesso ao conteúdo que interessa. Mas no caso das mídias digitais, um aborrecimento eventual pode se transformar em antipatia renovada. E uma antipatia nas redes sociais digitais pode produzir um desastre em termos de imagem e reputação.
A mídia jornalística precisa encontrar meios de se valorizar no ambiente da internet, mas pode ser perigoso fazer isso à custa da banalização do conteúdo, como ocorre quando se misturam questões de interesse variado como desafios da vida urbana e fofocas sobre celebridades.
Se há uma velha lição que ainda vale para o jornalismo é: não misturar alhos com bugalhos.
Amazon vai produzir comédias e seriados para crianças
Conteúdo será exibido no serviço de vídeos on-line da companhia
Nesta segunda-feira, a gigante do varejo eletrônico Amazon anunciou mais um passo na direção do mercado de vídeos na internet. De acordo com Roy Price, diretor da Amazon Studios, a companhia está buscando roteiros e pilotos originais para comédias e shows infantis que possam integrar o repertório do seu serviço de distribuição de conteúdo, o Instant Video.
Desde 2010, o estúdio investe na criação de material exclusivo para os clientes da empresa americana. A repentina entrada no universo dos seriados pode abrir novas possibilidades neste mercado, sugerindo até uma rivalidade com os grandes estúdios. "Notamos que existe uma demanda para a criação de tais conteúdos, por isso queremos desenvolver algo original", afirmou Price em um comunicado oficial.
Para garantir um fluxo constante de ideias, a companhia abriu as portas para cineastas e roteiristas interessados em colocar seus projetos no ar. Todo material enviado passa por uma avaliação da equipe, que faz críticas e sugere alterações. Atualmente, o Amazon Studios tem mais de 700 pilotos e 7.000 scripts na gaveta.
Caso a ideia entre para a lista de material com chances de ir para a produção, o autor pode ganhar cerca de 10.000 dólares. Projetos aprovados ganharão 55.000 dólares e mais 5% sobre a venda de brinquedos, camisetas e royalties.
Para conferir a página de Amazon Studios, clique aqui.
Comentário de Filosomídia:
A criança, aqui, ainda é a "alma do negócio": "Projetos aprovados ganharão 55.000 dólares e mais 5% sobre a venda de brinquedos, camisetas e royalties".
Carlos Scolari cunhou o termo “hipertelevisão” para classificar a atual etapa deste meio de comunicação em contraponto às fases datadas por Umberto Eco. Ao analisar a história da TV, especificamente na Europa, Eco estabeleceu dois períodos distintos:
1. A “paleotelevisão” vai da década de 1950 até meados dos anos 1970. Trata-se de uma televisão marcada pelo monopólio público e pela mão firme do Estado. É uma televisão tutelada pelo governo, distante do público e com direcionamento pedagógico. Havia poucos aparelhos de televisão e pouquíssimas emissoras. Trata-se da fase da “TV janela” tão citada pelos teóricos de Comunicação. Uma televisão em que as pessoas assistiam, de dentro de casa, o que acontecia no mundo, ou o que se “permitia” que assistissem do mundo.
2. A “neotelevisão” já trata de um período mais recente, indo da segunda metade da década de 1970 até, na visão de alguns autores, o final dos anos 1980. No entanto, boa parte de suas características ainda permanece visível, metamorfoseando-se, adaptando-se e, também, desaparecendo aos poucos. A principal característica da neotelevisão, na Europa, é a desregulamentação do setor, que passa a funcionar num sistema misto público e privado, com uma oferta cada vez maior de novas redes de televisão.
Os horários da programação expandem-se e a televisão passa a aproximar-se de seu público. Ela se apresenta como a principal atração: é a notícia, o espetáculo. A metáfora, agora, é a da “TV espelho”, aquela que se espelha em si mesma e deseja despertar para si o interesse do público. Exibe seus bastidores e finge não ter segredos para a audiência. É nesse período que a televisão tenta descobrir os gostos do telespectador, amplia a presença do entretenimento na programação, desconstrói a linguagem formal e começa a perseguir uma narrativa de interação com a audiência, uma busca da cumplicidade.
[Assista aqui e aquiao vídeo da entrevista com Carlos Scolari.]
A televisão da atualidade
Há diversos autores que anunciam uma “terceira” fase em que a televisão passa a se ocupar não mais do mundo ou de si mesma, mas de seus telespectadores, num ambiente de convergência mediática sob o controle do telespectador. Estafase é exemplificada pelos reality shows, como o Big Brother.
O semiólogo Eliseo Verón é um desses autores. Para ele, há uma mudança de paradigma e, portanto, uma nova etapa. Entre outros aspectos, Verón destaca que nesta fase a programação da TV dá uma oportunidade aos espectadores de decidirem o desfecho dos programas e, pela primeira vez, aqueles assumem um protagonismo na televisão. Esta fase, para Verón, será o desfecho da TV generalista, a morte da televisão como a conhecemos hoje.
Como Verón, outros teóricos tentam apreender e classificar seus novos significados. Ramonet e Piscitelli têm apostado no conceito de “pós-televisão” para definir a fase atual que seria um aprofundamento das características da neoTV, com a progressiva eliminação das fronteiras entre os gêneros. François Jost chama a atenção para o limiar de um novo momento em que imagens reais e fictícias se misturam, apagando as fronteiras que separam os programas da publicidade. Já Carlos Scolari, nosso entrevistado aqui, prefere chamar de “hipertelevisão” o atual estágio.
Para Scolari, o atual estágio da TV não pode ser visto simplesmente como uma sequência linear da história, daí dizer que descarta o conceito de pós-televisão. Para ele, essas mudanças vão muito além de um simples aprofundamento das características da neotelevisão, como dizem os defensores do conceito de “pós-televisão”. Embora a hipertelevisão extrapole as classificações anteriores, também incorpora alguns de seus elementos. Daí, Scolari defender a ideia de que as “fases” não têm fronteiras rígidas.
Um exemplo citado por Scolari como paradigmático da hiperTV é o surgimento, na década de 1980, da americana CNN “con sus propias características, por ejemplo, la polifonía y la fragmentación de la pantalla”, diz, referindo-se às múltiplas mensagens e janelas sobrepostas à tela principal dessa televisão. Uma construção feita a partir do sistema das “janelas” criadas na informática. A hiperTV é uma televisão instalada em uma sociedade em rede, nos termos definidos por Manuel Castells. Para este, a sociedade desloca-se de um sistema de mídias de massa para um sistema multimídia especializado e fragmentado, com audiências segmentadas. “Como o sistema é diversificado e flexível, é cada vez mais inclusivo de todas as mensagens enviadas na sociedade”, garante Castells.
Novo paradigma em construção
Embora a TV que temos hoje ainda preserve muitas das características da neoTV, já podemos reconhecer elementos que se apresentam como o arcabouço de um novo paradigma em construção:
** A interação crescente entre emissor/receptor e receptor/receptor, algo próximo da experiência entre usuários da internet;
** A articulação da TV com outros media interativos;
** O empoderamento do telespectador;
** O uso da interatividade digital para customizar programas, alterando o desfecho destes, como nos videojogos;
** O incremento de novos terminais para assistir TV, como as telas do computador, dos tablets, celulares, consoles de videojogos;
** A possibilidade de acesso a essas plataformas a qualquer momento e em qualquer lugar;
** O modelo da escassez analógica substituído pelo da abundância digital, visível nos milhares de canais produzidos por anônimos e disponibilizados em servidores como o You Tube;
** A prevalência da programação assincrônica, com a oferta de vídeo-on demand (VOD) de programas completos ou de fragmentos, cuja montagem caberá ao telespectador interativo, sobre o modelo de fluxo vertical de programação;
** A flexibilização e a pulverização da fronteira o entre os gêneros informativo e de ficção;
** O fim das fronteiras rígidas entre conteúdo e publicidade, dando origem a novos modelos comerciais, não mais baseados em intervalos publicitários;
** A intensificação dos “macrorrelatos” com expansão das histórias em diferentes e convergentes plataformas;
** A linguagem audiovisual padrão substituída por uma linguagem multimídia transversal, interativa, com estímulo à busca e à navegação;
** A introdução de novas linguagens, fruto da convergência com outras mídias.
Interatividade no telejornalismo
Conectada com outras plataformas e libertando-se, aos poucos, de uma programação “em fluxo” típica da TV tradicional, a hiperTV, segundo Scolari, lança mão de uma narrativa transmidiática. Um exemplo é o da série televisiva Lost, que se expande para videojogos, livros e uma série de outros elementos. Na sua entrevista, Carlos Scolari esclarece que a narrativa transmidiática não se limita à ficção. Está na publicidade e, também, no jornalismo. Neste último aparece nas múltiplas plataformas onde uma notícia pode ser apresentada.
Se isso, em certo limite, já era possível entre as chamadas mídias tradicionais, ganhou novas dimensões na atualidade digital. A notícia pode nascer numa publicação no Twitter ou numa conversa no Facebook, chegar à redação da TV, passar pelo jornal e repercutir em qualquer outro meio, com linguagens, estéticas e narrativas diferentes e complementares. A esta expansão soma-se outro elemento da hipertelevisão que é a colaboração dos usuários na construção do conteúdo, enviando textos, fotos, comentários ou sugestões de pautas. Um trajeto sem fim, onde novas interferências surgem durante o percurso.
É neste ambiente que se reserva um novo papel para o telespectador na televisão atual. Quando o apresentador do telejornal diz que “vamos” saber o que aconteceu, ele está tentando incorporar o público no seu discurso e na sua ação. Ou seja, “vamos saber juntos”. Trata-se de um efeito retórico para simular a participação, garante Carlos Scolari.
Em outro ponto desta entrevista Scolari diz que a televisão tenta simular as novas mídias para ser “o que não é”, ou seja, uma mídia interativa. Questionado se não seria esta busca pela “interatividade” o principal significado da hiperTV, Scolari diz que não. Afirma que são coisas diferentes: a TV interativa está contemplada na hipertelevisão, mas esta é uma classificação mais abrangente. Trata-se de uma televisão mais complexa. Uma TV com um ritmo novo para um telespectador habituado à velocidade dos videojogos e à hipertextualidade da linguagem da internet.
Carlos Scolari fala de seu ceticismo e – até – decepção com as promessas da TV digital terrestre, a TDT. Questiona os mitos em torno desse tema e aponta um dos possíveis motivos para que a interatividade ainda não tenha decolado: os custos econômicos desse formato. Responde se é ou não importante haver interatividade no telejornalismo e se há alguma relação dessa estratégia com o futuro da televisão. Finalmente, destaca uma questão que ainda vai requerer respostas definitivas: como (re)construir a opinião pública e o elo social neste novo mundo marcado pela segmentação de conteúdos e pelas audiências fragmentadas.
Quem é
Carlos Scolari, de 49 anos, é professor da Universitat Pompeu Fabra, na Catalunha, em Barcelona, Espanha. Antes de migrar para a Europa, em 1990, foi professor da Universidad Nacional de Rosário, cidade em que nasceu, na Argentina. Suas investigações no campo da Comunicação concentram-se no impacto da internet sobre os meios de comunicação de massa. Ultimamente, tem-se dedicado à influência dos discursos transmidiáticos na linguagem televisiva, naquilo que ele chama de “ecologia de los medios”. Esta entrevista foi feita no âmbito do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, da Universidade do Minho, em Braga, Portugal.
* Editor do Bom Dia ES (TV Gazeta/Rede Globo), é doutorando na Universidade do Minho, em Braga (Portugal)
"The Grammar of Hypertelevision: An Identikit of Convergence-Age Fiction Television (Or, How Television Simulates New Interactive Media)", 2009, no Journal of Visual Literacy, clicando aqui.
Resumo: The arrival of “new media” such as the Web and multimedia mobile devices is transforming “old media” such as television. If we consider that these new media coexist with the old ones in the same system, then it could be a valid exercise to analyze the contaminations between them. In this article, I analyze the aesthetics of new audiovisual productions-–i.e., the acceleration of rhythm, the multiplication of characters and narrative programs—and the transformations of the television interface in order to identify the pertinent traits of what I define as hypertelevision. The article concludes with a reflection on the simulation of interactive experiences in contemporary television.
O "entretenimento" - leia-se TV's e só - em ônibus e metrôs de São Paulo mascaram uma triste realidade, a do tempo que passamos sem fazer nada, presos no trânsito, em meio a grandes multidões, espremidos, esperando 5, 10 trens passarem para poder embarcar em algum sem nenhuma garantia de conforto.
Ao invés de resolver o problema - ao menos de tentar, investindo pesadamente em metrô, corredores de ônibus e não em transporte individual - a solução encontrada foi a de aumentar os lucros e a de "entreter" o passageiro.
De que importa passar 3 horas dentro do ônibus se você tem a maravilhosa oportunidade de ver Malhação e as novelas com descrição ou milhares de vinhetas sem qualquer graça e "dicas culturais" absolutamente inúteis? No metrô a diversão é, espremido, tentar enxergar alguma coisa em meio às centenas de propagandas repetidas nos pequenos monitores.
A idéia é fazê-lo esquecer do suplício pelo qual você está passando. Mas a idéia falha miseravelmente. Seja pela qualidade duvidosa da programação, pela intenção clara em muitos casos de simplesmente vender propaganda ou pela obrigação de assistir à Globo em pleno engarrafamento.
O cerne da questão, o e resolver o problema do trânsito e das inúmeras horas apertado, suando e desconfortável, não está em questão. Tampouco reverter para os usuários - através de redução do preço da passagem - a grana em propaganda (pelo menos isso) que as empresas de ônibus e o metrô recebem.
Poderíamos até pensar em ler um livro, ou as empresas poderiam incentivar a leitura de livros, jornais e revistas, mas é complicado com quase 10 pessoas por metro quadrado no metrô ou em ônibus em que as portas só não ficam abertas porque é proibido. Impensável para a maioria pensar em ler em ambiente tão inóspito e em situação mais desagradável. Mas sempre encontramos um ou outro resistente se equilibrando precariamente com um livro nas mãos.
Somos perseguidos por programinhas de conteúdo duvidoso, por pseudo-entretenimento global enquanto perdemos horas de nossas vidas em engarrrafamentos sem solução. Sofremos em dobro.