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domingo, 22 de setembro de 2013

FNDC lança livro de Venício A. Lima sobre os Conselhos Estaduais de Comunicação


FNDC lança livro de Venício A. Lima sobre os Conselhos Estaduais de Comunicação

Para o jornalista e professor aposentado da UnB, os colegiados, garantidos pela Constituição, são ferramentas fundamentais na luta pela democratização da comunicação

O livro “Conselhos de Comunicação Social - A interdição de um instrumento da democracia participativa” é leitura obrigatória para os militantes pela democratização da comunicação para a ampliação e defesa dos colegiados nos estados. A contribuição de Venício A. Lima ao FNDC traz um mapeamento atualizado dos estados que têm, e os que ainda não têm Conselhos previstos em suas Constituições Estaduais. A obra será lançada neste sábado (21/9/13), em Brasília, no primeiro dia da XVII Plenária Nacional da entidade.

Mais do que mapear, o professor faz um histórico dos Conselhos de Comunicação e da resistência na criação desses colegiados nos estados e nacionalmente. Para ele, os Conselhos estão no rol das maiores bandeiras e instrumentos para a democratização da comunicação no país. “Os Conselhos Estaduais são uma bandeira visível e viável politicamente, não só de mobilização, mas como debate, em nível estadual, das questões relacionadas à comunicação”, disse, em entrevista ao FNDC.  Para o autor, eles têm papel essencial na abertura de espaços para a fiscalização e contribuição social, necessários para a democracia.

Atualmente, apenas dez unidades de federação incluíram a criação dos Conselhos estaduais de comunicação em suas respectivas constituições: Amazonas, Pará, Alagoas, Bahia, Paraíba, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul – e a Lei Orgânica do Distrito Federal. Os outros 17 estados desobedecem ao princípio constitucional que exige a simetria entre os institutos jurídicos da Constituição Federal e as Constituições dos Estados.  As UFs são obrigadas a criar os Conselhos, inspirados no artigo 224 da Constituição Federal, que criou o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional.

A publicação trata da interdição histórica das formas participativas democráticas da Constituição Federal nas políticas públicas de comunicação: desde a Carta Magna, passando pela I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), até os dias de hoje. “A Constituição, não só em nome da maior participação popular, mas também por questões administrativas, dá aos Conselhos de outros setores, como a educação e a saúde, a possibilidade de decisões relativas à formulação, acompanhamento, avaliação e acompanhamento de diversas politicas públicas”.

Para ele, existe uma clara diferença em relação à Comunicação: “A área de Comunicação acabou não sendo contemplada como ocorreu com outras áreas que lidam com direitos fundamentais. Não foi contemplada por que não conseguiu ser aprovada no processo constituinte com o mesmo processo. Acabou apenas como órgão consultivo do Congresso Nacional”.

No livro, o professor aborda a polêmica “inconstitucionalidade dos Conselhos de comunicação”, apontada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) após a aprovação de projeto que recomendava a criação de um conselho de comunicação no Ceará, em 2010. Para a OAB, as Assembleias Legislativas não possuíam competência para legislar sobre políticas públicas de comunicação, tarefa privativa do Congresso Nacional. “Faço um desafio no texto, quero que apontem qual proposta de Conselhos Estaduais de Comunicação propõem legislar na área. Elas estão espelhadas no Artigo 224, ou seja, são órgãos meramente auxiliares”.

Resistência

No livro, Venício diz que o mote geral para o ciclo de reações à Confecom e à criação do Conselho Estadual do Ceará, foi dado por editoriais, artigos e matérias publicadas nos principais jornais e reproduzidas em todo o país. Ele apresenta exemplos emblemáticos, como a matéria da Folha de S. Paulo (25/10/2010) “Mais 3 Estados têm projetos para monitorar a mídia – Depois do CE, BA, AL e PI se preparam para implantar órgãos de controle”.

“As diferentes propostas de se criar os Conselhos entre o início dos anos 90 e o final de 2010, passaram praticamente despercebidas aos olhos dos grupos de mídia comercial hegemônicos no país. No entanto, a realização da 1ª. Confecom, em dezembro de 2009, e a aprovação do Projeto de Indicação nº 72.10 pela Assembleia Legislativa do Ceará, entre o 1º e o 2º turnos da eleição presidencial de 2010 (19 de outubro), despertaram os adversários e deram início a um incrível ciclo de reações no qual se acusa as propostas de se originarem exclusivamente na Confecom; de pretender “controlar” os meios de comunicação; e de serem, in limine, inconstitucionais”, escreve na publicação.

Estes mesmos grupos de comunicação, que há anos são dominados por menos de dez famílias, usaram os mesmos argumentos que usam hoje em seus editoriais e artigos, para formar opiniões sobre a criação de um Marco Regulatório da Comunicação, ou mais especificamente, do Projeto de Lei de Iniciativa Popular que propõe a regulação do setor da radiodifusão, a Lei da Mídia Democrática.  À época, diziam que os Conselhos Estaduais constituíam ameaça à “à livre manifestação de expressão e à liberdade de imprensa”.

Venício destaca que esses grupos de comunicação consolidaram seus interesses privados no setor, tratando a coisa publica como se fosse privada.  Por isso a resistência histórica da implementação de instrumentos de participação popular no setor, para ele, decisivo para o fortalecimento da democracia. “Os Conselhos já são instrumentos consolidados em setores, mas ainda lutam para respirar quando o tema é a garantia do direito à liberdade de expressão, reiteradamente condicionada pelo poder econômico”, termina.

Para o FNDC, o livro é considerado estratégico. “Entender a história e ter a situação atualizada da implantação dos Conselhos é essencial para o movimento social. Nós realizamos essa parceria com o professor Venício por entender que é uma publicação importante para construir estratégias na luta pela democratização da comunicação”, explicou Rosane Bertotti, Coordenadora Geral da entidade.

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Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG


Redação FNDC


Reproduzido de FNDC

sábado, 30 de junho de 2012

VIII Conferência Brasileira de Mídia Cidadã 2012 na UnB


24 e 25 de setembro de 2012 . UnB

Quando mídia e cidadania se encontram

Discutir as relações entre mídia e cidadania. Mostrar como a mídia ajuda a construir e a desconstruir a mobilização social. Reunir universidade, movimentos populares e sociais e organizações não governamentais. Ao longo de sete anos,as conferências de Mídia Cidadã cresceram,mudaram de endereço e vêm ganhando visibilidade social.

O seminário surgiu em 2005 na Universidade Metodista de São Paulo, por meio da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, com o objetivo de traçar o mapa brasileiro de mídia cidadã, e debater o papel dos meios de comunicação e sua influência sobre a cidadania. A conferência reuniu jovens pesquisadores e ativistas midiáticos para fomentar a participação desses agentes na mídia brasileira. Nesse mesmo ano, participantes do seminário aprovaram a Carta de São Bernardo com os objetivos de ampliar a ação da cidadania na sociedade e destacar o protagonismo da mídia nessas ações.

Os encontros de 2006 e 2007 continuaram acontecendo na capital paulista. Em 2008, para dar nova dimensão ao projeto, a IV Conferência Brasileira de Mídia Cidadã aconteceu na Universidade Federal de Pernambuco/UFPE, com foco no diálogo entre as pesquisas acadêmicas produzidas no campo da comunicação social e as experiências de produção de mídia da sociedade civil, mercado e Estado. A quarta edição apresentou uma novidade: a realização da I Feira Nacional de Mídia Cidadã, um espaço para as organizações não governamentais, movimentos sociais, empresas e pesquisadores apresentarem suas experiências e serviços de comunicação cidadã.

Após quatro anos de conferência, um comitê gestor foi formado e consolidou- se a implementação da Rede Brasileira de Mídia Cidadã. Em outubro do mesmo ano, dando continuidade ao processo de disseminação da comunicação voltada para o desenvolvimento regional proposto pela Cátedra Unesco/Umesp, aconteceu em Guarapuava (PR), na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) a V Conferência Brasileira de Mídia Cidadã. O evento reuniu representantes da sociedade civil, acadêmicos e profissionais que atuam nos meios de comunicação e ensino do Paraná.

Em 2010, com a temática “Educação e cultura pela perspectiva da mídia: (des) construindo a cidadania”, a Faculdade de Pato Branco – FADEP foi sede da VI conferência. Dando continuidade ao desenvolvimento de ações da Rede Brasileira de Mídia Cidadã, aconteceu, pela primeira vez, a I Conferência Sul- americana de Mídia Cidadã.

Com o objetivo de fomentar a pesquisa acadêmica na Região Norte e a produção de conhecimento sobre a comunicação e os direitos humanos, a VII edição da Conferência Brasileira de Mídia Cidadã e a II Conferência Sul- americana de Mídia Cidadã aconteceram na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém – principal via de acesso para a floresta amazônica e um espaço de ecossistemas naturais que compõem grande parte do seu território.

2012: Pela primeira vez na Universidade de Brasília

A edição deste ano do evento será realizada na Universidade de Brasília – Faculdade de Comunicação, sob o tema Mídia, Cidadania e Políticas Públicas, no período de 24 a 25 de setembro de 2012. O encontro reunirá profissionais dos meios de comunicação, pesquisadores da área, acadêmicos, integrantes de movimentos sociais, representantes da sociedade civil, professores e estudantes. A proposta da conferência é debater temas relacionados ao direito à comunicação, a produção de conteúdo pela população, ao protagonismo da sociedade no processo comunicacional e a todos os elementos que compõem a mídia cidadã. Além do debate, o encontro busca promover o diálogo e o intercâmbio entre as pesquisas acadêmicas e as experiências inovadoras da sociedade civil de produção de mídia que enfatizem uma prática cidadã.


Mais informações na página do evento clicando aqui.

terça-feira, 17 de abril de 2012

As redes sociais e os jornalistas


As redes sociais e os jornalistas

Ana Paula Bessa
Observatório Mídia & Política

Uma pesquisa realizada pela PR Oriella Network revelou que muitos jornalistas brasileiros buscam mais informações nas mídias sociais do que nas assessorias de imprensa. Cerca de 66,67% dos entrevistados disseram utilizar o Twitter como fonte de informação. Os outros 40% disseram utilizar o Facebook.

Apesar de a notícia ser positiva para as redes sociais, a pesquisa também mostrou que os jornalistas costumam ter o hábito de confirmar as informações recebidas nessas redes com a assessoria de fontes oficiais, ou até mesmo, com as próprias fontes. Pode-se concluir que, mesmo que os jornalistas acessem com frequência as redes sociais para buscar informações, são as fontes oficiais ou assessorias que ditam a veracidade das informações.

Diante dos números, pode-se perceber que as rotinas das redações de jornais mudaram no que tange à busca de fonte de informações e seu relacionamento com elas. Houve uma ressignificação do campo de atuação do jornalista. O acesso direto a fontes alterou o processo de apuração para a maioria dos jornalistas brasileiros, como mostra a pesquisa. O trabalho de apuração em si não mudou, ainda é necessário analisar as fontes de informações, porém foram acrescentadas novas ferramentas que modificam e reconfiguram a rotina de busca por fontes.

Neste cenário, onde o fluxo de informação é maior e a produção do conteúdo não é feita somente pelo jornal, é cada vez mais pertinente a pergunta que há anos vem sido feita pelos pesquisadores do jornalismo no ciberespaço: toda pessoa é uma fonte de informação, que atende aos critérios de confiabilidade? Com a descentralização da informação há uma inversão no fluxo de notícias que antes eram muito dependentes de fontes oficiais (MACHADO, 2002). Isso não significa que se tenha perdido a preferência pelas fontes oficiais e oficiosas, mas ampliou o leque de informações e o acesso a elas.

O advento das informações produzidas e repercutidas nos sites de redes sociais acabou dando maior acesso a um sem número de fontes espalhadas em todo o mundo. Mas como será o relacionamento do jornalista com esse número de fontes disponíveis nessa rede? Como é feita a seleção das fontes? Usam-se as antigas ferramentas de valores-notícia e escolha de fontes da época do surgimento da teoria construcionista (TRAQUINA, 1999) ou essas redes alteraram o processo de escolha do “gatekeeper”?

As fontes no ciberespaço

A principal ferramenta de trabalho do jornalista é a fonte e tudo o que ela representa para certificar que um ato aconteceu, não aconteceu, está para acontecer ou como ele irá acontecer. Sem o testemunho, as aspas ou a denúncia de sua fonte de informação, o jornalista não tem notícia, não tem trabalho. Com disse Wolf (1999) “as fontes são um fator determinante para a qualidade da informação produzida pelo mass mídia”.

Lembrando os ensinamentos de Traquina (2003) há critérios que são utilizados no jornalismo para avaliar a “fiabilidade da informação”. Sabe-se que se uma informação veio de uma autoridade e se seu cargo for prestigiado, maior é a confiança dos leitores na informação cedida. Esses critérios foram criados numa tentativa de rotinizar o trabalho, sem que haja falhas na notícia divulgada.

No tempo do ciberespaço, algumas dessas rotinas foram modificadas ou até mesmo adequadas (MACHADO 2002). Com a disposição de novas tecnologias para o trabalho dos jornalistas, vieram consequências no que tange a pesquisa de apuração, produção e difusão da informação. No ciberespaço são feitas todas as etapas de produção da notícia, desde a pesquisa e apuração até a circulação. Neste modelo, há uma estrutura mais descentralizada da informação o que acaba multiplicando fontes de informação.

A construção de conexões nos sites de rede sociais tomou proporções mundiais, acarretando um grande leque de informações geradas, publicadas e difundidas neste meio. É neste cenário que o jornalista está inserido atualmente. Há uma porção de informações que atendem grupos sociais distintos com todo o tipo de fonte– desde a menos preparada até grandes especialistas e pesquisadores do assunto – e com o mesmo tempo de deadline disponibilizado há anos atrás na formulação da rotina básica de uma redação de jornal.

Segundo Recuero (2009) há três tipos de relações das redes sociais formadas na Internet com a produção jornalística:

a) as redes sociais como fontes produtoras de informação;
b) redes sociais como filtros de informação;
c) redes sociais como espaços de reverberação dessas informações.

No primeiro tipo, fica claro que o acesso aos sites de redes sociais por pessoas de várias idades e distintos grupos sociais, é capaz de tecer pequenos relatos sobre o seu cotidiano ou acontecimentos importantes do grupo a que pertence que, dependendo da quantidade e qualidade de suas conexões, podem difundir a informação de forma que se chegue a grandes canais formais de veiculação de notícia. Logo, essas redes sociais são grandes produtoras de informação.

Em pesquisa que realizei na editoria “Super Esportes” do jornal Correio Braziliense, principal jornal do Distrito Federal, em 2011, levantei algumas dessas questões para avaliar o quanto as redes sociais alteraram a produção da notícia e o relacionamento com fonte. Adotando métodos de etnografia (CABRERA ET AL 2008) foi realizada entrevista com sete jornalistas da editoria, metade da equipe devido ao rodízio de jornalistas de plantão. Mesmo com equipe reduzida, foi visível o método e a rotina adotados no uso das redes sociais para buscar fontes de informação e como ferramenta de relacionamento com a fonte.

No início da rotina de trabalho, todos os jornalistas acessaram seus perfis pessoais nos sites de redes sociais – preferencialmente Twitter e Facebook – e também os perfis da própria editoria, cuja presença está mais concentra no Twitter. Três profissionais possuíam a opção de carregamento automático desses perfis em seus browsers de navegação. Para esses profissionais, ao acessar o computador e clicar no link de navegação da internet, as redes sociais carregavam automaticamente.

Neste dia de observação, um dos jornalistas teve um problema de comunicação com um ginasta olímpico que não possuía o celular em funcionamento e estava com uma série de problemas para conseguir dar a entrevista. Por sugestão da própria assessoria do atleta, a jornalista adicionou o ginasta no Facebook para uma tentativa de entrevista por meio de mensagem. Em questão de minutos o atleta já havia aceitado a jornalista como “amigo” e logo a entrevista foi feita. Ao passar para o seu editor as circunstâncias em que a entrevista aconteceu, não houve nenhum tipo de retaliação ou repreensão pela prática, muito pelo contrário, o próprio editor chegou a comentar com a jornalista que se a assessora não tivesse sugerido esta opção, ele mesmo o iria fazer.

Após entrevistar os profissionais e observar suas rotinas de trabalho foi possível concluir que há, sim, o uso de redes sociais para buscar fontes de informação, e isso é feito de forma frequente uma ou mais vezes ao dia, de acordo com a demanda de matéria que deve ser entregue no dia. Há também o uso das redes sociais para manter contato e relacionamento com fontes, mas normalmente não são fontes “usuários comuns”, mas atletas, técnicos e produtores de eventos de esportes que, geralmente, conhecem o jornalista pessoalmente e aprecia o trabalho realizado por ele. A busca e o uso de fontes de informação que são de usuários comuns acontecem na editoria, porém são menos constantes.

Também por meio da entrevista e utilizando perguntas referentes ao uso preferencial das redes sociais e não das assessorias de imprensa, todos os sete profissionais responderam que, se há o contato direto da assessoria ou do próprio telefone ou celular do atleta, a apuração é feita desta forma.

Caso não haja conhecimento de fontes, muito menos do contato de cada uma delas, é utilizado sites das redes sociais. Porém, durante a observação não foi esse o comportamento: quatro, dos sete jornalistas, ao receberem uma matéria para apurar, consultavam informações sobre o tema ou a pessoa nas redes sociais, caso houvesse uma fonte em potencial o contato era feito de imediato. Essa dissonância de informação pode ser devida à rotina específica do dia, visto que era feriado e poucas assessorias de imprensa estavam trabalhando normalmente.

Conversando com cada repórter, foi possível compreender que há sim critérios que são utilizados para a seleção de fontes de informação nas redes sociais. Todos os profissionais responderam que os atletas são as fontes privilegiadas, ou seja, todas as informações relevantes postadas por eles possuem credibilidade e não há restrições quanto ao uso dessas fontes nas matérias. Em segundo lugar vêm as organizações como clubes, assessorias, associação e entidades desportivas. Apenas para um jornalista a preferência de informação é para usuários comuns que postam notícias relevantes sobre o esporte local. Este jornalista é responsável pelo blog de basquete e precisa desse tipo de interatividade e relacionamento para postar no blog. Em último lugar, para os seis jornalistas estão os usuários comuns que são usados, mas não com tanta frequência. Dessa forma, podemos concluir que houve a migração dos critérios do jornalismo clássico para o jornalismo feito no ciberespaço e principalmente na utilização dos sites de redes sociais.

Novas fontes velhos critérios?

Este cenário de multiplicação de difusores de informação altera a relação do jornalista com a fonte, visto que quaisquer usuários do ciberespaço e de sites de rede socais podem ser potenciais fontes de informação. Esta mesma multiplicação ajuda os jornalistas a rastrear dados importantes e significativos para a elaboração de matérias, pois tudo o que é postado no ciberespaço e nos sites de redes sociais ficam armazenados. Logo, este novo cenário beneficia a produção jornalista ao mesmo tempo em que complicam o seu trabalho devido ao maior número de informações, podendo prejudicar o tempo de apuração.

Se antes existia uma série de critérios na hora da escolha da fonte, agora não se tem nenhum que diga respeito à escolha dessas fontes nas redes sociais. E é por conta desta falta de critérios que, em alguns casos, passam a valer os antigos critérios nas novas ferramentas de busca de fontes de informação, o que faz com que tornemos à estaca zero. São os velhos métodos em um novo cenário.

Independente deste cenário, ainda pouco estudado e cercado de dúvidas, a rotina de trabalho do jornalista está sendo montada e é preciso documentar como ela está acontecendo e quais são os critérios que tem sido adotado para minimizar as falhas e melhorar a apuração. Realmente hoje qualquer pessoa pode ser fonte potencial para o jornalista, mas as redações ainda não têm confiança nem critérios de escolha que viabilizem o uso dessas fontes em matérias, exceto em casos fortemente repercutidos nesses espaços. Porém, o uso dessas redes sociais na Internet é ainda muito recente e há ainda muito para os jornalistas e suas redações evoluírem com a exploração dessa ferramenta. O que não se pode deixar acontecer é adotar os mesmos critérios e mesmo tipos de relacionamento num cenário completamente mais aberto e flexível que é o ciberespaço. E esta opção parece que está sendo a mais comumente aceita nas redações de jornais.

Referências

CAVRERA et al. “Métodos y técnicas de investigación para el estúdio de la profesión em las rutinas productivas em ciberperiodismo”. In: Metodologia para o Estudo dos Cibermeios: Estado da arte e perspectiva, Org. NOCI, J.G; PALACIOS. Salvador: EDUFBA, 2008.
MACHADO, Elias. O ciberespaço como fonte para os jornalistas. Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, Universidade Beira Interior, 2002. Disponível aqui, acesso em: 26/06/2011.
RECUERO, Raquel. “Redes Sociais na Internet, Difusão de Informação e Jornalismo: Elementos para discussão”. In: SOSTER, Demétrio de Azeredo; FIRMINO, Fernando.(Org.). Metamorfoses jornalísticas 2: a reconfiguração da forma. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2009.
TRAQUINA, Nelson. 2ª Parte: As Teorias. IN: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias”. 2ª Ed. Lisboa: Ed. Vega, 1999.
TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Ed. Unisinus, 2003.
WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. 5ª Ed. Lisboa: Ed. Editorial Presença, 1999.

***

[Ana Paula Bessa é jornalista e trabalha como Consultora em Mídias Sociais no Grupo Máquina da Notícia. Esta pesquisa foi realizada enquanto cursava como aluno-especial a disciplina Jornalismo Digital do Mestrado em Comunicação Social na Universidade de Brasília (UnB)]

Via clipping FNDC

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

SOS para as vítimas da Imprensa


Mídia, mágoas e memórias

Luiz Martins da Silva

"Uma das razões por ter criado na Universidade de Brasília, há cerca de 15 anos, um projeto que veio a ser apelidado de SOS-Imprensa – e que perdura, na forma de extensão – foi a freqüência com que pessoas vinham relatar frustrações quando de tentativas de ser ouvidas para darem sua versão dos fatos, especialmente quando se sentiam injuriadas, difamadas e caluniadas. Ou simplesmente para encontrar alguém disposto a emprestar uma orelha humanitária, sensível à dor de quem teve a imagem “queimada”.

Desde então, venho defendendo a ideia de que o Brasil precisa de uma instituição, simétrica ao que é o Conar para a publicidade, para servir de intermediação consensual de reparação de danos morais e, se for o caso, de danos materiais derivados da imprensa. Seria um dos Meios de Assegurar a Responsabilidade Social (MARS), no caso, aplicado à mídia brasileira.

Existem MARS no mundo inteiro, desde conselhos de comunicação ou de imprensa a uma modalidade recentemente criada no Uruguai, uma ouvidoria pública especializada, passando pela Press Complaints Commission, da Inglaterra, onde até os príncipes e celebridades vão se queixar e, não raro, obter indenizações. Cheguei a orientar bolsistas de iniciação científica e de extensão que aceitaram o desafio de imaginar como seria esse “Procon da mídia”, embora a possibilidade de vir a ser criado no Brasil um ente dessa natureza seja remotíssima, pois isso será imediatamente qualificado como a volta da censura.

Causa própria

Certa vez, ao participar de uma mesa num evento promovido pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, chegou a minha vez de falar e o meu assunto era a pesquisa (“Formas de apoio aos usuários da imprensa”) sobre “controle social da mídia”. Ao pronunciar essa frase, fui advertido por um deputado: “O único controle que a mídia deve ter é o controle remoto”. Essa reprimenda me soa até hoje como uma lição de que a clássica Teoria Libertária da imprensa ainda reina absoluta, a despeito de uma outra, a Teoria da Responsabilidade Social, não por acaso contraponto que alimentou um debate fervoroso, jamais encerrado nos Estados Unidos, desde a década de 1920, e que teve entre os seus próceres nomes como Walter Lippman (libertário) e John Dewey (responsabilizador).

Lippman era cético em relação à capacidade de o cidadão comum exercer uma reflexão crítica a partir do seu estoque de informações midiatizadas. Dewey não só era otimista quanto a essa possibilidade, como era defensor de uma parceria entre a imprensa e as comunidades, proposta que veio a ser o embrião docivic journalism norte-americano. Para o Brasil, o controle remoto seria um instrumento suficiente se tivéssemos uma oferta plural de conteúdos, sobretudo na TV, esmagadoramente dedicada ao besteirol.

Lippman se notabilizou também por defender uma “governança das elites”. Dewey, certamente, não queria ver o controle remoto da própria mídia nas mãos do grande capital e sim das comunidades. E tinha razão, veja-se o episódio recente envolvendo o News of the World, de Rupert Murdoch.

Inicialmente, o mencionado projeto de pesquisa (1996) se chamou “Formas de apoio às vítimas da imprensa”. Para não ficarmos na vitimologia (embora até haja uma Sociedade Internacional de Vitimologia, com uma seção brasileira), temos feito um esforço enorme por incorporar ao SOS-Imprensa – e ao conteúdo de uma disciplina chamada Ética na Comunicação – um repertório de casos exemplares de boa conduta da mídia, no jornalismo e na publicidade, uma saída para não ficarmos numa espécie de pedagogia maligna, que seria a de fornecer aos alunos e bolsistas apenas exemplos de quando a imprensa foi irresponsável ou quando a publicidade toma os consumidores por idiotas facilmente hipnotizáveis.

Numa das minhas primeiras frustrações ao tentar intermediar um caso em que uma família se sentia vítima do noticiário, ouvi do repórter – por sinal, um ex-aluno muito bem sucedido na profissão – a seguinte retaguarda: “Não vou abrir mão das minhas denúncias, pois a minha fonte é muito boa”. Mas não quis verificar o quanto a sua fonte era interessada em causa própria no assunto noticiado, por ter sido preterida pelo concorrente, que passou a ser detratado. Ocioso dizer que não houve audição para a “outra parte”.

Outra orelha

Desde então, centenas e centenas de casos se têm acumulado na memória do SOS-Imprensa, reforçando a hipótese de que a imprensa tem duas orelhas, mas uma delas é absurdamente desproporcional em relação à outra, quando se trata de uma denúncia. Talvez seja um habitus desse campo (Bordieu), mas então alguém teria de avisar ao público que prerrogativas constitucionais como a presunção da inocência e o direito universal de defender-se não são válidas quando se trata do jornalismo investigativo – na maioria dos casos “jornalismo sobre investigações” (denúncias repassadas), na expressão criada pelo jornalista Solano Nascimento em tese de doutorado (UnB – prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2010).

A hipertrofia da orelha aberta às fontes denunciativas amplia-se ainda mais quando a imprensa inteira, em bloco, no efeito manada, corre e inflaciona uma avalancha de acusações sem que o acusado tenha espaço, a não ser para um fenômeno que poderia ser apelidado de “picadinho de aspas”, qual seja: extrair das declarações do denunciado-bola-da-vez os trechos tautológicos para a sua condenação."

Leia o texto completo no Observatório da Imprensa (08/08/2011)  clicando aqui.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Criança, a alma do negócio: um debate sobre consumismo e publicidade na infância


Qual a consequência do consumismo?
Por que o alvo são as crianças?
Quando dizer não?

Compreenda melhor sobre estas questões no debate após o documentário.

26 de maio de 2011
Teatro Eva Herz, Livraria Cultura Iguatemi Brasília
19:30 h: exibição do documentário "Criança, a alma do negócio"
20:30 h: início do debate

Debatedores:

Fabio Senne
Mestre em Educação pela UnB, e coordena a área de relações acadêmicas da Agência de Notícias sobre os Direitos da infância (ANDI).

José Eduardo Romão
Doutor em Direito público pela UnB. Atualmente é assessor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - DF e pesquisador do grupo O direito achado na rua (UnB).

domingo, 13 de março de 2011

Marco regulatório: que tipo de comunicação queremos no Brasil?


Mídia e democracia: o desafio do novo marco regulatório brasileiro

"Pela primeira vez na história, o Ministério das Comunicações foi ocupado pelo representante de um partido de esquerda. Mesmo nos oito anos de governo Lula, o comando da pasta ficou a cargo de nomes indicados por legendas da base aliada, alguns deles com íntima relação histórica com os grupos nacionais de radiodifusão, como foi o caso de Hélio Costa. A chegada de Paulo Bernardo, com a experiência de já ter sido titular da pasta do Planejamento, vem sendo cercada de expectativas.

A principal delas é o encaminhamento da reforma da legislação da área. A aprovação de um novo marco regulatório é demanda antiga de especialistas, sindicalistas e de várias entidades que lutam pela democratização da comunicação. No último ano do governo Lula, sua importância foi percebida. No entanto, o tempo foi suficiente apenas para que um grupo comandado pela Secretaria de Comunicação do Governo, com o então ministro Franklin Martins à frente, elaborasse uma proposta como legado à nova gestão do Executivo Federal.

Parte do projeto já veio à tona por meio da imprensa especializada. Fala-se em uma reorganização institucional, cujo marco central seria a transformação da Agência Nacional de Cinema em Agência Nacional de Comunicação. Ela teria atribuições de fiscalização dos conteúdos e das outorgas dadas aos entes privados que exploram serviços como rádio e televisão. Ainda na parte de conteúdos, seriam definidas regras para garantir a presença de produção nacional, regional e independente nos veículos. Bem como medidas para proteger segmentos vulneráveis, como crianças.

A proposta, de acordo com notícias divulgadas, adotaria uma arquitetura convergente, tratando serviços de forma transversal às plataformas. Isso significa que em vez de televisão, rádio, TV a Cabo, teríamos três modalidades de serviços: de comunicação social, de comunicação eletrônica e de comunicação em rede. No caso daqueles audiovisuais, haveria uma divisão em lineares (programação de TV aberta, por exemplo) e não-lineares (vídeos não organizados em programações), abertos ou fechados. Em relação à propriedade, seria mantido o limite de 30% ao capital estrangeiro e haveria uma divisão entre as fases da cadeia: produção, programação e distribuição.

Além da técnica: que mídia queremos?

O debate sobre o novo marco regulatório não pode ficar circunscrito aos gabinetes do governo federal, aos bancos acadêmicos ou às rodas de especialistas e pesquisadores. É preciso que sua carcaça hermética seja despida, de modo a colocá-lo sob a perspectiva essencial que possui. Que tipo de comunicação queremos no Brasil? A resposta enseja um raciocínio que identifique o que não atende aos interesses da população e o que deve ser mudado. Elencamos aqui cinco nós críticos que precisam ser resolvidos nesse processo".

Jonas Valente*
Para o Observatório Mídia&Política da UnB
11 mar 2011


Leia o texto completo clicando aqui.

Jonas Valente é integrante da Coordenação Executiva do Coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes), secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e pesquisador do Laboratório de Políticas e Comunicação da Unb (Lapcom).

quinta-feira, 3 de março de 2011

Contribuições para a Construção de Indicadores do Direito à Comunicação


Livro apresa as contribuições do Intervozes para o desenvolvimento de meios para a população aferir a efetivação do direito à comunicação em determinada cidade, estado ou país.

O livro se propõe a estimular o debate sobre indicadores para a avaliação quantitativa e qualitativa do direito à comunicação no país e é resultado de uma pesquisa realizada pelo Intervozes com o apoio da Fundação Ford.

A ideia de realizar uma pesquisa que estimulasse o debate sobre a construção de referências capazes de mensurar o direito à comunicação no Brasil surgiu em 2004, quando o Intervozes trabalhava em outro estudo internacional sobre o tema, promovido pela Campanha CRIS (Communication Rights in the Information Society). O estudo tinha o objetivo de avaliar a base constitucional e legal, a implementação, o papel de diferentes atores e tendências atuais e futuras de temas ligados ao direito à comunicação em todo o mundo – entre eles, liberdade de expressão, pluralidade dos meios, propriedade intelectual, respeito à diversidade cultural, acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e participação da sociedade civil nas decisões sobre essas questões.

Contribuições para a Construção de Indicadores do Direito à Comunicação, como o próprio nome indica, não traz prontos os indicadores, mas aponta caminhos para construí-los. São analisados diversos campos e propostas perguntas para cada um deles. São indicadas também fontes que podem fornecer cada um dos dados.

Segundo João Brant, integrante do Intervozes e um dos responsáveis pela elaboração do estudo, esses dados objetivos podem ajudar a compreender a nossa realidade. Ele cita como exemplo a análise feita em relação à concentração e participação das empresas de comunicação no mercado: “Para construir esse indicador, pode-se analisar, por exemplo, as 4 empresas com maior destaque nacional. Se elas possuem 75% da audiência, isso significa uma grande concentração; 50%, significa que o mercado é concentrado; e abaixo disso, pouco concentrado. Esta é uma análise quantitativa. A partir dela, pode-se avaliar os impactos, em uma análise qualitativa”, explica.

Para Brant, no Brasil existem tanto uma ausência de regulamentação do setor da comunicação quanto uma falta de iniciativas de mapeamento de condições para o exercício e a garantia do direito à comunicação. Como consta no próprio livro: “São poucas as experiências de sistematizar os dados primários disponíveis, que permitam a concretização da análise sobre o cenário de efetivação do direito à comunicação no Brasil”. Entre essas experiências, pode-se destacar o site Donos da Mídia, que organiza dados do Ministério das Comunicações e da Anatel sobre propriedade das empresas concessionárias de rádio e televisão.

Assim, a intenção do Intervozes é ampliar a discussão sobre o tema. “É certo que a existência de indicadores e análises periódicas não significa, por si só, a realização das transformações pelas quais se batalha; mas sua aplicação motiva processos importantes”, explica o Intervozes, na introdução do livro.

Monitoramento - A publicação exalta o papel dos indicadores como referências objetivas que possibilitam à população o monitoramento e avaliação da consolidação do direito à comunicação. Por sua vez, quando realizadas, as análises e comparações podem servir de base para confecção de séries históricas que identificam tendências no setor, assim como para a elaboração de leis e políticas públicas.

Para Venício Lima, professor aposentado da UnB e um dos consultores da obra, “o direito à comunicação é um direito que não foi positivado. Assim, qualquer contribuição que possa ser dada para mostrar sua importância e abrangência é uma contribuição muito grande para o avanço na consolidação desse direito. E o trabalho do Intervozes foi feito em uma época em que ninguém tinha feito nada parecido”, explica.

A professora Regina Mota, da UFMG, que também participou do processo de elaboração da pesquisa do Intervozes, destaca na contra-capa da publicação: “A tarefa foi árdua e os desafios imensos, dado o caráter de múltiplas variáveis que compõem os indicadores do direito à comunicação. Mas o passo fundamental foi dado e beneficiará a pesquisa, as políticas públicas e os avanços na Comunicação Social bem como a visão do seu alcance político.”

Baixe a publicação clicando aqui.

Texto de Mariana Tokarnia

Reproduzido do Coletivo Intervozes

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Programa Ver TV debate regulação para a mídia


O ano de 2011 começa com desafios para deputados e senadores, que devem votar projetos que estabelecem uma nova regulação para a mídia. Entre as polêmicas está a distribuição de conteúdo televisivo por empresas telefônicas e cotas de filmes nacionais para as tevês a cabo.

Participam deste programa o professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, Venício Lima; o deputado federal Emiliano José (PT-BA), também professor de Comunicação da Universidade Federal da Bahia; e o especialista em regulação da mídia Samuel Possebon.


Programa Ver TV

Assista/descarregue vídeos em 3 blocos na página da TV Câmara, Programa Ver TV, clicando aqui.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Início de governo é momento propício para regulamentação da mídia


"A opinião é de Murilo César Oliveira Ramos, professor de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) para quem a regulamentação da mídia é fundamental enquanto garantia de responsabilidade social do setor de Comunicação, bem como de sua adaptação aos novos tempos e às novas tecnologias. Nesta entrevista, Murilo Ramos considera o começo do governo, o momento ideal para esta regulamentação.

Conselheiro da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Murilo Ramos analisa o papel da TV Brasil, da Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM) e seus desdobramentos. Traça também um quadro comparativo entre a mídia internacional e a brasileira e dá seu recado a todos os que batem na tecla de comparar regulamentação com censura: “fujam da mera retórica e encarem o debate democrático como se faz em qualquer outro país democrático do mundo”.

Leia a entrevista completa no Blog do Zé Dirceu clicando aqui.


Veja também: entrevista de Murilo ramos à TV Senado, sobre o marco legal das comunicções, clicando aqui.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Observatório de Mídia & Política de volta e em grande estilo


Editorial

Mídia&Política é o observatório de crítica da mídia mantido pelo Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp-Ceam) da Universidade de Brasília (UnB). Criado em 2005, o site ficou fora da rede por razões técnicas desde 2009. Retorna agora com edições temáticas mensais. A primeira delas trata da comunicação no governo Lula, tema polêmico e imediato nesta etapa de transição.

O ponto de partida para a criação do Observatório foi a reflexão sobre a contradição do papel do jornalismo na sociedade democrática. Em sua concepção historicamente constituída, o jornalismo é considerado um serviço de interesse público. No entanto, está organizado como um serviço privado e obedece às demandas do mercado, que podem não coincidir com as necessidades inerentes ao desenvolvimento humano brasileiro.

Cada vez mais, as exigências da sociedade se distanciam dos conteúdos dos meios de comunicação de massa. O sistema midiático contemporâneo não responde às urgentes demandas de informação, nem representa de forma equilibrada a pluralidade de interesses da sociedade brasileira.

Mídia&Política faz parte da Rede Nacional de Observatórios da Imprensa (Renoi) e está inserido num contexto maior de debates em torno do papel do jornalismo na sociedade brasileira contemporânea. O objetivo do M&P é contribuir para a formação de uma consciência crítica sobre a qualidade da cobertura política, estimular a reflexão profissional e incentivar a diversidade de coberturas e de temas na agenda.

A concepção de cobertura política não se limita aqui ao jogo político-partidário, processos eleitorais e atividades parlamentares. Estende-se aos diversos aspectos relacionados aos atores e práticas sociais no jogo de poder. Cobertura política inclui também o noticiário a respeito das políticas públicas, práticas da cidadania, movimentos sociais, terceiro setor e outros segmentos sociais.

O Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) foi criado formalmente em 1997 por iniciativa do professor Venício A. de Lima e de um grupo de pesquisadores das áreas de Ciência Política, Relações Internacionais, História e Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). A maior parte do grupo era formada por professores e alunos da Universidade, mas também participavam jornalistas e outros profissionais em atividade no mercado. O caráter interdisciplinar nos estudos sobre as relações entre a mídia e a política sempre foi a marca do Núcleo.

Desde a fundação, o objetivo principal do Nemp se mantém: pesquisar de maneira sistemática as relações entre a mídia e a política no contexto da democracia brasileira. Entendemos essas relações a partir da produção jornalística, da produção cultural em geral produzida na mídia, e também das políticas de comunicação e da economia política que perpassam as relações mídia/ política.

O Nemp integra o Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da Universidade de Brasília (UnB), criado também nos anos 1990 pelo então reitor Cristovam Buarque com o objetivo de incentivar a participação da sociedade nos espaços de reflexão teórica e de produção científica da Universidade. O atual coordenador do Nemp é o professor Luiz Gonzaga Motta, da Faculdade de Comunicação.

O tema da próxima edição do M&P (fevereiro de 2010) será a cobertura do carnaval pela mídia.

Convidamos nossos leitores a enviar colaborações para o endereço: midiaepol@gmail.com

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A filosofia e a libertação das crianças



Pensemos nas seguintes palavras : investigação, conhecimento/conhecer, fatos, linguagem (literal e figurada), metáforas, símiles, analogias, mente/corpo, mesmo/outro, sociedade, democracia, real, pensar/sentir, pensar sobre o pensar, amigo, amor, inimigo, direitos, justiça, verdade, beleza, deus, natureza, pessoa, arte, tempo/espaço, causa/efeito, mal, medo, emoções, razão, critérios.

Quais destas palavras, ou outras semelhantes, não fariam parte do vocabulário de uma criança de 5 anos de idade? Alguém poderia sugerir que não utilizaria palavras como "critérios" ou "razão". Vamos analisar alguns exemplos.

Uma mãe diz para sua filha de 5 anos que ela não pode jogar com sua amiginha. O que a menina vai fazer? Vai perguntar "por quê?". Que é que ela está perguntando? A razão da proibição de sua mãe. Vamos supor outro exemplo. Um menino briga com outro e diz para ele que não quer jogar mais, que não quer mais ser seu amigo. O seu amigo vai perguntar-lhe "por quê?".

Está perguntando-lhe a razão da sua decisão. Vamos supor outro exemplo. Uma criança adorou um programa de televisão, encontra-se com um amigo e pergunta se ele gostou desse programa. O amigo diz que não, que odiou o programa. O que o menino vai lhe perguntar? Vai perguntar-lhe por que ele odiou o programa. Neste caso está perguntando por critérios, porque quando alguém afirma que uma coisa é boa ou chata e outro pergunta por que, está perguntando pelos critérios desse julgamento. Poderão ser critérios bons ou ruins, mas serão critérios.

O que eu quero dizer é que mesmo que as crianças não utilizem as palavras citadas acima, elas utilizariam outras para dar conta dos conceitos que estão envolvidos nesses termos. Certamente, talvez uma criança de 5 anos não utilize a palavra justiça, mas com certeza percebe que muitas coisas que acontecem em sua vida não são justas. Outro exemplo. Uma criança foi com sua mãe comprar um brinquedo para o dia das crianças numa loja cheia de brinquedos, com bonecos de todas as formas e cores. A criança pergunta para sua mãe como escolher o boneco e a mãe responde "só pegue um". A criança quer saber como fazer para escolher e a mãe responde que deve pegar aquele que gosta. A criança diz então que gosta de todos e a mãe começa a ficar nervosa e diz que só pode escolher uma. A criança já sabe isso, mas precisa ajuda para escolher. Geralmente as crianças ficam em dúvida sobre o que quer dizer a palavra "escolher"...

Talvez as crianças também não utilizem a palavra "investigação". Porém, as crianças não compreendem muitas coisas. E elas se empenham em descobrir como é que as coisas acontecem no mundo; em particular, buscam compreender o significado dessas palavras que as pessoas maiores utilizam permanentemente, palavras como bem, tempo, verdade. Quando as crianças perguntam aos adultos o significado dessas palavras, geralmente não recebem respostas. As crianças são socializadas através da linguagem e aprendem a utilizar as palavras de uma determinada maneira, sem pensar muito nelas.

As palavras que coloquei no começo desta apresentação são palavras especiais. Elas têm três características. A primeira é que são conceitos centrais, conceitos que utilizamos no dia-a-dia, que estão na base de nossa experiência cotidiana, e se não usamos exatamente essas palavras, provavelmente utilizamos um sinônimo delas. A segunda característica é que elas são conceitos comuns, que todos utilizamos, não só algumas pessoas ou algumas culturas. A terceira característica é que esses conceitos são controversos, contestáveis, não temos resposta definitiva acerca do que eles significam. E no Ocidente, pelo menos nos últimos vinte e cinco séculos, as pessoas têm tentado descobrir possíveis significados. Muitas respostas se propõem, mas, o mais importante em relação à libertação das crianças é que devem saber que se trata de conceitos contestáveis, controversos. Porque, se as crianças não sabem que esses conceitos são controversos e contestáveis, elas ficam presas à cultura na qual são socializadas.

Mais ainda, muitas vezes as crianças tornam-se infelizes quando descobrem que seu melhor amigo considera que um amigo é algo totalmente diferente daquilo que elas consideram. Palavras como amigo, amor, liberdade são centrais para o modo como uma criança constrói e percebe seu mundo. Se uma criança não sabe que essas palavras são controversas e que existem muitas maneiras de compreendê-las, corre o risco de ser transformada num depósito de significados prontos e estanques.

Se me perguntassem por que eu me envolvi na idéia de que as crianças façam filosofia, diria que é porque me sinto ofendida com a idéia de que tratamos as crianças como se fossem depósitos e as mutilamos até que sejam maiores de idade. Elas fazem dezoito anos e continuam utilizando palavras como amor e amizade sem saber de que estão falando.

Neste sentido, uma das maneiras de perceber a filosofia é como um processo educacional de libertação da criança. Trata-se de libertar as crianças para que possam pensar por elas mesmas acerca do significado dessas palavras. Não é justo que não se permita às crianças saber que existem muitas maneiras de pensar acerca dessas palavras. A história da filosofia ocidental, que contém diferentes maneiras de conceber esses conceitos, é um legado de todas as crianças, sejam elas conscientes disso ou não. Todas as crianças têm direito de conhecer as opções antes de escolher que significado darão a essas palavras. Neste sentido, a filosofia pode ser compreendida como um processo de libertação.

Mas a filosofia é muito mais que isso, porque é uma disciplina normativa, além de descritiva. Quero dizer, ocupa-se não só de como as coisas são, mas também de como deveriam ser. Quando observamos o mundo, percebemos muita injustiça, muita falta de liberdade, muito ódio em vez do amor, e nós gostaríamos de conceber e criar um mundo mais justo, mais belo, mais verdadeiro. Para isso é necessário sabedoria e bom julgamento, precisa-se saber pensar e saber pensar bem, saber quais são aquelas opções e também cultivar a imaginação para talvez propor outras opções; precisa-se também ser crítico, ser capaz de olhar as instituições da sociedade e perguntar se elas cumprem aquilo que deveriam fazer. E é indispensável ser criativo, colocando algumas sugestões sobre como as coisas poderiam ser melhores. Finalmente, é fundamental também pensar de um modo ético, atencioso. Como pessoas, não nascemos dessa maneira, mas podemos ser educados desta forma.

Por isso é que estamos propondo um novo paradigma em educação, que busque, não só no Brasil mas no mundo inteiro, transformar cada sala de aula numa comunidade de investigação. Nessas comunidades seriam desenvolvidas as inteligências emocional, cognitiva e social das crianças. Exploraríamos não só o que pensamos e como pensamos mas também o que sentimos e como sentimos, e exploraríamos o que pensamos que a sociedade deveria ser e como deveríamos nos relacionar nessa sociedade. 

Como se trata de fazer isso com crianças, o currículo de filosofia para crianças foi criado para fazer acessíveis a elas as idéias filosóficas trabalhadas durante os 2.500 anos de história da filosofia ocidental. Nessas histórias, não são utilizados os nomes reais dos filósofos, mas as suas palavras, e seus pontos de vista são apresentados na fala das personagens-crianças. São as crianças das histórias que dizem aquilo que Aristóteles, Santo Tomás, Spinoza, Marx, Dewey ou Freire têm colocado. É como se os filósofos tivessem uma longa conversação, mesmo que tenham morrido há muito tempo atrás. Platão teve algumas idéias e logo Aristóteles gostou de algumas, mas rechaçou outras e criou novas idéias. O mesmo aconteceu com todos os filósofos. Quando as crianças lêem estas histórias, descobrem estas idéias e exploram essas palavras com seus amigos, é como si elas estivessem participando dessa conversação. Embora esses filósofos tenham morrido há tanto tempo atrás, existe um sentido no qual eles ainda estão vivos, na medida em que se expressam nas vozes das crianças.

De tal modo que, através da filosofia, as crianças podem investigar o que significam essas palavras que utilizamos no dia a dia. A decisão de como utilizar estas palavras tem muito a ver com o modo como criamos nossa visão do mundo, nossa cosmovisão. Como o mundo em que vivemos hoje tem muitos problemas, necessitamos cada vez mais pensar não só naquilo que é, mas naquilo que deveria ser. Para isso, a imaginação é necessária. É preciso aprender a criar e inventar novos sentidos e significados. Quando o processo filosófico dá certo, as pessoas podem chegar a ser pessoas que fazem bons julgamentos.

Talvez não proporcionemos muita informação (os computadores vão preocupar-se com isso), mas devemos nos ocuparmos de educar pessoas com bom julgamento. Para isso, não podemos esperar até que as crianças façam dezoito anos. Temos que começar muito antes, quando aprendem a falar. Não se trata só de introduzir uma disciplina no currículo escolar, como a ciência foi introduzida no século XIX. Trata-se de pedir aos professores e administradores escolares que repensem aquilo que entendem por educação, que parem de pensar tanto na informação e que comecem a pensar em bons pensamentos, sentimentos apropriados e boas relações sociais, pois, dessa maneira, estaremos proporcionando às crianças uma oportunidade de fazer julgamentos inteligentes em suas vidas, estaremos apresentando-lhes opções para escolher, e as ferramentas que precisam para pensar novas opções, novos sentidos e significados, novas relações. Nesse sentido seriamos agentes de uma revolução educativa. Isso não é uma responsabilidade pequena. Para todos que aceitam essa responsabilidade, falo em nome das crianças do futuro: muito obrigada.

Ann Margaret Sharp*


Reproduzido de
Linhas Críticas . Revista da Faculdade de Educação/UnB



Leia mais sobre a autora em Filosofia para crianças clicando aqui, e assista ao vídeo "Prof. Ann Margaret Sharp's lecture" em Vimeo (em inglês) clicando aqui. Entrevista (em inglês) clicando aqui.

* Ann Margaret Sharp (1942-2010) Foi diretora do Institute for the Advancement of Philosophy for Children, na Universidade de Montclair, NJ, Presidente do International Council for Philosophical Inquiry with Children e co-autora dos manuais do Programa de Filosofia para Crianças.